domingo, 16 de agosto de 2026

Até que seu Irmão nos Separe

 -Não sou capaz de suportar.

Disse Gercica,

Juntou poucas coisas

Pôs na mala e saiu de casa.

Escolher as ruas

Talvez tenha sido uma escolha ruim.

Quando iniciou a chuva

E ela a via escorrer pela janela do ônibus

Pareceu uma ideia péssima.


Optou pela casa da tia

Que morava distante da família,

Dois dias dentro de um ônibus

E estava lá,

Em pé com chuva escorrendo

No rosto em frente a grande porta

De vidro fumê

Com um estranho louco

Digitando no interfone

Sem saber se permitia

Ou não sua entrada no prédio.


-Alô, a Gercica?

Indagou uma voz envelhecida

Do aparelho.

-Sim, uma moça de mala

Nas mãos e chuva na cara.

Fez-se silêncio e a tia respondeu:

-Mais nada?

E ele confirmou.

-Mais nada.

-Permita a entrada,

É minha sobrinha.


O homem a olhou com os olhos arregalados

E fez sinal para que entrasse,

Lhe mostrando o elevador.

- Andar quinze, 

Sala 1151. 

Ele falou.

Ela saiu da chuva com a roupa encharcada,

E tremendo de frio.

Tinha poucas roupas na mala,

Seu corpo tremeu violento

Assim que entrou no saguão

Do prédio,

Seus pais deveriam estar preocupados...

Provavelmente estariam...


(Dois dias anteriormente).

-Não filha,

Se você deseja algo de mim

Terá que trabalhar

E conseguir por conta própria.

Disse o pai falando seriamente.

-Mas mãe, eu trabalho

Tanto quanto a senhora

Lhe ajudando a limpar a casa.

Ela falou olhando logo

Para o rosto da mãe.

A mãe pegou a chaleira 

De água quente e jogou

Na direção dela no assoalho.

-Faz pouco,

Muito pouco.

Respondeu a mãe.

-Mas pai sempre que te ajudo

Eu não escolho um emprego remunerado

Mas mereceria um salário...

O pai não a deixou encerrar a frase

A pegou pelos ombros e chacoalhou

Com força enquanto dizia:

-Te pagar?

E a comida que você come?

E a roupa que você usa?

E os gastos que você me dá?

Você não acha que lhe dou o suficiente?!


Depois disso ele pegou 

O controle remoto da televisão

E aumentou o volume do programa

Que assistia.

Gercica levantou-se do sofá

E foi para o seu quarto.

-Os filhos dos vizinhos ajudam

Muito mais e ganham muito menos.

Ih, você faz muito pouco

Na sua época meu pai não precisava trabalhar

Eu fazia tudo por ele

E quando recebia o dinheiro

Entregava nas mãos dele,

Você ganha muito dinheiro,

Muito...


Depois de pegar uma xícara de café,

ele insistiu em alto tom de voz:

-Com certeza, Marcian ele deve estar namorando,

Se eu pego você andando por aí

Com algum macho eu mato você

E o teu vadio sem vergonha,

Você acha que alguém que se envolver

Com ela irá prestar?

Ele indagou a sua mãe que disse:

-É certo que não,

Com certeza é um bêbado

Jogador de baralho,

Um vadio drogado ruaceiro.


Seu irmão rio alto da sala,

-Se eu descobrir que é eu conto,

E ajudo a matar ele,

Esfolamos ele a pau.

Ele gritou rindo com gosto.

Gercica se recostou na parede

E chorou e cansou de ter 

Apenas a parede para companhia

E amizade,

Quis alguém em quem confiar,

Odiou seus quinze anos,

Desejou com toda a alma ter dezoito

E poder sumir dali,

Ser independente era um sonho distante

E muito ambicionado.


Então, pegou suas coisas

E não disse nada para ninguém

Pulou a janela depois de jogar 

A mala fora e foi,

Seguiu escuridão a dentro 

Andando a esmo pela estrada

Sem enxergar um palmo

e sem desejar ver nada,

Só queria distância.


Distância que se tornou distante

Pois logo calejou os pés

E andou cada vez mais devagar

Deixando os pais próximos demais,

Se eles sentissem sua falta

Poderiam pegar o Fusca e vir atrás dela,

Se a encontrassem fugindo

Poderia lhe custar caro,

Muito caro.


O pai costumava bater nela

De chicote de couro,

E a fazia sangrar e gritar,

Ele tinha prazer em ver ela implorar

Perdão e estar diminuída 

Aos seus pés.

O pranto em seu rosto

Era o orgulho de seus braços,

A energia com que vibrava de dor

Era a honra de seu punho de couro

E nenhum remorso.


