segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Amares e Amores

- que faz tão tarde no jardim,
Cultiva as estrelas?
Indagou Rosanie a Elon.
Elon olhava distante,
Como se buscasse algo
Por entre o brilho
Da cidade,
Pareceu não ouvi-la.
Logo, Rosanie fechou
A janela e o deixou lá fora,
Pagou a Elon por seu amor,
Alcançou um noivado
De grande notoriedade e animosidades,
Mas, nunca o teve.
Elon, na primeira oportunidade
Partiu para nova janela,
Percorreu mil vezes outra calçada,
Procurou outro seio
Em que se recostar.
Na primeira oportunidade
De alcançar dinheiro e fama,
Aceitou, outra vez.
Noivo de Rosanie,
Jovem, solitária e rica,
Fazia uso de seu dinheiro
Pelo preço de poucas noites
De falso amor,
De sua o gastava com outra.
Porém, numa destas suas escapadas,
Recebeu nova oferta,
Mais dinheiro lhe surgiu,
Desta vez, optou por casar-se.
Rosanie, custou notar sua falta,
Devido a poucas cobranças
Por afeto nunca o viu com outra,
Mas, Elon ainda assim desistiu,
Ter de fugir a noite de uma,
Correr para se agarrar a outra
Pela manhã vinha lhe custando.
A fama de conquistador barato
Percorreu os grandes centros
E já se avistava nos pequenos bairros,
O dinheiro dá asas,
Mas, abre margem para boatos,
Optou por desistir do noivado
Que se arrastava
E mesmo no dispor de tanto
Dinheiro não lhe reteve seu afeto.
Preferiu Márcia,
Jovem e também rica,
Abastada para lhe proporcionar
Tudo de que precisava.
Rosanie demorou-se
Na calçada como sempre,
Indo acompanhar o amante,
Cuidou-o até que chegasse
Ao final da rua,
Se Elon não estivesse tão entregue
A felicidade de ter readquirir
Sua liberdade,
Para poder alçar seu vôo
Rumo ao sucesso financeiro,
Teria ouvido no dobrar da esquina
O eco de um soluço.

domingo, 17 de agosto de 2025

Desenlace de Sentimentos

“Ora, de que é feita a vida
Que não seja envolto em dinheiro,
Precisa-se de dinheiro para nascer,
Mais ainda para morrer,
Pois, no decorrer da vida,
Assim é a pessoa,
Perde-se a maior parte do seu tempo em alugar-se
Para ao final vender-se,
A isto definem o casamento,
Uma união de interesses”.
Pensou consigo o tio de Mariquinha,
Ela estava apaixonada,
Desejava determinada pessoa,
Não havia impedimento,
Restava ao homem reconhecer,
Identificar-se com Mariquinha
E casar-se de uma vez,
E o que ela oferecia em dinheiro
Jamais passaria despercebido.
Porém, Seixas sofria,
Em instantes desejava Mariquinhas,
E sem saber porquê a amava,
Em outros a repelia,
Achava-a dada demais,
Uma pessoa envolvida
Ao extremo com todos,
Parecia ter entregue
Seus beijos a cada homem,
Erguido a saia a cada olhar,
Dobrado a saia
No primeiro estímulo de suor.
Aliás, suas pernas
Sempre estiveram tão amostra,
Ela simples de beleza singela,
Mas de aparência tão disposta,
E além de tudo...
Existiu Quitéria.
Sim, ele amou Quitéria,
Lhe devorou afeto,
Sonhou com o casamento,
Marcou a data,
Até que então,
O rosto de Mariquinhas
Começou a lhe surgir do nada,
Pra onde quer que olhasse,
Não importando onde estivesse
Ou qual pensamento lhe regrasse...
Depois disso, veio o rompimento:
Quiter o deixou.
Não tolera visitas,
Não aceita recados,
Fechou-se em seu quarto,
Desprendeu-se de seus sonhos
Com ele.
Seixas foi rejeitado,
E agora, Mariquinha aparece,
O envolve,
Tudo tão desproporcional
E rápido,
Rápido demais,
Como se fosse arranjado.

