segunda-feira, 3 de agosto de 2026

E Sê Der Certo?

 Camline chegou ao cemitério,

Fez o sinal da cruz,

Abriu o portão e entrou.

Tudo estava desorganizado

Parecia ter chovido

A pouco tempo

Haviam vasos com flores mortas

E até vazios jogados 

Por entre as lápides.


Uma lágrima desceu

Por seu rosto sereno,

Ela então, juntou de vaso

Em vaso e os separou

Um canto,

Retirou as flores mortas

E as jogou do lado de fora,

Espalhando a terra sobre a terra,

E os que estavam feios

Ela os plantou nos arredores

Para que Deus se incumbisse

De que viessem.


Sempre há uma alternativa

Para a vida

E ela faria o possível

Para que a vida brotasse

E as flores florissem,

Então, as regou usando 

O próprio vaso e uma sacola

Plástica que estava no local.


Depois separou os vasos vazios

Com o intuito de levá-los para casa

Para reutilizar,

Juntou cada plástico,

Cada sujeira e os separou 

Para levar na lixeira

Que se localizava a poucos metros

Do cemitério,

Mas, que inexplicavelmente

Era evitada.


Foi até a lápide de seu irmão

E limpou-a usando um balde,

água limpa, detergente e um pano.

Sentia tanta afinidade 

Com aquele lugar

Que poderia limpar cada canto,

Cada lápide, cada casa daquelas

Em que se preocupavam tanto

Em pintar e pôr flores e esqueciam

De pôr fotografias do falecido

E o próprio nome,

Só estava definido o nome

Da família bem grande 

E uma data de nascimento e morte.


Como na cidade,

no cemitério as pessoas também

Gostavam de enfeites,

De mostrar as diferenças,

De construir até alcançar o céu,

Enquanto uns mal tinham

Um lugar no chão e uma cruz de madeira,

Sem nome, 

Sem foto,

Sem família,

Só uma data,

Depois disso:mais nada.

A madeira apodrece tão cedo

E leva a vida,

As memórias,

O lugar em que se deixou

Este alguém que fez a diferença

Lá nas ruas e nas construções,

Um bom pedreiro,

Diarista, servente, 

Agora um indigente,

um corpo não definido

E um rosto vazio,

Que teria poucas velas,

Pouco choro,

e talvez, umas garrafas

De pinga no seu redor.


Regado no alcool conforme

Fez em vida,

E nada melhor que a pinga

Para remover a memória,

A dor,

A vida,

O nome e o lugar

Onde um dia a pessoa

Teve para onde voltar.


Camline limpou tudo,

Olhou cada anjo desenhado,

Cada lápide afundando,

Cada calomgo de terra se elevando

Com uma cruz apagada nele,

Cada casa que crescia 

E tomava proporções que com certeza

Esta família deve ter desejado

Ter em sociedade,

E trabalhava arduamente para manter

A postura, rigor e idealismo.


Retirou flores secas,

Soltou-as para o vento,

E lá, quando retirou as rosas vermelhas

De plástico de Rehan as cheirou,

Há oito anos elas foram guardadas

Nesta lápide, 

E ainda não viraram pó,

Eram quase de tecido,

Tinham um cheiro bom,

Talvez fosse o de seu irmão,

Talvez não,

Quando seu namorado Rehan 

As deu ela logo viu onde

Se localizariam perfeitamente.


O namoro terminou,

As flores ficaram

E Rehan nunca veio com ela

Ao cemitério,

Algumas flores ao serem retiradas

Viraram pó e era difícil 

Leva-las para a lixeira,

Alguns vasos quebravam

E se consumiam.


O tempo se encarrega de tudo,

De tornar tudo poeira

E solidão que faz esquecer

e tenta apagar.

Leva vozes e sorrisos,

rostos e abraços,

Fica a dor,

Um vazio que consome,

Um suspiro que não se contem

Por muito tempo.


O tempo levou Rehan,

Camline soube disso

Através de uma caixa de supermercado

Que saiu chorando deliberadamente

Quando o supervisor lhe informou

Que o rapaz sofreu um acidente

De carro e não resistiu

Aos ferimentos de quebraduras expostas,

Sangue e dor.