Ela sentia medo dele,

Tanto quanto o amava,

Mas, quanto mais ganhava idade

e o ouvia mais o medo 

Se tornava maior até que

Uma espécie de repulsa a fazia

Rejeitá-lo.

Ela odiava os fuxicos da mãe

Sempre tendenciosos.

Seu rosto vermelho e riscado

Falava alto sobre a violência

Com que a mãe lhe considerava.

Mãos de fero e ódio.


(No prédio onde morava a tia).

-Oi tia, vim visitar.

Ela disse soltando a mala no chão.

-Ótimo entre.

Deixe a mala no quarto da frente.

Ela foi até lá

E a soltou no chão,

Pegou uma toalha no roupeiro

E saiu porta a fora para a sala

Secando os cabelos.

-Choveu muito.

A tia a olhou feliz

E a abraçou.

-Choveu sim.


O esposo de sua tia foi conivente

Com sua estadia no local,

Logo Gercica passou a fazer

Os serviços domésticos

Enquanto a tia era caixa de supermercado.

Certa data o tio voltou antes do trabalho,

Trancou a porta,

Invadiu o quarto onde Gercica estava

E a jogou contra a cama,

Instante em que a obrigou a fazer

Sexo com ela.

-Que prazer eu tenho

Em possuir você,

Sua danada!

Ele falou.


Ela chorou arredia,

Sentiu medo da tia.

Logo foi fazer um pudim

E deixou água entrar 

E o doce estragou.

A tia tirou o chinelo

Dos pés irritada e bateu

Contra sua mão.

A menina chorou arredia

Sentada na mesa

Recostada a parede.

Outra vez não lhe restava 

Mais que a parede para conforto.


Mas calou-se.

E o tio insistiu em cada vez

Estupra-la mais e mais tempo.

Gercica no período da tarde

Acabou indo para a praia caminhar,

Fez amizade com um grupo

De jovens que frequentava o local,

Foram todos juntos 

Tomar café no supermercado

Onde a tia trabalhava.


A tia engravidou,

Gercica encontrou um namorado,

Um surfista de dezessete anos.

-Vamos frequentar a aula Gercica,

Vamos se formar e conseguir

um bom trabalho para morarmos juntos?

Ele insistia abraçado a ela

Sentados na areia enquanto

A água do mar tocava a ponta

De seus pés e voltava.

-Não sonho em me formar.

Ela respondeu.

-Vamos Gercica,

Vamos nos formar juntos,

Depois da escola podemos

Ter outra vida

Onde nos formamos na faculdade

E nos tornamos doutores.

Ele disse.

Gercica o beijou no cabelo.

-É muito tempo para esperar

Para ser chamado de doutor,

Respeito não é questão de título.

Ela disse,

Ele a abraçou mais forte.

-Meus pais vivem bem,

Você sabe,

Vamos abrir uma loja de roupas

E seremos administradores,

Dono do nosso estabelecimento comercial,

Para isso não precisamos esperar nada.

ele insistiu,

A beijando e deitando ela na areia,

Depois fizeram amor ali,

Enquanto o sol baixava

E seus amigos riam alto

E lhes jogavam areia sobre suas roupas,

Pois eles não ficaram nus.


-Estão transando!

Disse um.

-Estão transando, sim!

Gritou outro.

E começaram a empurrar-se

Para a água,

Então quatro amigos deles

Mergulharam por entre as ondas,

Até se tornarem pequenos pontos

Dentro do mar azul 

Para só então retornar

Com o pôr-do-sol sobre seus cabelos.


Um deles retirou sua garota

Nos braços da água,

E a pediu em namoro:

-Pamela, me beija e fica comigo?

ele gritou olhando no rosto dela.

Ela o beijou com um sorriso 

Nos lábios e ondas de sol

Nos cabelos negros.


-Joaquim, não me beija

E sai de perto de mim.

Gritou o outro amigo 

Para o amigo ao seu lado.

-Sai fora cara,

Eu sou homem.

O outro respondeu lhe dando

Um soco fragil no ombro.

Depois, ele correu até a barraca

Que vendia bebidas na praia

e comprou uma bebida alcoolica

Para todos.


A noite chegou e os pegou desprevenidos,

Dormiram todos abraçados,

Com o céu límpido logo acima

De suas cabeças e tão distante.

Gercica soube ao chegar em casa

E encontrar sangue no chão

Que sua tia caiu no assoalho

De encontro com a parede e

Perdeu o filho.


Depois de servir chá para ela 

Na cozinha ela descobriu

Que o tio encontrou uma amante

E foi dormir fora,

E ainda que ele pagava um apê

Para ela morar

E que lhe deu um carro,

A tia zangou-se,

Se trancou no quarto 

e ligou para ele ameaçando

Jogar-se da janela,

Ele voltou irritado para a casa,

Encontrou os boletos do aluguel

E do carro que pagava 

Para a estranha, sua amante

E irritou-se.


