segunda-feira, 2 de junho de 2025

Mãe, por trabalho

A noite tardava
A lhe trazer o sono,
A barriga palpitava
Sentia que era o dia,
Sem importa-se a data,
Seu filho viria.
Pegou o celular de sobre
A penteadeira,
Teclou o número da mãe,
Ela não atendeu,
Era tarde,
Talvez fosse madrugada.
Ligou para o esposo,
O telefone caiu na caixa postal:
- Por Allah, o trabalho
Do meu marido
Me cobra a vida,
Eu me vejo esmorecer
Em espera.
Otavia disse.
Cansada de ligar
E não obter resposta
Buscou o número de um taxista,
Ligou e o chamou a porta.
Pegou a bolsa
E mais nada.
Na chegada dos faróis acesos
Correu para o carro,
De ímpeto o coração deu
Dois saltos rápidos
E um atrasado,
Ela recordou de quantas vezes
O marido a buscou
Para saírem juntos se divertir.
Se viu em seu carro
Com um copo de vidro
Cheio de bebida
E o sorriso contagiante
Nos lábios.
Se viu beijando-o demorado,
O viu a abraçando forte,
Até que um vento frio
A retirou destas lembranças
E a fez descer as escadas
Até o táxi,
Então, ela pensou que talvez
Nunca mais o veria.
Olhou para trás,
Viu a porta aberta,
Voltou para tranca-la,
Retornou até onde estava.
Uma mulher saiu
E lhe abriu a porta.
- para onde?
Ela indagou.
-ao hospital.
Respondeu.
- irá sozinha?
A taxista olhou
Para sua barriga grande,
Se admirou de seus cabelos
Loiros e compridos,
Lisos caídos até as pernas.
Os lábios levemente rosados,
Parecia haver nela
Um sopro de vida,
Nada mais que isto,
Talvez, alguns dias.
Olhou-a atentamente,
Talvez, nem isso.
- e depois?
Indagou.
- eu a chamo se precisar,
Mas, talvez me demore.
Respondeu Otavia.
- e teu marido, mulher?
Otavia a olhou séria.
- por quê uma mulher
Que vai para o hospital
Precisaria de esposo?
A indagou.
Depois, pegou na porta,
Abriu-a mais um pouco
E entrou.
- é o que mais querem,
O pai do filho.
Você está grávida, não está?
Indagou Roxane,
Indo para a direção do veículo.
- estou, é uma menina.
Vanora.
Meu marido está longe,
Ele vai demorar para ver a neném.
Ela disse,
Olhando em tom distante
Para a rua que se abria solitária
A sua frente
Com poucas luzes,
E ninguém a frente.
- está certo,
Vamos.
Minha filha tem um ano,
Também é uma menina.
Roxane comentou.
Ligou o carro,
Colocou segunda marcha
E foi rápida.
-ser mãe é mais que um sonho.
Comentou Otavia,
Depois desmaiou.
Roxane olhou pelo retrovisor,
Se assustou
Parou o carro
O mais rápido que pode,
Então, saiu para fora
E correu até Otávia.
-acorde,
O que houve?
Otavia chorava silenciosa.
- acorde,
Acordei!
Qual hospital te levo
A qualquer um?
Qual seu nome?
De repente, Otavia
Abriu os olhos e começou
A gritar sem parar
E chorar sobre o banco.
Depois das contrações
Seu filho nasceu,
Era uma menina, realmente,
Fraca e frágil,
Pequenina sobre os braços de Roxana.
Roxana pegou a neném
No colo,
A menina abriu os braços
Cheios de sangue
Sem resistência ao carinho.
As crianças confiam
Com a mesma facilidade
Com que se assustam,
Sem que se saiba porquê,
Todavia, Vanora reagiu
Com tamanha fragilidade
Que parecia querer
Estar ali para sempre
Como se não tivesse escolha
Ou não quisesse.
As crianças tem esses pressentimentos interiores.
Roxane então procurou Otávia,
Que parou de gemer e gritar.
Parecia desmaiada,
Estava imóvel,
Com o rosto opaco,
Os lábios sem vida.
Vanora começou a chorar,
Tão magra e pequena,
Roxane se apiedou
E lhe deu do seu próprio leite
Para tomar.
A menina sugou o seio
Com Roxane recostada
Na lateral do táxi,
Foi como se um ímpeto
De vida lhe disse soprado,
Ela não tardou a sorrir,
E buscar mais o mama.
Seus pequenos
Olhinhos escuros
Chamavam Roxane de mãe.
Roxane sorriu com ela nos braços.
- fique com ela!
Gritou Otávia
Do lado de fora do carro,
Correndo rua afora,
Como se não tivesse
Recém parido a criança.
Roxane assustou-se
E procurou Otávia
Dentro do carro,
Então percebeu
Que a própria, realmente,
Não estava lá,
Nem sua bolsa.
Isto, a princípio
Lhe soou o mais absurdo
Que já presenciou
Durante seus anos de taxista,
Entretanto, olhou para a criança
Em seus braços,
Assustou-se no início,
Depois, decidiu ama-la.
A colocou ao seu lado
No banco de passageiro
E dirigiu até sua casa,
Tirou o resto da noite
Para folgar,
Ela era mãe solteira,
Mas, isso não lhe interferia
Negativamente.
- Olá, nega.
Mais um bebê para você cuidar
Nas noites em que trabalho!
Ela disse,
Ao entrar para dentro
E beijar a testa da babá das crianças.