Norma Apaixonou-se

Seixas apaixonou-se
Por Rosario,
Pediu sua mão em casamento,
O pai lhe deu autorização,
Contudo, Norma era rica,
Dona totalitária
Da herança de seu avô.
Apegou-se a Seixas,
Não compreendeu
Seu amor por outra,
Correu até seu tio,
Pediu-lhe o nobre favor,
Pagai a este pai
Que renegue o casamento,
Retire a mão da filha
E proíba novo encontro.
Sou dona do dinheiro,
Tranco todas as possibilidades,
Atuo para impedi-lo
Seja da forma que for necessária,
Se Seixas não casar-se comigo,
Nem com outra será.
Impeço sua entrada a igreja,
Proíbo a abertura do salão
De festas,
Arranjo um amante a está moça,
Mas de Seixas
Ela não será,
Não enquanto eu o querer,
Sou solteira, herdeira e rica,
Tenho prioridade
Sobre ele.
O tio aceitou o compromisso,
Vendo a determinação
Na sobrinha não se opôs.
Seixas chorou,
Correu atrás de Rosario
Até a porta de sua casa,
Alcançou -a na calçada
Próxima ao portão.
Ela virou para ele,
Olhou-o com determinação:
“compreenda, Seixas,
Meu pai nos proibiu,
Há impedimento de ordem
Familiar,
Não posso me sobrepor.”
Então, ela fechou o portão
Contra o seu nariz,
Bateu-lhe e isto lhe fez
Saltar sangue no chão,
Levou uma mão até a própria
Boca para esconder o espanto.
Virou as costas e saiu,
Seguiu o caminho do jardim
Até a porta de sua casa.
Seixas gritou de dor,
Chorou seu amor,
Não resistiu,
Abriu o portão de joelhos,
Fez todo o caminho
Que os separava da mesma
Forma:
“Por favor, Rosário,
Estou de joelhos,
Me perdoe,
Reate o casamento .”
Encontrou a escada,
Subiu de joelhos
De degrau a degrau,
Eram dez, apenas.
O pai de Rosário
Encheu um balde
Com água gelada
E esvaziou sobre a cabeça dele.
Colocou a cabeça
Para fora da porta e disse:
“entenda,
É o fim deste compromisso,
Rosário não será compromissada,
Busque outra.”
Seixas chorou ajoelhado,
O pai de Rosário o pegou
Pelos ombros,
Pôs ele em pé,
E o conduziu até fora
Do jardim.
“ vá embora”.
Disse por fim.
“Eu a amo Rosário”.
Ele gritou.
“Não haverá casamento”.
O pai dela retornou.
Norma abriu a janela
Do outro lado da rua,
De lá podia ver bem o rosto
De Seixas,
Ela não se compadeceu,
Logo ele esqueceria Rosário,
E seria seu.

Casamento de Mariquinha

“Ora, por quê responde-me
Tão irritadiço,
Deixa de braveza
Que desmanchou estas suas
Rugas de expressão de raiva
Da testa aos mil beijos,
Meu amor”.
Assim, Mariquinha respondeu
Ao primeiro ímpeto de raiva
De Silvio.
Ele, contudo, acostumou-se
A raiva e desistiu de seus carinhos
Com a mesma facilidade.
Porém, está raiva ganhou
Mais expressão com o casamento.
“Desmanchar minhas rugas?
Sou velho para você agora?!”
Ele indagou,
Retirou os chinelos
Que calçava
E bateu com eles
No rosto dela,
Até deixar a marca,
Até fazer sangrar,
Até quebrar seu nariz,
Até quebrar seus dentes
E sucessivamente.
O tempo de casados
Fez aumentar o amor,
Tanto quanto lhe aumentou
O ódio.
Masariquinha foi a primeira
A se cansar,
Arranhou novo amor,
O chamou de homem,
E contou a ele suas dores,
Ramiro, assustou-se
Com as primeiras marcas.
No dia em que Mariquinha
Foi jogada para fora de casa,
E empurrada de cima
Da escada para a calçada,
Aos gritos e solavancos de Silvio,
Ramiro se irritou,
Muniu-se de uma arma,
Estacionou em frente a casa dele e gritou
Ao sair do carro
Rumo a porta:
“Permita a Mariquinha
Que entre para a casa
Que também é dela,
E não a fora!”
 Lá de fora
Ouviu o riso alto
E sonoro de Silvio.
Irritou-se disso,
Abriu a porta
Que não estava trancada
E atirou uma única vez
Contra Silvio que estava
Sentado no sofá
Assistindo a televisão.
O tiro acertou em sua cabeça,
Perfurou até a televisão,
Apagou-a depois de a tela
Ficar primeiro escurecida,
Depois, ter algumas listras
Coloridas, então, veio o escuro.
Nisto, Silvio apenas
Pendeu a cabeça para a frente,
E ficou estagnado
Sem respirar
Nova vez.

