terça-feira, 14 de julho de 2026

À Sua Disposição

 Formada em direito,

Aprovada na prova para advogada,

Tudo estaria perfeito

Se seu sonho não estivesse na roça,

E seu coração...

Ah, seu coração estava no Batalhão

Da Polícia Militar;

Com a aprovação do curso

Em mãos,

Ela reprovou no quesito físico,

Magra demais...


As horas em que 

Passou estudando 

Lhe ocupou muito,

Retirou o horário de trabalho

E levou o salário,

Isso lhe tirou o dinheiro,

E o alimento em sua casa

Sempre foi pouco,

Hoje, por ter sido insuficiente

Lhe deu um corpo esbelto,

Mas lhe roubou a aprovação

No concurso dos sonhos:

Ser soldado,

Soldado de Juliano,

O Coronel mais lindo

Que ela já viu

Que desde o primeiro olhar

Lhe roubou tudo:

Vontade de sair pelas ruas

Beber e curtir com as amigas,

As drogas que dirigiam

As colegas,

A vontade de ser de 

Qualquer outra pessoa.


Juliano lhe tomou

Cada pensamento,

Cada ato e cada sonho,

Também tomou alguns 

Olhares seus no espelho

E umas passadelas pelo

Próprio corpo.


Mas, vê-lo não era simples,

Trabalhava doze horas

E seguia cotidiano restrito,

Sempre com a família...

Juliano era o objetivo,

E o sonho de quantas?

Muitas,

Com certeza.


Alessa vendeu o terreno

Que tinha na cidade

E comprou uma chácara

No interior do município

Onde Juliano morava,

O mais perto dele possível.


Lá aprendeu a fazer pão,

Sempre nas horas que queria

Lhe chamar a atenção,

Aprendeu a fazer pizzas

E bolos confeitados.

Tudo em função de Juliano

Para atender seus gostos,

Logo, ele passou com sua picape,

Em frente a sua casa.


O coração de Alessa

Nunca pulsou mais forte

E seu pulso se levantou

Em cumprimento,

Ganhou seu primeiro sorriso.

E o olhar de seus olhos azuis límpidos,

Em contraste de seus dentes brancos,

Foi como se um céu se abrisse

E estivesse tão perto

Que era só correr e tocá-lo,

Mas Juliano o Coronel

Não se permite ao toque

Assim de maneira tão simples,

Não ele apenas lhe sorriu

E partiu com aqueles seus

Cabelos loiros ao vento

Feito um sol que cai no horizonte

E deixa só o escuro.


Um escuro de bloqueio de pensamentos

Em que só o vê,

A nenhum outro.

Naquele céu lindo de nuvens esparsas

Que se abre e deixa a mostra

Um azul tão profundo

Como um sonho em que você

Se joga e não se permite voltar,

Juliano é como uma arma municiada,

De gatilho puxado

E um dedo a espera,

Aliás seu dedo sempre está

Em prontidão,

Ereto e seguro de porte másculo,

Naquela farda desbotada

E marrom parece um anjo,

Dando ordens e instruções de apoio,

De trabalho,

De ações.


Com um clique e ele atira,

Sem errar o alvo,

Com sua voz alta e estridente,

Efeito bala voando 

Cortando o ar,

Acertando e ferindo

Até onde ele quiser,

Sangue,

Dor, 

Alívio,

Segurança,

É Juliano.


Bem, mas seu carro branco

O levou para as ruas do Batalhão,

Agora ele mudou a rotina,

Preferia usar a rua de sua casa,

Isso lhe permitia as olhadelas,

Os abraços inseguros 

Em si mesma,

Como se fosse nele.


Pensando em sonhar,

Alessa comprou um casal de patos,

Depois mais dez,

Então, dois porcos

E começou  a cria-los.

Ela convidou Juliano 

Para fazer o chiqueiro 

Para os bichinhos,

E os pregos começaram 

A estalar sob o martelo,

E de tábua a tabua 

O chiqueiro foi montado

Num único dia.


Lá houve o primeiro contato

De suas mãos, e então,

Na sombra da canela de Seilão,

Ocorreu o primeiro beijo,

Depois naquele chão de terra

Poeira e raízes protuberantes,

Houve o amor.


Foi a primeira vez de Juliano,

Não de Alessa,

Mas, mergulhar no seu corpo alvo,

Foi como entrar num mundo inabitado,

Que nunca foi tocado,

Uma invasora de seus mistérios,

Um mergulho num céu de nuvens

Esparsas que era seu rosto,

Um entregar-se aquele beijo sedento,

Como se o branco de seus dentes

Fossem nuvens de algodão

A percorrendo sobre toda a sua pele,

Sedento e tesudo e apaixonado.


