sábado, 24 de outubro de 2026

Pequenos Aventureiros

Uma enorme cobra
Serpenteava pelo solo:
- estamos salvos,
Ela jamais nos pegará 
Aqui em cima.
Disse meu irmão 
E pegou minha mão 
E me puxou pelo cipó 
No qual subia 
Bem rápido 
Até a árvore onde 
Ele estava agarrado.

- errado!
Eu disse.
Quando a cobra boteou 
Meu bumbum
E não alcançou ele
Por um triz.
- corre!
Ele disse 
Ao olhar para baixo
E se puxou muito
Mais ágil 
E me puxou.

Subimos a árvore grossa,
E a cobra pos-se a se enrolar 
Nela lá debaixo,
E nós fomos mais longe,
Fomos até o final do galho:
- não há saída!
Ele disse assustado.
- e não há retorno.
Eu respondi
Abraçando ele trêmula 
De medo.
A enorme cabeça da cobra
Começava a aparecer
Pelo tronco.
- precisamos nos salvar.
Ele disse. 

Então, um minúsculo beija-flor
Passou voando por nós 
E como se fosse mágica 
Voltou e passou a beijar
As flores que estavam próximas. 
- jogue-se.
Eu disse ao meu irmão 
E ne joguei 
E puxei remédio junto,
Eu confiei em meu amor
Por ele e de repente 
Ficamos minusculos 
E voamos sobre o pequeno 
Pássaro beija-flor.

Logo ele afastou-se
E a cobra num pulo
Chegou onde estávamos
Anteriormente e não nos
Encontrou.
Pulamos no solo
Bem depois disso,
E voltamos a ser 
As pequenas crianças de antes.

Sentindo-nos salvos 
Logo demos de cara
Com seis quero-quero
Que tinham seus ninhos
Por aquele local,
Irritados eles se juntaram
E investiram contra nós,
Voando e cantando alto:
- quero quero quero quero!
Mostrando seus ferrões 
Afiados em nossa direção,
Muito irritados
E chegando cada vez
Mais perto.

Peguei a mão do meu irmão 
E corri muito,
Corri sem destino,
Corri feito louca:
- corre rápido!
Eu gritei e mudei
O curso do destino
Indo parar de cara
Como rio:
- e agora não sei nadar!
Eu gritei assustada,
Olhamos para trás
E aqueles bichos
Continuavam investindo
Contra nós 
Com aquele canto assustador:
- também não sei,
Precisamos fugir.
Disse meu irmão chorando.

Eu senti medo
Mas ninguém me dá 
Mais força que meu irmão,
Ele sempre acredita
Em mim,
Confia e segue 
Minha opinião,
Então, apertei forte
A mão dele,
Olhei em seu rosto e disse:
- pule!

Pulamos naquele rio 
Sem cabimento 
Ou sabimento,
Um peixe nadou até nós 
Veio tão perto
Que ficamos pequeninos 
E ele nos puxou
Agarrados as suas barbatanas.

Longe, muito longe
E salvos fomos levados
Por ele que de um salto
Nos pos fora da água. 
Deitamos na terra
Da beira do rio
E respiramos aliviados.

A quem em nossa terra
Precise de brinquedos,
Há outros que tolhem-se
Os medos, os anseios
E não os sonos,
Estes quando dormem sonham
E acordados revivem-nos
Em contos.

A chuva cae-se a terra,
E não ha nela lágrimas 
Nem que queira
Ou aparente-as,
Dessem pingos 
Que não são veneno,
Tão pura e casta
Lava o terreno,
Lava o telhado 
E não lava o assoalho,
Mas lava os pés do garoto
Que conta e reconta
Novos fatos 
A irmã que sonha
E acorda e não põe fim
A história. 

E lentamente, toda a volta
Perde o adubo,
O solo fértil 
E o trabalho solidifica-se,
Cai a tapera nas almas
E nas coisas,
Fogem dela duas crianças.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Invasão

A manhã de neblina
Faz o leite vir quentinho
Na vasilha,
Mamãe acordou cedo
E foi logo tirar o leite
Da vaquinha.

Meu pai deu milho 
As galinhas,
Colheu ovos 
E eu coloquei a gordura
De porco na frigideira 
Para aquecer,
Esquentei o feijão cozido,
Acrescentei torresmo
E mexi,
Depois coloquei farinha
De milho até ficar fofo. 

