segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Dores e Des(amores)

O que dói não é a ferida 
Mas a capacidade 
De ter que se retirar
Da briga
Como se ela fosse
Uma emboscada,
Sair mancando a dor
Sem reagir a nada.

Ou não agir o suficiente,
E muitas vezes,
O sangue quente
Que jorra em sua dor 
Não é capaz
De direcionar a ação repressiva.

Fica um rastro da ferida
Aberta por onde você for,
Então, você se sustenta
E a dor é represada 
Num local sombrio,
Depois disso,
Dia após dia
A ferida dói e sangra
E você fita o vazio
De sua pele,
Verifica a abertura sangrenta
E não diz nada
Sobre a dor.

Eis que um dia,
Todo o sangue represado
No local sombrio
Surge do nada 
Feito uma avalanche
De dor 
Que te faz estourar,
Falar sem pensar,
Agir desmedido.

O lado sombrio 
Se apossa de você 
E somente ele entrega
A dor que você reservou 
Calado 
Quando você teve que 
Se refugiar para longe.

Mas o sangue secou,
A ferida que doía sarou,
Mas seu lado sombrio
Compreende tudo que você 
Reservou e lhe domina,
Você perde o controle
Por ter se contido
E guardado dores e remorsos,
Chama-se a isso
Distúrbio.

Sou como meu pai

Na pequena cidade
Onde eu cresci
Aprendi tudo que sou
Com meus pais 
E abandonei todos 
Os outros exemplos. 

Arranco o mato
Como eu fazia
Espero os resultados 
Que esperei outro dia,
Faço como fui ensinado
E indago a eles
Qual é o resultado esperado?

Não sou uma máquina,
Não estou engessado,
Mas sou como meus 
Pais me fizeram
E carrego o fardo
De ter crescido 
Com os mesmos desvios,
A mesma dependência 
De quando cresci
E me fiz homem
Mas nunca pude 
Cortar as amarras.

Sou forte como meu pai,
Comilão conforme
O gosto da minha mãe,
Insisto sem me entristecer
E espero os mesmos resultados 
De quando meu pai
Me viu nascer.

Faço como aprendi

Da pequena cidade 
De onde eu venho
Trouxe os sonhos
Do meu pai
E a bagagem da minha mãe,
E me escondo
Tudo que tenho 
Vem dela
Tudo que faço 
É por ele.

Nesta cidade pequena
Tudo que aprendi
Aprendi ao ver eles fazerem
Sigo um exemplo perfeito
E nunca pensei
Que eles fossem
Velhos demais
Para ensinar-me
Ou que na cidade grande 
Pudesse ser diferente. 

Engulo o orgulho 
E penso o que eles fariam 
E como posso fazer 
Tão bem quanto eles 
Fizeram comigo,
Mas quando estou perto deles
Sinto medo 
Será que eles se ofendem
Se tudo que faço 
E tão igual quanto aprendi
Tão idêntico 
Quanto fazia aqui?

E sou mesmo despreparada
Vou voltar para a pequena cidade
Onde eu nasci
Lá parece que tudo
Parou no tempo
E eu preciso ver com meu pai
Como seguir 
E pedir para minha mãe 
Como me vestir.


domingo, 18 de outubro de 2026

Jiu-jitsu e um par de pernas

Uau,
Te vi na luta
Sobre o ringue
Caramba
Que cochas firmes
Entrosadas no pescoço 
Daquele cara,
Foi de tirar o fôlego 
Aqui fora.
Uau,
Você deixa 
Meu sangue quente,
E eu só quero gritar 
Vamos fazer algo
Juntos mais tarde,
Tipo pegar uns inimigos
Antigos,
Bater nuns caras
Que falaram mal de nós,
Dar uma surra
Naquela sua namorada
Antiga que me impediu
De estar antes contigo...
Ver seu braço 
Erguer aquela massa de carne 
E jogar no chão 
Feito palha 
Me deixou paspalha,
Caramba que bundaço
No ringue
E eu aqui só querendo
Estar no seu colo
Nestes braços poderosos
De cara machão 
E fortao,
Uau cara 
E você falou lá umas frases fortes
Na sua entonação firme
E eu aqui na curiosidade:
Invado ou não o ringue,
Cara lindão,
Chega aqui na arquibancada 
E acaba comigo
Me pegando forte 
E metendo um beijo firme.