Ele estava embriagado,

Dirigia com um corpo de wiski

Entre seus dedos,

E uma garrafa ao lado,

Estava sozinho lhe disseram,

Isto, Camline e todo o redor

Dos funcionários duvidaram,

"Não, ele estava com garotas,

Isto é fato,

O sexo e o alcool levaram sua vida

Depressa demais,

Aos vinte anos."


Camline limpou os olhos,

Soltou a salada que iria comprar,

E soluçou o soluço dedicado

Aos mortos por eles terem partido,

É quase mais soluçar uma dor

Por quem irá sentir a perda,

Porque Rehan lhe fez mal

Em seus instantes de bebedeira.


Sua vida de relação com ele

iniciou-se num encontro fortuito

Num restaurante badalado da cidade,

Ela marcou pela décima vez

com um homem diferente

Tencionando conhecer um namorado

Através da internet.


Mas, lá da entrada

Ao ver um homem tão feio

Sentado na mesa combinada,

Ela tirou o suéter,

Prendeu o cabelo,

Correu para o banheiro

Remover a maquiagem

E não se aproximou de vergonha,

Na internet o rapaz era lindo,

Perfeito, ali estava um rascunho

De tudo que o photoshop fez por ele.


Ela não teve estômago

Para aturar um homem tão abjeto,

E nem para resistir ao cheiro

De comida tão cheirosa

E de aparência deliciosa.


Logo se aproximou de uma mesa

onde um jovem moreno,

de cabelos negros e fartos

Estava sentado sozinho

E pediu aconchego.


Explicou do encontro

E de seus motivos íntimos

Para desistir,

E as mesas estavam todas

Repletas de pessoas,

Ela não identificou o rapaz,

Mas, pediu licença para sentar-se

Com Rehan.


Ele sorriu,

A permitiu de imediato,

Pedido os pratos,

Ele exigiu que ela pagasse a conta

Por ter de aturá-la ali,

Ela chateou-se jogou o guardanapo

Sobre a mesa em tom de repulsa,

Ele sorriu convidativo,

Se desculpou,

Pagou ambas as contas

E exigiu que ela aceitasse

que ele a conduzisse para casa

Como cortesia e pedido de desculpas.


Ela não soube o motivo,

Mas sentiu-se tonta,

Talvez, por efeito do vinho

Que bebeu com ele,

Pois, sentiu-se fraca

E terminou aceitando o convite,

Ou assim acreditou,

Porque ele a ergueu da mesa

Passando seus braços

Por seus ombros 

E a carregou para fora 

Dizendo frases desconhexas:

"Você é linda,

Me apaixonei por você

Desde o primeiro instante,

Te darei minha vida".


E quando ela deu-se conta

Estava sentada no carona

do carro dele,

E depois disso o viu remover

O zíper de sua calça,

Depois a calça,

A calcinha e então toda a roupa,

E logo se viu nua 

Sentada no colo de Rehan.


Ela gemia de prazer,

Chorava por algo

Que não saberia dizer,

Talvez dor,

Talvez insegurança,

Talvez medo,

"afinal, quem é Rehan?"

Se viu se indagar em silêncio.


Quando acordou estava

Deitada na cama com ele,

Que se  movimentava 

Sobre seu corpo nu em frenesi

E muitos gemidos.

-O que está acontecendo?

Ela se viu indagar

Quando sua cabeça foi puxada

Para o peito dele.

-Agora você é minha namorada!

Ele respondeu sorrindo.

-Não sou não.

Ela respondeu e se afastou.

-Claro que é, 

veja a aliança em seu dedo,

Você mesma colocou 

Durante a noite

E chorou de alegria.

ele disse com movimentos

Contínuos de sexo e beijos sedentos.

-Ah, não lembro disso.

Ela continuou um tanto tonta.

-não lembra?

Você tirou foto de nossas mãos unidas

Usando alianças,

Escreveu uma frase de amor

E postou na sua rede social.

Ele disse.

-Sério?

Mas sempre sou tão discreta.

Ela continuou.

-Sério,

você falou de amor e tudo.

Ele insistiu.