Os ovos chegaram
Os fritei,
Aqueci o leite,
Coloquei a toalha 
Na mesa. 
Com o cheiro da comida fresca,
Soldados chegaram
E bateram palmas.

- saiam para fora.
Este terreno não lhes pertencem,
Vocês invadiram
E precisam ir embora,
Deixar o local.

Meu pai foi até a porta
De madeira de correr,
A abriu e um soldado
Lhe jogou uma arma
Contra o peito e atirou,
Depois chegou em minha mãe 
E a esbofeteou no rosto
Sem se importar 
Com a xícara de café 
Que tinha entre os dedos.

O café caiu no soalho
E derramou-se 
Ela caiu logo após,
Do seu rosto saiu sangue.
O soldado arrancou sua saia
E fodeu seu corpo.
Eu enchi minha boca
De pão 
E fiquei estagnada
Sentada atrás da mesa
Olhando assustada.

Ele colocou a arma
Na boca da minha mãe,
Nas suas mãos,
Esfregou no seu corpo:
- vocês não são donos
Precisam sair!
Ele disse.
Se levantou 
E mirou na parede 
E atirou.

Deixou um buraco 
Na parede e marchou alegre
Para longe,
Para onde eu não queria estar,
Num destino 
Que eu desejei evitar. 

A roça,
Os animais,
A terra limpa
Nada nos pertencia
E eles vieram nos expulsar.
Não podíamos esperar,
Teríamos que fugir
Ou estaríamos
Para sempre a mercê
De suas vontades.
-malditos soldados estupradores!
Eu disse
Cuspindo o pão. 

Minha mãe chorou,
Meu pai sangrava o peito
De olhos fechados,
Morto.

Mas uma filha embalada
No pão 
Não tem o mesmo amor
Que uma esposa,
Que honrada e honesta
Viveu para a família 
E não queria perder 
Nenhuma parte dela.

- filha, cate o facão 
Eu preciso de ajuda!
A mãe falou aos prontos.
A moça correu e encontrou
O facão no porão 
De madeira alto
Que havia na casa.
- pronto mãe, 
Está aqui.
Ela disse entrando
Correndo pela porta da sala. 
- ótimo filha. 

Disse a mãe 
Que correu com o facão 
Cortar algumas folhas
De bananeira e foi colocando
Uma sobre a outra no chão. 
- perfeito filha.
Vamos pôr seu pai aqui
E leva-lo ao médico,
Eu tenho esperança 
Eu vou salva-lo.

Disse a mãe. 
- me ajude!
Ela gritou e entrou
Porta adentro
Pegando os braços do homem
Que sangrava silencioso 
E o erguendo com a filha. 

Ambas puseram ele
Sobre as folhas.
- a senhora pega numa ponta
E eu não outra.
Disse a moça. 
- espere vou pegar
As nossas pedras preciosas
Que seu pai achou 
Sob a terra enquanto lavrava 
A terra para o plantio
Com os bois.

 A mãe disse
E correu até o quarto
Onde ergueu o colchão 
E juntou algumas pedras
Coloridas numa camiseta
E enrolou-as:
- veja filha,
Isso é o que os soldados 
Querem da nossa terra,
Por isso estão tentando
Nos remover delas.

A mãe disse da porta
Erguendo a camiseta 
Nas mãos. 
E correu até as folhas 
De bananeira
Onde ergueu o esposo
Com a ajuda da filha. 

Caminharam três quilômetros 
Até chegar no médico:
- doutor nos atenda?
Gritaram da porta
Batendo palmas 
Para chamar a atenção. 
- não posso e noite.
Ele respondeu. 
- por favor,
Meu esposo está morrendo 
Preciso de ajuda.
Ela continuou. 
A moça se ajoelhou
Com as mãos cobrindo 
O rosto e chorou em soluços. 

- ajude-nos eu tenho pedras
Preciosas.
- tá bom, já atendo.
Ele respondeu,
Pegou uma vela acendeu 
E saiu porta a fora.
- meu Deus, está escuro demais 
Como vocês chegaram
Até aqui?
Ele indagou.
- Fomos guiados
Pelo amor e pela dor.

O doutor fez um curativo
No esposo de Melany 
E notou que ele estava vivo
Mas que precisava descansar,
Um total de 18 pedras coloridas
Foram suficientes para pagar
Pelo atendimento. 

