Camline chegou ao cemitério,
Fez o sinal da cruz,
Abriu o portão e entrou.
Tudo estava desorganizado
Parecia ter chovido
A pouco tempo
Haviam vasos com flores mortas
E até vazios jogados
Por entre as lápides.
Uma lágrima desceu
Por seu rosto sereno,
Ela então, juntou de vaso
Em vaso e os separou
Um canto,
Retirou as flores mortas
E as jogou do lado de fora,
Espalhando a terra sobre a terra,
E os que estavam feios
Ela os plantou nos arredores
Para que Deus se incumbisse
De que viessem.
Sempre há uma alternativa
Para a vida
E ela faria o possível
Para que a vida brotasse
E as flores florissem,
Então, as regou usando
O próprio vaso e uma sacola
Plástica que estava no local.
Depois separou os vasos vazios
Com o intuito de levá-los para casa
Para reutilizar,
Juntou cada plástico,
Cada sujeira e os separou
Para levar na lixeira
Que se localizava a poucos metros
Do cemitério,
Mas, que inexplicavelmente
Era evitada.
Foi até a lápide de seu irmão
E limpou-a usando um balde,
água limpa, detergente e um pano.
Sentia tanta afinidade
Com aquele lugar
Que poderia limpar cada canto,
Cada lápide, cada casa daquelas
Em que se preocupavam tanto
Em pintar e pôr flores e esqueciam
De pôr fotografias do falecido
E o próprio nome,
Só estava definido o nome
Da família bem grande
E uma data de nascimento e morte.
Como na cidade,
no cemitério as pessoas também
Gostavam de enfeites,
De mostrar as diferenças,
De construir até alcançar o céu,
Enquanto uns mal tinham
Um lugar no chão e uma cruz de madeira,
Sem nome,
Sem foto,
Sem família,
Só uma data,
Depois disso:mais nada.
A madeira apodrece tão cedo
E leva a vida,
As memórias,
O lugar em que se deixou
Este alguém que fez a diferença
Lá nas ruas e nas construções,
Um bom pedreiro,
Diarista, servente,
Agora um indigente,
um corpo não definido
E um rosto vazio,
Que teria poucas velas,
Pouco choro,
e talvez, umas garrafas
De pinga no seu redor.
Regado no alcool conforme
Fez em vida,
E nada melhor que a pinga
Para remover a memória,
A dor,
A vida,
O nome e o lugar
Onde um dia a pessoa
Teve para onde voltar.
Camline limpou tudo,
Olhou cada anjo desenhado,
Cada lápide afundando,
Cada calomgo de terra se elevando
Com uma cruz apagada nele,
Cada casa que crescia
E tomava proporções que com certeza
Esta família deve ter desejado
Ter em sociedade,
E trabalhava arduamente para manter
A postura, rigor e idealismo.
Retirou flores secas,
Soltou-as para o vento,
E lá, quando retirou as rosas vermelhas
De plástico de Rehan as cheirou,
Há oito anos elas foram guardadas
Nesta lápide,
E ainda não viraram pó,
Eram quase de tecido,
Tinham um cheiro bom,
Talvez fosse o de seu irmão,
Talvez não,
Quando seu namorado Rehan
As deu ela logo viu onde
Se localizariam perfeitamente.
O namoro terminou,
As flores ficaram
E Rehan nunca veio com ela
Ao cemitério,
Algumas flores ao serem retiradas
Viraram pó e era difícil
Leva-las para a lixeira,
Alguns vasos quebravam
E se consumiam.
O tempo se encarrega de tudo,
De tornar tudo poeira
E solidão que faz esquecer
e tenta apagar.
Leva vozes e sorrisos,
rostos e abraços,
Fica a dor,
Um vazio que consome,
Um suspiro que não se contem
Por muito tempo.
O tempo levou Rehan,
Camline soube disso
Através de uma caixa de supermercado
Que saiu chorando deliberadamente
Quando o supervisor lhe informou
Que o rapaz sofreu um acidente
De carro e não resistiu
Aos ferimentos de quebraduras expostas,
Sangue e dor.