Alessa tocou seu rosto fortemente,

E olhou naqueles olhos azuis

Como se o céu estivesse tão perto,

Tão perto e tão nela,

Seu calor tinha efeito de um sol

Inexplicável e forte,

Tão intenso e penetrante

Que ela implorou para ficar ali,

O recebendo,

O invadindo,

O tendo,

Num entregar-se apaixonado

e demorado.


Acabado o ato de amor,

O Coronel Juliano se foi,

Foi difícil soltar sua mão quente,

Permiti-lo ir,

Desviar o olhar,

Jamais ela admitiria a dor

Que sentiu o vendo ir,

Então, ela aproximou-se rápida 

Por trás,

Mas, antes que chegasse nele,

Ele virou-se como se esperasse

O ato,

E ela pode sentir seu rosto,

O calor, 

E o céu aconchegando-se nela,

Sobre seus seios arfantes,

Os lábios trêmulos

Que imploravam por seu amor,

Ele pegou sua mão outra vez,

Lhe repousou um beijo

E foi.


Ela ergueu a mão

E acenou o máximo que pode,

Nuvens de poeira levantaram-se,

Ofuscando vê-lo,

Mas ela soube que agora

Ele sempre estaria perto,

E que ela nunca o esqueceria.


Na noite de sua primeira visita,

Alguém invadiu sua propriedade

E levou um de seus porcos,

Alessa acordou e vendo

o chiqueiro danificado 

Em uma parte 

Correu até lá,

E notou a ausência de um porco.


Ao ligar para o número da emergência,

A emergência a aconselhou

A registrar ocorrência na delegacia

Pois este delito se resolvia 

Através da Polícia Civil,

Alessa desligou atordoada,

Não pode falar com Juliano,

Não obteve sua compreensão,

Palavras de carinho

E seus sentimentos.


Foi até o chiqueiro,

E pregou as tábuas soltas

Do chão,

Comprou outro porco

E o substituiu.


Depois foi até seu notebook,

E o buscou na rede social,

O que viu foi totalmente incompreensivo:

Ele estava noivo de uma garota

Que tinha um filho:

"Meu Deus, seria filho dele?"

"Não",

Ela disse,

Então, fechou seu notebook.


Se debruçou na cama 

E chorou,

Passou sete dias e o Coronel

Não lhe deu notícias,

Juliano afastava-se como o sol

Que toda noite se vai,

E não permite que mais nada

Seja visto,

Exceto sua ausência.


Os dias correram sôfregos,

Então, ela decidiu ir vê-lo,

Lá mesmo, no Batalhão,

Ao chegar lá,

Se sentiu constrangida ao se

Apresentar,

Disse se tratar de uma amiga

E que queria vê-lo.


Ele veio sorrindo o 

Seu sorriso perfeito 

Que logo se dissipou ao vê-la,

Sim, era Alessa

E não a tal garota noiva.

Ele lhe pediu um tempo,

E disse que logo retornaria.


As horas se arrastaram

Dentro daquele Batalhão frio

E úmido,

Então, ele veio,

Lhe cumprimentou estendendo

A mão aberta e

Ela foi direta:

"-Eu soube que você é noivo?"

Ela indagou em interrogação,

Não foi capaz de ser enérgica

Ou segura,

Seu coração balançava

Como se estivesse afundando

Num mar aberto,

Que era o Coronel Juliano

E seus olhos azuis enormes.


O Batalhão girava no seu entorno,

Policiais fardados iam e vinham,

Ele, então, consentiu.

"-Sim, noivo".

Ela estremeceu,

Abaixou a cabeça e saiu.


Atordoada pegou o carro

E dirigiu muito rápida

Sem saber o que fazer,

No caminho decidiu lutar 

Por ele,

Comprou frutas, flores e um livro

No mercado,

E uma sexta de cipó,

E a enfeitou para ele,

Ao levá-la no Batalhão

Ele lhe disse que não receberia,

Ela a deixou sobre o balcão

De entrada e saiu.


Nunca uma saída de um lugar

Foi tão difícil,

Suas pernas tremeram

E o coração palpitou sem parar,

Sentiu medo de ser alvejada

Por trás,

Ali haviam policiais e adeptos,

Nenhum outro,

Todos armados e seguros

De seus argumentos

E suas vontades,

Nada reduziria a opinião

Do Coronel Juliano,

Ele pertencia a outra

Para sempre.