- precisamos voltar 
E trabalhar filha;
Vamos seguir com a plantação 
Da roça.
A polícia irá demorar 
Para voltar.
Nós precisamos da nossa terrinha.
Disse sua mãe trêmula,
Segurando a cabeça de seu pai
Que levemente abria os olhos
E fechava.

- eu ajudo vocês. 
O médico disse.
- não precisa,
Nos somos capazes.
Disse a mãe rapidamente. 
- por que negamos
Receber ajuda, mãe?
Eu indaguei a meio caminho
De casa,
Perambulante naquele mato
Entre um galho
E outro e folhas 
E teia de aranha no rosto.

- filha, quanto menos
Pessoas souberem 
Onde vivemos melhor.
A mãe respondeu. 
- mas iremos fugir feito criminosos 
E ficar para sempre escondidos?
Indaguei. 
- não filha,
Assim que seu pai
Se recuperar totalmente 
Ele irá encontrar a solução. 
Minha mãe disse.
- mas ele está febril 
E ferido,
A senhora sabe:
O pior pode ocorrer....
- mas não irá filha. 
Não irá. 

No caminho catei alguns matos
Que fizemos que são veneno
E que provocam intoxicação 
E morte rápida 
E disse a minha mãe:
- eles irão morrer,
Conforme nos fizeram,
Sem chances de defesa,
Ou a senhora acha 
Que eles estão nos dando 
Chances de vida?
- e fato que não filha.
Eles mataram seu pai
E me estupraram,
Eles não sentiram piedade...

Minha mãe começou 
A chorar aos soluços
No escuro 
E uma brisa de chuva
Suave soprou
Contra meu rosto.

- darei um jeito, mãe. 
O meio rural deve ser usado
Para proteger a vida humana,
E evitar riscos tanto para nós 
Quanto para os outros
E nosso serviço é justo!
Nunca causamos poluição
Ou qualquer dano...
Veja nosso vizinho Mateneus,
Ele está enterrando seus bichos
Mortos que não sabe 
Nem de que morreram 
Dentro do lago da escola.
Eu soube disso, mãe. 
Ele os enterra lá a noite
Amarrando os bichos numa pedra
E os afundando lá. 
Ele nem sabe do que morreram,
E nem o dano que causa....

Minha mãe se voltou 
Para eu,
Soltou meu pai no chão 
E me abraçou as escuras.
- que horror filha,
As crianças podem nadar lá 
E serem contaminadas.
- claro que sim, mãe. 
E faz uma semana que morreu
O avô dele,
E eu juro que tremi de medo
Quando percebi 
O que ele iris fazer.
Fica muito barato,
Aliás, ele não gasta nada
E ainda recebe a aposentadoria 
Do velho.

- filha, será que aqueles
Policiais não estão conectados 
A este esquema e vieram
Nos matar por isso?
- não sei mãe,
Não os conheço. 
A professora usa aquela água 
Para lavar a escola,
Lavar a louça e fazer comida.
Ele está nos matando,
Por que nenhum policial
O matou?
Eu os odeio, mãe!

Eu disse
Incapaz de controlar 
Meu choro,
Vendo meu pai
Tão fraco e solitário. 
- nosso trabalho em cima 
Do meio ambiente precisa
Ser sadio para que tenhamos
Qualidade de vida. 
Atos de poluição e danos
São lucrativos mas causam morte
Nossa e dos outros,
Ele está causando degradação ambiental. 
Como nós iremos 
Nos desenvolver bem
Se a água do lago está poluída?
A atividade dele está danificando 
Nossa qualidade de vida,
Prejudicando nossa existência. 

- ele é um assassino perigoso
Que mata silencioso
E a traição,
Ele deve estar cuidando vocês 
No intervalo tentando ferir vocês,
Talvez, ele nem veja vocês 
Como crianças 
E seus pensamentos sejam
Cada vez piores.
- e verdade mãe,
O meio ambiente abrange
Tudo que nos cerca, a floresta,
Os animais, o solo, as águas...
E nós nunca estragamos nada
No nosso redor,
Muito pelo contrário,
Nós colhemos e plantamos,
Não usamos máquinas,
Só usamos o braço forte
Do meu pai e a enxada....
Eu vou proteger nós mãe,
Eu vou!
- filha, se acalme.
Eu sei o que fazer. 
Eu vou cozinhar uns pastéis 
Usando aquela água pobre
E outros matos tóxicos 
Que este vizinho tenha
E vou levar a estes policiais
E não terei pena nenhuma
De matar todos eles.

