terça-feira, 20 de outubro de 2026

Saudades

Meu irmão se foi
E eu tenho que conviver com isso,
A ideia causa dor,
Ansiedade e vontade
De voltar no tempo.

Eu nunca fui
Mais forte que ele,
Nem melhor preparada
Para viver a vida,
Eu desejo a todo custo
Não esquece-lo,
Reacender memórias,
Livra-lo da dor
E não te-lo feito de alvo.

Meu alvo
Que eu apontei meu ódio 
E me direcionei com todo o ardor,
Eu era fraca,
Via nele um alicerce
Que não cairia,
Uma espécie de pedra bruta
Em que me escorar,
Me jogar
E me bater com toda a força. 

Mas ele caiu
E seu peito quebrou,
Eu estava exatamente direcionada 
Com toda a raiva,
Numa explosão incontrolável 
Em sua direção 
E ele cedeu e se foi. 

Eu jamais desejaria 
Que ele não tivesse existido,
Eu não seria capaz de apaga-lo,
Eu só não posso reencontra-lo,
Não há um novo horário,
Novo abraço,
Ou último diálogo,
Só há o passado
E nele sua morte.

A dor sangra em minhas veias,
Eu sou dor e saudade,
Remorso e amor,
Eu queria te-lo poupado,
Livrado do triste fim,
Eu não fui a causa,
Mas não me isento de culpa,
Briguei, xinguei, exigi e me afastei....

A velocidade para onde 
Ele se dirigiu 
Foi inconsequente 
E maldita,
Ela tirou ele de mim. 
Não importa o quanto
Eu seja sombria,
O quanto eu queira
O gosto da morte,
Mortos não beijam
Ou abraçam. 

Mortos morrem.
Não ficam no escuro
Ou vão para a luz,
Eles sucumbem,
Caem no vazio
E suas lembranças partem-se
E escassam-se no pensamento. 

Eu não esqueço seu nome,
Não confundo seu nascimento,
Mas a data final 
Eu complico,
A sua voz vai aos poucos,
O cheiro, o jeito
E o amor,
E o sorriso.
Eu luto,
Luto muito para te-lo comigo.

Os anos são como gotas
De sangue que escorrem
Nas veias incontroláveis,
Vão-se.
Fazem chorar e sofrer,
Tentam fazer esquecer
Como se houvesse um descontrole 
Em quantas gotas correm
E quantos anos sucumbem
A saudade e a sua ausência. 

Eu choro. 
Nossos pais sofrem,
Nos tentamos busca-lo,
Você já não sabe,
E inocente a tanto amor
Que desperta.
Eu não treinei ser forte,
Pra quê?
Queria ter feito,
Será que saberia o que fazer?

Eu gritei e fui austera,
Tive medo e me refugiei,
Você não se viu fraco,
Buscou o destino
E não me ouviu te chamar,
Eu chamei tarde,
Não ve minha dor
Que te busca em toda a face
E me joga a sua lápide,
A cuidar uma fotografia apagada,
E ossos que tenham sobrevivido
Ao tempo

Estrada da Liberdade

Ronco no motor,
Aquecendo as marchas,
Deixo o ponteiro mover-se,
Tanque cheio,
A estrada para a liberdade
Me espera.

Deixo a noite para trás,
Acendo os faróis,
Eu quero ser visto,
Remenorado,
Lembrar-se de nós. 

Sei onde você me espera,
Querida,
Você sempre está lá 
No final do meu destino
Quando meus pneus
Se cansam de rodar.

Você sai na janela,
Eu bato na porta,
Eu buzino,
Insisto no volante,
E você corre
Até onde estou
Com sua saia esvoaçante 
E colocamos nossos pneus
A rodar nesta estrada 
De memórias 
E amores que vivemos 
Só para retornarmos
Um ao outro.

Conversas no corredor

E triste quando você percebe
Que as pessoas 
Para se relacionar com você 
Querem saber qual a sua função 
E em que você trabalha
Para decidir como agir
Em sua relação. 

O fato é que ninguém 
Se refere ao traficante
Como se reporta
Ao advogado,
Mesmo que o advogado
Trabalhe para o traficante. 

Bem,
Depois de saber sua função 
Querem saber seu salário,
Perfeito.
Ninguém quer se relacionar 
Com alguém aos 30 anos
E saber que ele não ganha
Nem ao menos 
Para tomar um sorvete. 

