sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Adeus

Em uma noite
Escura de novembro
Daria para servir
Um drink
E ir até a área
Saborear o gosto
Ganhar os lábios,
Enquanto os olhos
Sem ter o que enxergar
Já que tudo fica igual
Esperam em algum ponto
Algo que identifique
A noite
Tal como um vagalume
A vagar pelo escuro
Ou uma coruja
Com seu canto noturno
Escondida por entre
Os postes da área cercada.
Por um instante,
Quase que ofereço
O copo para minha irmã
Pedindo a ela
Que tome um pouco,
Me acompanhe
E conte uma de suas histórias,
Neste momento,
Quase sinto o cheiro
Dos seus cabelos escuros
E encaracolados
A levitar pelo vento,
Num sopro
Que o joga
Contra o meu rosto
Enquanto abraça meu pescoço,
Então, como por encanto,
Não espero pela luz do dia,
Mar recordo,
Que, agora estes lindos cabelos
Já não cheiram como antes
E não abraçam
Outra que não seja ela própria,
Também talvez
Não estejam com o mesmo corte,
Nem tão escuros
Quanto a tinta os mantinha,
Aquele cabelo outrora escuro
Hoje clareia seus últimos fios
Embaixo da terra,
Cada vez mais quebradiço,
Perdeu pouco a pouco
Seu charme,
Espalhados sobre um travesseiro
De cetim numa escuridão
Que nunca terá claridade,
Vez que
Fecha-se a tampa do caixão
Quando se diz adeus
Para todo o sempre.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Entre a Cruz e o Diabo

Pepita traçava
Com o dedo
Sobre o bordado
De alto relevo
Que havia terminado,
Ali desenhou uma casa,
Um jardim
E até mesmo um bando
De pássaros.
Sonhadora,
Olhou para o lado
Da almofada bordada
E encontrou uma carta.
Costuma-se dizer
Que toda cruz
Carrega seu diabo,
Mas, neste caso
Ele antecedeu-se.
Logo de início
Em alto relevo
De tinta amarelo brilhante
Continha o nome,
Aquele o qual
Ela desejou tanto esquecer,
E logo do lado,
Desenhado na própria almofada
Estava a cruz que carregava.
Nitidamente desenhada
A casa em que sonhou
Dividir com quem tanto amou,
O jardim que sonhou
Plantar ao seu lado...
Tudo expresso,
A cruz do sofrimento
De quem sonhou
Um grande sonho
Mas terminou em lamento.
Do lado,
O diabo traçava seu nome
Como se se autodominasse
O grande responsável
Por determinado sonho,
Tão lindo e encantador
Que não a entregou,
De fato,
Mais que umas agulhadas
Em seus dedos
Enquanto ela bordada
O tecido,
Sobre o qual o diabo
Não seria conhecedor,
Mas, tórrido desalento,
Se mostrou tão rápido,
Que talvez,
Até mesmo,
Já imaginasse o lindo bordado.
Bem,
Pego a carta do diabo
Em suas mãos feridas,
Desejou ler o conteúdo,
Saber de qual outra maneira
Iria feri-la.
Aberta a carta,
Soube que não continha pouco,
Ele disse,
Em poucas linhas
Que voltaria,
Marcou dia e hora,
Em que simplesmente
Desejava vê-la,
Assinou com a palavra saudade.
Pepita soltou a carta
Na sua frente embevecida,
“ o quê?”
Depois de todo este tempo
Separados
Ele desejava revê-la?
De onde ele tirou tal ideia,
O que desejava realmente?
Por toda a casa
Haviam sonhos bordados,
Em casa parte
Estava a marca do diabo
Registrada em bordados,
“Por Deus,
Haveriam, ali, eu te amos?”
Ela indagou-se
Embasbacada,
Como um grande amor
Constrói sonhos
E vai embora,
Passado tanto tempo
Decide simplesmente voltar?
Não,
Sobre isso ela não tinha resposta.
Seus dedos feridos
Marcavam tantas promessas
Quadros desenhados
A pincel de cada ideia,
Até mesmo as promessas
Foram marcadas em suas artes,
É a cruz estampada
Por cada parede,
Retratando cada beijo,
Cada visita,
Cada momento de esperança,
Como se não bastasse
Tantas lágrimas
E as lembranças que persistem,
O diabo decide mostrar assinatura,
Apresentar a face.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

De Trago a Trago

36 anos
Do local onde
Avisto o caminho
Da roça,
Pois é,
Em casa manhã,
Em cada hora de aperto,
Eu busco a janela,
Uma porta
Ou um meio
De tomar um vento
Fresco no rosto
E buscar meu caminho
Da roça.
Vocês sabem,
Nasci lá,
Lá quero morrer,
Nisto, me arremete
Repensar meus estudos,
Replanejar meus modos,
E tornar acessível
Meu deslocamento
Da cidade,
Onde há o emprego
Até a roça
Onde guardo minhas saudades.
O trânsito não dá trégua,
E a criminalidade
Percorre distâncias
Muito rápido,
Temo pelo lugar que deixo,
Temo pelo caminho
Que percorro,
E pelo destino que busco.
Há três violências,
Encrustadas no crime,
Há a física
Onde o criminoso não mede
Esforços para ferir,
Seja provocando um acidente
De deslocamento
Ou fazendo uso de ameaças,
Pois, me preocupa
Os que deixo,
E me preocupa os que busco.
Na questão dos acidentes,
Há os perigos de perder a vida,
Os ferimentos ocasionados,
E por vezes,
A perda do bem,
Ou seja, há aí a ação
Da violência material.
Depois vem o trauma psicológico,
Ou seja,
O medo de ser alvo,
De sofrer de fato
De um ato criminoso,
Esta última,
marca para o resto
Das vidas de suas vítimas que, impotentes, subjugadas temeram por suas vidas e dos seus,
correram riscos e,
para piorar, sabem que, possivelmente,
o criminoso ficará impune
Pelo crime cometido.
A impunidade é um coquetel
Que se bebe
De dia a dia,
Ao final de cada trabalho,
No início de cada café,
De trago a trago
De um veneno
Que causa uma cegueira
Onde a pessoa
Não consegue mais reagir,
Permanece presa
A este círculo
De ver,
Tomar o coquetel,
Tontear a mente,
E deixar tudo sempre igual.

