-Não sou capaz de suportar.
Disse Gercica,
Juntou poucas coisas
Pôs na mala e saiu de casa.
Escolher as ruas
Talvez tenha sido uma escolha ruim.
Quando iniciou a chuva
E ela a via escorrer pela janela do ônibus
Pareceu uma ideia péssima.
Optou pela casa da tia
Que morava distante da família,
Dois dias dentro de um ônibus
E estava lá,
Em pé com chuva escorrendo
No rosto em frente a grande porta
De vidro fumê
Com um estranho louco
Digitando no interfone
Sem saber se permitia
Ou não sua entrada no prédio.
-Alô, a Gercica?
Indagou uma voz envelhecida
Do aparelho.
-Sim, uma moça de mala
Nas mãos e chuva na cara.
Fez-se silêncio e a tia respondeu:
-Mais nada?
E ele confirmou.
-Mais nada.
-Permita a entrada,
É minha sobrinha.
O homem a olhou com os olhos arregalados
E fez sinal para que entrasse,
Lhe mostrando o elevador.
- Andar quinze,
Sala 1151.
Ele falou.
Ela saiu da chuva com a roupa encharcada,
E tremendo de frio.
Tinha poucas roupas na mala,
Seu corpo tremeu violento
Assim que entrou no saguão
Do prédio,
Seus pais deveriam estar preocupados...
Provavelmente estariam...
(Dois dias anteriormente).
-Não filha,
Se você deseja algo de mim
Terá que trabalhar
E conseguir por conta própria.
Disse o pai falando seriamente.
-Mas mãe, eu trabalho
Tanto quanto a senhora
Lhe ajudando a limpar a casa.
Ela falou olhando logo
Para o rosto da mãe.
A mãe pegou a chaleira
De água quente e jogou
Na direção dela no assoalho.
-Faz pouco,
Muito pouco.
Respondeu a mãe.
-Mas pai sempre que te ajudo
Eu não escolho um emprego remunerado
Mas mereceria um salário...
O pai não a deixou encerrar a frase
A pegou pelos ombros e chacoalhou
Com força enquanto dizia:
-Te pagar?
E a comida que você come?
E a roupa que você usa?
E os gastos que você me dá?
Você não acha que lhe dou o suficiente?!
Depois disso ele pegou
O controle remoto da televisão
E aumentou o volume do programa
Que assistia.
Gercica levantou-se do sofá
E foi para o seu quarto.
-Os filhos dos vizinhos ajudam
Muito mais e ganham muito menos.
Ih, você faz muito pouco
Na sua época meu pai não precisava trabalhar
Eu fazia tudo por ele
E quando recebia o dinheiro
Entregava nas mãos dele,
Você ganha muito dinheiro,
Muito...
Depois de pegar uma xícara de café,
ele insistiu em alto tom de voz:
-Com certeza, Marcian ele deve estar namorando,
Se eu pego você andando por aí
Com algum macho eu mato você
E o teu vadio sem vergonha,
Você acha que alguém que se envolver
Com ela irá prestar?
Ele indagou a sua mãe que disse:
-É certo que não,
Com certeza é um bêbado
Jogador de baralho,
Um vadio drogado ruaceiro.
Seu irmão rio alto da sala,
-Se eu descobrir que é eu conto,
E ajudo a matar ele,
Esfolamos ele a pau.
Ele gritou rindo com gosto.
Gercica se recostou na parede
E chorou e cansou de ter
Apenas a parede para companhia
E amizade,
Quis alguém em quem confiar,
Odiou seus quinze anos,
Desejou com toda a alma ter dezoito
E poder sumir dali,
Ser independente era um sonho distante
E muito ambicionado.
Então, pegou suas coisas
E não disse nada para ninguém
Pulou a janela depois de jogar
A mala fora e foi,
Seguiu escuridão a dentro
Andando a esmo pela estrada
Sem enxergar um palmo
e sem desejar ver nada,
Só queria distância.
Distância que se tornou distante
Pois logo calejou os pés
E andou cada vez mais devagar
Deixando os pais próximos demais,
Se eles sentissem sua falta
Poderiam pegar o Fusca e vir atrás dela,
Se a encontrassem fugindo
Poderia lhe custar caro,
Muito caro.
O pai costumava bater nela
De chicote de couro,
E a fazia sangrar e gritar,
Ele tinha prazer em ver ela implorar
Perdão e estar diminuída
Aos seus pés.
O pranto em seu rosto
Era o orgulho de seus braços,
A energia com que vibrava de dor
Era a honra de seu punho de couro
E nenhum remorso.
Ela sentia medo dele,
Tanto quanto o amava,
Mas, quanto mais ganhava idade
e o ouvia mais o medo
Se tornava maior até que
Uma espécie de repulsa a fazia
Rejeitá-lo.