Minha mãe pegou forte
Com as duas mãos 
Na minha cabeça 
E me fez olhar para ela:
- eles não irão te ferir,
Eu juro,
Vou proteger sua dignidade 
E a inocência dos seus 
Colegas de aula.

Chegamos em casa,
Mamãe deu banho em papai,
Eu plantei cana de açúcar 
Por toda a frente da casa
E evitamos ficar em fácil localização. 
Os pastéis logo foram providenciados
E mamãe os levou numa cesta.

Todos comeram e de um a um morreram,
Contudo, um policial armado
Chegou por último 
Quando mamãe já saía 
Do quartel,
E vendo-a com algumas armas
E munição que ela pegou
Dos policiais,
Ele acelerou a viatura policial
E partiu para cima dela.

Ela atirou contra ele,
Que defendeu-se chacoalhando 
O pescoço e acelerou mais,
Então acertou-a em cheio
Fazendo ela voar pelos ares
Acima da viatura.
Logo eu que estava escondida 
Corri até ela,
Ele sacou uma arma
E atirou na minha perna.

Eu sangrei e gemi,
Mas, o vendo um alcoolatra 
Embriago,
Peguei um aviu e acendi
Com um palito o mantendo aceso
E joguei contra a boca dele
Que o engoliu,
Depois retirei meu tênis do pé 
E joguei na testa dele 
O fazendo cair.

Logo em seguida,
Ele começou a esfumaçar 
Feito uma chaminé acesa
Cheia de fumaça 
Que saia pelos ouvidos
E orifícios,
O alcool do seu corpo
Entrou em combustão. 

Então, ele correu para o carro dele
Se vendo queimar de dentro
Para fora e partiu com a viatura
Contra o quartel.
Ele ficou em chamas no volante 
E tendo litros de bebidas alcoólicas
Dentro do carro elas também
Começaram a queimar 
E o fogo se generalizou
E explodiu da viatura 
Para dentro do quartel.

Minha mãe só sofreu esfoloes 
E dores,
Conseguimos fugir deixando
As chamas para trás
Junto daqueles policiais
Para apodreceram
Até seus malditos ossos virarem pó. 
O vizinho também sumiu,
Ninguém teve notícias dele
Nem perguntamos. 

Papai melhorou
E retornou ao trabalho da roça,
Nos ocultamos bastante,
Evitamos a cidade
E agora estamos juntando dinheiro 
Para pagar por nossa terra
Conforme a prefeitura cobra.
Somos donos,
Ninguém irá nos impedir,
Nasci aqui,
Está chão e este ar 
Me pertencem e a lei
Logo dirá isso,
Através da mão 
De um escrivão 
Que não se importa
Com nada além do que se possa pagar,
Não há direito sem pagamento!

Agora o Bentulho está cuidando 
Do cemitério da cidade
E sua esposa, de imediato,
Abriu uma loja de roupas 
E joias...
Tenho que falar com meu
Pai e minha mãe. 
O anel de uma colega da escola 
Que morreu quando 
Caiu de uma árvore 
Ao subir nela para brincar
Está exposto a venda,
Eu o reconheci,
Era presente de aniversário. 

Bentulho tem passado
Muito tempo limpando 
Aquelas terras 
E está encaminhando 
O cemitério para acima
Do curso do rio que percorre a cidade.
Uns vinte metros
Por cima do rio,
Mais ou menos. 

A podridão dos mortos
Corre para estas águas 
Onde há peixes 
E ele mesmo pesca
E está pondo a venda
No mercado grande
Da cidade vizinha.
O pessoal da cidade nada
Ali nestas águas,
E tudo se mistura 
Aos peixes: xixi, basta,
Carne podre....
Preciso dizer a mamãe 
Que temos que ter nossos 
Próprios peixes. 

Saudade

Castanhos olhos,
Que desventura,
Entregastes ao vento 
Crucial beleza
Que terno amor,
Sutil candura
Pendeu-se a sorte
E a sepultura.

Caiu em morte,
Os escuros lábios 
Que de sorte
Deram-se aos beijos
E aos afagos,
E terríveis frases 
Não foram capazes 
De dizer em toda a vida
Como não o faz em morte.