Ele estava embriagado,
Dirigia com um corpo de wiski
Entre seus dedos,
E uma garrafa ao lado,
Estava sozinho lhe disseram,
Isto, Camline e todo o redor
Dos funcionários duvidaram,
"Não, ele estava com garotas,
Isto é fato,
O sexo e o alcool levaram sua vida
Depressa demais,
Aos vinte anos."
Camline limpou os olhos,
Soltou a salada que iria comprar,
E soluçou o soluço dedicado
Aos mortos por eles terem partido,
É quase mais soluçar uma dor
Por quem irá sentir a perda,
Porque Rehan lhe fez mal
Em seus instantes de bebedeira.
Sua vida de relação com ele
iniciou-se num encontro fortuito
Num restaurante badalado da cidade,
Ela marcou pela décima vez
com um homem diferente
Tencionando conhecer um namorado
Através da internet.
Mas, lá da entrada
Ao ver um homem tão feio
Sentado na mesa combinada,
Ela tirou o suéter,
Prendeu o cabelo,
Correu para o banheiro
Remover a maquiagem
E não se aproximou de vergonha,
Na internet o rapaz era lindo,
Perfeito, ali estava um rascunho
De tudo que o photoshop fez por ele.
Ela não teve estômago
Para aturar um homem tão abjeto,
E nem para resistir ao cheiro
De comida tão cheirosa
E de aparência deliciosa.
Logo se aproximou de uma mesa
onde um jovem moreno,
de cabelos negros e fartos
Estava sentado sozinho
E pediu aconchego.
Explicou do encontro
E de seus motivos íntimos
Para desistir,
E as mesas estavam todas
Repletas de pessoas,
Ela não identificou o rapaz,
Mas, pediu licença para sentar-se
Com Rehan.
Ele sorriu,
A permitiu de imediato,
Pedido os pratos,
Ele exigiu que ela pagasse a conta
Por ter de aturá-la ali,
Ela chateou-se jogou o guardanapo
Sobre a mesa em tom de repulsa,
Ele sorriu convidativo,
Se desculpou,
Pagou ambas as contas
E exigiu que ela aceitasse
que ele a conduzisse para casa
Como cortesia e pedido de desculpas.
Ela não soube o motivo,
Mas sentiu-se tonta,
Talvez, por efeito do vinho
Que bebeu com ele,
Pois, sentiu-se fraca
E terminou aceitando o convite,
Ou assim acreditou,
Porque ele a ergueu da mesa
Passando seus braços
Por seus ombros
E a carregou para fora
Dizendo frases desconhexas:
"Você é linda,
Me apaixonei por você
Desde o primeiro instante,
Te darei minha vida".
E quando ela deu-se conta
Estava sentada no carona
do carro dele,
E depois disso o viu remover
O zíper de sua calça,
Depois a calça,
A calcinha e então toda a roupa,
E logo se viu nua
Sentada no colo de Rehan.
Ela gemia de prazer,
Chorava por algo
Que não saberia dizer,
Talvez dor,
Talvez insegurança,
Talvez medo,
"afinal, quem é Rehan?"
Se viu se indagar em silêncio.
Quando acordou estava
Deitada na cama com ele,
Que se movimentava
Sobre seu corpo nu em frenesi
E muitos gemidos.
-O que está acontecendo?
Ela se viu indagar
Quando sua cabeça foi puxada
Para o peito dele.
-Agora você é minha namorada!
Ele respondeu sorrindo.
-Não sou não.
Ela respondeu e se afastou.
-Claro que é,
veja a aliança em seu dedo,
Você mesma colocou
Durante a noite
E chorou de alegria.
ele disse com movimentos
Contínuos de sexo e beijos sedentos.
-Ah, não lembro disso.
Ela continuou um tanto tonta.
-não lembra?
Você tirou foto de nossas mãos unidas
Usando alianças,
Escreveu uma frase de amor
E postou na sua rede social.
Ele disse.
-Sério?
Mas sempre sou tão discreta.
Ela continuou.
-Sério,
você falou de amor e tudo.
Ele insistiu.