Cara Lindo

A distância acaba comigo,
O seu sorriso aí do outro lado
Acaba comigo,
Eu estou te amando,
Sentindo ciúmes 
E algo de vontade
De implorar para você 
Ficar mais algum tempo,
Sim,
Estou apaixonada 
E encantada por ter você,
Caidinha de amores,
E não sei não querer
Você sempre mais comigo.
Você me faz tão bem
E é tão perfeito homem
Que agora nem tudo convém 
E deixar você nao serve,
Não se encaixa,
Poxa,
Que sentimento intenso 
Quando você me abraça 
E eu só te quero mais perto,
Com seus lábios carnudos
Cheios de desejo
Aberto num diálogo 
Bom,
Seus olhos claros
E límpidos como um céu 
De sonhos
E mundos.
Desistir de você 
Não é possível 
Não te ter acaba comigo!

sábado, 17 de outubro de 2026

Joãozinho de Barro

Acorda Joãozinho
Está na hora 
Do seu lanchinho 
Por que dorme
Tanto passarinho?

A mãezinha dele voa
Em busca do alimento
Ele abre o biquinho 
E pede comidinha:
Volta logo mamãezinha 
Eu quero comidinha.

Recém nascido
Inicia suas primeiras
Peninhas,
Mas que bichinho estranhinho 
Diferente da mamaezinha. 

Dona Joaozinha do barro
Logo volta para alimenta-lo,
Não pia muito passarinho,
A maezinha voltou para o ninho.

Ele busca o alimento
Com seus olhinhos fechados
Veja o sol está aquecendo
Faz mal deixar o passarinho 
Ao relento,
Nuvens densas cobrem o céu 
Voa rápido mamaezinha 
Para cobrir o Joãozinho
Logo chove e ele fica molhadinho.

Já sei o que posso fazer,
Vou arrumar alguma coisa
Com que proteger o ninho,
Volta mamaezinha 
Para acostumar-se comigo
A proteger o ninho.

Vai que chove 
E faz pingos grossos
E chuva fria?
Ou se faz vento forte
Mamãezinha?
Pode carregar o seu ninho
E jogar longe o passarinho,
Você com suas asas frágeis 
Não poderá proteger 
O Joãozinho. 

E se chover granizo,
Pedras frias de gelo
Poderá ferir você mamaezinha,
Volta logo e vamos
Proteger o ninho
E o lindo lugarzinho
Que você encontrou 
Para pôr o seu ovinho.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Aproximação

Você usa a Bíblia para amuleto?
Indaguei a ela
Sem pensar.
- em cada cinco frases
Que você fala
Ao menos em uma
Você põe o nome de Deus,
Eu penso até mesmo
Que se alguém conseguiu
Ligação direta com o céu 
Este alguém é você...
Eu continuei.
-obrigada.
Ela me disse timidamente. 
- e que está sua familiaridade
Com a palavra de Deus
Transmite uma ideia de pureza
E certezas que tornam
Difícil eu parafrasear com você. 
Me sinto como se falasse
Com uma freira.
Continuei e ela corou 
Um sorriso tímido. 
- minha mãe lia ela
Para eu enquanto estava
Em seu ventre.
Ela disse.
- bom nas isso foi a tanto tempo
Por que você anda com a Bíblia 
Embaixo do braço 
Por onde quer que você esteja
E expressa uma frase dela 
Em tudo que diz?
Ela se aproximou de mim
E pegou em meus braços. 
- por que ela morreu 
Em meu parto 
E segurando ela em seus braços...
Respondeu.
-quando preciso recordar
Da minha mãe 
Eu a leio e tenho isso
Para recordação. 
Ela continuou
E eu a abracei apertado.
- uma Bíblia não dá conforto
E calor humano,
Deixe um pouco ela de lado
E permita-me me aproximar 
De você.
Um livro ainda é um livro. 
Eu lhe disse.
Ela ficou em silêncio 
E a Bíblia caiu de seu braço,
Mas ela continuou abraçada.

Dores e Des(amores)