Certo,
Sabendo sua função 
E seu salário 
Querem determinar
Seus gastos
E modos de gastar,
Como se dissessem
Nenhum advogado 
Gasta tudo isso
Em um boné. 

Advogados usam chapéus,
E precisa ter etiqueta
E um preço determinado. 
Ok.
Neste instante 
Você compreende
Que está pessoa 
Que está com você 
Apenas agora 
Sempre agiu sobre
Seu intelecto e exigiu
De você atitudes,
Então, não parece
Que ela quer apenas
Determinar seus modos,
De certa forma,
Ela monopolizou você 
E te fez de marionete 
Com relação a sua própria vida.

Logo,
Você deixa de ser sujeito
De sua vida
Para ser objeto do que
Outros vislumbram
E não tem potencial
Para fazer tudo que você fez
Para alcançar o que você alcançou. 

Portanto,
Tom concordo com você:
- quando alguém te ama
Seu pior é suficiente 
Para este alguém te amparar
E permanecer com você 
E quando não te gosta 
Seu mesmo o seu melhor
É insuficiente para que 
Está pessoa se sinta
Bem ao seu lado!

Mas, se em tudo que aconteceu
Está pessoa a que você 
Se refere sempre atuou
Para você estar onde está
Aí então,
Você é apenas um resultado 
E você se ve como estando
No seu melhor
Quando na verdade
Melhor e pior é questão 
De opinião
E questão de preencher
Interesses.

- veja o que você é hoje
É ou não produto de interesses?
E sendo ou não,
Você se vê satisfeito?
Você precisa conhecer-se 
E não se permitir ser
Uma marionete.
Ou seja,
Ter domínio sobre si mesmo.

Nisto o que outros
Indagam sobre você 
Não significa nada.
E daí se querem saber
Em que você trabalha
Antes de falar contigo?
Importa se você 
Sente orgulho do que faz
E está seguro 
No que você é diante disso.

E se você se sustenta sozinho?
Ótimo.
Aos 30 sustentar-se é o ápice. 
Ter orgulho do seu trabalho 
É imensurável 
E só te faz crescer no próprio ofício. 
Conhecer quem anda
Ao seu lado 
É inestimável. 

Não Desista Por Nós

- eu te amo,
Por que você resiste
Se eu noto
Que você também sente?
Ele indagou-me
Do nada,
Como se o amor
Pudesse ser explicado 
Ou o medo 
Pudesse ser compreendido. 

Me recostei na porta
Do carro
Comprimida em sentimentos 
Que não soube expressar:
- sei lá,
Estou morrendo,
Tenho pouco tempo
De vida.
Respondi assim
De súbito. 

Ele jogou- se para trás 
Como se tivésse
Ganhado um tiro 
E seus olhos escureceram-se
Num pavor que me deixou
Assustada,
Arrependi-me pela exatidão 
Das palavras na hora:
- você tem Aids?
Ele indagou de volta.

Eu baixei a cabeça 
Para os meus dedos sujos
Pois havia a pouco
Limpado o painel
Do carro em que estávamos. 
- não, mas tenho outra fatal.
Disse rápida,
Por um instante 
Fiquei com medo
De levar um soco
No estômago. 

Ele juntou as mãos 
E olhou para o escuro
Da noite
Como se buscasse algo
Intenso e seguro 
E disse:
- o amor é bondoso,
O amor sente profundo,
O amor quer e pronto...
- então o amor me levará 
Pois estou indo.
Interrompi-o.

Eu não precisava de oração,
Deus decidiu levar-me
Eu não queria promessas
Nada me prenderia 
Na terra.
Então fui,
Adentrei no escuro da noite,
Busquei o interruptor
Do poste do quintal
E liguei-o.

Quando a luz clareou 
Ele estava lá 
Atrás de mim
Feito uma espécie de sombra:
-assustou-me.
Eu disse.
-eu posso te proteger,
Te dar carinho,
Conforto...
Ele continuou 
Pegando em meus braços. 

-Francisco,
Me permita casar
Com sua filha!
Ele gritou alto.
-Genera, eu amo
Sua filha!
Ele continuou.
- De nada adianta,
Meu futuro está celado.
Eu respondi
Interrompendo aquela loucura.