Crimes Cibernético

Meu primeiro dia
De comando a frente do
08 batalhão de policiamento militar,
Iniciou-se com eu pulando
A porta do segundo andar
Do prédio
Para atuar no combate
A um incêndio
Que minha corporação
Composta por 600 homens
Ateou nas viaturas.
Foi simples,
Chamei o corpo de bombeiros,
Retirei o terno da farda
E joguei na água
Enquanto também puxava
Aos baldes de água
De uma torneira ali próxima.
De balde e farda molhada
Eu ajudei a não perder
20 viaturas em situações
De irregularidades que estavam
Abandonadas no pátio.
O governo entrou em descaso
Há muito tempo,
Abandonou de entregar as verbas,
Cortou salário,
E o máximo que pôde.
Nisto, não tínhamos
Dinheiro para o combustível
E a manutenção,
Logo, muitas viaturas
Foram estacionadas
Umas em frente as outras.
Depois disso,
Veio a irá policial
E a queima,
Se eu me descuido
Eu sou queimado vivo.
Irritado,
O mandante da queima,
Retirou a arma do coldre,
Apontou para a minha cabeça
E atirou.
Na minha sorte,
A arma falhou.
Tive que anotar mais esta falha
No que se refere
Ao emprego e destinação
Das verbas públicas
Relacionadas com o efetivo,
“Compra de armas defeituosas”.
Mas, devido a ela
Estou vivo.
O caminhão dos bombeiros
Chegou, controlou as chamas
E logo iniciaram as ocorrências,
Eram 350 por ano,
Ou seja, pouco mais
De uma por dia.
Das poucas viaturas
Que tínhamos,
Diminuímos ainda mais
E passamos ao policiamento
De outras modalidades.
Nisto, passei noites em claro,
Nas ruas eu era julgado
Por não cumprir
Com meu dever
De transmitir segurança
A população
E dentro do batalhão
Eu sofria justiçamento
Por parte dos integrantes
Que já não queriam compreender
A falta de alimento
De qualidade e outras coisas
Relacionadas a verbas públicas.
As fardas estavam
Sendo consumidas
Pelo uso,
Nisso incluíam
Os coletes balísticos
E o armamento que enferrujada
E consumia nossa defesa
E meio de exercer o ofício policial.
Nisto, recebemos
Uma ocorrência de violência doméstica,
Chegado lá
Os integrantes do marido
Baderneiro e violento
Atearam fogo na viatura
Com os policiais dentro,
O soldado Michelangelo
Saiu a tempo
De receber um tiro nas costas
E cair sangrando
Antes mesmo de defender
A mulher espancada,
Que chorava com a mão
No nariz e sangue no rosto.
Agora, há problema
Para remover a viatura de lá,
E os corpos,
E o esposo violento
Retirou o celular da esposa
E não permite contato.
Os integrantes da família dele,
Homens viciados
E vendedores de drogas
Do tipo violento
Ameaçam matar
Quem se aproximar de lá.
Com isso,
Meu efetivo perdeu
5 viaturas e 10 homens.
Agora, implantei o sistema
Pós-crime,
Uma maneira de acompanhar
O delito ocorrido
Mesmo após ter feito
A sistemática de praxe,
Ou seja,
Encaminhar para a delegacia
E o judiciário.
Tempos após
Ter solucionado os conflitos,
Nós fazemos uma investigação
Para denominar
E compreender os pontos
De mais altos graus conflitivos
E as espécies de ocorrências
Que lá ocorrem,
Assim, daremos uma ação direcionada
A segurança policial.
Quanto as viaturas,
Chamamos 15 delas
Fizemos um cerco
Em todo redor da residência
E possíveis casas
Que emprestaram contra
O efetivo,
Recebemos a tiros,
Respondendo da mesma maneira,
Retiramos todas e
Encaminhamos ao pátio,
E as pessoas,
Ou seja, os restos queimados
Foram direcionados
Para os procedimentos funerários.
Penso e busquei ajuda
De meus companheiros policiais,
De grau de comando,
Que haja algo
Muito errado nisto,
Há algo de politicagem
Que implanta este sistema
De justiçamento,
Ou seja, fazer justiça
Com as próprias mãos,
E está politicagem
Está causando um grau crítico
De medo, crime e insegurança
Em todos.
Quanto a este aspecto:
“não sou e nem sei lidar com políticos.
Não tenho habilidade,
digo o que penso
e odeio a injustiça”.
Deste modo,
Recebemos treinamento
Sobre meios inovadores
De cometimento de crime,
Então, soube
Que a moda é o crime cibernético,
Ou seja,
Por meios não convencionais
De internet, telefonia,
E etc.
Com isso,
Apresentei ao chefe
Do estado maior
Os números de delitos
Na região,
E a incompatibilidade
Com a realidade,
Disse a ele:
“São quase 200 mil habitantes,
Tem como existir
Apenas uma chamada
De emergência em nossos
Meios?
Não, não tem.
Algum sistema clonou
Nosso sistema de recebimento
De chamadas emergências,
Estamos todos:
Corporação e população
Em terrível estado de perigo.”

domingo, 26 de outubro de 2025

Movimento Sem Terra: Parcial e Tendencioso

Dona Rosa
Decidiu que Jura
Era filho de Mailson,
Juntou a criança
E seus outros 08 filhos
E se dirigiu para as terras
Dele todos armados
Até os dentes,
Menos a criança
Que ainda mamava
Leite na mamadeira,
Mas, que treinava
Puxão de cabelos,
Beliscão e arremesso
De chupeta.
Chegado lá
O seu Mailson
Já foi negando a paternidade,
Tratou de fechar a porta
Da casa e disse
Que para a criança
Não daria coisa alguma,
E que se Dona Rosa
Queria terras para plantar
E sobreviver já que ela
Nada tinha
Que se virasse
Conforme pudesse
E comprasse o seu cantinho
Em qualquer lugar
Que fosse
Porque as dele nem ao
Menos estavam a venda.
O irmão mais velho
De Jura,
Irritado retirou a arma
Da cinta
E atirou no peito de Mailson
Deixando ele estirado
No chão de casa.
Depois apontou
Contra a cara dele e disse:
“Voce tem muita terra
Ou divide comigo
Ou morre “.
Mailson teve de engolir
A dor, o choro
E o desespero,
Na primeira oportunidade
Fugiu para a cidade,
Chegou no compartimento
De direito Agrário
Se informar de seus direitos
De dono da própria terra.
Sabedor do tiro
Levado por Mailson,
O responsável agrário
Designou duas viaturas
Até a propriedade de Mailson
Para retirar Dona Rosa
E seus 09 filhos de lá.
Chegada a viatura,
A velha senhora
Se armou de alguns
Lampiões antigos
De dentro do porão
Da casa de Mailson
E tacou fogo na viatura.
Feliz e sentada
Na casa de Mailson
Jurou que ninguém a
Retiraria de lá
E que nesta casa
Mailson não seria
Mais bem-vindo.
Correndo a frente
Dos soldados
Mailson gritava
Sem parar
Com as mãos nos cabelos
Em desespero:
“Meu Deus,
A justiça Agrária
É rápida mas precária.”
E decidiu passar
Sua noite na cela
Da delegacia
Sem ter para onde ir,
Sem casa e sem terra
Por causa de algumas
Amaldiçoadas noites
De amor tórrido
Com a Dona Rosa.

Invasão de Terras

Seu Manuel inconformado
Porque morava muito longe
De recursos como saúde,
Alimentação e vestiário,
Já que residia lá no fim
Do município,
Juntou seus cães de caça
E não se importou
Com mais nada.
Chegou nas propriedades
Do Seu Plínio,
Sujeito idoso e solitário
E soltou os bichos,
Não importava-se com mais nada
Ou ele teria a posse de grande
Parte ou toda a terra
Do Seu Plínio
Ou partiriam para as vias
De fato.
Afiou sua foice,
Catou alguns cipos mil homens
Do meio do mato
E montou uma cabaninha ali,
Em pouco tempo
Ele reconheceria os passos
Do Seu Plínio e ganharia
A terra.
No entanto,
Seu Plínio era solitário
Mas esperto,
Ao subir no seu cavalo
Para buscar farinha
No moinho do Seu Edivar
Avistou de longe
Aquela cabaninha
Sobre suas terras.
Correu para as autoridades
Informar sobre a invasão
Antes que fosse tarde
E perdesse suas galinhas
E outros bichos de estimação
Que ouviu falar
“Seu Manuel
Não respira sem
Seus cachorros.”
E tendo os cachorros
Precisaria alimenta-los,
Se tornou evidente o desfecho.
Foi disponibilizado força
Policial para retirar
Seu Manuel de terras
Que não lhe pertenciam,
No entanto, o Ministério Público
Optou por efetuar Negociação
E uso do Diálogo
Para finalizar o resultado
Da ação de reintegração de posse.
Agora,
Seu Plínio e Seu Manuel
Estão intimados
Para comparecer no Fórum
Falar sobre este assunto,
Mesmo Seu Plínio sendo
O dono ele não pode
Agir com força bruta
Contra Seu Manuel,
Exceto de ele se exceder
E ninguém quer brigas,
Nisto todos concordam.
"La no banco
O movimento roubar a terra
Dos outros é livre
E praticado com dinheiro 
Na mão,
Tem até uma plaquinha 
Fora do banco que diz
Financie, realize seu sonho
E penhore sua terra,
No entanto, luto 
Pelo meu chão até 
O final dos meus dias".
Disse Seu Plínio 
Ansioso para pôr Seu Manuel 
Longe da terrinha dele.

