terça-feira, 20 de outubro de 2026

Não Desista Por Nós

- eu te amo,
Por que você resiste
Se eu noto
Que você também sente?
Ele indagou-me
Do nada,
Como se o amor
Pudesse ser explicado 
Ou o medo 
Pudesse ser compreendido. 

Me recostei na porta
Do carro
Comprimida em sentimentos 
Que não soube expressar:
- sei lá,
Estou morrendo,
Tenho pouco tempo
De vida.
Respondi assim
De súbito. 

Ele jogou- se para trás 
Como se tivésse
Ganhado um tiro 
E seus olhos escureceram-se
Num pavor que me deixou
Assustada,
Arrependi-me pela exatidão 
Das palavras na hora:
- você tem Aids?
Ele indagou de volta.

Eu baixei a cabeça 
Para os meus dedos sujos
Pois havia a pouco
Limpado o painel
Do carro em que estávamos. 
- não, mas tenho outra fatal.
Disse rápida,
Por um instante 
Fiquei com medo
De levar um soco
No estômago. 

Ele juntou as mãos 
E olhou para o escuro
Da noite
Como se buscasse algo
Intenso e seguro 
E disse:
- o amor é bondoso,
O amor sente profundo,
O amor quer e pronto...
- então o amor me levará 
Pois estou indo.
Interrompi-o.

Eu não precisava de oração,
Deus decidiu levar-me
Eu não queria promessas
Nada me prenderia 
Na terra.
Então fui,
Adentrei no escuro da noite,
Busquei o interruptor
Do poste do quintal
E liguei-o.

Quando a luz clareou 
Ele estava lá 
Atrás de mim
Feito uma espécie de sombra:
-assustou-me.
Eu disse.
-eu posso te proteger,
Te dar carinho,
Conforto...
Ele continuou 
Pegando em meus braços. 

-Francisco,
Me permita casar
Com sua filha!
Ele gritou alto.
-Genera, eu amo
Sua filha!
Ele continuou.
- De nada adianta,
Meu futuro está celado.
Eu respondi
Interrompendo aquela loucura.

-o amor move montanhas,
Salva e cura!
Ele continuou.
- mas o amor de Deus 
E maior e ele está
Me levando.
O interrompi chateada.
- não me de as costas,
Não desista de lutar
Eu te amo
e estarei ao seu lado. 
Ele disse,
Ajoelhando-se e segurando 
Minhas mãos 
Como numa prece.
- eu não estou sozinha.
Tenho minha família 
É o bastante ver eles 
Sofrendo comigo
Enquanto desfaleço,
E irremediável,
Entenda. 
Eu disse com lágrimas 
Nos olhos.
- não sou capaz.
Irei lutar.
Ele respondeu 
E agarrou-se a minha barriga
Me abraçando 
Com seus dois braços fortes.

- a morte vem buscar,
Ela não desiste.
Eu disse. 
- eu posso ser
Mais forte que ela.
Case-se comigo.
Ele respondeu. 
E retirou do bolso
Algumas notas de dinheiro
E disse:
- providencie seu anel
De noivado,
Nos casamos o quanto antes!

O gesto foi perfeito,
Casar era mesmo 
Meu sonho.
Meus pais saíram 
No quintal abraçados 
E unidos como sempre.

-Ta bom, aceito lutar
Por minha vida 
E saúde por nós dois.
Eu disse.
E enlacei o seu pescoço,
Depois, sem pudor
Lhe dei um beijo.

Ele me sorriu com lágrimas
Escorrendo em sua face,
Eu sempre ouvi
Minhas amigas sonharem
Com o amor,
Mas, eu nunca busquei isso,
E agora, simplesmente aconteceu.

Ticiano me amava,
Ele me apertou tão forte
Que senti que minha dor
Se esvaia,
E quando me beijou
Sua boca me preencheu
De saúde e felicidade.
-Dorme comigo.
Eu disse de pronto.
Ele me olhou sorrindo,
Acariciou minha face.
-Fica comigo desde hoje.
Eu falei.

Não pedi nada aos meus pais,
Nem me importei com a opinião deles,
Nos meus vinte anos
Eu já era adulta o suficiente
Para escolher por mim.

Segui com ele
Até meus pais:
-Este é Ticiano.
Ele irá dormir aqui...
Eu disse.
Ele estendeu as mãos
E abraçou cada um
Dos meus pais.
-Dormirá comigo.
Eu encerrei.

Ele estremeceu,
Pareceu ficar amedrontado,
Eu nunca estive mais segura.
Ticiano era vizinho,
Muitas vezes passeou
Na minha casa desde menino,
Com idade aproximada da minha
Nós dividimos muitos sanduiches
No quintal 
E pescamos muitas vezes
No açude da minha família.

