Formada em direito,
Aprovada na prova para advogada,
Tudo estaria perfeito
Se seu sonho não estivesse na roça,
E seu coração...
Ah, seu coração estava no Batalhão
Da Polícia Militar;
Com a aprovação do curso
Em mãos,
Ela reprovou no quesito físico,
Magra demais...
As horas em que
Passou estudando
Lhe ocupou muito,
Retirou o horário de trabalho
E levou o salário,
Isso lhe tirou o dinheiro,
E o alimento em sua casa
Sempre foi pouco,
Hoje, por ter sido insuficiente
Lhe deu um corpo esbelto,
Mas lhe roubou a aprovação
No concurso dos sonhos:
Ser soldado,
Soldado de Juliano,
O Coronel mais lindo
Que ela já viu
Que desde o primeiro olhar
Lhe roubou tudo:
Vontade de sair pelas ruas
Beber e curtir com as amigas,
As drogas que dirigiam
As colegas,
A vontade de ser de
Qualquer outra pessoa.
Juliano lhe tomou
Cada pensamento,
Cada ato e cada sonho,
Também tomou alguns
Olhares seus no espelho
E umas passadelas pelo
Próprio corpo.
Mas, vê-lo não era simples,
Trabalhava doze horas
E seguia cotidiano restrito,
Sempre com a família...
Juliano era o objetivo,
E o sonho de quantas?
Muitas,
Com certeza.
Alessa vendeu o terreno
Que tinha na cidade
E comprou uma chácara
No interior do município
Onde Juliano morava,
O mais perto dele possível.
Lá aprendeu a fazer pão,
Sempre nas horas que queria
Lhe chamar a atenção,
Aprendeu a fazer pizzas
E bolos confeitados.
Tudo em função de Juliano
Para atender seus gostos,
Logo, ele passou com sua picape,
Em frente a sua casa.
O coração de Alessa
Nunca pulsou mais forte
E seu pulso se levantou
Em cumprimento,
Ganhou seu primeiro sorriso.
E o olhar de seus olhos azuis límpidos,
Em contraste de seus dentes brancos,
Foi como se um céu se abrisse
E estivesse tão perto
Que era só correr e tocá-lo,
Mas Juliano o Coronel
Não se permite ao toque
Assim de maneira tão simples,
Não ele apenas lhe sorriu
E partiu com aqueles seus
Cabelos loiros ao vento
Feito um sol que cai no horizonte
E deixa só o escuro.
Um escuro de bloqueio de pensamentos
Em que só o vê,
A nenhum outro.
Naquele céu lindo de nuvens esparsas
Que se abre e deixa a mostra
Um azul tão profundo
Como um sonho em que você
Se joga e não se permite voltar,
Juliano é como uma arma municiada,
De gatilho puxado
E um dedo a espera,
Aliás seu dedo sempre está
Em prontidão,
Ereto e seguro de porte másculo,
Naquela farda desbotada
E marrom parece um anjo,
Dando ordens e instruções de apoio,
De trabalho,
De ações.
Com um clique e ele atira,
Sem errar o alvo,
Com sua voz alta e estridente,
Efeito bala voando
Cortando o ar,
Acertando e ferindo
Até onde ele quiser,
Sangue,
Dor,
Alívio,
Segurança,
É Juliano.
Bem, mas seu carro branco
O levou para as ruas do Batalhão,
Agora ele mudou a rotina,
Preferia usar a rua de sua casa,
Isso lhe permitia as olhadelas,
Os abraços inseguros
Em si mesma,
Como se fosse nele.
Pensando em sonhar,
Alessa comprou um casal de patos,
Depois mais dez,
Então, dois porcos
E começou a cria-los.
Ela convidou Juliano
Para fazer o chiqueiro
Para os bichinhos,
E os pregos começaram
A estalar sob o martelo,
E de tábua a tabua
O chiqueiro foi montado
Num único dia.
Lá houve o primeiro contato
De suas mãos, e então,
Na sombra da canela de Seilão,
Ocorreu o primeiro beijo,
Depois naquele chão de terra
Poeira e raízes protuberantes,
Houve o amor.
Foi a primeira vez de Juliano,
Não de Alessa,
Mas, mergulhar no seu corpo alvo,
Foi como entrar num mundo inabitado,
Que nunca foi tocado,
Uma invasora de seus mistérios,
Um mergulho num céu de nuvens
Esparsas que era seu rosto,
Um entregar-se aquele beijo sedento,
Como se o branco de seus dentes
Fossem nuvens de algodão
A percorrendo sobre toda a sua pele,
Sedento e tesudo e apaixonado.