Fábula dos Porcos Assados

Já dizia o professor Edivar
Na fábula dos porcos assados
Planejava-se com antecedência
Tudo que determinada população
Iria fazer:
Primeiro escolhia as melhores sementes,
Depois prepara a terra,
Então, as plantava
Para regar por algum tempo
Até que formava-se ali
Um bosque.
Com isto,
Os porcos criados soltos
Na terra nua
Encontravam alimento
Da própria terra,
Ao adquirir porte grande
Eram cercados em determinada
Parte do bosque,
E era ateado fogo ali
Para assa-los
E utiliza-los para alimento.
Com o tempo,
Um indivíduo de fora
Daquele lugar
Ao chegar ali
Achou o método estranho
De agir.
Preferiu criar os porcos
Na terra nua,
Porém, dentro de um cercado,
Nisto, ao adquirir um tamanho
Grande o bastante
Reunia-se a população local
Matavam-se os porcos,
Limpa-se sua carne,
E ao invés de queimar todo o bosque,
Retirava-se dele
Apenas algumas árvores
Para usar a madeira como
Combustível do fogo.
O sistema funcionava
Da seguinte maneira:
Cortava-se a lenha,
Separava a madeira
Para o fogo,
Desta maneira
Cortava-se quatro galhos
Maiores,
Fazia-se quatro buracos
No chão onde eram
Enfiados os 4 galhos,
Sobre os pares de galhos
Fincados no chão
Se colocava outro em cima,
Então, cortava-se
Outros galhos finos
Onde era fisgada a carne
Dos porcos mortos e limpos,
E colocados os respectivos galhos
Com a carne limpa
Sobre os dois galhos do alto,
Embaixo da carne
Acendia-se o fogo
Com a madeira restante
E os gravetos.
Só então, a carne era assada
E distribuída para a população.
Inconformados com a mudança
No sistema
A população se juntou
E reclamou da mudança,
Alegou que agora
Haveria falta de emprego
E que o modelo antigo
Era posto em prática
Por muito tempo
E ninguém queria mudar.
Contudo, o modelo novo
Se mostrou mais eficaz
Em distribuir a comida
Para alimento
E isto proporcionou mais saciedade
E economia de matéria prima.
Porém, a partir das modificação
Do sistema antigo,
Surgiu a necessidade
De implantar um posto policial
Para ouvir as reclamações
E acalmar o povo
Que acostumado com as coisas
Como sempre foram
Não queriam mudar,
Estavam habituados
Com o jeito como tudo
Sempre funcionou.
E já não entendiam
Que ao incendiar o bosque
Como anteriormente
Colocavam a vida da população
Em risco,
Inclusive as moradias,
Pois as vezes,
O fogo fugia do controle
E costumava queimar
A residência da Dona Alice
Que saia desesperada
Para fora de casa,
Chacoalhando o vestido
E o avental sujo de farinha
De fazer pão,
Tropeçando pela escada
Fugindo com o cabelo
Ao vento,
Escurecido de fumaça.
As razões apontadas
Para o fracasso do sistema antigo
Utilizava-se principalmente
Das seguintes alternativas:
“à indisciplina dos porcos,
que não permaneciam onde deveriam,
Ou à inconstante natureza do fogo,
tão difícil de controlar,
ou ainda às árvores, excessivamente verdes,
ou à umidade da terra,
ou ao serviço de informações meteorológicas,
Que não acertava o lugar,
O momento e a quantidade das chuvas…
Por este e principalmente
Por causa da Dona Alice
Tudo mudou,
Mas, o Seu Dirceu fugiu
Para os lados opostos
Com alguns porcos,
E todos sabem:
Irá lutar até às últimas forças
Para manter a queima do bosque,
Disse que desde menino era assim,
E na época do seu pai,
Também foi assim,
E nós tempos do avô também,
E está pouco de importando
Com seus chumaços
De cabelos queimados,
Ou as altitudes do fogo
Sem controle tomando todas
As árvores
E seguindo até as alturas.
Contudo, o delegado
Chamou o professor Edivar
E agora eles vão trabalhar juntos,
Está assinado e determinado:
“O sistema antigo é falho
E sua revitalização vai recuar”.

Justiça sem Justiçamento

A vontade do ser humano
Deve ser a extensão
Da vontade de Deus,
De maneira,
Que ao escolher um tempo
Para rezar,
Tenha sempre a certeza
De que Deus está presente
Para iluminar.
Cada dia
É uma nova oportunidade
De fazer melhor que antes
E manter os bons costumes,
Fazer justiça
Sem justiçamento,
Saber que Deus
Está sempre ao lado
De cada um
E que no instante
De sentir-se fraco,
Deus é forte o bastante
Para recarregar
As forças de quem precisar.
Ter um caminho seguro
E íntegro é escolha,
Porém, fazer justiça
Não é julgar os erros
Dos outros,
Fazer justiçamento
É estar em desacordo
Com os preceitos de Deus.
Condenar aprisiona a mente,
Justiçamento é fugir do controle,
Extrapolar os intuitos de Deus,
Deus é compassivo,
Compreende o erro,
Não condena,
Não aprisiona,
Não faz justiçamento,
Pertence a lei condenar,
Pois Deus é perdoar.
Cada ser humano
Deve seguir em acordo
Com a vontade de Deus,
Ser justo sem justiçar,
Compreender suas limitações,
Suas necessidades de luz
Sobre suas ideias
E que sempre é possível
Recarregar as forças,
Sempre abre-se as portas
Para o perdão.

Os Balões dos Erros

Certa vez,
Discuti com meu irmão,
No calor da conversa,
Eu lhe desferi um tapão
Forte contra seu rosto
Que estalou,
Virou de lado
E nos fez chorar.
Uso aqui o nós,
Porque meu pai
Juntou um chinelo
E bateu contra minhas pernas,
Depois nos colocou próximos.
Juntou uns dez balões
E os encheu com ar
E glitter colorido,
Após encher ele colou
Uma fita dupla face
E colou os balões
Em nossas camisetas compridas,
Falando o nome
De cada erro ou pecado
Que cometemos
Um contra o outro.
Foram muitos,
Nossas camisetas
Pesaram e chegaram
Aos joelhos,
Depois ele disse:
“Filhos, caminhem”.
Nós seguimos na frente dele,
Chorando de medo
E imaginando quando
Ele nos bateria
Com o chinelo dele
Outra vez.
Caminhamos tanto
Que nosso medo
Apenas cresceu,
Chegando um tanto longe,
Incapaz de olhar
Para trás
E ver se ele nos seguia,
Começamos a olhar
Um para o outro,
Depois, de nós encorajar
Decidimos olhar os dois juntos
E justamente,
Logo atrás de nós,
Estava ele
Com o chinelo nos pés.
Então, estremecemos
De medo e juntamos
Nossas mãos,
Tudo que queríamos
Era não apanhar
Nem de chinelos
Ou de qualquer outra coisa.
Então, ele nos pediu
Para parar e explicou:
“Sempre que vocês
Carregam erros com vocês,
Os erros de tornam evidentes,
E logo, logo,
Todos serão capazes de ver
Porque se tornaram públicos,
Nisto, vocês sujam seus caminhos
E ao seguir a mesma estrada
Sempre irão ver eles
Sendo reconhecidos
E recordados,
É só estourar cada balão
E será perceptível que os erros
Se espalharam,
E vocês serão culpados
E eu também serei
Pois não terei lhes ajudado
A superar e aprender
O suficiente.
Pesados de erros
E pecados ninguém segue
Muito longe,
Com o caminho sujo
E prejudicado
Ninguém alcança o sucesso,
E eu não serei um bom pai,
Nem vocês bons filhos.
Precisamos seguir unidos,
Amar um ao outro,
Nos perdoar
E ser sinceros.
As vezes,
Algumas coisas
Se espalham tanto
Que ganham proporções
Incapazes de ser contidas,
E vocês viram
Que mediante o medo
Vocês souberam buscar
A amizade um do outro,
É assim que deve ser
Desde o início,
Seguir juntos,
Com amor um pelo outro.

Amar Deus

Deus não é mais importante
Que as pessoas,
Escolher um tempo
Para dedicar a religião
É bonito e vem de eras,
Contudo, achar que eleger
Um ponto de vista
E colocá-lo acima de tudo
Não vem do sentimento
Amar a Deus.
Um amor por religião cego
E rígido demais consigo próprio
E com os outros é um erro,
Faz mal,
E vai contra amar a Deus.
Amar a Deus
É amar as pessoas,
Entender a religião
É ser tolerável com o outro,
Respeitar suas paixões,
E valorizar suas virtudes.
Todo o amor cego
É um amor burro,
E nunca atinge seu alvo
Pois se torna medíocre,
Dá a Deus
Um sentido pejorativo.
Deus é amar o próximo,
Amar a Deus
É ser benéfico,
Entender a divergência
Nas palavras,
Nos atos,
E não julgar
Como se você mesmo
Fosse perfeito,
Ninguém é.
Há sempre o arrependimento
Enraigado em todo discurso
Ou brigas com quem você ama,
Seus amigos
E as pessoas que são próximas,
Também fazem parte de sua família
E Deus precisa ser amado
E amar a Deus é amar as pessoas.
Pensar em Deus
É pensar no outro
Com carinho,
Amar Deus
É amar o outro,
Deus é feito de compaixão
E amor ao próximo.