- Vanessa, eu quase sinto ódio de você!

Ele gritou enquanto esmurrava a porta.

-Abra esta porta,

Eu sou seu marido!

Ele gritava do lado de fora

Do quarto,

enquanto empurrava a porta

Para abri-la.

-Não abro, Rogerson e irei me matar.

Ela gritou da janela.

-Não seja louca,

Você só tem eu nesta vida,

Seus pais morreram faz três anos,

O que você quer?

Que eu te odeie?

Ele gritou.

-Não, você já me odeia.

Você me trai!

Ela gritou,

Saiu da janela e bateu na porta

Com força como se esmurrasse ele.

-Eu odeio você!

Ela gritou aos prantos,

Depois trêmula voltou 

Para a janela de vidro

Que estava aberta

E uma brisa fria de inverno

Fazia a cortina branca balançar.


-Você me odeia?

Quem não sabe disso?

Você nem me satisfaz e 

Quando busco outra para me ser suficiente

Você quer que eu a trate mal

Como trato você?

Você acha que minha namorada

De dezoito anos trabalha?

você esta louca?

Velha de quarenta.

Ele gritou e chutou a porta

que abriu-se languida e barulhenta

Se chocando contra a parede.


-Não, não se aproxime.

Ela gritou sentada na janela aberta.

-Você é louca?

Você esta vestida de noiva?

Ele indagou em pé,

Incrédulo a vendo de branco.

-Nós nunca nos casamos

Mas eu comprei o vestido.

Ela disse babando e chorando.

-Sim, nós nunca marcamos a data.

Ele disse,

Mais calmo.

-Não marcamos a data?

Você nunca quis marcar.

Ela gritou apontando o dedo

Para o lado dele.

-Eu não quis,

Nem você.

ele respondeu e foi até a cama,

Sentou-se e retirou o sapato.

-Deite na cama,

Vamos transar.

ele disse.

-Você ainda me ama?

Ela indagou.

-Certo que a amo,

Senão, eu não estaria aqui.

ele respondeu se deitando de lado,

E batendo sobre o lençol de seda branca

Para que ela se deitasse.

-Eu tomei remédios para morrer...

Ela falou se ajoelhando

No assoalho nas costas dele.

-Eu não acredito.

ele respondeu se sentando.

-Eu preferi a morte

a perder você...

Ela falou aos prantos

Secando o rosto na camisa dele.

-Você é doente.

Ele respondeu a afastando.


Depois ele chamou uma ambulância

E foi com ela para o hospital

Onde ela passou a noite,

Na madrugada eles retornaram

Para o prédio,

Depois ele saiu irritado:

-Eu vou trabalhar,

Não posso perder o trabalho,

Precisamos pagar o condomínio

E as dívidas.

ele disse.

-Mas, nós não iremos transar?

ela indagou.

Ele voltou da porta

E tocou nos braços dela,

Depois se ajoelhou e a beijou,

Então transou com ela

Frenético e irritadiço.


Logo que ele saiu ela 

Tentou ir ao banheiro 

E não resistiu,

Caiu no chão vomitando,

Depois sangrou até a morte do filho,

Ou seu nascimento prematuro, enfim,

Sangrou o filho.


-Tia, precisa ir para o hospital.

A garota falou com uma xícara de chá

Entre os dedos,

Vendo a tia sorver calmamente seu chá.

-Acabei de sair de lá,

Não há nada  que me ajude.

-Mas qual é o problema tia?

-Seu tio tem uma amante

E se eu não for capaz de manter

Um filho em meu ventre ele irá me deixar.

Ela respondeu secamente.

-Mas, se ele for embora

É porque não a ama.

-Você não entende,

Estou a vinte e cinco anos casada

Com ele,

Eu não sei viver sozinha,

Eu quero um filho.

-Se acalme tia, por favor.

Gercica disse,

Se pondo em pé e a abraçando.


A tarde o tio voltou mais cedo sorrateiro

Como sempre fazia,

Mas, desta vez sua tia estava em casa,

ele não a respeito,

Adentrou no quarto de Gercica

E transou com ela outra vez.

Ao sair para o corredor

Gercica se deparou com sua tia

Em pé próxima a sala 

Segurando uma xícara de café entre os dedos.


Ela teve um sobressalto,

Firmou o olhar para a tia

Que lhe sorriu amarelada.

-Acabamos de transar de volta.

Ela lhe disse.

-Que bom.

Gercica respondeu

E foi até o banheiro tomar banho.

-Seu tio está dormindo,

Não faça barulho.

A tia pediu enquanto batia

Na porta do banheiro.