-o amor move montanhas,
Salva e cura!
Ele continuou.
- mas o amor de Deus 
E maior e ele está
Me levando.
O interrompi chateada.
- não me de as costas,
Não desista de lutar
Eu te amo
e estarei ao seu lado. 
Ele disse,
Ajoelhando-se e segurando 
Minhas mãos 
Como numa prece.
- eu não estou sozinha.
Tenho minha família 
É o bastante ver eles 
Sofrendo comigo
Enquanto desfaleço,
E irremediável,
Entenda. 
Eu disse com lágrimas 
Nos olhos.
- não sou capaz.
Irei lutar.
Ele respondeu 
E agarrou-se a minha barriga
Me abraçando 
Com seus dois braços fortes.

- a morte vem buscar,
Ela não desiste.
Eu disse. 
- eu posso ser
Mais forte que ela.
Case-se comigo.
Ele respondeu. 
E retirou do bolso
Algumas notas de dinheiro
E disse:
- providencie seu anel
De noivado,
Nos casamos o quanto antes!

O gesto foi perfeito,
Casar era mesmo 
Meu sonho.
Meus pais saíram 
No quintal abraçados 
E unidos como sempre.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Dores e Des(amores)

O que dói não é a ferida 
Mas a capacidade 
De ter que se retirar
Da briga
Como se ela fosse
Uma emboscada,
Sair mancando a dor
Sem reagir a nada.

Ou não agir o suficiente,
E muitas vezes,
O sangue quente
Que jorra em sua dor 
Não é capaz
De direcionar a ação repressiva.

Fica um rastro da ferida
Aberta por onde você for,
Então, você se sustenta
E a dor é represada 
Num local sombrio,
Depois disso,
Dia após dia
A ferida dói e sangra
E você fita o vazio
De sua pele,
Verifica a abertura sangrenta
E não diz nada
Sobre a dor.

Eis que um dia,
Todo o sangue represado
No local sombrio
Surge do nada 
Feito uma avalanche
De dor 
Que te faz estourar,
Falar sem pensar,
Agir desmedido.

O lado sombrio 
Se apossa de você 
E somente ele entrega
A dor que você reservou 
Calado 
Quando você teve que 
Se refugiar para longe.

Mas o sangue secou,
A ferida que doía sarou,
Mas seu lado sombrio
Compreende tudo que você 
Reservou e lhe domina,
Você perde o controle
Por ter se contido
E guardado dores e remorsos,
Chama-se a isso
Distúrbio.

Sou como meu pai

Na pequena cidade
Onde eu cresci
Aprendi tudo que sou
Com meus pais 
E abandonei todos 
Os outros exemplos. 

Arranco o mato
Como eu fazia
Espero os resultados 
Que esperei outro dia,
Faço como fui ensinado
E indago a eles
Qual é o resultado esperado?

Não sou uma máquina,
Não estou engessado,
Mas sou como meus 
Pais me fizeram
E carrego o fardo
De ter crescido 
Com os mesmos desvios,
A mesma dependência 
De quando cresci
E me fiz homem
Mas nunca pude 
Cortar as amarras.

Sou forte como meu pai,
Comilão conforme
O gosto da minha mãe,
Insisto sem me entristecer
E espero os mesmos resultados 
De quando meu pai
Me viu nascer.

Faço como aprendi

Da pequena cidade 
De onde eu venho
Trouxe os sonhos
Do meu pai
E a bagagem da minha mãe,
E me escondo
Tudo que tenho 
Vem dela
Tudo que faço 
É por ele.

Nesta cidade pequena
Tudo que aprendi
Aprendi ao ver eles fazerem
Sigo um exemplo perfeito
E nunca pensei
Que eles fossem
Velhos demais
Para ensinar-me
Ou que na cidade grande 
Pudesse ser diferente. 

Engulo o orgulho 
E penso o que eles fariam 
E como posso fazer 
Tão bem quanto eles 
Fizeram comigo,
Mas quando estou perto deles
Sinto medo 
Será que eles se ofendem
Se tudo que faço 
E tão igual quanto aprendi
Tão idêntico 
Quanto fazia aqui?

E sou mesmo despreparada
Vou voltar para a pequena cidade
Onde eu nasci
Lá parece que tudo
Parou no tempo
E eu preciso ver com meu pai
Como seguir 
E pedir para minha mãe 
Como me vestir.


Saudades