Apelo Contra a Violência

Mulheres,
Apoiem-se,
Os braços de um homem
São sempre maiores
Que os seus,
Eles alcançam seu rosto
E seu corpo
Para te agredir
E por mais
Que vocês se esforcem
E acreditem em vocês
Vocês não deram capazes
De alcança-los.
Me envolvi
Num relacionamento destrutivo,
Eu não fui capaz de ser mãe
Mas, ele bateu na minha cabeça,
Quebrou meu braço,
E me jogou para meu pai
Terminar o que ele iniciou.
Não aceitem meias pessoas,
Não achem que vocês
Irão gritar
E eles irão te ouvir,
Não,
Eles irão se irritar
E espancar você
E isto leva a morte.
Enquanto vocês tentam acerta-lo
E se desvencilhar de seus braços
Eles já bateram contra
A sua cabeça
E você morreu
Por ter sequelas
Ou devido ao próprio ato.
Por favor,
Não se vendam por nada,
Não tenham filhos
Destes tipos.
#ApeloContraAViolencia

Os Intocáveis Violentos

“porque não veio água
Pra você,
Você vem me incomodar
Aqui em casa,
Eu não sou rio,
Eu não sou rio”.
Foi a resposta do meu
Próprio pai,
Sangue do meu sangue,
Meu sobrenome.
Há três dias
Sem ter água para beber,
Manter a higiene
Ou me alimentar
Ele diz isso.
Tá bom,
Ele casou-se
Com uma que não é minha mãe,
Tá certo,
Ele tem água
Para ele,
Tá bem,
O Rahat Ahmed
É rico e não me dá água,
Ok.
A vontade do meu coração
É te-los mortos.
Que Deus me perdoe,
Este não servir
Para esposo,
Que Deus me perdoe
Está estranha
Não servir para minha mãe,
Que Deus me perdoe
Meu próprio pai
Me abandonar,
Que Deus me permita
O livramento
Me envie a morte,
Eu não quero
Mais ve-los.
Ok, Deus,
A família Ahmed
São em cinco
Intocáveis e nunca mexidos,
Os leve para distante
De mim,
Eu sei , eles são ricos
Estão acima das minhas palavras
Aonde não chegam os meus pedidos.
Deus,
Você acha justo
Tudo isto que sofro?
Eu já fiz aborto,
Faz com que ele
Não me toque,
Deus,
Em Seu santo nome
Por favor.
Cortou,
Hoje e agora
Relações com meu
Próprio pai,
Sigo sozinha,
Me perdoa Deus,
Porque os Ahmed são intocáveis?
Há neles nome santo?
E ações, Deus,
Quais te favorece?

sábado, 25 de outubro de 2025

Em Frente

Na minha vida
Houveram perdas,
Algumas que acho
Que nunca poderei superar.
Mas, eu luto
Pelo que aprendi
Com elas
E não deixo de lutar
Por elas.
“O Coronel tombou”.
Disse o soldado,
Quando cheguei naquele corpo
Quase irreconhecível
De tanto sangue
Que tinha sobre seu uniforme.
“O Coronel caiu.”
As palavras que chegavam
Aos nossos ouvidos
Enquanto estávamos ali
Inertes não definiriam.
“O Coronel está morto”.
Eu juntei coragem
E disse ao buscar seus batimentos.
“Este coração deixou de bater”.
Eu continuei
Levantando e olhando
Para cada um.
Foi necessária a guerra
E ele marchou a nossa frente,
Matou inimigos,
Defendeu seus ideias,
Mas, o tiro veio,
Não se sabe de quem
E o levou.
Contudo, seguimos.
“Dois levam o corpo,
Os demais ficam”.
Eu poderia fugir
E me prender a dor,
Eu poderia desistir,
Não há vigília,
Acabou.
Mas, olho para aquele
Corpo que hoje segue amparado
Que preciso seguir,
Para onde ele vai agora
Precisam de nós,
“Ou a guerra rompe aqui
Ou lá atrás,
Rompe sobre aqueles que deixamos “.
Seguimos.
Os que sobraram.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Player Game

Querido,
Que caminho você segue,
Marchando a olhos cegos,
Segue reto a linha no horizonte,
Você não é capaz de ver,
Eu aqui a espera-lo,
Ansiar por um pingo
Do seu suor?
Não,
Isto não é um jogo.
E está sua lâmina
Solta ao lado de sua perna,
Não irá feri-la,
Não se levantara,
Mas me tira o sangue,
Me deixa a esmo
Nesta calçada,
Espada em punhos,
Mão no peito,
Você segue o quê,
Não é capaz de me ver?
Não, isto não é um jogo.
Mão dupla,
Fio afiado,
Dois gumes apontados
Para rumar o horizonte,
Cabo firme entre os dedos,
Não lhe pesa o que sinto
Sobre estes seus músculos
Moldados no ferro
E na minha impaciência?
Não,
Isto não é um jogo.
Você segue
E eu, permaneço?
Calça comprida até o tornozelo,
Terno asseado,
Aceite-me,
Eu rodo e hei hei hei,
Estudo e hei hei hei,
Aceite-me,
Vamos juntos
Eu sou capaz de acompanha-lo,
Aceita a honra
De eu poder marchar
Ao seu lado,
Estender a mão a você,
Apertar sua mão quente Coronel,
Não,
Isto não é um jogo.
Rodo, rodo e rodo
Sem parar.
Eu posso apertar sua
Mão esquerda,
Marcho deste lado
E você me mostra o caminho.

Solidão

Eu vejo seu vulto,
Me perco em memórias,
O tempo passa,
As lembranças vão junto.
Queria ter seu abraço,
Manter contato,
Entre tantas notícias péssimas,
Por que você não é aquela
Que me fez bem,
Se eu tenho curiosidade
E quero saber de você.
Eu o vejo tão humano,
Distante de mim,
Inseguro,
Eu não sei bem o que houve,
Mas, parece que sem você
Não há um futuro
Em que eu confie.
As pessoas ainda
Querem ter respostas
Para a minha vida,
Decidir quem vai e
Quem fica,
Eu não gosto disso,
Preferia que desta vez
Eu pudesse ter escolha
E tê-lo comigo.
Por quê
O que dizem é tão importante,
Por quê fica acima
De nós dois?
Por quê fomos impedidos
De estarmos juntos?
Eu queria tanto o seu abraço.
A solidão é pior que veneno,
Fere a casa dia que chama o nome,
Ou quando se mantém calada?
É como uma sucessão de ferimentos
Onde cessa o mais superficial
E mantém-se o outro,
Solidão é ruim,
Você ainda é meu socorro.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Tédio dos 36 anos

Hoje eu dormi bem,
Queria ter dormido mais,
Acordado sem dores,
Ter movimentos mais rápidos,
Mas, a idade chegou,
São 36 anos de dores
Por toda parte.
Uma vida bruta,
Repleta de trabalho
E esforços desmedidos,
Levou a mocidade,
Deixou cabelos brancos.
Foi estranho,
Mas, eu me vi afogada,
Aí como cada dia
É um esforço
Eu fiz um movimento
De puxar os músculos do pescoço
Para cima
Como se respirasse
Profundamente
E tentasse mover
Minha cabeça
O máximo possível.
Nisto, eu senti sair
De uma espécie de veia,
Creio que vazia
Que localiza-se do lado
Esquerdo do meu pescoço
Um líquido com algo
Como sujeira,
Como eu estava doente,
Com a narina direita trancada,
Eu puxei aquilo para a boca
E engoli
Sem ver o que era.
Anteontem,
Eu assoei o nariz
Com força,
Movendo músculos desde a coluna
Até chegar ao nariz
E expeli muco nasal e sangue.
Eu acho que
Das muitas vezes
Que entrei na água
Ou no banho,
Eu me afoguei,
De algumas sei,
E então, só agora
Estou me livrando dos resquícios.
Sinto fortes dores de cabeça
E nos músculos,
Assinado a empresária
Dona do estabelecimento
Que nunca funcionou
Sem eu estar aqui dentro,
Mas, que hoje confia
Em seus subordinados
E lhes apresenta atestado.
Beijos,
Fui pra loja de calçados
Comprar uns dois saltos altos
Porque mereço.