A mãe dele nunca tarda
De vizitar minha mãe,
São amigas íntimas desde sempre,
Para que eu teria cerimônia?
Peguei na mão dele 
E me dirigi para trás de casa.

-Eu tenho um verme no intestino.
Ele é fatal.
Tenho pouco tempo de vida
Mesmo com o tratamento.
Eu disse,
Enquanto mostrava a grama
E me sentava
Para logo depois ser seguida por ele.

Nos sentamos de frente
Para o açude 
Onde vagalumes passeavam,
E as luzes do redor dele
Estavam todas acesas,
Graças a  minha mãe
Que correu acender.

-Eu gosto de ficar aqui no escuro,
Muitas vezes fujo do quarto 
A noite e passo meu tempo aqui.
Não sei se meus pais sabem,
Eu ignoro o que dizem
E me irrito,
E isso deprecia muito meu psicológico,
Então, eles evitam tudo
Que me incomoda
Para tentar prolongar minha vida.
Eu falei.

Ele sentou do meu lado,
E pegou minha mão,
Depois baixou sua cabeça
No meu ombro.
-Farei o que puder 
Para te proteger
E te salvar.
Eu amo você.
Ele falou.

Algumas estrelas percorreram
O céu como se estivessem
Levando o pedido dele
Para longe no horizonte,
Num futuro bom,
Eu chorei,
Eu desejei estar viva
Neste futuro.
-Você merece o amor,
Merece um amor
Que esteja com você sempre.
Lhe disse.
E beijei sua cabeça quente.

-Nós já pescamos muitas vezes aqui.
ele falou sorrindo.
-Eu amo os peixes do açude 
Dos seus pais.
Ele me contou.
Eu sorri.
Contudo, lembrei que as pescarias
Há muito foram encerradas,
Pois meus pais se fecharam
Dentro de casa em oração
Por minha vida e saúde.

Minha doença debilitou eles,
eles discutem um com o outro
E sempre um pega o carro
e sai as corridas pelas ruas,
Depois chega tarde,
Eles se embriagam calados
E choram escondidos.
Minha morte está levando-os
E seu sofrimento aumenta
A minha dor.

Gemi e coloquei uma mão
No estômago.
-Está doento?
Ele pediu.
-Sim.
Eu disse.
-Eu iniciei a faculdade de direito,
Tenho aprendido muito lá.
Ele continuou,
Me abraçando um abraço quente.
-Soube que seu remédio é caro
E eu posso entrar com uma ação
Judicial para te ajudar.
Quando o remédio é muito caro
O Estado judicial ajuda
A custear o medicamento
Em razão do direito a vida da pessoa.

Ele disse.
-Nossa, você está
Inspirado por mim,
Que legal.
Eu falei e beijei sua boca.
-Sim,
Eu a amo,
e me criei brincando com você,
Nós tinhamos uma barraca
De pesca ali.
ele falou e apontou o dedo
Para o seu lado,
Eu tardei recordar,
Minha memória apagou muito
Por causa do remédio forte
E das dores que as vezes,
Me levam a desmaios e convulções.

- Me fale mais sobre a faculdade,
Em razão das minhas dores
E por não ter dinheiro
Eu evitei entrar em qualquer
Que fosse.
Eu disse.
ele me sorriu.
-Eu te passo a matéria
E você logo me acompanha
E aprende tudo comigo.
Ele disse.
-Seria ótimo,
Nós podemos dividir
A senha do computador,
aí enquanto você digita
Ou grava eu aprendo de casa.
Eu falei e acariciei 
Seu ombro.

-Ola.
Minha mãe nos interrompeu,
-Trouxe bolo para vocês
E suco.
Ela disse,
Nós olhamos para trás
E sorrimos para ela
Que nos entregou a bandeja.
-Minha mãe tem um ótimo gosto
Para bolos recheados.
Eu disse.
Ele pegou um pedaço e sorriu.

Comemos um pouco em silêncio,
Depois uma rajada de vento
Assoviou algo
E ele pôs-se a falar.
- Você tem um pomar lindo
Aqui em volta do açude,
E seus peixes pulam da água
Com tanta saúde,
Mas, você sabe que isto pode ser aparente.
Ele falou.
eu o olhei de relance.
-Por quê?
Indaguei.

-Bem, estudei que:
O meio ambiente precisa
Ser cuidado e recuperado,
Que nós usamos de recursos funitos
Com intençoes ilimitadas...
Ele disse e fez uma pausa,
Depois continuou:
- seu primo tem uma aviário de galinhas
Ponhadeiras de ovos que ele vende
No supermercado e ele joga o esterco
Todo para o lado debaixo
Da casa deles e este esterco corre
Com o tempo e chuvas para a sua casa
E vem parar no seu açude.
Aí ele se calou,
Se virou de frente para eu
E me olhou sério,
Depois continuou:
-Seu açude que tinha água potável
Para criar os peixes
Ficou sujo e então contaminou 
A qualidade dos peixes
E com isso prejudicou a saúde
Da sua família.
É certo que ele não joga o esterco
Diariamente, mas, é para cá 
Que ele encaminha e
A água do açude por mais 
Bem tratada que foi por vocês
Se deteriorou e não conseguiu
Se recuperar.