Ela odiava os fuxicos da mãe
Sempre tendenciosos.
Seu rosto vermelho e riscado
Falava alto sobre a violência
Com que a mãe lhe considerava.
Mãos de fero e ódio.
(No prédio onde morava a tia).
-Oi tia, vim visitar.
Ela disse soltando a mala no chão.
-Ótimo entre.
Deixe a mala no quarto da frente.
Ela foi até lá
E a soltou no chão,
Pegou uma toalha no roupeiro
E saiu porta a fora para a sala
Secando os cabelos.
-Choveu muito.
A tia a olhou feliz
E a abraçou.
-Choveu sim.
O esposo de sua tia foi conivente
Com sua estadia no local,
Logo Gercica passou a fazer
Os serviços domésticos
Enquanto a tia era caixa de supermercado.
Certa data o tio voltou antes do trabalho,
Trancou a porta,
Invadiu o quarto onde Gercica estava
E a jogou contra a cama,
Instante em que a obrigou a fazer
Sexo com ela.
-Que prazer eu tenho
Em possuir você,
Sua danada!
Ele falou.
Ela chorou arredia,
Sentiu medo da tia.
Logo foi fazer um pudim
E deixou água entrar
E o doce estragou.
A tia tirou o chinelo
Dos pés irritada e bateu
Contra sua mão.
A menina chorou arredia
Sentada na mesa
Recostada a parede.
Outra vez não lhe restava
Mais que a parede para conforto.
Mas calou-se.
E o tio insistiu em cada vez
Estupra-la mais e mais tempo.
Gercica no período da tarde
Acabou indo para a praia caminhar,
Fez amizade com um grupo
De jovens que frequentava o local,
Foram todos juntos
Tomar café no supermercado
Onde a tia trabalhava.
A tia engravidou,
Gercica encontrou um namorado,
Um surfista de dezessete anos.
-Vamos frequentar a aula Gercica,
Vamos se formar e conseguir
um bom trabalho para morarmos juntos?
Ele insistia abraçado a ela
Sentados na areia enquanto
A água do mar tocava a ponta
De seus pés e voltava.
-Não sonho em me formar.
Ela respondeu.
-Vamos Gercica,
Vamos nos formar juntos,
Depois da escola podemos
Ter outra vida
Onde nos formamos na faculdade
E nos tornamos doutores.
Ele disse.
Gercica o beijou no cabelo.
-É muito tempo para esperar
Para ser chamado de doutor,
Respeito não é questão de título.
Ela disse,
Ele a abraçou mais forte.
-Meus pais vivem bem,
Você sabe,
Vamos abrir uma loja de roupas
E seremos administradores,
Dono do nosso estabelecimento comercial,
Para isso não precisamos esperar nada.
ele insistiu,
A beijando e deitando ela na areia,
Depois fizeram amor ali,
Enquanto o sol baixava
E seus amigos riam alto
E lhes jogavam areia sobre suas roupas,
Pois eles não ficaram nus.
-Estão transando!
Disse um.
-Estão transando, sim!
Gritou outro.
E começaram a empurrar-se
Para a água,
Então quatro amigos deles
Mergulharam por entre as ondas,
Até se tornarem pequenos pontos
Dentro do mar azul
Para só então retornar
Com o pôr-do-sol sobre seus cabelos.
Um deles retirou sua garota
Nos braços da água,
E a pediu em namoro:
-Pamela, me beija e fica comigo?
ele gritou olhando no rosto dela.
Ela o beijou com um sorriso
Nos lábios e ondas de sol
Nos cabelos negros.
-Joaquim, não me beija
E sai de perto de mim.
Gritou o outro amigo
Para o amigo ao seu lado.
-Sai fora cara,
Eu sou homem.
O outro respondeu lhe dando
Um soco fragil no ombro.
Depois, ele correu até a barraca
Que vendia bebidas na praia
e comprou uma bebida alcoolica
Para todos.
A noite chegou e os pegou desprevenidos,
Dormiram todos abraçados,
Com o céu límpido logo acima
De suas cabeças e tão distante.
Gercica soube ao chegar em casa
E encontrar sangue no chão
Que sua tia caiu no assoalho
De encontro com a parede e
Perdeu o filho.
Depois de servir chá para ela
Na cozinha ela descobriu
Que o tio encontrou uma amante
E foi dormir fora,
E ainda que ele pagava um apê
Para ela morar
E que lhe deu um carro,
A tia zangou-se,
Se trancou no quarto
e ligou para ele ameaçando
Jogar-se da janela,
Ele voltou irritado para a casa,
Encontrou os boletos do aluguel
E do carro que pagava
Para a estranha, sua amante
E irritou-se.