Alessa tocou seu rosto fortemente,
E olhou naqueles olhos azuis
Como se o céu estivesse tão perto,
Tão perto e tão nela,
Seu calor tinha efeito de um sol
Inexplicável e forte,
Tão intenso e penetrante
Que ela implorou para ficar ali,
O recebendo,
O invadindo,
O tendo,
Num entregar-se apaixonado
e demorado.
Acabado o ato de amor,
O Coronel Juliano se foi,
Foi difícil soltar sua mão quente,
Permiti-lo ir,
Desviar o olhar,
Jamais ela admitiria a dor
Que sentiu o vendo ir,
Então, ela aproximou-se rápida
Por trás,
Mas, antes que chegasse nele,
Ele virou-se como se esperasse
O ato,
E ela pode sentir seu rosto,
O calor,
E o céu aconchegando-se nela,
Sobre seus seios arfantes,
Os lábios trêmulos
Que imploravam por seu amor,
Ele pegou sua mão outra vez,
Lhe repousou um beijo
E foi.
Ela ergueu a mão
E acenou o máximo que pode,
Nuvens de poeira levantaram-se,
Ofuscando vê-lo,
Mas ela soube que agora
Ele sempre estaria perto,
E que ela nunca o esqueceria.
Na noite de sua primeira visita,
Alguém invadiu sua propriedade
E levou um de seus porcos,
Alessa acordou e vendo
o chiqueiro danificado
Em uma parte
Correu até lá,
E notou a ausência de um porco.
Ao ligar para o número da emergência,
A emergência a aconselhou
A registrar ocorrência na delegacia
Pois este delito se resolvia
Através da Polícia Civil,
Alessa desligou atordoada,
Não pode falar com Juliano,
Não obteve sua compreensão,
Palavras de carinho
E seus sentimentos.
Foi até o chiqueiro,
E pregou as tábuas soltas
Do chão,
Comprou outro porco
E o substituiu.
Depois foi até seu notebook,
E o buscou na rede social,
O que viu foi totalmente incompreensivo:
Ele estava noivo de uma garota
Que tinha um filho:
"Meu Deus, seria filho dele?"
"Não",
Ela disse,
Então, fechou seu notebook.
Se debruçou na cama
E chorou,
Passou sete dias e o Coronel
Não lhe deu notícias,
Juliano afastava-se como o sol
Que toda noite se vai,
E não permite que mais nada
Seja visto,
Exceto sua ausência.
Os dias correram sôfregos,
Então, ela decidiu ir vê-lo,
Lá mesmo, no Batalhão,
Ao chegar lá,
Se sentiu constrangida ao se
Apresentar,
Disse se tratar de uma amiga
E que queria vê-lo.
Ele veio sorrindo o
Seu sorriso perfeito
Que logo se dissipou ao vê-la,
Sim, era Alessa
E não a tal garota noiva.
Ele lhe pediu um tempo,
E disse que logo retornaria.
As horas se arrastaram
Dentro daquele Batalhão frio
E úmido,
Então, ele veio,
Lhe cumprimentou estendendo
A mão aberta e
Ela foi direta:
"-Eu soube que você é noivo?"
Ela indagou em interrogação,
Não foi capaz de ser enérgica
Ou segura,
Seu coração balançava
Como se estivesse afundando
Num mar aberto,
Que era o Coronel Juliano
E seus olhos azuis enormes.
O Batalhão girava no seu entorno,
Policiais fardados iam e vinham,
Ele, então, consentiu.
"-Sim, noivo".
Ela estremeceu,
Abaixou a cabeça e saiu.
Atordoada pegou o carro
E dirigiu muito rápida
Sem saber o que fazer,
No caminho decidiu lutar
Por ele,
Comprou frutas, flores e um livro
No mercado,
E uma sexta de cipó,
E a enfeitou para ele,
Ao levá-la no Batalhão
Ele lhe disse que não receberia,
Ela a deixou sobre o balcão
De entrada e saiu.
Nunca uma saída de um lugar
Foi tão difícil,
Suas pernas tremeram
E o coração palpitou sem parar,
Sentiu medo de ser alvejada
Por trás,
Ali haviam policiais e adeptos,
Nenhum outro,
Todos armados e seguros
De seus argumentos
E suas vontades,
Nada reduziria a opinião
Do Coronel Juliano,
Ele pertencia a outra
Para sempre.