Ela buscou o celular

Que estava sobre a cômoda

e notou a fotografia 

De duas mãos enlaçadas,

Duas alianças e uma frase boba.


-Somos namorados.

Ele disse,

E saiu de cima dela

Juntando uma toalha 

E indo para o banho.


Os encontros entre ela e Rehan

foram sempre fortuitos e inesperados,

As vezes, ele a buscava no trabalho,

Outras vezes ela saia de casa

Logo pela manhã e via seu carro

Estacionado na esquina,

Como se estivesse esperando-a.


Sempre regado a bebidas e cigarros,

Algumas vezes ele usava drogas,

De comprimidos jogados no copo

De bebida e de pó

Que ele soltava sobre a barriga dela

e aspirava até não restar nada,

Soltava também sobre sua mão,

Sobre o painel do carro,

E seguia.


Ela sentia-se seguida por ele,

As vezes, imaginava que isso

Nunca teria fim,

Então, procurou um ginecologista

e buscou um anticoncepcional

Para não engravidar dele,

Mesmo estando com 33 anos

e tendo o sonho de ser mãe,

Evitou o sonho a todo custo.


A igreja da cidade

ficava próximo a sua casa,

Conforme a rua que pegasse

Para ir para o trabalho

Passava por ela,

Chorava soluçante,

Mas, não conseguia marcar a data

E levar o relacionamento adiante.


Bebia pouco,

Não usava drogas,

Fumava algum cigarro esparso.

Mas, um dia Rehan a vendo 

Sair para ir trabalhar

Acelerou o carro com toda força

E jogou sobre ela,

alegando que tinha encontrado

Outra garota,

Muito melhor que ela

E que não queria saber mais dela.


Camline sofreu escoriações severas,

Dor e vergonha da vizinhança,

Mas logo adaptou-se

Com a ausência de Rehan

Que sempre buscava os lugares

onde ela frequentava para passar

Por ela com algumas garotas,

Muitas bebidas,

Sorrisos no rosto,

E drogas.


Camline o odiou,

Denunciou isso na delegacia,

Mas nada amenizou o ódio.

Por isso, ficou muito tempo

Sem buscar novo relacionamento,

Mais de anos,

Sem ter encontros, beijos, abraços,

Carinhos ou sentimentos masculinos,

Apenas a abstinência e o exílio 

Lhe restou.


Dirigia por toda a cidade sozinha,

Parava na praia olhar a areia,

Ver as estrelas noturnas,

Mas, sempre sozinha,

Não conseguia deixar um novo

Homem entrar em sua vida,

Mas, ao saber da morte de Rehan,

Um sorriso lhe brotou na face,

Então, saiu para fora do mercado,

Viu um homem sozinho

Na direção de um carro estacionado

E pediu a ele uma carona;

-Para onde?

Ele indagou.

Ele era um sujeito gordo,

Flácido, de rosto enrugado,

Cabelos brancos e esparsos,

E isso lhe gerou um sentimento

De carinho inexplicável,

Então, ela pegou em sua mão

Sobre o volante e disse:

-Para um motel,

Vamos ter algumas horas

De sexo voluptuoso e delirante,

Eu preciso de você.


O homem a encarou de sobressalto:

-Precisa de mim?

ele disse, ligando o carro

E virando a volta para sair

Do estacionamento rumo a rua.

-Sim, por favor!

Ela disse sorrindo,

Retirou a calcinha e

Levantou a saia curta que usava.


Ele logo introduziu o dedo

em sua vagina e sorriu,

Camline suspirou satisfeita:

-Faz muito tempo que não faço sexo,

Eu não sei,

Agora penso que sempre esperei

Você me dar uma chance.

Ela disse sem jeito,

tocando em seu braço forte.

-Que ótimo,

Poderemos passar boas horas juntos.

ele usava uma aliança no dedo,

Camline não quis perguntar 

sobre isso,

Mas, a notou.

A voz dele era grave e violenta,

ele dirigia muito bem,

Sem solavancos,

Sem desvios,

E tinha lindos dentes brancos

No rosto quadradinho

E lábios rosados e cheios.

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Amor Antigo