sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Txhau

Tudo houve em 2017,
Eu juntei minhas coisas,
Coloquei tudo
Dentro da mochila
Da escola,
Já havia me formado,
Pobre e desempregada,
Abandonei aquelas
Velhas ruas
Cujo trajeto
Repeti em cada dia,
Ao meu lado
Eu levei o meu cachorro,
Nada mais para levar,
De nada
Para me despedir,
Na hora da despedida
Em que se diz adeus
E chora,
Eu já não tinham
Lágrimas sobre as quais
Discorrer,
Fechei a porta,
Liguei o som do carro,
Joguei a mochila no banco,
Deixei o cachorro solto
E parti.
Dez anos se passaram,
Eu comprei mais coisas,
A mochila escolar
Teve fim,
Mas meu cachorro
Continua comigo,
Está gravado
Em minha pele,
Cuidando meu quintal,
Meu menino
E melhor amigo,
Nunca encontrei motivos
Para voltar lá,
Tchau para ninguém
Em especial,
Obrigada a todos
Que não me deram trabalho,
Aqui eu não poderia
Estar melhor.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Presente de Natal

De tantas promessas
Eu recordo
Essa data,
Depois de horas de chuva
Que eu espero
Escorrer pela parede
Da minha janela aberta,
Com o rosto colado
Sentindo os pingos
Molharem meu rosto
Como se eu fosse o presente,
O inesperado
De um dia qualquer,
O esperado
Um ano inteiro
Para o dia do Natal,
A felicidade estampada
Em meu sorriso,
O espanto inesperado
Em seu rosto,
O olhar sorrateiro
De quem me busca
E me encontra sua,
Completamente sua
Entregue para presente
Limpa e desnuda,
Sem embrulhos,
Apenas sua
Para Natal,
Neste dia e no outro,
O presente pra ser guardado,
Cuidado e querido,
O amor sem vacilos,
Sem o pecado,
Só o amor puro.

Três Garotas

Sentadas sobre
A pedra
Na beira da estrada,
Eu, minha prima
E minha tia
Vimos tantas coisas
Passarem,
Ouvimos o cachorro latir,
O gato escalar o tronco
Como se fosse parte dele,
Grudou suas unhas
E subiu, subiu sem parar,
Lá no alto,
Parou descansar,
Lambeu a patinha
E não sentiu medo.
Lá, sentadas
Na pedra,
Nós demos as mãos,
Juramos amizade,
E nos abraçamos,
Três garotas unidas
São capazes de revolucionar,
Mudar o mundo,
Lavar a própria roupa,
Cozinhar e fazer bolo.
Mas, três garotas unidas
Separam-se sem tardar,
E a amizade
Que iria até o eterno
Quis neste dia se acabar,
E o tempo que veio
Não foi capaz de mudar,
Nem o vínculo sanguíneo
Foi suficiente para manter
A amizade prometida,
Eu, minha prima
E minha tia separamos
Nossas mãos unidas,
Deixamos de nos visitar,
Abandonamos aquela pedra,
Não retornamos
Aquele lugar,
E já não nos falamos,
Ou temos notícias
Uma da outra,
Porquê três garotas unidas
Também podem se separar,
Sem despedir-se,
Ou motivar-se,
Assim,
Como num imprevisto,
Onde sorrisos
Não se buscam.

Vão-se

Lá no final
Da estradinha
Tem uma casinha,
Está casinha é marrom,
De janelas
Da mesma cor,
Lá eu moro
Com meu amor.
Nesta casinha
Tudo é livre,
Menos as vozes,
Eu digo
A elas,
Por favor,
Se calem,
Vocês ofendem,
Se sentem superiores,
Estas vozes
Não gostam
Da minha casinha
Nem da vida
Que tenho,
Então, por que
Se aproximam
De nós,
De mim
E de meu amor?
Se afastem,
Aqui vivemos bem,
Nós queremos
Nossa liberdade,
Estamos em paz,
Por que vocês
Querem tanto
Nos separar,
Impor-se sobre
Nosso lar.
Nesta casinha
Há respeito,
Pouca tinta,
E felicidade,
Saiam daqui,
Vocês não são bem-vindas
Vozes,
Vão-se,
Vão-se,
Vão-se.