Chegando em casa,
Algo inumano invadiu
Sua propriedade,
Perseguiu seus patos,
E os rasgou ao meio
Despenando-os,
E arrancando seus pedaços,
Ela deixou a direção do carro,
Abandonou-o próximo a casa
Se ajoelhou e chorou:
Quem teria feito isso?
Chegar perto do Coronel Juliano,
Foi como estar com vistas
Erguidas para o céu,
Nunca desviar de seu olhar
E uma guilhotina cair de lá
Sobre seus sonhos
Até não sobrar nenhum inteiro.
Havia sinais de quirela
Perto do chiqueiro,
Alguém tratou os porcos
Na sua ausência,
Provavelmente, os envenenaram,
Outra vez ela ligou para a emergência
Da Polícia Militar,
Outra vez o Coronel juliano
Não estava lá,
Não era seu setor,
E outra vez ela deveria
Buscar a Polícia Civil.
Outra vez ela não foi,
Juntou os resquicicíos
Que sobrou de cada bichinho
E os jogou no rio,
Que a água os levasse,
Sobrou apenas as penas
Estendidas e esvoaçantes
No vento frio de julho.
Era como se tantas penas
De tantos bichinhos
Apagassem o maldito azul
Daquele céu profundo
Em que se mergulha
Por uma única vez
E nunca mais se esquece
Ou volta a si própria.
Os dias passaram,
Numa noite,
Seus porcos foram levados,
Sobrou apenas sinais de sangue,
Ela não ouviu nada,
Nada viu
E outra vez não registrou
Ocorrência na maldita Polícia Civil,
Ela não tinha interesse nisso,
Ser mal atendida,
Não tinha quem responsabilizar
Pelos danos,
Exceto imaginar que fosse algum vizinho.
Então, foi passear na sua tia
E descobriu que o Coronel Juliano
Comprou a propriedade vizinha
Para seu futuro sogro
E que seus cachorros fugiram
E causaram todos os danos
Que Alessa se referiu.
E inclusive, chegaram
Até o chiqueiro de sua tia
E abriam-no com seus dentes,
E comeram o que havia dentro
Deixando só os restos,
Isso facilitou encontrar suas galinhas
E comer muitas delas.
Logo a tarde ela iria registrar
Ocorrência na delegacia civil,
Alessa tomou caminho diferente,
Foi até o Coronel
E lá, quando um sargento
Soube de que se tratava
Não aceitou chamar o Coronel
Para que conversassem
E resolvessem o assunto.
Alessa irritou-se:
"-Esse maldito viado,
chupador de p...
ele me odeia."
Ela gritou.
-"Senhora, controle-se,
Eu irei processá-la por desacato."
O sargento falou alto
Com uma planilha em suas mãos.
"Coronel Juliano,
Deus te capacitou
Mas não te escolheu."
Alessa gritou de frente
Daquele balcão
Com uma plateia de policiais
Cada vez maior se juntando
Naquela sala
E retirando sua visão dele.
"Coronel Juliano,
Você é comedor de crianças."
ela tornou gritar
Em completo desespero
Exigindo a sua atenção.
"Coronel Juliano,
Vamos transar?"
Ela insistiu em desespero.
"Senhora, por favor,
A senhora esta invadindo
Uma repartição".
O sargento falou
Com aquela prancheta
Ameaçadora em mãos.
"Deixe daquela noiva".
Ela berrou em alta voz.
"Senhora, a senhora está
Perdendo seu disernimento."
Retornou o sargento
Chegando perto dela,
"Eu irei prendê-la"
Ele insistiu.
"Não, estou aprisionada ao
Coronel e não posso me esquivar"
Ela gritou em resposta.
"Senhora, eu posso desaprisiona-la
Dele e leva-la para a Delegacia civil"
ele falou.
"Nãoooo".
Ela gritou.
Alessa afastou-se,
Trêmula e insegura,
"de que se tratava ele agir assim?"
"O que houve?"
"O que ela fez de errado?"
O sargento foi impiedoso,
E o Coronel a vendo da área verde
Do Batalhão não lhe deu atenção,
Ficou lá,
Inerte sobre aquele verde
Explicando algo a tantos policiais
Que estavam lá,
Onipotente de contraste
Com aquele outro complexo
De Batalhão marrom forte e claro
Que havia após ele.