Por trás da Prisão

O policial fez blitz,
Assegurou alguns figurantes,
Me fez sinal de pare,
Estacionei e liguei o alerta.
Ele aproximou-se,
Bateu duas vezes
Com a traseira da mão fechada
Contra meu vidro...
Lá na cidade onde eu moro,
Eu tirei uma fotografia legal,
A garota do cara fardado
Não gostou do meu estilo,
Decretou minha morte,
E perdição do meu caráter.
Se infiltrou no sistema policial
E mandou a ordem:
“Prendam-na,
Este modelo de relógio
Que ela contrabandeou
Do Paraguay custa 24 mil”.
A informação era para ele segura,
Eu abri o vidro
Consciente da minha inocência,
Eu comprei na minha cidade
O relógio,
Não provinha do outro país,
Ele não quis ouvir,
Pediu nota fiscal,
Era usado,
Eu não tinha ali,
Como iria provar.
Ele se irritou
Mediante poucas palavras
Da tal moça
Em seu rádio
Pendurado a esquerda
De seu uniforme,
Levou a mão para dentro
Do carro,
Empurrou minha cabeça
Contra o volante,
Deu voz de prisão
E me tirou de lá algemada.
Nisto levou minha
Pequena mala de compras,
Eu tenho uma lojinha
Num bairro afastado da cidade,
Sobrevivo do que vendo,
Ele não quis saber,
Prendeu a mala e o que tinha
Dentro:
Maquiagem, roupas íntimas e etc.
Chegou minha denuncia
No Ministério Público Federal,
O valor equivalia a 24 mil
E um pouco mais,
Ocorre que 20 mil era suficiente
Para me manter lá,
Atrás das grades federais.
Estilo criminoso em potencial
Vestindo minha calça
Jeans colada azul,
Minha camiseta da Xuxa,
E o tênis de pisca pisca
Da promoção.
Tive o cabelo cortado,
Raspado até as orelhas,
Lá no presídio as garotas
Que entrar pegam piolhos
E pulgas,
Eles precisam manter
Este estilo de corte
Contra infestação.
O policial me ferrou,
Da sala dele
Ele toma seu café quente,
Eu me gelo aqui
Sentada neste chão frio,
Ele sorri,
Faz pose de abrir as pernas,
Eu consigo enxerga-lo.
Minha mãe deve estar
Sentindo minha falta,
Meu pai deve estar preocupado,
Há meses que não abro a loja,
Vou perder clientes,
Atrasar pagamentos respectivos.
Ele sabe disso,
Sorrindo e seguro
Anda até minha cela,
Agacha-se até o cheiro
Do seu café quente
Chegar às minhas narinas,
Me olha,
De olhos abertos e seguros,
Abre o zíper da calça,
Põe sua mão para dentro
Das grades,
Pega na minha nuca,
Eu nem olho,
Senti o cheiro...
Abre-se a possibilidade
De uma ligação para meus pais,
Eu preciso informar
Que estou viva,
E apenas presa,
Eu preciso de advogado
Em quem possa confiar,
Necessito de dinheiro,
Olho para seus olhos,
Agachada naquele chão,
É meu único meio,
Não peço tempo,
Meço esforços
Ou pouco me disponho.
Eu jamais irei dizer
Que não chorei
Quando aquele policial 
Pegou a maquininha
E passou no meu cabelo 
De baixo para cima,
Eu contei cada fio 
Do cabelo comprido escuro
Que caia sobre meus dedos
Naquele chão gelado,
Poucas passadas
Não sobrou nada,
Nem minha dignidade,
Repensei muito nas lágrimas 
Que caíam,
Nos fios que se misturavam,
Tentei fugir,
O rapaz,
Aquele mesmo que abriu o zíper,
Nem levantou de sua mesa,
Me viu tentar sair pela 
Porta da frente,
Como se eu fosse alguém normal,
Com aquele cabelo raspado,
O corpo ferido,
Ergueu a arma e atirou.
Quando cai de cara no chão,
Boca no piso,
Saltando sangue
Na minha frente 
Percebi que não xupo tão bem,
E a chave não foi esquecida 
Lá na fechadura por acaso.
Eu esperei pelo segundo tiro,
Aquele contra a minha cabeça 
Que estouraria meus miolos,
Mas ele preferiu me ver
Morrer sobre meu próprio sangue,
Afogada na dor,
E na distância,
Meus pais, talvez, nunca 
Irão saber disso,
Eu não pude avisa-los
Que aqui desfaleci.

Tempo Fracionando-se

Alcança-se o obscuro,
O ideal é ficar no seguro,
Agarre-se,
Proteja-se,
Somos poucos,
De milhões,
Hoje conta-se nos dedos,
E estamos a cair,
Despencar no abismo
Do desconhecido
De onde não há retorno.

Ora, mas, se não houver reação,
Não nos mostrarmos,
Optar pelo silêncio,
Olhos cegos diante da multidão
Que se abre
E predispõe,
Ainda que sobrevivamos
Estaremos mortos.

É isto que estou te mostrando,
Veja,
É mais que destino,
É questão de tempo,
Muito pouco tempo.

Será?
É tudo tão certo
Quanto se acredita,
Tão ordenado
Quanto se queira.

Veja,
Já não há segurança,
O escuro ilumina-se,
Queiramos ou não
Estamos expostos.

Diante disso,
A melhor maneira é reagir,
Sair das sombras,
Enfrentar o inevitável.

Mas, eu não quero perder,
Eu não vou enfraquecer,
Demonstrar fragilidade
Aos olhos de todos?

Me recuso,
Eu sou o que não cai,
Sou o superior
E mais que isso,
Há nisto tudo um erro.

Então, note,
Cadê o erro?
Podemos sair juntos,
Unir esforços,
Entregarmo-nos.

Contudo, você tem seu grupo,
E eu o conheço
O bastante...

Assegure-se,
Nos assegure,
Há aqui,
E só aqui,
O meio.

Não trata-se de facção,
É questão
De tempo,
Números,
Um relógio que corre
Os ponteiros,
Fração,
Só isso.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Irremediavelmente Sua

Chega a madrugada
Alguém bateu palmas,
Eu me mantenho calada,
Cansei de ligar,
Desisti de chamar,
Desta vez,
Terá que se esforçar,
Do contrário
Desistirei de ser sua.
Mas, este homem
É daqueles que
Não desiste fácil,
Ele insiste,
Pula o portão,
Chega até a porta
E bate,
Três vezes,
E me chama.
Eu me mantenho calada,
Busquei demais,
É sua vez agora,
Ele empurra um pouco,
Força a porta,
Ela abre ele entra,
Então, chama meu nome.
Eu viro o rosto
Para o outro lado,
Estou no quarto,
Deitada e imóvel,
Me enrolei em partes
No acolchoado,
Pra garantir a palavra
Usei uma meia em casa pulso,
Estou amarrada,
Nada me fará ligar,
Ou possibilitará.
Até quando?
Até enquanto ele estiver fora,
Um dia
Ou alguma hora
Irá voltará
E aqui mesmo,
Nua e sedenta
Estarei a sua espera.
Ele cansa,
Deixa a sala,
Entra no quarto,
De súbito
Leva a mão a boca,
Nos seus doces lábios rosados,
“esta amarrada?”
Ele pensa e indaga:
-alguem invadiu a casa?
Eu me viro,
Então, o vejo,
De camisa colada e negra,
A marcar o corpo forte,
Os cabelos esvoaçados,
A calça cáqui apertada,
Quase colada,
Um convite irresistível.
-Não , não foi invadida.
Eu respondo
Olhando diretamente
Para seu zíper,
E desejando ardentemente
Que seja aberto.
Abro as pernas,
O espero
Algemada e arfante,
Ele chega,
Aproxima-se
Joga os dois braços
Ao lado do meu corpo
Apoiado nos seus antebraços,
Depois sobe até chegar
Aos meus lábios,
 Cola o corpo sobre o meu
Terrivelmente vestido,
Incapaz de reconhecer
O efeito de seus olhos azuis límpidos
Tão perto dos meus.
Eu mergulho
Minha boca sob a sua
Como se ganhasse o infinito,
Absorvo seu beijo,
Colo minha barriga nua
Em seu corpo,
E tendo me esfregar
Até que ele remova a roupa.
- por quê você está algemada?
Ele indaga sobre minha boca.
- você disse pra não ligar.
Ele ri,
Retira a camisa,
Depois a calça,
Então abaixa a sua cueca
Branca encardida,
E expõe tudo que quero.
A noite corre,
Perto do amanhecer
Terminamos o contato
De amor,
-preciso ir,
Sou casado.
Ele diz.
- ok, me mantenha assim,
A espera-lo,
Não ligarei.
Eu digo.
Ele ri muito,
E sai pra fora feliz.