Não Dizer Adeus

Hoje recebi a notícia
Que não desejo a ninguém.
Meu ex me trocou
Não foi por alguém
Ele preferiu algo intenso
Que o levará a morte,
Preferiu drogar-se.

Eu reflito se agi errado
Com relação a nós dois
Apenas porquê não deu certo,
Eu não me vejo como responsável
Pelo seu declínio pessoal,
Eu gostaria de isenção
Ao menos a esse respeito.

Eu rezei por ele,
Gostei dele tão antes
De nos conhecermos
Que daria para apostar
Que muitos
Dos que sabiam deste amor
Contribuíram para o fracasso.

Droga,
Ele está usando coisa forte
Agora um alucinógeno
Mexe com seu cérebro
E o corrói por dentro,
Isto me leva a mal.

Eu não gostaria
De encontra-lo morto,
Ou pior,
Nunca mais chegar a vê-lo,
Talvez, nem ter notícias.

Eu torci por nós dois,
Depois de dar fim ao nós,
Eu torci por ele,
A valer,
Eu torci muito.

Eu confesso
As vezes gostaria de estar
Mais perto,
Contudo, sinto medo
Vai que ele esteja drogado...
O que poderá fazer comigo?
Pessoas sob efeitos 
Geram efeitos que não dão conta.

Todavia, estes efeitos são reflexos
Agem mal comigo,
E isto reflete sobre ele de maneira pior.

Efeitos malignos,
Efeitos perversos.

A droga predomina
Sobre a pessoa,
Seus atos e pensamentos
Obedecem a outro comando
Já não é seu coração 
Quem dita as regras,
É apenas o vício,
Doentio e corrosivo.

Pois é,
Não diremos adeus,
Não trocaremos último abraço,
A droga me substituiu,
O ganhou por inteiro.

Talvez, eu nunca mais o veja,
Talvez o vendo não o reconheça,
Meu ex,
Eu o amei,
Isto hoje não o interessa.

Eu penso em ligar,
Puxar conversa
Saber como ele está,
Mas, é tão triste presenciar
Seu declínio,
Me vejo me afastar...

Eu o vi passar mal,
Sua língua estava escurecida,
Penso que sentiu falta de ar,
Eu lhe daria meu ar,
Eu já desejei lhe dar minha vida,
Um sopro em seus lábios,
Um último instante de vida.

Mas, bem,
Me contaram sobre seus amores,
Eu não influenciei nisto,
Está certo, baby,
Mas, de repente eu lhe apontaria
O erro mais errado,
Então, foi ela quem lhe convenceu
Ou você estava lá muito antes?

Não a leve caso o erro seja seu,
Bem, você foi sozinho,
Eu não pertenci a este seu lado
Egoísta com quem te ama
E solitário.

Meu pai sempre disse
Que pessoas boas
São guiadas para atos maus 
Por pessoas más,
E você é o bonzinho da história,
Ao menos desta,
Saia deste caminho ruim.


Não diremos adeus,
Mas, eu tenho uma dúvida
Este é o seu fim, realmente?
A droga ou a putaria?
Putaria com quem te ama,
Que droga de vida você está buscando!

Sinto muito,
Devo dizer adeus por enquanto?
Quanto ao romantismo,
Entenda isso:
Eu não irei te buscar.