Gercica saiu a noitinha ver os amigos

Na praia,

Levou pipoca e chá 

Numa garrafa térmica.

Desta vez, haviam duas garotas novas

E todos tinham companheiras.

Os cinco casais foram andar

De barco no mar,

Enfrentando as ondas e bebericando

O chá.

-Podíamos nos casar.

Disse um deles.

-Podíamos todos nos casar

No mesmo dia.


Os pais de Gercica estavam desesperados

A sua procura,

Colocaram anúncio nos jornais,

Na televisão e no rádio.

Nada chegou até ela

Que permaneceu calma.

Então, um número de telefone novo

Começou a ligar no seu celular,

Com mensagens de carinho,

De fé e de amor.

Logo uma fotografia chegou

E mostrava um rapaz lindo,

Ela tardou marcar o encontro,

Mas, marcou,

Chegando lá se tratava de seu irmão.

-Peguei você fugitiva.

Agora se quiser ficar longe de nós

Terá de pagar bem caro.


Ele foi irredutível,

Gercica passou a lhe mandar dinheiro,

Mas, não contou onde estava,

ele a seguiu e contou aos pais.

Seus pais invadiram o local

E quebraram tudo,

Depois a tiraram para fora

Lhe dando cintadas e berrando

xingões bem alto.


De volta a sua casa

Ela não tinha como ver o namorado,

Então, retornou aos estudos,

E do colégio fugia para ver seu namorado.

Seu irmão marcou encontro com ele,

E fez todos os fuxicos que pode,

Logo, para zombar dela

ele marcou um encontro entre o namorado

Da irmã e uma garota do colégio,

Gercica ficou alarmada

Ao vê-lo sentado no mesmo lugar,

Abraçado a outra garota.


Seu irmão ria sem parar

Tomando um drinque na barraca

De bebidas,

Ela chorou,

Mas se calou.


No colégio Alfredo lhe pediu

Para acompanhá-la até a praia

Com um grupo de amigos dele

Como sua convidada.

Ela aceitou, fizeram os quilômetros

Até a praia de van escolar.

Dentro da van todos a chamavam

De namorada de Alfredo e o apelido pegou.


Alfredo dirigia a van,

Eles alugaram uma casa para ficar

Em três casais.

Logo Gercica dormiu com Alfredo:

-Então, você é dono da van

E trabalha levando alunos para a aula?

Ela indagou na cama com ele.

-claro,

Eu trabalho sim,

Sou dono sim.

Ele respondeu.

-Você mora aonde?

Ela perguntou.

-No centro, numa casa

Que comprei logo que iniciei

O trabalho de motorista.

ele disse.

-Esta certo.

Ela respondeu.

-Eu amo você.

ele falou lhe beijando os cabelos.

-Eu também.

ela respondeu.

E engravidou naquela  noite mesmo.


Ao amanhecer,

Bem cedinho o irmão lhe acordou

Com a notícia de que

ele não era o dono da van

Apenas trabalhava como motorista

E não tinha casa própria,

Pagava aluguel para os tios da esposa,

E ele já era pai.


Gercica odiou seu celular

e o jogou no fogo da lareira.

-Então, você já sabe de tudo?

Alfredo indagou do batente da porta.

-Sim, meu irmão contou.

-Vi que você se irritou.

ele disse enquanto entrava

E chegava perto dela a abraçando.

-Sim, não quero mais celular

Nem esta coisa toda...

-Compreendo.

disse Alfredo beijando ela

E a conduzindo até a cama.

-Mas eu amo você

E quero muito nosso filho.

-Eu também.

Ela respondeu.

-Você só tem quinze anos.

Alfredo disse.

-Você tem dezesseis.

Gercica continuou.

-Você pode trabalhar de cobradora.

Alfredo falou,

Se referindo a ela trabalhar

De cobradora da passagem do ônibus.

-Seria bom,

Assim você não iria me trair.

ela respondeu.

-É claro que não,

Nunca.

Ele disse a beijando suavemente.

-Mas e sua esposa,

E o filho que você já tem?

Ela indagou.

-Resolvemos isso mais tarde.

ele respondeu.

-Vamos pensar em nós,

E darmos um tempo para o resto,

Vamos aproveitar a viagem

Até a praia.

-Esta certo.

Gercica disse.

Se abraçando a ele.

-Nesta altura seu irmão já contou

Tudo para a minha esposa.

No caminho eu vejo o que faço,

Ela deve estar muito irritada.

Alfredo falou.

-Provavelmente.

Gercica disse.

-Talvez seus pais descubram logo

Que você está aqui comigo.

Alfredo disse com um tremor

No corpo e abraçou fortemente Gercica

Dando uma olhadela para a porta

Do quarto que estava fechada.

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