Ele disse.
-Uau, longa resposta.
Minha água que é finita,
Foi suja de forma infinita
E agora não presta nem para os peixes
E é isso o que está me matando?
Eu disse sorrindo
E apertando o ombro dele
Com carinho.
-Sim. Ele precisa se posicionar
Diferente com relação a este aspecto,
Porque ele joga o esterco na roça
E também joga veneno
E tudo isso vem parar no seu quintal,
ele mora logo acima daqui,
Há 1.500 metros.
Com a chuva e a água das irrigações
Tudo vem parar na sua carne
E você se alimenta disso:
Basicamente de merda e veneno.

Ele continuou,
Pôs o bolo de lado e beijou
Minha boca que ainda tinha bolo,
Eu fiquei com vergonha
E chorei,
Mas ele continuou o beijo
E foi bom.
-O direito esta se baseando no ecocentrismo
E isto requer dizer
Que toda a pessoa precisa
Ter uma visão mais humanitária
Com relação à vida e a natureza.
Ele disse
Ao encerrar o beijo
E sorver um gole de suco.
-Eu sei,
Li sobre isso.
Meu primo preza por uma vida
De coisificação da família
E da natureza,
Por ele, ele mata tudo:
Meus pais e eu e tudo que
Está a nossa volta,
Ele disse que o que importa
Para ele é o dinheiro
E se nós for a delegacia
PRestar queixa ele irá nos matar.

Eu disse,
De súbito,
Cansei de fingir uma relação
De afeto que nunca existiu,
Meu primo me odeia sem rodeios,
E ele vive para lá e para cá
Sobre aquela terra jogando algo
E colhendo algo,
Ele vive disso,
Da terra.
-Mas o mundo não existe
Somente para ele,
Ele tem deveres com relação
Aos outros e com o meio ambiente.
A vida é o maior bem que existe,
ele ão pode seguir matando
Os vizinhos e fingir
Que nada acontece,
O que ele quer?
Se apossar das suas terras?

Ticiano se engasgou um pouco,
E eu bati no peito dele
E nas costas com a mão,
Ele tossiu e olhou para o lado,
Depois tornou a falar;
-Toda a vida quer viver
E existe entre outras vidas
Que também desejam vida,
Enfim, a vida é o valor imediato
E o valor fim,
É o valor supremo de todo o ordenamento.
Ele dizia.
-Uau, você parece um promotor,
Parabéns, tem estudado bem.
Eu disse,
E o abracei para que ele se acalmasse.

-Meu primo Solano já encontrou
Meu pai sozinho com o trator
Na estrada e retirou uma arma
Da calça e apontou contra ele
Porque ele trafegava muito lento
Na estrada,
Isso que a estrada era do vizinho,
Imagine se fosse a que passa
Em frente a casa dele,
Imagino que atiraria.
Eu senti pavor dele,
E sempre que abro a janela
Tento buscar vestígio
De o que pode estar fazendo
Contra nós,
Meu medo só me faz achar
Que ele tenta coisas o tempo
Todo contra minha família,
Com meu atestado de morte
Eu sinto como se todos nós
Estivessemos nos encaminhando
Para este fim,
Então o que ele quer?
Abusar de sua boa saúde?
Eu disse sem travas na língua.

- Pois é, ele deve ser responsabilizado
Por suas más ações,
Porque a existência dele
Não pode prejudicar as dos demais
A sua volta e tem mais:
Os ovos que ele vende
Devem ser envenenados
Nós precisamos ver isso,
Não é possível que o veneno
Que ele esbanja por tudo
Não tenha prejudicado a saúde 
Dos produtos dele.
Ele disse sofrego.
-Claro que sim.
Eu respondi,
Jogando uma pequena pedra
No açude.

-Um interesse individual
Como o dele que é valorizar
Acima de tudo os lucros
Não pode ser maximizado
Em cima do interesse coletivo
Que é a proteção do meio ambiente
E da vida humana - a vida dos peixes,
Da natureza ao redor, de vocês,
De nós.
Ele disse e me abraçou
Me pegando desprevenida
Eu estremeci.
Ter alhguém para cuidar
De mim era bom
E cuidar da minha família
Estava sendo ainda melhor,
Mesmo que na teoria,
Porque na verdade,
Na prática a realidade era outra,
E meu primo jamais mudaria.