Ela buscou o celular
Que estava sobre a cômoda
e notou a fotografia
De duas mãos enlaçadas,
Duas alianças e uma frase boba.
-Somos namorados.
Ele disse,
E saiu de cima dela
Juntando uma toalha
E indo para o banho.
Os encontros entre ela e Rehan
foram sempre fortuitos e inesperados,
As vezes, ele a buscava no trabalho,
Outras vezes ela saia de casa
Logo pela manhã e via seu carro
Estacionado na esquina,
Como se estivesse esperando-a.
Sempre regado a bebidas e cigarros,
Algumas vezes ele usava drogas,
De comprimidos jogados no copo
De bebida e de pó
Que ele soltava sobre a barriga dela
e aspirava até não restar nada,
Soltava também sobre sua mão,
Sobre o painel do carro,
E seguia.
Ela sentia-se seguida por ele,
As vezes, imaginava que isso
Nunca teria fim,
Então, procurou um ginecologista
e buscou um anticoncepcional
Para não engravidar dele,
Mesmo estando com 33 anos
e tendo o sonho de ser mãe,
Evitou o sonho a todo custo.
A igreja da cidade
ficava próximo a sua casa,
Conforme a rua que pegasse
Para ir para o trabalho
Passava por ela,
Chorava soluçante,
Mas, não conseguia marcar a data
E levar o relacionamento adiante.
Bebia pouco,
Não usava drogas,
Fumava algum cigarro esparso.
Mas, um dia Rehan a vendo
Sair para ir trabalhar
Acelerou o carro com toda força
E jogou sobre ela,
alegando que tinha encontrado
Outra garota,
Muito melhor que ela
E que não queria saber mais dela.
Camline sofreu escoriações severas,
Dor e vergonha da vizinhança,
Mas logo adaptou-se
Com a ausência de Rehan
Que sempre buscava os lugares
onde ela frequentava para passar
Por ela com algumas garotas,
Muitas bebidas,
Sorrisos no rosto,
E drogas.
Camline o odiou,
Denunciou isso na delegacia,
Mas nada amenizou o ódio.
Por isso, ficou muito tempo
Sem buscar novo relacionamento,
Mais de anos,
Sem ter encontros, beijos, abraços,
Carinhos ou sentimentos masculinos,
Apenas a abstinência e o exílio
Lhe restou.
Dirigia por toda a cidade sozinha,
Parava na praia olhar a areia,
Ver as estrelas noturnas,
Mas, sempre sozinha,
Não conseguia deixar um novo
Homem entrar em sua vida,
Mas, ao saber da morte de Rehan,
Um sorriso lhe brotou na face,
Então, saiu para fora do mercado,
Viu um homem sozinho
Na direção de um carro estacionado
E pediu a ele uma carona;
-Para onde?
Ele indagou.
Ele era um sujeito gordo,
Flácido, de rosto enrugado,
Cabelos brancos e esparsos,
E isso lhe gerou um sentimento
De carinho inexplicável,
Então, ela pegou em sua mão
Sobre o volante e disse:
-Para um motel,
Vamos ter algumas horas
De sexo voluptuoso e delirante,
Eu preciso de você.
O homem a encarou de sobressalto:
-Precisa de mim?
ele disse, ligando o carro
E virando a volta para sair
Do estacionamento rumo a rua.
-Sim, por favor!
Ela disse sorrindo,
Retirou a calcinha e
Levantou a saia curta que usava.
Ele logo introduziu o dedo
em sua vagina e sorriu,
Camline suspirou satisfeita:
-Faz muito tempo que não faço sexo,
Eu não sei,
Agora penso que sempre esperei
Você me dar uma chance.
Ela disse sem jeito,
tocando em seu braço forte.
-Que ótimo,
Poderemos passar boas horas juntos.
ele usava uma aliança no dedo,
Camline não quis perguntar
sobre isso,
Mas, a notou.
A voz dele era grave e violenta,
ele dirigia muito bem,
Sem solavancos,
Sem desvios,
E tinha lindos dentes brancos
No rosto quadradinho
E lábios rosados e cheios.