Chegando em casa,

Algo inumano invadiu 

Sua propriedade,

Perseguiu seus patos,

E os rasgou ao meio

Despenando-os,

E arrancando seus pedaços,

Ela deixou a direção do carro,

Abandonou-o próximo a casa

Se ajoelhou e chorou:

Quem teria feito isso?


Chegar perto do Coronel Juliano,

Foi como estar com vistas

Erguidas para o céu,

Nunca desviar de seu olhar

E uma guilhotina cair de lá

Sobre seus sonhos 

Até não sobrar nenhum inteiro.


Havia sinais de quirela

Perto do chiqueiro,

Alguém tratou os porcos

Na sua ausência,

Provavelmente, os envenenaram,

Outra vez ela ligou para a emergência

Da Polícia Militar,

Outra vez o Coronel juliano

Não estava lá,

Não era seu setor,

E outra vez ela deveria

Buscar a Polícia Civil.


Outra vez ela não foi,

Juntou os resquicicíos

Que sobrou de cada bichinho

E os jogou no rio,

Que a água os levasse,

Sobrou apenas as penas

Estendidas e esvoaçantes

No vento frio de julho.


Era como se tantas penas

De tantos bichinhos

Apagassem o maldito azul

Daquele céu profundo

Em que se mergulha 

Por uma única vez

E nunca mais se esquece

Ou volta a si própria.


Os dias passaram,

Numa noite,

Seus porcos foram levados,

Sobrou apenas sinais de sangue,

Ela não ouviu nada,

Nada viu

E outra vez não registrou

Ocorrência na maldita Polícia Civil,

Ela não tinha interesse nisso,

Ser mal atendida,

Não tinha quem responsabilizar

Pelos danos,

Exceto imaginar que fosse algum vizinho.


Então, foi passear na sua tia

E descobriu que o Coronel Juliano

Comprou a propriedade vizinha

Para seu futuro sogro

E que seus cachorros fugiram

E causaram todos os danos

Que Alessa se referiu.


E inclusive, chegaram 

Até o chiqueiro de sua tia

E abriam-no com seus dentes,

E comeram o que havia dentro

Deixando só os restos,

Isso facilitou encontrar suas galinhas 

E comer muitas delas.


Logo a tarde ela iria registrar

Ocorrência na delegacia civil,

Alessa tomou caminho diferente,

Foi até o Coronel 

E lá, quando um sargento

Soube de que se tratava

Não aceitou chamar o Coronel

Para que conversassem

E resolvessem o assunto.


Alessa irritou-se:

"-Esse maldito viado,

chupador de p...

ele me odeia."

Ela gritou.

-"Senhora, controle-se,

Eu irei processá-la por desacato."

O sargento falou alto

Com uma planilha em suas mãos.


"Coronel Juliano,

Deus te capacitou

Mas não te escolheu."

Alessa gritou de frente

Daquele balcão

Com uma plateia de policiais

Cada vez maior se juntando

Naquela sala

E retirando sua visão dele.


"Coronel Juliano,

Você é comedor de crianças."

ela tornou gritar

Em completo desespero

Exigindo a sua atenção.

"Coronel Juliano,

Vamos transar?"

Ela insistiu em desespero.


"Senhora, por favor,

A senhora esta invadindo

Uma repartição".

O sargento falou

Com aquela prancheta 

Ameaçadora em mãos.


"Deixe daquela noiva".

Ela berrou em alta voz.

"Senhora, a senhora está

Perdendo seu disernimento."

Retornou o sargento

Chegando perto dela,

"Eu irei prendê-la"

Ele insistiu.

"Não, estou aprisionada ao

Coronel e não posso me esquivar"

Ela gritou em resposta.

"Senhora, eu posso desaprisiona-la 

Dele e leva-la para a Delegacia civil"

ele falou.

"Nãoooo".

Ela gritou.

Alessa afastou-se,

Trêmula e insegura,

"de que se tratava ele agir assim?"

"O que houve?"

"O que ela fez de errado?"

O sargento foi impiedoso,

E o Coronel a vendo da área verde

Do Batalhão não lhe deu atenção,

Ficou lá, 

Inerte sobre aquele verde

Explicando algo a tantos policiais

Que estavam lá,

Onipotente de contraste 

Com aquele outro complexo

De Batalhão marrom forte e claro

Que havia após ele.