-Desde 1945 o crime contra a humanidade
Se tornou assunto sério,
Através do julgamento do tribunal de Nuremberg,
Que julgou o Nazismo.
E prejudicar o meio ambiente
É crime contra a vida
Que prejudica toda a humanidade.
A Carta das Nações Unidas
Desde 1945 definiu como dever internacional
A proteção das gerações presentes e futuras
Contra a guerra e outros males
Que prejudiquem a vida humana
Como o caso de ameaçar o equilíbrio ecológico.

Ele continuou seguro,
Parecia um doutor na palavra
E não um estudador iniciante,
Eu sorri internamente,
Orgulhosa por ele.
- É verdade amor,
A vida humana é valor supremo,
E todos tem direito a qualidade de vida,
Meu primo está errado.
Eu disse,
Depois joguei meu braço
Sobre o ombro dele
E me joguei contra ele
Para beijá-lo demoradamente.
-Te amo.
Eu disse entre beijos.
-Te amo.
Ele me respondeu 
Olhando lá para o alto,
Bem para longe.

-Não se preocupe.
Eu continuei.
-Como não me preocupo?
Seu próprio primo esta
Matando você e contaminando
A cidade com ovos e carne de galinha
Estragada.
Eu precisarei comprovar isso,
Antes que ele imagine 
Que tenho tudo isso em mente
E possa distorcer tudo na lei.

ele acariciou minhas costas
E eu fiquei por algum tempo
Sobre o corpo dele
Apenas sentindo suas vibrações
E o calor de sua pele
Embaixo da minha.

Depois me recompus
E deitei ao seu lado.
-Todas as pessoas tem direito
A liberdade e a igualdade
E nenhuma é mais que a outra.
Eu disse para quebrar o silêncio.
-Sim, o direito a propriedade
Precisa atender ao bem comum,
E nisso, a vontade do titular 
Deixa de ser soberana,
E sempre que ele usa a propriedade
Para causar grande mau,
Ele fica a mercê de ser retirada dele,
Então, nós podíamos retê-la
Em benefício nosso
Em razão de todos os malefícios
Que ele te causou e a sua família.
Isto é muito provável.

Ticiano disse,
Passando um braço por baixo
Da minha cabeça
E acariciando os meus cabelos.
-O direito de usar, fruir e dispor
A propriedade não é absoluto,
A vida e a dignidade humana
São valores que precisam ser respeitados.
Ele não pode usar de suas terras indevidamente...
Ele dizia.
-Claro, todos temos direitos
E deveres como cidadãos,
Nós precisamos conviver pacificamente.
Eu o interrompi irritada
Por tantas vezes
Que o cheiro de esterco invadiu
Nossa propriedade 
E nossa casa,
Me deixando enjoada e exausta,
E por todos os peixes
Que já acordei e encontrei mortos
Sobre a água sem motivação aparente,
Exceto a água suja que vinha da propriedade
De Solano.
Meu pai já se ajoelhou e chorou,
Mas, o coração dele é impiedoso.

-A propriedade deve cumprir
Sua função social.
O direito abrange a proteção
De toda a vida humana,
E o direito da personalidade
É nato do homem por ser pessoa
ele: nasce com a pessoa, 
Dura por toda a vida,
Não se transmite nem se perde,
é absoluto porque ninguém deixa
De ser pessoa por qualquer motivo que seja,
Vale contra todo o ataque,
nunca se perde.
E o direito ao meio ambiente
É muito aberto a proteção a vida
De todos os seres vivos, pássaros,
Animais, pessoas, enfim,
Ele está errado.

Ticiano disse,
Jogando uma perna
Sobre meu corpo
E beijando meus seios
Enquanto dizia:
-mui-to erra-doooo.

Ele se demorou sobre
Meu corpo,
E eu sinceramente,
Não queria que ele saísse.
-Pre-ci-sa-mos cu-i-dar da
Re-a-liza-ção ple-na
Da sua vi-da, saú-de,
Se-gu-ran-ça e...

De repente ele parou
De falar entre beijos
Sobre o meu corpo
E me olhou tão profundamente
Que não soube o que dizer:
-Eu preciso de você viva
Para comungar nosso amor.
Quando ele esticou o corpo
Dele sobre o meu,
Seus pés tocaram a água do açude,
Que ele não demonstrou nojo,
E eu soube que podia confiar,
Finalmente, eu tinha alguém por mim,
Alguém que me protegeria
E estaria ao meu lado,
Então eu toquei em seus cabelos
E o puxei para um beijo,
Fechei os olhos
E esqueci de pensar num horizonte
Ou futuro próximo,
E daí se o que o direito dizia
Meu primo jazia?
Não havia cura 
Para o que eu tinha...
Ou haveria?

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Saudades