Na limpeza do pátio externo

Quando se tem um sonho
A gente o busca,
Suporta os obstáculos
E persiste até alcançar.
Foi assim com nós,
Adquirimos nossa Chacrinha,
Com alguns metros de terra,
Depois ampliamos o tamanho,
Gostamos da vida na roça,
Limpamos nosso chão,
Deixamos a mostra a terra marrom.
Depois encontramos
Uma graminha bem bonita,
Porém, com pouca quantidade,
Separamos de pé a pé
E o colocamos no chão,
Rendeu muitos metros,
E conforme pegou as alastrou.
Daquela que se alastrou,
Retiramos um pouco
E fomos se espalhando,
No entanto, hoje limpando
O gramado retiramos as folhas secas,
Uma cobra se escondeu embaixo,
E por pouco
Muito pouco,
Ela não picou nossa mão,
Ela era amarela por baixo
E escura por cima.
Fina e grande,
Enrolada como se fosse
Uma corda velha
Perdida e esquecida,
Muito esperta ela,
A cada dia mais me admiro
Com a quantidade que há.
Mas vale a pena,
Para viver a tranquilidade
Dos nossos dias,
Vale a pena superar,
Nós a pegamos e matamos
Para evitar que entre
Dentro de casa
Ou nos peguei de surpresa.
Cobras são fatais,
Mesmo as pequenas,
Finas ou aparentemente inofensivas,
E elas são espertas e rápidas
Em segundos pulam
Contra nós
E não há alternativa.
Eu opto pelo fim delas,
Outro dia,
Uma estava estendida
Sobre o escaibro da casa,
Ela percorriam aquela madeira
Que segura o foro
Acima das nossas cabeças,
Dentro da sala.
Nós estávamos abraçados
Deitados no sofá
Assistindo a televisão,
Então, ela saiu da cocheira
Da casa e percorreu aquela
Madeira fina,
Sobre ela,
Sendo ainda mais fina
Conforme seguia.
Ela se camuflava,
Mas a notamos devido
Ao fato de ela ser da cor
Mais escura que a do escaibro,
Por pouco não cai
De lá sobre nós,
Ou se joga com a intenção
De picar.
Ela veio buscar alimento,
E o alimento éramos nós,
Imaginei se ela estava
A nós preparar uma emboscada,
Está ideia me soou terrível,
No escuro não a teríamos visto,
E tão fina,
Não se distinguia da madeira.
Agora, ao refletir sobre a cor
Daria para apostar
Se tratar da mesma espécie,
É provável que haja
Um ninho próximo.
Ali, próximo a grama
Onde hoje limpávamos,
Encontramos alguns galhos secos
E embaixo dele havia
Um ninho de galinha com ovos,
Eu disse
“Amor, aqui escondido
A galinha poderia ter sido picada,
E alguns dos ovos terem sido comidos,
É muito provável que próximo
Daqui haja cobra”.
Limpamos ali
E deixamos apropriado
Para a galinha se sentir
E estar mais segura,
Próximo ao pé de framboesa,
Logo após,
Sobre as folhas secas
Encontramos a cobra
Foi simples,
Mas, eu quase a toquei
Sem tê-la visto,
E ela estava enrolada,
Imaginei que ela me avistou primeiro,
Mas meu esposo
Foi muito mais rápido.
Retiradas as cobras,
Aqui não há lugar mais lindo
E quanto mais o tempo passa,
Mais perfeito fica.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Oi Zé

Eu não sabia
Que a sua boca mente,
Eu só sabia que a solidão
Que só me fez chamar tu,
Que só me fez ligar tu,
E o seu amor me faz tão mal
De solidão,
Que só me fez buscar tu,
Que só me fez querer tu,
E o seu amor me faz real,
Sem solidão.
Oi Zé,
Pois Zé,
Eu vou amar eternamente,
E a solidão
Só me faz chamar tu,
Só me faz acreditar em tu,
E o seu amor me dá paixão.
Oi Ana,
Eu só sabia
Que a tua boca sente,
Eu só temia
Este amar por um instante.
Oi Zé,
Pois Zé,
De solidão
Eu não vou mais chorar
E tu,
Eu não vou mais gritar
E tu,
Eu não vou mais sofrer.
De solidão
Eu não vou mais viver
E tu,
Eu não vou enfraquecer
E tu?
Acho que também vou
Superar.
Eu não sabia
Que a tua pele ardia,
Eu só sabia
Que sozinha enfraquecia,
Então, se a tua boca mente
Não tire o uniforme
Siga e vá em frente,
Me sinto firme
Estou disposta a ser mais forte
Sem a solidão
De quem não pode estar presente,
O chuveiro está quente,
Decida-se se Zé,
Pois Zé.

Saudades Valdez

Meu querido Valdez,
Se não conseguiu
Dormir noite passada,
A culpa é minha,
Faz três noites
Que não durmo
E o chamo.
Desculpa, eu decorei
Seu nome para as noites insones,
Mas, um dia você desistiu
De dar atenção a este fato,
Me perdoa,
Para as noites de medo
Eu decorei seu telefone,
Mas, sei,
Você já não atende.
Eu recordei seu corte
De cabelo,
Então, para espantar o medo
Eu cortei o meu bem curto,
Se você me ver por aí
Nem saberá que sou eu,
Afinal, você já me esqueceu?
Quando rememoro
Seu rosto
Meu peito sente dor
E medo,
São tantas pessoas
Que se espelham em você
Para os instantes de medo
Que eu sou agora
Só mais uma delas?
Algumas dizem:
“Morreu”,
Eu fujo do meu reflexo
E penso:
“feito eu?”
Foram 365 dias de espera
E escrita,
Talvez menos,
Talvez, mais tempo,
Que importa?
O chamo agora.
Sinto dor,
Sinto medo,
Não queria dormir
Se isto lhe trouxesse,
Você desistiu de mim?
Eu fiquei na saudade,
Ah, por favor,
“Nada de gozadas fortes.”

A Dona

“filha, você tem que trabalhar “.
Disse meu pai,
Me abraçando pelos ombros
Em pé ao meu lado,
Enquanto eu estava sentada
Sobre um toco caído de madeira.
“Por que pai?”
Eu indaguei,
Me sentindo perplexa
Ante a ideia.
Eu olhei para a frente
Do terreiro,
Estava sujo de palha
De triar milho
Na triadeira,
Eu vi ali sentados
Alguns amigos
Que nunca trabalharam
Oi trabalhariam,
Eles sobreviviam
Bem melhor que nós,
Roubando os outros
E matando provas de seus roubos.
Enquanto nós precisávamos
Varrer aquele chão,
Cuidar do seu redor,
E plantar uma roça.
Então, meu pai me conduziu
Até a beira do rio
E disse:
“Porque aqui é meu,
E lá, o rio e este porto
Tão bonito,
Também é meu”.
Eu olhei para o porto
Cheio de pedras da água,
Uma água limpa,
Um rio enorme
Onde peixes pulavam
E o ar era tão puro
E pensei:
“So isso?
Dono de um rio
Que em sete dias de cheia
Da água
Tudo se inundaria
E as próprias pedras
Seriam levadas.”
“Aí, toda a beleza se perde”
Eu disse a ele.
Ele olhou naquela direção
Para onde eu olhava
Para ter este pensando
E disse:
“Mas é seu”.
Nisto, o prefeito
Para o qual ele fez campanha
Se elegeu democraticamente,
E agora, ele estava sobre o pneu
Da patrola limpando as estradas
E as refazendo.
Nisto, meu pai veio
Cumprir sua promessa
De campanha e passou
A ajuntar as pedras da via pública,
As da beira da calçada
E retira-las de lá.
Com isto, ele evitou represálias
Contra o novo prefeito
Que seria ofendido
Por sua escolha
Em optar por iniciar
Os trabalhos no município
Neste local ou em outro.
Sempre havia
Quem reclamava,
Os que provaram
Que determinada estrada
Tinha mais urgência
E outras coisas.
Com isto,
Ele criou um novo emprego
E proporcionou oferta de trabalho
Aos munícipes,
Hoje, todos os municípios
Tem pessoas especializadas
Pela limpeza das vias,
E com o decorrer dos anos
Foram seguindo para adiante,
Até chegar às grandes avenidas.
O rio deixou de ganhar dejetos,
E outros tipos de lixo,
E meu pai não precisa
Trabalhar tanto
Para manter uma terra
Da própria família
Limpa e em seu poderio.
Outros, abriram suas terras
E venderam em partes
Para estranhos
A preço de mercado
Ou alcançado...
Hoje eles possuem
Um prédio na cidade
E algum dinheiro
No banco para gastar,
Mas, meu pai prefere
Cultivar a terra
E evitar que de dona
Eu seja a andarilha
Que rouba para sobreviver.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Boneca Descabelada