Não enfrentarei o mundo
Por um amor que cedeu a droga
De eu não estar mais ao seu lado
Para simplesmente viciar-se...

Por conselho:
Não leve seus amigos.
Para desencargo:
Você não me carregou para
Este abismo.

Para você saber:
Eu o amei de verdade.
Para seus amigos:
Poxa, vocês são vencedores,
Estão com o melhor!

Caramba,
Você escolhendo esta vida
Leva tantos contigo
Que te gostam e admiram,
Você escolheu mesmo isto
Para si próprio
E outros que confiam em você?

Não caia para levar seus amigos,
O chão é para os solitários,
Não dizer adeus
Nunca foi tão difícil.

Sinto muito pelo erro,
Desista deste vício,
Eu estarei contigo,
Abandone este caminho,
Isso não te pertence,
Você é o cara legal
Aquele que sobressai.

Bosques de Chapecó

Os bosques nos arredores
Da cidade de Chapecó
Guardam neles
Histórias trágicas,
Desde seus inícios
Até a queimada de seu
Mais antigo tronco.
Mesmo o crepitar das chamas
Dos fogões de lenha
Dos cidadãos,
Confidenciam pra quem
Queira ouvir,
Poucos, contudo
Ousam falar em alta voz.
Nestas espessuras funestas
Muitos entraram vivos,
Outros já desfalecidos,
Dentro de seus troncos queimados
Há alma que entrega seus ossos,
Destes restos emergem flores
Desconhecidas de todo olhar.
Se estás árvores
Soubessem contar
Seus testemunhos
O tanto que suas águas
Conseguem entregar
Já causaria pânico.
Não há lugar mais medonho,
O ano de 2014 foi marcado
Por encontros de cadáveres
Sem rosto ou identidade,
Outros anos são silenciados.
Os soldados entram nestes bosques
Sem precaução,
Fazem destes lugares
Seu estande de tiros,
Miram pra acertar onde convir,
E se o tronco não reter a bala,
Que está venha a repousar
Em um corpo qualquer
De suas proximidades.
Nisto não há conflitos,
Quanto ao grau de seus óculos,
Visão desfocada
Ou empecilhos,
Um pente de munição dá solução.
Todavia, seu chão
É coberto por flores,
Belezas inigualáveis,
Palco para repouso de mulheres,
Ramos de folhagem
Caem tremeluzentes por troncos
Grossos que seguram dez bois,
Um guindaste não os derruba.
Raios de sol furam as copas
Das árvores aqui e ali,
No musgo de suas pedras
Repousam eventuais preciosidades,
Ora um anel com nome escrito,
Ora um documento de identidade,
Ora um rosto sem pele.
Os soldados adiantam -se
Por entre estás árvores,
As reconhecem como ninguém,
Lá poucos se perdem,
Os pássaros já os reconhecem.
Lá se caça javalis,
Mas, caem também homens
Aqui e ali.
O musgo e folhas suadas
Amortecem os passos
Dos que penetram estes bosques,
Nenhuma trilha se desenvolve
De início ao fim,
Há sempre uma estratégia,
Um meio de conduzir-se
Feito um labirinto de crimes
E chacinas.
Alguns são conduzidos
Pra lá dentro de uma viatura,
Se veem algemados
E jogados de joelhos nestas
Terras e lá encontram seu fim,
Coloca-se em relatório
“De passagem pela polícia”.
Ou nem.
De tempos em tempos
Encontra-se restos de fogueira
Por entre sua densidade,
Ou covas obscuras
Com corpos apodrecidos
Em suas entranhas.
Se os tempos são difíceis 
O pau é o freguês.
De súbito os soldados
Sentiram o extremecimento 
De quem está perto da presa,
Estava ali o bandido,
E ambos temiam a emboscada.
Ao avistar um farfalhar de folhas,
Ouviram uma respiração 
Em meio ao arvoredo,
E o movimento de folhas não mentia,
Rapidamente, todos os soldados
Se reuniram ao redor da folhagem,
Fizeram um cercado
Com um círculo de espingardas 
Engatilhadas na direção do movimento,
Cada qual com o dedo no gatilho,
O alvo na mira certeira
De poucos metros,
Apenas esperavam para metralha-lo 
A voz do sargento,
E veio,
Veio num rugir reconhecido 
E o dedo que estremecia ao ruído 
Apertou com força e segurança,
Só depois afastou a folhagem 
E os arbustos que aguentavam
O indivíduo,
Caído a sangrar por entre a moita
Estava o próprio sargento 
Com os lábios abertos
Pelo grito de dor e lamento.
" Era alto que o senhor 
Tinha que dizer sargento,
Não fogo."
Retrucou o soldado
Trêmulo por um sorriso 
Que ameaçava seu rosto
E não tardou sair num rompante.
O soldado sem dizer palavra
Perdeu sua espingarda
Em meio ao conflito
E abandonou o corpo ferido
Do sargento ali mesmo,
Todos saíram de lá emudecidos.