Os escuros cabelos
No rosto jogado,
Moldam-se as lindas faces,
E ardente pele,
Fervoroso sonho
O teve
Tão rápido e veloz
Que caiu em sono profundo 
De morte,
E não irá acordar
Quem o ganhou foi o sepulcro.

As lindas faces
Onde o amor enternece,
As fortes mãos 
Onde o trabalho se enobrece,
Os seguros abraços 
Onde o amor floresce,
Pelo ímpeto fatal
Que a todos chega
Não existe mais 
No cemitério descansa.

linda terra

Oh cheiro que não me embriaga
Como me encanta
Feito magia
Me prende ao solo quente 
Desta terra 
Que germina a semente 
E faz brotar toda a vida,
Abre-se em flor
Manhã querida
E chama-me desta cama
Para seu leito,
Que de prazer
Me vejo desfeito
A capinar todo mato
E toda peste,
Para que querido amor,
Paixão que cresce
O pássaro voe
E os ovos fecundem,
Agasalha-me em teu seio,
Repousa em meu peito,
Prenda meus olhos,
Amada terra
Cheia de graças 
Que em vida
Me preenche e desenlaca.
Oh minha alma onde está?
A capinar por está terra
Que de sonhos me encerra.

Saudade

Lembro-me o abraço,
O riso e suas cores,
Suspira minha saudade,
Respira os amores,
Oh, meu lindo irmão 
Que no sepulcro descansa,
Recebe as lindas flores
E na tez a esperança,
De queridos amores
Que se foram,
E agora por você recebidos 
Sobrevivem de luz e rezas,
Profundos anseios,
Sonhos de outro mundo,
Amado Gilvan
Que se alimenta
De tudo que a terra inventa,
Não pulsa um coração 
Em seu peito 
Como lhe vai paixão 
E amigos antigos 
Que tal você 
Não resistiram 
Aos ares e trejeitos
Da vida daqui de cima.
Suspiro outra vez
Seu amado abraço 
Da saudade em que
Me desfaço 
Te entrego 
E te sustento,
Sem aborrecimentos,
Querido amigo:
Se chega já agora
A tua hora,
Por favor,
Apieda-se desta
Que aqui chora
Lembra meu abraço,
Meu sentimento 
E meu querer para outro
Que neste chão dorme
E não há de acordar,
Mas o qual logo
Você irá ve-lo!
Fala do último abraço 
Que não pude dar,
Da saudade que não acalma
E do quanto eu o amo!

Saudade

Sei que não voltarei a ve-lo,
Mas, ontem vi meu rosto
Refletido nos olhos
Mais límpidos e puros do mundo
Que quase me vi gravitar 
E alcançar você,
Isso se o céu pertencesse
Aos anjos toda vez
E se por serem azuis e castos 
Aqueles olhos trouxessem 
O céu para perto,
Feito um rosto feito de nuvens,
No tom rosado do crepúsculo. 

Se formatos perfeitos
Lhe trouxessem
Eu o teria visto,
Mas, alguns me veem
E são capazes de refletir
Meu rosto com semblante 
De saudade 
Como só o seu fez,
Porém, no seu era felicidade,
Mas, agora nestes puros
E gentis olhos
Tento te buscar
Lá no fundo...

O tempo passa,
Eu enlouqueço,
Te buscar não adianta
No lugar onde você está 
Eu tardarei poder visitar,
Mas, encontrei um rosto perfeito
De lábios carnudos
Num corpo forte e vigoroso,
Meu coração ficou em sobressalto,
Até quando permanecerei sozinha?
Sem você 
E sem este outro,
Até quando?

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A vida em ruína

Bem,
Mais um dia de buscas
Com a esperança 
A enxer os olhos
E afastar as lágrimas,
Mas nunca a dor.

O terremoto passou
E as construções ruiram,
Levaram sonhos 
E tiraram vidas,
Não sei bem o motivo
Mas eu suportei
E minha pequena casa
Aguenta bem.

Com piedade no coração 
Pedi ajuda ao meu cão Bello
E fomos para fora 
Ver os estragos
E ouvir os gritos
E algum choro.
Será que era ilusão?
Não sei,
Mas me agarrei a esperança 
E corri em meio aos escombros
Em busca de algo:
Vida!

Bello farejava bem,
Meu lindo Rotweiller 
Brilhava em meio ao sol,
Um sol desalentador
Que convidava a praia
Como num dia comum:
Mas, o terremoto havia silenciado 
Há tão pouco
E ele não parecia entender.