Alessa gritou imperdoavel
De ali dentro tudo que houve:
"Seu maldito,
Você me usou,
Roubou meus bichinhos
E deu para seu sogro,
Me pague,
Me pague."
"Aspirante a Coronel Bedin".
O sargento aproximava-se dela,
Seguro com seus olhos escuros,
Feito uma noite misteriosa
Que roubava todo o seu céu,
Sim era o fim,
O fim do relacionamento
Que nunca teve mais
De um dia e alguns olhares.
Ela permitiu que suas lágrimas
Escorressem naquela sala
De recepção cheia de soldados
Armados que foram se juntando,
Enquanto ele ficou distante,
Dizendo adeus,
Sem falar uma única palavra.
Havia o balcão de recepção,
E um portão de ferro escuro,
Alessa se aproximou daquilo,
Ergueu uma perna sobre o portão
E gritou:
"Aqui você não fela"
E baixou a calça deixando a mostra
A sua vagina:
"Aqui você não morde"
Ela gritou,
Depois puxou a calça
De volta e gritou erguendo
O casaco para o alto:
"aqui você não mama,
Viado,
Você mama seu saco!"
O Coronel Juliano
Permaneceu impassível
Fazendo o treinamento
Dos sargentos.
"Me Coma".
Ela gritou.
Ele a olhou e sorriu.
Uma multidão de pessoas
Começou a se reunir
Do lado de fora do Batalhão,
Todos de olhos e ouvidos atentos
Aos gritos de Alessa,
Que logo foi presa e contida
Pelo sargento.
A questão do aprisionamento
Não foi tão simples
Quanto parece no noticíario
Da manhã da cidade de Chapecó,
Ela deu um pulo para trás
Ficando distante daquele sargento
Que manteve o olhar sobre ela,
E as policiais que não saíram de lá,
Ela odiou cada uma daquelas fardadas,
Odiou o distanciamento dele,
Odiou aqueles olhos
Que mais pareciam uma bala
Solta contra ela,
Prestes a chegar perto,
Tão perto até dilacerá-la.
Ele parecia uma pedra
Solta em pé,
Um muro de ouro,
Naquele corpo branco e
Tão perfeito,
Como a nenhum outro,
Um sol incandecente e dono
De todo o céu,
Como se apenas no seu entorno
Residisse a vida,
Todas as vidas:
Daqueles presentes,
Daqueles lá de fora,
Mas, não a sua!
Ela buscou uma arma no sargento,
Mas, ele não permitiu que ela
Se aproximasse,
Alegou que a processaria por desacato,
Perseguição contra Tiago
E o que mais lhe conviesse.
Ela gritou de dor,
Ódio e despeito.
"Eu te amo Coronel Juliano",
Ela gritou pela última vez,
Então, duas mãos quentes
Repousaram em seus braços
A mantendo inerte.
A porta de uma cela fria
E escurecida da Polícia Civil
Lhe tirou o sonho de estar
De volta tão próxima do céu
Pelo qual se apaixonou
E chegou uma única vez,
Tocou um único dia.
Lá no alto da delegacia,
Um helicóptero sobrevoou
Bem baixinho,
Era o Coronel Juliano quem dirigia,
Ele própria veio conduzi-la
Até o presídio regional,
Então, num ímpeto de humanidade,
Ele pagou a multa que havia
Contra ela na delegacia
E lhe permitiu a absolvição prévia,
Até a responsabilização criminal
Por seus atos.
-"Ato de amá-lo?"
Ela o indagou na frente
Do delegado,
O delegado riu.
"-Você sabe que agora
É proibido!"
Ele respondeu seguro
Em seu fardamento.
"-proibido deveria você
Ser viado".
Ela insistiu em ofende-lo.
Ele a olhou com o olhar seguro,
E não disse nada.
Na saída,
Ele pegou sua mão,
E a manteve por um tempo,
Ela soube que seria sempre dele
Não importava o que houvesse.
Ela olhou para trás e buscou
Seu beijo ele desviou
Para o lado oposto.
Então, soltou sua mão
E empurrou seu braço,
Ela saiu desconsolada
Pelas ruas noturnas
Daquela cidade perdida
De crimes e solidão,
Ninguém lhe estendeu a mão,
Nem matou,
Pareciam não vê-la,
Nenhum daqueles alcolatras
E drogados.
Logo no amanhecer
Ela mandou flores para ele,
Outra vez,
Se pôs a sua disposição,
Conforme ele a imaginou
E ela não poderia fugir.
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