Furto a Banco

“Sem perdão,
Nem quartel”.
Gritou do alto o soldado,
Armado até os dentes,
De colete a prova de balas,
Previamente preparado
Para o conflito.
Do alto da BR,
Margens do asfalto,
Ele e muitos outros
Se embrenharam no conflito,
Diziam trezentos
Consigo mesmos,
Contudo, não se deram
Ao esmero de organizar o número.
Marcharam muito moro abaixo,
Logo no início
Resvalaram sobre uma rocha úmida
E caíram para baixo,
Descendo feito pedras
Direto contra uma árvore,
Logo ali ficaram cinco
Desvalidos e desmaiados.
Com a batida,
Houve um tremor
Isto mais todos aqueles
Homens caindo
Fizeram a rocha se deslocar,
O pequeno objetivo
Se tornou enorme
Quando desmoronou
Sobre tais homens,
Ficaram ali cem contados.
Cem corpos foram jogados
No rio,
E retirados seus cordaos
Com nome descritos:
O oficial inferior
Pegou o relatório e anotou,
“cem soldados assassinados
Em trabalho
Cujos corpos foram jogados
No rio
Como forma de ocultar o delito.
Assassino foragido.”
Ninguém discordou,
Mas cada soldado dali
Ajudou a se livrar de um peso,
Um fardo moribundo
A atrapalhar o desenvolvimento
Da ação estratégica,
Qual ela?
Bem,
Isto nos remete a seis horas
Passadas.
Eram seis da manhã,
Tocou o telefone da polícia,
Feito o atendimento
Descobriu-se que o banco
Da cidade vizinha
Foi totalmente furtado,
Não sobrou dinheiro algum,
Apenas restou cadeiras
Jogadas pelos compartimentos,
Mesas quebradas,
Portas demolidas,
E a porta de vidro da frente
Estilhaçada.
Chegada a infantaria militar,
Notou-se uma jovem
Saindo de sua casa
Logo cedo,
Decidiram entre eles que
Cedo demais para estar na rua,
Pele morena, rosto enxuto,
Corpo esbelto, vestida de jeans,
Cabelo raspado...
Isto chocou suas mentes,
Uma mulher sem cabelos?
Alguém precisava deter-lhes.
Esta troca de pensamento
Entre eles
Demorou-se um bocado
Para chegar a consenso,
A definiram perigosa
E isto exigia chamamento
De reforço militar,
Do contrário iria parecer
Que haveria margem para erro
Em seus pareceres
Sobre os dez mil reais
Que sumiram do banco local.
Ocorre, que todos desconheciam
Que tal moça residia
Exatamente no local
Onde foram feito dez ofícios
Pedindo regularização da estrada
Para permissão de tráfego humano,
Dentre outros meios
De buscar que a estrada
Fosse organizada para tráfego,
Já que havia buracos
Em pleno acesso,
Partes estava desmoronando,
E as árvores que passavam
Estavam com os galhos
Sobre a via
Instante que ao trafegar
Batiam contra os carros,
Houve também abaixo-assinado
Com pedidos de que a estrada
Não fosse abandonada
Pela prefeitura,
Pois haviam moradores lá
Que não queriam abandonar
Suas prioridades devido a estrada
Ter de ser interditada
Por impossibilidade de tráfego.
A moça se dirigiu ao local,
Contudo.
A polícia demorou um pouco
Para segui-la,
Somente o suficiente para saber
Que a guarda especial motorizada
Estava se deslocando para
Prestar apoio.
Ao chegar no ponto
Em que garantiram que ela entrou,
A polícia tentou se inserir,
Já que vizinhos apontaram
O local para onde ela foi,
Porém, logo no início
O buraco enorme do meio
Da estrada de terra e pedras
Se abriu
E consumiu duas viaturas.
As sirenes ligadas garantiram
Que os demais tomassem conhecimento
Do que houve.
Os quatro policiais da primeira
Viatura a cair morreram soterrados,
Ou ao menos foram abandonados
Lá dentro dos entulhos.
- que houve soldado?
Passe as coordenadas.
Indagou um soldado
Puxando pela janela aberta
O rapaz da segunda viatura.
- emboscada, emboscada!
A garota atirou contra nós,
Certeza,
Matou quatro neste buraco!
Gritou o homem.
O oficial inferior ali presente
Tomou nota,
Foi a viatura,
Puxou a comunicador e falou:
- mais homens,
Mais homens.
Encontramos o ladrão