Sempre que olho
Para meu passado,
Eu percebo que não merecia
Meu pai,
Na verdade
Nem minha mãe.
Ocorreu que ela tinha 16 anos,
Ele um pouco mais que
O dobro desta idade,
Em certo dia,
Ela estava passeando
Na casa de vizinhos,
Quando cruzou por ele.
Naquela data,
Ele estava tomando chimarrão,
Com as pernas estendidas
Sobre o corrimão do redor
Da área da casa.
Ao vê-la,
Ele coçou o saco,
Com a mão cheia,
Como se dissesse a ela:
“Tenho”.
Ela baixou a cabeça
E seguiu caminho,
Deixando os cabelos
Cobrirem o rosto
Como se dissesse:
“ Não vi”.
Sua irmã mais velha
E casada,
Mãe de família olhou,
Fez questão de mostrar que viu,
Arregalando os olhos,
Como se buscasse ver
E nem enxergasse
Como se dissesse
“pequeno”.
A mãe dele olhou
Detrás dele,
A dona Maria,
Senhora respeitada
Naquele lugar ermo
De um município pequeno,
E bateu palmas
Fingindo que tirava a erva
Que havia caído
Em suas mãos
Próxima a cabeça dele
Como se dissesse
“Parabéns”.
Soou as suas
Com efeito de ameaça.
E ele gostou,
Montou em seu cavalo,
Convidou seu cão de guarda
E as seguiu.
Lá em certa lugar da estrada
Onde não havia ninguém
Ele as esperou,
No mato sentado,
Acariciando o pênis
Enquanto o cachorro sentava
Próximo a beira da estrada
E o cavalo pastava mato verde.
Ao passarem as duas,
Galvão olhou-as e se levantou
Rápido dizendo:
“Dete, vamos transar?”
Então, a puxou pelo braço
Na direção daquele mato
Até próximo a uma moita verde
De um metro de altura.
“ não, ela é casada”.
Respondeu minha mãe,
A Marly.
Ele riu alto
“não sejam tímidas
Eu dou conta das duas”.
Mas, a Dete desgostou,
Puxou o braço
E se desvencilhou
Depois lhe bateu no rosto
Com as costas da mão.
“Deselegante”.
Ela disse
E retornou até a estrada.
Amedrontada em casa,
Marly sentiu vergonha
De lembrar do episódio,
Então, pegou um pote vazio
E se dirigiu até a casa de Galvão
Para buscar erva emprestada.
Chegando lá
Encontrou Galvão organizando
O cavalo amarrando-o
Em uma laranjeira
E retirando o apeiro.
Ele sorriu ao vê-la.
“Boa tarde?”
Ele falou sorrindo.
Ela devolveu o sorriso.
Ele usava calção verde
E estava desnudo no mais.
“vamos dar uma volta
De cavalo,
Você irá gostar”.
Ele falou.
Ela sorriu mais ainda,
Achou a ideia convidativa,
Vez que ninguém
Se irritaria com o incidente anterior,
E não haveria conflitos
Entre vizinhos.
“Boa tarde”.
Ela respondeu.
“Gostaria, sim.”
Ela disse,
Aproximou-se e ele
Subiu no cavalo
Depois a ajudou a subir
Na garupa do animal.
Depois ela soltou o pote
Vazio no chão de terra seca
E o cavalo seguiu.
No caminho Galvão virou-se
E pediu a ela um beijo,
“Claro”.
Ela respondeu.
Então, ele a puxou
Para a frente do cavalo
E naquele único ato
Eu fui feita.
Irritado meu avô
Exigiu de Galvão o casamento,
Frente a recusa dele,
Ele retirou uma arma
De dentro do calção
E atirou em sua perna.
“Assuma ou morre,
Ela era inocente
E a honra lava-se no sangue “.
Feito o casamento,
Alguns parafusos na perna,
Uma casinha num canto
Da roça,
Uma cama,
Um fogão a lenha,
Umas cadeiras e uma mesa.
Mais nada.
Sem festa ou comemoração,
Tratou-se de reparar danos
Psicológicos e morais.
Dona Marly, agora era senhora,
Fez-se cedo mulher casada,
O nome de sua família
Não podia ser jogado na lixeira
E ela ser feita de trouxa
Por se entregar a última homem
Que lhe fazendo um filho
Na barriga a desonraria
A abandonando sem dar nome
A criança,
Vez que o filho
E feito de homem e mulher,
Não se faz por brincadeira,
Muito menos por engano
Ou maldade.
Nasci,
Uma menina saudável
De olhos azuis e cabeça claros,
Logo, meu pai me pegou
No colo,
Me deu banho,
Me derrubou no chão,
Depois ele disse que eu incomodava.
Depois disso,
Ele forçou o ato de sexo
Contra minha vagina.
Minha mãe tardou a perceber,
Eu não falava ainda,
Só chorava,
Nem mesmo engatinhava,
Eu era bebê e dele.
Logo que minha mãe
Viu as marcas no meu bumbum
E vagina ela achou estranho
Os roxinhos e os choros.
Decidiu me entregar
Para a minha avó paterna.
Seus cabelos brancos
Tinham experiência com crianças,
Ela era respeitada no lugar,
Contudo, ela deixou
De me alimentar tão bem,
Eu engatinhei,
Sim,
Dei meus primeiros passos
No assoalho sujo de terra
Da minha avó Maria,
E cai ao subir no banco,
Quebrei o nariz.
O médico me medicou,
Achou estranho
E viu que eu chorava muito,
Então, notou os roxos e
As partes íntimas inchadas.
“estuprada”
Ele escreveu na receita
A caneta e assinou.
A enfermeira chegou,
Se assustou ao ler,
E me olhou deitada nua
Na pequena maca
Com minha avó materna
A segurar minha mão.
“Ela foi estuprada, vovó”
Ela falou secamente.
Minha avó retirou
A cinta de sua calça
E me bateu desnuda
E ali mesmo.
“Mentirosinha”.
Ela disse.
A enfermeira olhou
Para o médico e saiu
Da sala do clínico geral.
Minha avó era severa e má.
Ao passar de cavalo
Em frente a casa de minha mãe
Que retornou ao lar anterior,
Junto de sua mãe Cléo,
Ela deixou minha mamadeira cair,
Cheia de leite e intocada.
Minha mãe viu,
Correu pegá-la e chorou
Com saudade.
Minha vó já ia longe
Deixando poeira atrás das
Patas do cavalo,
Eu estava deitada
Sobre uma manta branca
Sobre seu colo.
Meu pai vinha nos visitar
Com frequência
E dormia comigo no quarto,
Meu avô morreu pouco antes
De infarto,
Ele nunca acordou,
Mas, teve de ser trocado
No amanhecer
Estava cagado.
“Deve ter sentido dor”.
Todos dizem.
Eu ainda não falo,
Mas, dou meus primeiros
Passos abertos e feridos.
Minha família me vê
Como um objeto.
Eu estava vendo minha mãe
Chegar quando me levantei
Num esforço.
“suma daqui, vagabunda.”
Minha avô gritou
Para ela,
Eu cai de costas,
Bati a cabeça no assoalho
E sangrei nos cabelos.
Minha avó
Pegou a vassoura
E correu atrás da minha mãe
Com ela a bater nas costas
Da minha mãe,
Minha mãe soltou a mamadeira
No chão e chorou.
“Quero ver minha filha”.
Ela disse.
“Não a verá nunca”.
Disse minha avó,
Lhe batendo com a vassoura.
“Ela está com fome,
Preciso cuida-la.”
Minha mãe disse,
Com aqueles seus cabelos
Negros soltos pelo rosto.
“Nunca você chegará
Perto dela”.
Minha avó gritou
E correu atrás dela
Lhe batendo até ela cair,
E ela bateu ainda,
Então minha mãe correu.
“Te amo filha”.
Minha mãe gritava.
Sangue escorreu do rosto dela,
A vassoura feriu sua pele,
Mesmo sob suas roupas compridas,
Ela vestia calça e camiseta
Verde e branca respectivamente.
Minha mãe foi até a cidade
Caminhando,
Demorou uma noite e uma manhã.
Minha tia a acompanhou.
Lá ela contratou um advogado.
Mas, o advogado quis colher
Meu depoimento,
Mas, eu apenas grunhia.
Ele soltou um docinho
De um lado e outro dia outro
Para eu apontar para um
E para o outro no caso
De responder com um sim
Para o esquerdo
E não para o direito.
Eu não entendi
Mesmo assim,
Tive medo,
Minhas pernas tremiam.
Minha avó se irritou,
Me guardou para dormir
Dentro do roupeiro.
“ que história é está
De ela falar por aí mesma?”
Ela disse.
E se irritou.
“Meu filho
Nunca lhe faria mal”.
Ela gritou.
“Olhe estes cabelos brancos,
São respeitados e vividos,
Você acha que sou uma qualquer?
O que você está insinuando
De meu filho?”
Ele se desculpou.
Eu dormi lá fechada,
No roupeiro com medo,
Apertada contra a porta,
Algumas roupas e a traseira
Do roupeiro.
Minha mãe 
Chamou meu pai 
Para conversar,
Ele disse:
"Vamos voltar?"
Ela disse.
"Poderia".
Pegou ambas as mãos dele,
Uniu-as como em prece
E as encostou no peito,
Mas, recusou o abraço dele,
E ficou ali próxima a casa.
Logo no outro dia,
Uns rapazes vieram de Chapecó,
Eles eram da favela,
Não trabalhavam 
E usavam drogas.
Para se manter 
Eles roubaram tudo 
Que podiam,
Então, minha mãe disse:
"Galvão, vão roubar você,
Podem mata-lo."
Ele olhou para ela e sorriu:
"São parentes,
Não faram isso".
Agora minha mãe
Ficou irritada,
Dormiu em frente a delegacia
Até encontrar o delegado
E disse
“Quero ver minha filha,
Eu a amo,
Quero ela comigo,
Aquele estuprador a estuprou”.
O delegado a olhou sério.
Juntou um papel e escreveu algo.
“Tá bom, irei ouvi-lo”.
Depois disso,
Minha mãe continuou 
Ao redor da casa 
Da minha avó,
Então, logo a noitinha
Ela o viu com a irmã 
De um destes traficantes,
Usuários de drogas.
Ele estava na posição 
Cócoras transando 
Com a garota de 17 anos.
Estava nu
Próximo ao rio,
Alguns peixes pulavam
Acima da superfície 
Da água.
Logo na manhã 
Do dia seguinte 
O delegado chegou ali
Com dois soldados 
E o chamou para um canto 
Para lhe dizer:
"Respeito sua mãe,
Tão idosa,
Mas estes bandidos 
Que você esconde
Mataram para roubar,
É isto, Seu Galvão,
Este relógio no seu pulso
É roubado,
O dono dele foi morto
E você não tem provas
De que não foi você o mandante,
Ou quem o matou,
Por exemplo."
Meu pai deu dois passos
Para trás e ficou nervoso.
"Eles são parentes da cidade,
Eu comprei a parte deles
Da terra
E eles querem mais dinheiro."
Ele disse, preocupado.
O soldado foi compassivo,
Nem parecia que ele estuprava
A própria sobrinha 
Que era vizinha do meu pai
E tinha a minha idade.
Eu soube disso,
Ele se sentia satisfeito 
Por ser assim.
A menina iria morrer,
Ele tinha vontade insaciável,
Disse sua mãe 
Quando lhe cobrou 
Alguns porcos gordos.
Ele me olhava
De boca aberta
Com a língua caindo para fora,
Eu tive medo dele.
Minha mãe comentou
Com minha tia
Que achou estranha 
A posição sexual 
Escolhida por meu pai
Para trai-la,
Parecia referir-se a cu,
O dar o cu
E o não,
Como se o ato
De agachar-se daquela maneira 
Fosse estratégico,
E com isto 
Ele queria dizer que minha 
Mãe fazia sexo anal
Há algum tempo,
Talvez muito.
Muitos vizinhos vieram ali
E falaram coisas que sabiam
Sobre um e sobre outro,
(Meu pai e minha mãe),
Depois eu fui para o juiz.
Lá, eu tive mais medo,
Ele esforçou-se,
Me deu papel e lápis
Para rabiscar e ver
Se extraia provas de mim,
Me deu desenhos com corpos
De pessoas para eu rabiscar,
No que já havia visto,
Tocado e outras coisas
Que eu pudesse exclamar,
Ele precisava ver
Quanto meu pai me feriu
Para eu ter tratamento.
Eu ainda não falava,
Tinha 1 ano e 1 mês.
Minha mãe falava pouco,
Passou o depoimento todo
A chorar olhando para eu
Do outro lado da mesa
Em frente ao juiz.
“Preciso ver minha menina,
Preciso pegar ela”.
O tempo todo ela disse isso.
Meu pai deixou o cão
Do lado de fora da sala,
Mas minha mãe tremia
De medo dele,
E do cão.
“Pra onde a senhora irá
Levar a sua filha Dona Marly?”
O juiz pediu,
Ela começou a olhar
Para os lados e chorar,
Então, disse:
“Comigo”.
Ele a olhou sério
Com uma caneta
A rabiscar um papel
“Como irá cuida-la?”
Ele perguntou.
“Com amor.”
Ela disse.