A vida se agarra assim
Nas veias,
Ela esquece de morrer,
Então, ha esperanças,
Abracei meu cão 
Em pleno asfalto rasgado
Ao meio,
E o beijei.

Um cão logo latiu,
Havia uma parede sobre ele,
Nós corremos para ele
E com esforço removemos
A grande parede branca,
Ela estava sobre entulhos
Então, apenas feriu sua perna
Traseira.

Com ajuda do nosso novo amigo
Seguimos adiante,
Havia uma casa
Totalmente destruída,
Barulho de rádio,
Alguma música esparsa,
Chegamos perto dela
E lá havia um homem em pé 
Buscando vidas:
- você está bem?
Eu disse.

- sim.
Eu estava no banheiro 
Quando tudo aconteceu 
Busco meu filho bebê,
Ele precisa estar bem.
Por Deus.

Ele falou e juntou 
As mãos para o céu 
Depois se ajoelhou
Sobre os escombros.
-iremos te ajudar.
Eu disse.
E fomos.
Movemos entulhos:
- tem alguém vivo?
Eu pedi.

Bello e o cãozinho cheiravam
Em busca de vida.
- filho?
Daniela?
O homem gritava
E juntava os destroços 
Jogando-os para trás. 

Logo um bebê chorou,
E foi difícil remover a porta
Que estava sobre ele,
Ao remove-la a porta
Se soltou da parede
Que por sua vez não se movia.
Chamamos os bombeiros,
Eles estavam entre os destroços 
Em busca de sobreviventes.

Mas conseguimos levantar
Lá havia uma mulher
Em posição de oração,
Ajoelhada de mãos juntas
E cabeça no chão,
A removemos e estava
Sem vida,
Embaixo dela em seu peito
Encolhido estava o filho. 
- e o seu filho?
Eu disse.
- sim.
Disse o homem chorando 
Pegando o bebê 
No colo.

Bello sentou-se
Com o olhar triste:
- a maezinha morreu. 
Eu disse.
Não havia outros moradores
Na casa,
Então, segui adiante 
Nas buscas.

Removendo entulhos
Buscando vida no lixo,
No que foi esquecido,
Esmagado e estilhaçado,
Belo deitou-se no chão 
De mãos estendidas
Estava cansado e triste,
O outro caozinho deitou
Ao seu lado. 

Eu me ajoelhei
E fiz carinho nos dois,
- um bebê está vivo 
Por nossa causa,
Nós estamos ajudando,
Precisamos salvar vidas!
Eu falei no ouvido de Bello
Para estimula-lo.

-Lembra garoto
De quantas crianças 
Brincavam na rua felizes?
Logo a vida irá se restabelecer
E a beleza tomará as ruas,
Estas ruínas ficaram para trás,
Eu juro!
Mas Deus não concordou,
Outro tremor ocorreu
E mais destroços vieram
Para o chão. 

Bruna foi obrigada
A correr para lugar nenhum,
Sem outra coisa em mente
Que não fosse esperança,
Pos a mão sobre o boné 
E correu com o cachorrinho
No colo e chamando por Bello.

Algumas casas de cima
Ruiram o que sobrou delas
E os entulhos desceram feito avalanche,
Rápidos e imunes a vida
Que iriam levar consigo,
Agora, provavelmente não restou nada.

A dor tomou conta de Bruna
Que corria e chorava,
Bello voava na frente
Correndo e latindo,
Ninguém disse nada,
Apenas algumas músicas
Agora mais distantes tocavam
Tristes e soterradas
Lá no fundo onde um dia
Existia algo.

Foi doloroso ver tudo cair,
Foi difícil fugir,
Cansada e dolorida Bruna 
Parou e esperou ver tudo vir,
Até que o desmoronamento cessou.

A morte não permite
Que ninguém fique bem,
Mesmo os que salvam-se,
A tristeza ganha vida,
E o sorrido de quem sobrevive
Perde a cor.
Eu queria voltar para minha casa
Mas estava longe dela
E um monte enorme de entulhos
E pessoas sem vida
Me separavam dela.

- talvez aquele homem morreu.
Eu disse acariciando 
A orelha de Bello.
- talvez o filho dele também morreu.
Bello ficou triste,
Ele compreendia a morte
E se familiriaziva com a dor.

Santo Antônio, Chile.
11 de fevereiro de 2028.

Pequenos Aventureiros