Do banco e é perigoso.
Outras viaturas foram deslocalizadas para lá.
O motorista e os outros três
Integrantes da segunda viatura
Ficaram imprensado contra
As ferragens,
Foi preciso chamar os bombeiros
Para cortar a viatura e retira -los.
Também foi acionado o guincho
Para retirar tudo de lá.
Os policiais que restaram
Decidiram pegar caminho adverso,
Eles tomaram nota
De que há muito tempo
Está estrada foi abandonada
Pelo poder público
E ninguém se importava
Com os moradores que restavam.
Deste modo foi,
Que se embrenharam no mato.
Onde as árvores ganham espaço,
O sol perde o brilho,
Tudo se ofusca devido
Ao seu verde intenso.
No bosque há noite contínua,
A sobrevivência depende
De aguçar os sentidos
E esforçar -se por entre meio
A cipós tão grossos
Quanto cordas
E fortes como pedras.
Depois de abandonar
Os corpos no rio
E vê-los boiando sobre a água
Até afundar -se,
Duzentos soldados seguiram,
No caminho se depararam
Com o cipó,
O cabo Rodrigo decidiu
Cortar com sua faca afiada
E o cipó retrocedeu seu caminho
Com força,
Atacando sem querer
Vinte soldados que foram puxados
Para o lado
E tomaram açoite tão intenso
Que caíram sobre as folhas
Molhadas do chão,
Sentindo dor.
Aranhas próximas as folhas
Se levantaram
Desgostaram de todo o barulho
E voaram contra eles,
Eram aranhas de todo o tamanho
Avançando e mordendo.
Alguns jogaram-se no rio
Abraçados aos mortos
Que ainda boiavam,
Outros correram a esmo,
Chocando-se contra as árvores,
Um grupo de trinta
Correu para dentro de um
Ora pro nobis,
A flor se abraçou a eles com
Seus espinhos
E nunca permitiu suas saídas,
Morreram ali
De arma em punho,
Fardados e altivos.
Outros retornaram
Pelo caminho
Que acreditaram ter encontrado,
Na subida alguns quebraram
Suas pernas,
Outros os pés, outros os braços,
Então, começaram a lutar
Contra si mesmos.
Quatorze que correram
Mais rápido,
Reuniram pedras lá em cima
E as fizeram rolar moto abaixo,
Talvez com medo das aranhas,
Talvez, acreditaram que o cipó
Era na verdade alguma espécie de cobra.
Uma chuva de pedras enormes
Começou a rolar moro abaixo,
Carregando homens consigo
Até longas distâncias.
“Um soldado tem olhos
Mas costas”.
Disse um deles
Ao outro que jogava pedras,
Quando este virou-se para trás
Sorrindo se deparou
Com uma pedra em meio a cara
Dele,
Desceu com ímpeto metade
Do morro entre o cair
E o deslizar.
Depois, outro lhe jogou
Uma pedra em cheio
Sobre o peito,
Lhe impedindo de qualquer forma
A sobrevivência.
Um rapaz pulou no cipó
E jogou-se contra
Quem quer que fosse
Que se aproximasse,
Batendo com os dois pés
No peito do indivíduo.
Um homem gordo e corpulento,
Puxou uma rocha
Para joga-la para baixo,
Encontrou um ninho de cobras
Que pularam em seu pescoço,
Nisto, desceu rolando e gritando
Pra baixo puxando com eles mais
Três homens,
Até que perdendo o impulso
Da descida não pode puxar o quarto
Que irritado pisou sobre sua mão
Para esmaga-la no chão,
Não contente com a dor
Do outro que se rolava
Com três cobras penduradas
No pescoço,
Ele juntou uma pedra
E lhe jogou contra o rosto.
O gordo não se moveu mais,
Contudo, as cobras fugiram.
Uma tão rápida
Cruzou para trás do policial
Que atirava a pedra
E pulou na sua nuca,
Ele tentou pular no rio
Mas se chocou num cipó,
E ficou enrolado naquela tramóia
De cipós que subiam,
Desciam e partiam pra todo lado.
Sobrou, de fato, três policiais
Que correram até a BR,
Ou segundo especulações
Nunca desceram atrás da tal moça,
Estes três viram um mendigo
Andando na estrada
Com mochila nas costas,
Vendendo mandulate,
Juntaram suas mãos
Uma na outra,
Algemaram e passaram a máquina
Em seus cabelos,
O virão um negro careca
E isto era o bastante.
O conduziram para a delegacia.
Serviço feito.