Alessa gritou imperdoavel

De ali dentro tudo que houve:

"Seu maldito,

Você me usou,

Roubou meus bichinhos

E deu para seu sogro,

Me pague,

Me pague."

"Aspirante a Coronel Bedin".


O sargento aproximava-se dela,

Seguro com seus olhos escuros,

Feito uma noite misteriosa

Que roubava todo o seu céu,

Sim era o fim,

O fim do relacionamento

Que nunca teve mais

De um dia e alguns olhares.


Ela permitiu que suas lágrimas

Escorressem naquela sala

De recepção cheia de soldados

Armados que foram se juntando,

Enquanto ele ficou distante,

Dizendo adeus,

Sem falar uma única palavra.


Havia o balcão de recepção,

E um portão de ferro escuro,

Alessa se aproximou daquilo,

Ergueu uma perna sobre o portão

E gritou:

"Aqui você não fela"

E baixou a calça deixando a mostra

A sua vagina:

"Aqui você não morde"

Ela gritou,

Depois puxou a calça 

De volta e gritou erguendo

O casaco para o alto:

"aqui você não mama,

Viado,

Você mama seu saco!"


O Coronel Juliano

Permaneceu impassível

Fazendo o treinamento

Dos sargentos.

"Me Coma".

Ela gritou.

Ele a olhou e sorriu.

Uma multidão de pessoas

Começou a se reunir

Do lado de fora do Batalhão,

Todos de olhos e ouvidos atentos

Aos gritos de Alessa,

Que logo foi presa e contida

Pelo sargento.


A questão do aprisionamento

Não foi tão simples

Quanto parece no noticíario

Da manhã da cidade de Chapecó,

Ela deu um pulo para trás

Ficando distante daquele sargento

Que manteve o olhar sobre ela,

E as policiais que não saíram de lá,

Ela odiou cada uma daquelas fardadas,

Odiou o distanciamento dele,

Odiou aqueles olhos

Que mais pareciam uma bala

Solta contra ela,

Prestes a chegar perto,

Tão perto até dilacerá-la.


Ele parecia uma pedra

Solta em pé,

Um muro de ouro,

Naquele corpo branco e 

Tão perfeito,

Como a nenhum outro,

Um sol incandecente e dono 

De todo o céu,

Como se apenas no seu entorno

Residisse a vida,

Todas as vidas:

Daqueles presentes,

Daqueles lá de fora,

Mas, não a sua!


Ela buscou uma arma no sargento,

Mas, ele não permitiu que ela

Se aproximasse,

Alegou que a processaria por desacato,

Perseguição contra Tiago

E o que mais lhe conviesse.

Ela gritou de dor,

Ódio e despeito.


"Eu te amo Coronel Juliano",

Ela gritou pela última vez,

Então, duas mãos quentes

Repousaram em seus braços

A mantendo inerte.


A porta de uma cela fria

E escurecida da Polícia Civil

Lhe tirou o sonho de estar

De volta tão próxima do céu

Pelo qual se apaixonou

E chegou uma única vez,

Tocou um único dia.


Lá no alto da delegacia,

Um helicóptero sobrevoou

Bem baixinho,

Era o Coronel Juliano quem dirigia,

Ele própria veio conduzi-la

Até o presídio regional,

Então, num ímpeto de humanidade,

Ele pagou a multa que havia

Contra ela na delegacia

E lhe permitiu a absolvição prévia,

Até a responsabilização criminal

Por seus atos.


-"Ato de amá-lo?"

Ela o indagou na frente

Do delegado,

O delegado riu.

"-Você sabe que agora

É proibido!"

Ele respondeu seguro

Em seu fardamento.

"-proibido deveria você

Ser viado".

Ela insistiu em ofende-lo.

Ele a olhou com o olhar seguro,

E não disse nada.


Na saída,

Ele pegou sua mão,

E a manteve por um tempo,

Ela soube que seria sempre dele

Não importava o que houvesse.

Ela olhou para trás e buscou

Seu beijo ele desviou 

Para o lado oposto.


Então, soltou sua mão

E empurrou seu braço,

Ela saiu desconsolada

Pelas ruas noturnas

Daquela cidade perdida

De crimes e solidão,

Ninguém lhe estendeu a mão,

Nem matou,

Pareciam não vê-la,

Nenhum daqueles alcolatras

E drogados.


Logo no amanhecer

Ela mandou flores para ele,

Outra vez, 

Se pôs a sua disposição,

Conforme ele a imaginou

E ela não poderia fugir.

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