Bem-estar

Tim ti tac,
A chuva cai,
Meu coração bate
Seu nome
Na tela do celular,
Eu deixo,
Deixo a chuva
Te chamar,
Aceito,
Aceito a minha voz
Que pede
Pra você
Se deitar.
Ao meu lado,
Me abraçar
E ficar,
Colado as minhas costas,
Suspiro no ouvido,
Gemido baixinhos,
Cartas guardadas
No armário
Não servem
Para designar.
Sem ordem,
Vir e ficar,
Sem pedidos,
Apenas por querer,
Querer estar.
É dia de festa,
Minha comemoração
É você ficar,
Estar,
Abraçar,
Meu bem-estar.

Preferências

Quem vê este sorriso aqui
Não diz
Quantas vezes
Olhei para a sua face
E me vi te comer,
Rolar minha língua
Por sua língua
E mordiscar ela
Até seu sangue escorrer
Entrar por minha garganta
E meu estômago
Te querer,
Roncar de vontade
Então, eu me vejo
Te morder
Arrancar um pedacinho
E olhar em seus olhos
Para sorrir,
Enquanto seu corpo treme
E você reclama da dor,
E eu passo minha unha
Por seu pescoço
E corto sua veia
Até vê-la esguichar,
Você se assusta
E eu sorrio bem alto,
Lhe pego pelo seio
E você implora
Por sua vida,
E eu lhe digo:
“Mas não é até a morte?”
Eu sorrio,
Você chora,
Eu te como,
Você some,
Eu apareço,
Pego sua família,
Guardo sua carne
Para me evidenciar
Mais tarde,
Faço fotos sociais,
E ganho mais gente
No churrasquinho
Em que sirvo
Sua carne
Para seus amigos,
Jogo fora seus ossos,
E substituo a sua carne
Pela dos outros,
Você,
Na minha pilha de ossos
Não se torna
Nem história,
Logo chega o dia
Em que ninguém recorda
Que você existiu
E seu último amigo
Sai da lista de minha carne
Favorita,
Porquê eu já tenho outros,
E esqueço preferências.

Prazer

Sou assassino cruel,
Você pensa
Que conhece meu rosto,
Mas, na verdade
Eu sou uau,
Um cara mau,
Eu uso expressões
Pra você criar expectativas,
E antes que você
Me reconheça
Eu matei de volta.
Eu posso ser gordo,
Se preferir emagreço,
Eu gosto de ser alto,
Mas, sou conforme desejo,
Uso seu rosto,
Seu jeito,
Até mesmo as suas roupas,
Você me vendo,
Nem me julgaria tão perverso,
Antes disso
Eu como sua carne
E asso seus amigos,
Se preferir eu sirvo isto
A um parente seu
Só pra ver se ele
Saberia reconhecer
Seus traços
Enquanto mastiga
Seu traseiro
E olha em meu rosto
Saciado do seu gosto,
E intolerante ao seu cheiro.
Mas acredite
Eu não permito tanto tempo,
Eu retiro impressões,
Vejo se lhe descobriu
Ou não,
E o fecho,
O deixou sem saída,
Com uma faca
Cravada no peito aberto
E explodindo em sangue
De suas tripas rasgadas,
Só pra ver
Se lá do seu buxo
Você que foi comido antes
Ainda grita.
Aí me sirvo de sua carne
Quente e prepotente
Incapaz de fugir
Dos meus dentes,
Da minha faca afiada,
Do meu rosto enfadonho
Que sai até você
E o chama,
E você vem,
E eu gosto,
Prazer:
O seu assassino
Sanguinário e saciado.

Destino à ROCAM