Terra Onde Nasci

São três horas da tarde
Em que estou com trinta
E cinco anos,
Muita coisa aconteceu,
Tudo evoluiu,
Contudo, eu não me arrependo
Nenhum pouco do dia
Em que eu disse:
“ Querido, sinto muito,
Não posso me afastar daqui”.
Eu sei que ele ficou pensativo,
No meu íntimo
Eu senti medo de perde-lo,
Mas meu amor pelo lugar
Em que nasci e me criei
Foi mais intenso,
Pois, ao menos
Eu fiquei firme,
Não esmoreci ante a ideia
De vê-lo ir
Pela estradinha de pedras
Ladeada por arvores,
E talvez, nunca mais voltar.
Ele olhou pro lado
E indagou:
“querida, vamos
Na cidade posso
Te dar vida melhor,
Facilitar as coisas”.
Então, ele me abraçou.
O abraço de quem
A gente ama é mais forte
Que tudo no mundo,
Todavia, eu olhei pela janela,
Vi a flor crescendo,
A banana se formando
No cacho,
A salada quase a ponto
De ser colhida
E encontrei forças
Para insistir:
“amor, aqui o sol brilha forte,
A chuva faz barulho no telhado,
O verde é intenso,
E as flores tem aroma de perfume.”
Ele me abraçou mais forte,
Via que tudo em mim
Que ele amava
Também estava lá fora,
O orvalho da lua,
A intensidade do sol,
O cheiro de fruta fresca,
Nisto, ele me amou e ficou.
Enfrentamos adversidades juntos,
Evoluímos no conhecimento
Sobre o plantio,
Na variedade da colheita,
Aqui nesta casa de madeira e alvenaria,
Temos galinhas e patinhos,
E agora se aproxima
A colheita do maracujá.
Eu não consegui abandonar
Nossa terra,
O lugar que me viu menina,
Que me fez forte
Para enfrentar as maldades,
Que me deu certa aversão
Com relação a cidade grande,
Aqui onde tudo é simples
E guardado por Allah,
Hoje somos mais felizes
Que poderíamos ser
Em qualquer lugar que fosse.

Tarde de maio e chuva

Aos trinta e cinco anos,
Eu pego o puf e estendo
Na cozinha,
Meu marido corta a lenha,
Os filhos a recolhem
Para dentro de casa,
Eu espalhou travesseiros
Sobre o puf e cobertores.
Desligamos a televisão
Em comum acordo,
Vamos juntos até a estante
De livros,
Escolhemos a melhor leitura,
Meu esposo
Acende o fogo,
Eu escolho o que começamos
A comer:
Pinhão ou amendoim assado
Na chapa...
Enquanto, o amendoim torra,
Meu esposo inicia a leitura,
Todos estão envoltos no puf,
Eu pego a chaleira
Colocou água
E levo para aquecer o chá.
Nos deitamos,
Com as xicaras de chá quente,
Comendo amendoim
Enquanto a lenha chamusca
Para fora,
E o fogo arde em tons de amarelo
E negro.
A chuva inicia sobre o telhado,
Cai feito sinfonia
Aos ouvidos,
Meu esposo me passa
A leitura e eu dou continuidade,
Depois é a vez das crianças
De um a um,
Cada qual lê um pouco.
A chuva torna-se fria,
Até virar gelo,
Lá fora tudo congela,
Aqui dentro nos abraçamos,
Estamos quentinhos.
Eu beijo meu esposo,
Nós beijamos nossos filhos,
Amor desde a infância
Sempre foi isso,
Demoramos para entender,
Mas, não tardamos perceber.

Um Princípe