Amor Novo

As horas avisam
Que mais um dia passa,
Com elas vão os meses,
Nelas passam-se os anos,
E eu continuo sem você.
Nem parece que eu
Não o espero,
Não te procuro
Por onde passo
Ou não quero notícias suas.
As vezes,
Eu sirvo um gole
De bebida
E me viro em direção
A janela
A espera.
Não diria que foi ruim,
Mas, não durou
É o bastante assim,
Parece que tanto
Nos influenciou
Que quando vimos
Muito nos separou,
E os anos apagam isso,
Então, resta apenas
O tempo em que ficamos,
Nos entregamos
E estivemos juntos...
Eu o busco,
Eu sinto orgulho de nós,
Eu sinto medo
Pelo que nos separou,
Receio do que nos juntou,
E já chamei seu nome,
Já odiei sua fotografia,
Já busquei encontrar você,
Alimentei poucas esperanças,
Mas, hoje resta a dor.
Hoje novo amor
Supre aquele que houve,
E se faz melhor,
Mas o amor antigo
Me faz cobrar do novo
Que se supere
E não se prenda a erros,
A maturidade do amor antigo,
Me deixa inquieta
Mas, eu torço por você,
Espero que esteja bem,
Eu estou também muito bem.

domingo, 19 de outubro de 2025

Atenda o Telefone

Minha vizinha
Se irritou comigo
Quis bater em mim,
Eu estava sozinha,
Fui buscar meu amor,
Procurar seu número
De telefone na agenda,
Ouvir sua voz,
Buscar conforto,
Desejei não sentir medo
Para poder falar com ele
E lhe pedir que me respeite.
Nada lhe fiz,
Não queria ouvir
Seus desaforos,
Meu amor não atendeu
Seu trabalho era mais importante,
Ele achou que ligar
Para ele era fetiche,
Fantasia de apaixonada boba,
Mas, não meu amor,
Eu estou sozinha e com medo
Me atenda.
A vizinha juntou uma pedra
Enorme e pesada
E quer jogar ela contra eu,
Ela está próxima ao muro
Gritando e me xingando muito,
O filho dela tomou a pedra
E agora está pulando o muro,
Ele está na nossa calçada,
Segurando uma pedra,
Eu estou com medo
Meu amor
Me atenda.

Um Princípe