Dinheiro e Trocados

O ouro estonteia
Mais que fumaça de cigarro,
Faz da feia,
Uma linda garota,
Joga um véu
Que não se nota
Feito uma miragem
Que conquista.
A fumaça que vislumbra
Proveniente do ouro,
É invisível a alguns,
Contudo, transforma
Do redor até maquia os defeitos,
No ouro não há desalento,
E mesmo o odor nojento
Proveniente da fumaça,
É apagado pelo ouro,
Vez que seu cheiro é perfeito!
Se eu uso,
Um pouco de ouro,
Veja, deste pó
Nem preciso muito,
E destas joias,
Nem uso todas,
Todos os rapazes se aproximam,
Todos me querem perto,
É a atração do ouro,
Aquela a qual não se resiste,
Não precisa estudar tanto,
Esforça-se pouco,
Pois dormir dinheiro que tenho,
Estou disposta a ceder
Um pouco,
Por alguns poucos trocados,
Tenho mais amigos
Que eu possa contar nos dedos,
Por migalhas do meu ouro,
Tenho mais cuidados
Que eu possa precisar no mundo.
A atração que provoco
É irresistível,
Dona do meu ouro,
Comando tudo de que preciso.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

A Perda

Falar sobre a dor
De ficar viúva
Nunca seria simples,
Se contentar em dirigir
Todos os dias até o cemitério
Para levar flores,
E contar da dor que sente,
Deixar uma carta,
Com um beijo sobre a lápide,
Nunca seria o suficiente.
Rebeca atingiu seu limite
No que se refere a sofrer,
Contudo, Marcelo retirou
O carro da garagem
Buzinou para avisar
Que estava pronto pra levá-la,
E Rebeca decidiu se apressar.
Abrindo a porta de vestido longo,
Viu uma nova flor no jardim
Que balançou mais intensa
E liberou um aroma delicado
Que seu esposo merecia sentir,
Reconhecer,
E ela sentiu que precisava dividir
Este sentimento de alívio
E esperança que teve,
Então, fechou a porta rápida,
Não percebeu que prendeu
O vestido nela,
E se apressou para o lado
Da flor segurando
O buquê de rosas costumeiro.
O vestido preso a reteve
Ainda sobre a escada,
Ela perdeu o equilíbrio,
Caiu sobre a barriga,
Sangrou até seu bebê
Sair pelo líquido,
Sozinha e insegura.
Marcelo correu para ajudar,
Ela pediu para ir levar
O buquê,
Ignorou a outra flor,
Sentou ao lado da lápide,
Contou de sua dor
Enquanto sangrava
Sem parar.
Marcelo, o motorista,
Ficou no carro,
Do lado de fora do cemitério,
Rebeca não resistiu,
Chorou intensa e triste,
Pôs suas mãos contra a lápide
E a abriu.
Ali encontrou o esposo,
Se perdendo entre a madeira
Do caixão escuro de veludo.
Seus lábios selados e pálidos,
Olhos fechados,
Rosto sem expressão,
Ele não viu sua dor,
Não se compadeceu
De seu sofrimento.
Indignada,
Pegou a haste da roseira,
E o agrediu,
Arranhou seu rosto
Até tirar a pele,
Rasgou seus lábios
Para que se comparecesse.
Um mês,
Um mês sem ele,
E o filho o chamava,
Não resistiu ao pranto,
Não se contentou
Com a oportunidade de viver,
Foi atrás do pai,
Galgou o sonho de todo inocente,
Conhecer o colo fraterno.
Indignada,
Chorou até não ver
Mais nada a sua frente,
Então, o caixão descolou,
Ela arrancou sua parede,
E retirou de dentro
Da lápide de mármore.
Soltou a sua frente,
O veludo azul ficou molhado
No mesmo instante
Com sua dor,
Em um mês em que Tiago
Estava ali,
Nenhuma gota de sangue,
Suor ou secreção
Saiu dele que molhasse
O pano,
Contudo, num único
Minuto de pranto de Rebeca,
Tudo escorreu por lágrimas
Abaixo.
Ela retirou o tecido,
Riscou com os espinhos
Da roseira,
Duas horas de choro
Depois,
Viu que desenhou o rosto
De Tiago ali.
O abandonador,
O amor que partiu
Para deixá-la sozinha
E grávida,
Olhou entre suas pernas abertas,
E havia uma poça de sangue
Entre elas,
E ali: algo.
O filho escorreu.
Usando sangue, dor e pranto,
Ela pegou a pele do esposo,
E colocou sobre o desenho,
Pegou grama, terra,
E algo do mármore,
Que não foi difícil quebrar,
Ao bater a parte da madeira
Do caixão contra ele.
A madeira se partiu
Em partes menores,
E o mármore se soltou.
Juntou suas roupas,
Rasgou até a cueca.
Maldito.
A deixou.
Preferiu a morte.
Desenhado o rosto
Do esposo morto,
Desenhou o filho,
Fez um pequeno bebê
Na altura do seu peito,
Como se ele o segurasse,
Então, ergueu o vestido,
Encontrou o grosso
Do seu sangue,
A espessura de algo nele,
A formatura de um bebê,
O bebê que o pai voltou
Para buscar,
O entregou.
Esmagou o que restou daquilo,
E colocou na peça de madeira,
Cravejada de dor,
Espinhos, pranto, sangue e pele.
Colocou um brilho amarelo
No olhar de cada um,
Desenhado pelo mármore
Do mesmo tom.
Pôs no sol para secar,
Trabalhou com o tecido
Cada detalhe,
Juntou alguns ossos
Para relevo da obra,
No fundo da tela
Coloriu com o próprio sangue.
Depois disso,
Secou o choro,
Que por si próprio
Desistiu de fazer luto.
Fechou o caixão,
Soltou a lápide sobre
O mármore de volta,
Nada pareceu ter sido mexido,
Nem a fotografia de Tiago
Que lhe sorria do lado de fora,
Nem sua pele
Sentiu qualquer coisa,
Ou os ossos.
Abriu a caixa da lápide,
Onde se colocava as flores,
E soltou lá dentro sua tela,
A cor do esposo
Ganhou tonalidade e vigor,
O filho ganhou forma,
Ambos sorriam felizes,
Estavam distantes agora,
E juntos.
Chaveou a caixinha,
Fez uma oração pra ambos,
Calou sua dor.