- Vanessa, eu quase sinto ódio de você!
Ele gritou enquanto esmurrava a porta.
-Abra esta porta,
Eu sou seu marido!
Ele gritava do lado de fora
Do quarto,
enquanto empurrava a porta
Para abri-la.
-Não abro, Rogerson e irei me matar.
Ela gritou da janela.
-Não seja louca,
Você só tem eu nesta vida,
Seus pais morreram faz três anos,
O que você quer?
Que eu te odeie?
Ele gritou.
-Não, você já me odeia.
Você me trai!
Ela gritou,
Saiu da janela e bateu na porta
Com força como se esmurrasse ele.
-Eu odeio você!
Ela gritou aos prantos,
Depois trêmula voltou
Para a janela de vidro
Que estava aberta
E uma brisa fria de inverno
Fazia a cortina branca balançar.
-Você me odeia?
Quem não sabe disso?
Você nem me satisfaz e
Quando busco outra para me ser suficiente
Você quer que eu a trate mal
Como trato você?
Você acha que minha namorada
De dezoito anos trabalha?
você esta louca?
Velha de quarenta.
Ele gritou e chutou a porta
que abriu-se languida e barulhenta
Se chocando contra a parede.
-Não, não se aproxime.
Ela gritou sentada na janela aberta.
-Você é louca?
Você esta vestida de noiva?
Ele indagou em pé,
Incrédulo a vendo de branco.
-Nós nunca nos casamos
Mas eu comprei o vestido.
Ela disse babando e chorando.
-Sim, nós nunca marcamos a data.
Ele disse,
Mais calmo.
-Não marcamos a data?
Você nunca quis marcar.
Ela gritou apontando o dedo
Para o lado dele.
-Eu não quis,
Nem você.
ele respondeu e foi até a cama,
Sentou-se e retirou o sapato.
-Deite na cama,
Vamos transar.
ele disse.
-Você ainda me ama?
Ela indagou.
-Certo que a amo,
Senão, eu não estaria aqui.
ele respondeu se deitando de lado,
E batendo sobre o lençol de seda branca
Para que ela se deitasse.
-Eu tomei remédios para morrer...
Ela falou se ajoelhando
No assoalho nas costas dele.
-Eu não acredito.
ele respondeu se sentando.
-Eu preferi a morte
a perder você...
Ela falou aos prantos
Secando o rosto na camisa dele.
-Você é doente.
Ele respondeu a afastando.
Depois ele chamou uma ambulância
E foi com ela para o hospital
Onde ela passou a noite,
Na madrugada eles retornaram
Para o prédio,
Depois ele saiu irritado:
-Eu vou trabalhar,
Não posso perder o trabalho,
Precisamos pagar o condomínio
E as dívidas.
ele disse.
-Mas, nós não iremos transar?
ela indagou.
Ele voltou da porta
E tocou nos braços dela,
Depois se ajoelhou e a beijou,
Então transou com ela
Frenético e irritadiço.
Logo que ele saiu ela
Tentou ir ao banheiro
E não resistiu,
Caiu no chão vomitando,
Depois sangrou até a morte do filho,
Ou seu nascimento prematuro, enfim,
Sangrou o filho.
-Tia, precisa ir para o hospital.
A garota falou com uma xícara de chá
Entre os dedos,
Vendo a tia sorver calmamente seu chá.
-Acabei de sair de lá,
Não há nada que me ajude.
-Mas qual é o problema tia?
-Seu tio tem uma amante
E se eu não for capaz de manter
Um filho em meu ventre ele irá me deixar.
Ela respondeu secamente.
-Mas, se ele for embora
É porque não a ama.
-Você não entende,
Estou a vinte e cinco anos casada
Com ele,
Eu não sei viver sozinha,
Eu quero um filho.
-Se acalme tia, por favor.
Gercica disse,
Se pondo em pé e a abraçando.
A tarde o tio voltou mais cedo sorrateiro
Como sempre fazia,
Mas, desta vez sua tia estava em casa,
ele não a respeito,
Adentrou no quarto de Gercica
E transou com ela outra vez.
Ao sair para o corredor
Gercica se deparou com sua tia
Em pé próxima a sala
Segurando uma xícara de café entre os dedos.
Ela teve um sobressalto,
Firmou o olhar para a tia
Que lhe sorriu amarelada.
-Acabamos de transar de volta.
Ela lhe disse.
-Que bom.
Gercica respondeu
E foi até o banheiro tomar banho.
-Seu tio está dormindo,
Não faça barulho.
A tia pediu enquanto batia
Na porta do banheiro.
Gercica saiu a noitinha ver os amigos
Na praia,
Levou pipoca e chá
Numa garrafa térmica.
Desta vez, haviam duas garotas novas
E todos tinham companheiras.
Os cinco casais foram andar
De barco no mar,
Enfrentando as ondas e bebericando
O chá.
-Podíamos nos casar.
Disse um deles.
-Podíamos todos nos casar
No mesmo dia.
Os pais de Gercica estavam desesperados
A sua procura,
Colocaram anúncio nos jornais,
Na televisão e no rádio.
Nada chegou até ela
Que permaneceu calma.
Então, um número de telefone novo
Começou a ligar no seu celular,
Com mensagens de carinho,
De fé e de amor.
Logo uma fotografia chegou
E mostrava um rapaz lindo,
Ela tardou marcar o encontro,
Mas, marcou,
Chegando lá se tratava de seu irmão.
-Peguei você fugitiva.
Agora se quiser ficar longe de nós
Terá de pagar bem caro.
Ele foi irredutível,
Gercica passou a lhe mandar dinheiro,
Mas, não contou onde estava,
ele a seguiu e contou aos pais.
Seus pais invadiram o local
E quebraram tudo,
Depois a tiraram para fora
Lhe dando cintadas e berrando
xingões bem alto.
De volta a sua casa
Ela não tinha como ver o namorado,
Então, retornou aos estudos,
E do colégio fugia para ver seu namorado.
Seu irmão marcou encontro com ele,
E fez todos os fuxicos que pode,
Logo, para zombar dela
ele marcou um encontro entre o namorado
Da irmã e uma garota do colégio,
Gercica ficou alarmada
Ao vê-lo sentado no mesmo lugar,
Abraçado a outra garota.
Seu irmão ria sem parar
Tomando um drinque na barraca
De bebidas,
Ela chorou,
Mas se calou.
No colégio Alfredo lhe pediu
Para acompanhá-la até a praia
Com um grupo de amigos dele
Como sua convidada.
Ela aceitou, fizeram os quilômetros
Até a praia de van escolar.
Dentro da van todos a chamavam
De namorada de Alfredo e o apelido pegou.
Alfredo dirigia a van,
Eles alugaram uma casa para ficar
Em três casais.
Logo Gercica dormiu com Alfredo:
-Então, você é dono da van
E trabalha levando alunos para a aula?
Ela indagou na cama com ele.
-claro,
Eu trabalho sim,
Sou dono sim.
Ele respondeu.
-Você mora aonde?
Ela perguntou.
-No centro, numa casa
Que comprei logo que iniciei
O trabalho de motorista.
ele disse.
-Esta certo.
Ela respondeu.
-Eu amo você.
ele falou lhe beijando os cabelos.
-Eu também.
ela respondeu.
E engravidou naquela noite mesmo.
Ao amanhecer,
Bem cedinho o irmão lhe acordou
Com a notícia de que
ele não era o dono da van
Apenas trabalhava como motorista
E não tinha casa própria,
Pagava aluguel para os tios da esposa,
E ele já era pai.
Gercica odiou seu celular
e o jogou no fogo da lareira.
-Então, você já sabe de tudo?
Alfredo indagou do batente da porta.
-Sim, meu irmão contou.
-Vi que você se irritou.
ele disse enquanto entrava
E chegava perto dela a abraçando.
-Sim, não quero mais celular
Nem esta coisa toda...
-Compreendo.
disse Alfredo beijando ela
E a conduzindo até a cama.
-Mas eu amo você
E quero muito nosso filho.
-Eu também.
Ela respondeu.
-Você só tem quinze anos.
Alfredo disse.
-Você tem dezesseis.
Gercica continuou.
-Você pode trabalhar de cobradora.
Alfredo falou,
Se referindo a ela trabalhar
De cobradora da passagem do ônibus.
-Seria bom,
Assim você não iria me trair.
ela respondeu.
-É claro que não,
Nunca.
Ele disse a beijando suavemente.
-Mas e sua esposa,
E o filho que você já tem?
Ela indagou.
-Resolvemos isso mais tarde.
ele respondeu.
-Vamos pensar em nós,
E darmos um tempo para o resto,
Vamos aproveitar a viagem
Até a praia.
-Esta certo.
Gercica disse.
Se abraçando a ele.
-Nesta altura seu irmão já contou
Tudo para a minha esposa.
No caminho eu vejo o que faço,
Ela deve estar muito irritada.
Alfredo falou.
-Provavelmente.
Gercica disse.
-Talvez seus pais descubram logo
Que você está aqui comigo.
Alfredo disse com um tremor
No corpo e abraçou fortemente Gercica
Dando uma olhadela para a porta
Do quarto que estava fechada.