Dor

“De útero para útero,
O sangue doente
Se revela,
E a histeria é transmitida”.
O médico sugeriu para Anne,
Que estava deitada na cama
Hospitalar,
Com o nariz quebrado,
E algumas ataduras pelo rosto.
Ela ficou calada,
Ele queria emitir
Um diagnóstico
Que não fosse o costumeiro
De que, outra vez,
Seu esposo descontou nela
Toda a sua fúria, ódio e força.
“Ele feriu-se?”
Anne olhou para seu rosto,
Como se quisesse indagar,
Mas, não conseguiu dizer nada,
Então, permaneceu olhando
Fixo para aquele homem alto
Vestido de branco
Com uma prancheta
E uma caneta branca
Em mãos.
Contudo, ela imaginou
Que não,
Ele não sofreu único arranhão,
Nem quebrou seus dedos
Contra os ossos
Do seu rosto.
Anne tentou se mover,
Mas viu-se impedida,
Estava usando gesso
Em um dia braços,
E custou lembrar o motivo.
Rolinton estava fazendo
Açúcar de cana,
Quando começou a gritar
Para ela pôr lenha no fogo
Caso contrário o fogo
Se apagaria e isto retardaria
O resultado do açúcar,
Ou então, estragaria.
Ela se aprumou
Com um feixe de lenha
Em mãos,
Então, a dois passos
Da fogueira
Tropeçou sobre palha seca,
Gravetos e outras sujeiras
Que estavam ao redor
Do tacho
No redor e dentro
Do galpão aberto
Onde estavam.
Caiu de rosto na sujeira,
Estendida feito uma boba,
A lenha correu dos seus braços,
Chegou ao fogo
E incendiou feito palha seca,
Faiscando contra sua cara,
Crepidando próximo ao seu rosto.
Rolinton irritou-se,
Levantou de seu tronco
De madeira onde estava sentado
Com a pá de mexer o tacho
Nas mãos,
Soltou a pá naquela labareda
E atirou contra ela.
Jogou brasas acesas,
Madeira incandescente,
Fogo vivo em seus braços,
Então, pisou sobre o braço
Próximo a ele.
Sua mão esquerda
Presa entre o chão
E seu pé,
E o fogo a consumir
Sua pele,
Suas unhas,
Seus dedos,
Seu braço,
Chegando ao seu rosto.
Ela uniu toda a sua força,
Puxou o braço,
E conseguiu fugir,
Caindo sentada contra
O pilar do galpão.
Rolinton não se viu sossego,
Lavou a pá no balde de água
Que estava ao seu lado,
Depois, colocou no açúcar
Que fervia a sua frente,
E jogou três pás
Do doce contra Anne,
Depois disso,
Largou a pá dentro do tacho.
Juntou Anne pelos braços,
E desferiu socos
Contra seu rosto
Até fazer saltar sangue.
Ele disse que ela era lerda,
Histérica e vadia.
Ela pegou uma madeira
E revidou contra seu rosto,
Ele defendeu com o braço
O golpe dela,
Lhe tomou a madeira
Com a mesma mão
E soltou a madeira com força
Contra ela,
Ela acordou ali onde estava.
Não sabia o dia,
Ou hora,
Mas, olhava-se no espelho
A sua frente
Preso na parede
Ansiosa para voltar
Para casa.
O médico falava,
Movia-se ao seu redor,
Lhe indicava remédios
Pedia se sentia dor,
“dor?” ela indagou-se,
Então, chorou copiosamente.

Um Princípe