quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Tédio dos 36 anos

Hoje eu dormi bem,
Queria ter dormido mais,
Acordado sem dores,
Ter movimentos mais rápidos,
Mas, a idade chegou,
São 36 anos de dores
Por toda parte.
Uma vida bruta,
Repleta de trabalho
E esforços desmedidos,
Levou a mocidade,
Deixou cabelos brancos.
Foi estranho,
Mas, eu me vi afogada,
Aí como cada dia
É um esforço
Eu fiz um movimento
De puxar os músculos do pescoço
Para cima
Como se respirasse
Profundamente
E tentasse mover
Minha cabeça
O máximo possível.
Nisto, eu senti sair
De uma espécie de veia,
Creio que vazia
Que localiza-se do lado
Esquerdo do meu pescoço
Um líquido com algo
Como sujeira,
Como eu estava doente,
Com a narina direita trancada,
Eu puxei aquilo para a boca
E engoli
Sem ver o que era.
Anteontem,
Eu assoei o nariz
Com força,
Movendo músculos desde a coluna
Até chegar ao nariz
E expeli muco nasal e sangue.
Eu acho que
Das muitas vezes
Que entrei na água
Ou no banho,
Eu me afoguei,
De algumas sei,
E então, só agora
Estou me livrando dos resquícios.
Sinto fortes dores de cabeça
E nos músculos,
Assinado a empresária
Dona do estabelecimento
Que nunca funcionou
Sem eu estar aqui dentro,
Mas, que hoje confia
Em seus subordinados
E lhes apresenta atestado.
Beijos,
Fui pra loja de calçados
Comprar uns dois saltos altos
Porque mereço.

Por trás da Prisão

O policial fez blitz,
Assegurou alguns figurantes,
Me fez sinal de pare,
Estacionei e liguei o alerta.
Ele aproximou-se,
Bateu duas vezes
Com a traseira da mão fechada
Contra meu vidro...
Lá na cidade onde eu moro,
Eu tirei uma fotografia legal,
A garota do cara fardado
Não gostou do meu estilo,
Decretou minha morte,
E perdição do meu caráter.
Se infiltrou no sistema policial
E mandou a ordem:
“Prendam-na,
Este modelo de relógio
Que ela contrabandeou
Do Paraguay custa 24 mil”.
A informação era para ele segura,
Eu abri o vidro
Consciente da minha inocência,
Eu comprei na minha cidade
O relógio,
Não provinha do outro país,
Ele não quis ouvir,
Pediu nota fiscal,
Era usado,
Eu não tinha ali,
Como iria provar.
Ele se irritou
Mediante poucas palavras
Da tal moça
Em seu rádio
Pendurado a esquerda
De seu uniforme,
Levou a mão para dentro
Do carro,
Empurrou minha cabeça
Contra o volante,
Deu voz de prisão
E me tirou de lá algemada.
Nisto levou minha
Pequena mala de compras,
Eu tenho uma lojinha
Num bairro afastado da cidade,
Sobrevivo do que vendo,
Ele não quis saber,
Prendeu a mala e o que tinha
Dentro:
Maquiagem, roupas íntimas e etc.
Chegou minha denuncia
No Ministério Público Federal,
O valor equivalia a 24 mil
E um pouco mais,
Ocorre que 20 mil era suficiente
Para me manter lá,
Atrás das grades federais.
Estilo criminoso em potencial
Vestindo minha calça
Jeans colada azul,
Minha camiseta da Xuxa,
E o tênis de pisca pisca
Da promoção.
Tive o cabelo cortado,
Raspado até as orelhas,
Lá no presídio as garotas
Que entrar pegam piolhos
E pulgas,
Eles precisam manter
Este estilo de corte
Contra infestação.
O policial me ferrou,
Da sala dele
Ele toma seu café quente,
Eu me gelo aqui
Sentada neste chão frio,
Ele sorri,
Faz pose de abrir as pernas,
Eu consigo enxerga-lo.
Minha mãe deve estar
Sentindo minha falta,
Meu pai deve estar preocupado,
Há meses que não abro a loja,
Vou perder clientes,
Atrasar pagamentos respectivos.
Ele sabe disso,
Sorrindo e seguro
Anda até minha cela,
Agacha-se até o cheiro
Do seu café quente
Chegar às minhas narinas,
Me olha,
De olhos abertos e seguros,
Abre o zíper da calça,
Põe sua mão para dentro
Das grades,
Pega na minha nuca,
Eu nem olho,
Senti o cheiro...
Abre-se a possibilidade
De uma ligação para meus pais,
Eu preciso informar
Que estou viva,
E apenas presa,
Eu preciso de advogado
Em quem possa confiar,
Necessito de dinheiro,
Olho para seus olhos,
Agachada naquele chão,
É meu único meio,
Não peço tempo,
Meço esforços
Ou pouco me disponho.
Eu jamais irei dizer
Que não chorei
Quando aquele policial 
Pegou a maquininha
E passou no meu cabelo 
De baixo para cima,
Eu contei cada fio 
Do cabelo comprido escuro
Que caia sobre meus dedos
Naquele chão gelado,
Poucas passadas
Não sobrou nada,
Nem minha dignidade,
Repensei muito nas lágrimas 
Que caíam,
Nos fios que se misturavam,
Tentei fugir,
O rapaz,
Aquele mesmo que abriu o zíper,
Nem levantou de sua mesa,
Me viu tentar sair pela 
Porta da frente,
Como se eu fosse alguém normal,
Com aquele cabelo raspado,
O corpo ferido,
Ergueu a arma e atirou.
Quando cai de cara no chão,
Boca no piso,
Saltando sangue
Na minha frente 
Percebi que não xupo tão bem,
E a chave não foi esquecida 
Lá na fechadura por acaso.
Eu esperei pelo segundo tiro,
Aquele contra a minha cabeça 
Que estouraria meus miolos,
Mas ele preferiu me ver
Morrer sobre meu próprio sangue,
Afogada na dor,
E na distância,
Meus pais, talvez, nunca 
Irão saber disso,
Eu não pude avisa-los
Que aqui desfaleci.

Tempo Fracionando-se

Alcança-se o obscuro,
O ideal é ficar no seguro,
Agarre-se,
Proteja-se,
Somos poucos,
De milhões,
Hoje conta-se nos dedos,
E estamos a cair,
Despencar no abismo
Do desconhecido
De onde não há retorno.

Ora, mas, se não houver reação,
Não nos mostrarmos,
Optar pelo silêncio,
Olhos cegos diante da multidão
Que se abre
E predispõe,
Ainda que sobrevivamos
Estaremos mortos.

É isto que estou te mostrando,
Veja,
É mais que destino,
É questão de tempo,
Muito pouco tempo.

Será?
É tudo tão certo
Quanto se acredita,
Tão ordenado
Quanto se queira.

Veja,
Já não há segurança,
O escuro ilumina-se,
Queiramos ou não
Estamos expostos.

Diante disso,
A melhor maneira é reagir,
Sair das sombras,
Enfrentar o inevitável.

Mas, eu não quero perder,
Eu não vou enfraquecer,
Demonstrar fragilidade
Aos olhos de todos?

Me recuso,
Eu sou o que não cai,
Sou o superior
E mais que isso,
Há nisto tudo um erro.

Então, note,
Cadê o erro?
Podemos sair juntos,
Unir esforços,
Entregarmo-nos.

Contudo, você tem seu grupo,
E eu o conheço
O bastante...

Assegure-se,
Nos assegure,
Há aqui,
E só aqui,
O meio.

Não trata-se de facção,
É questão
De tempo,
Números,
Um relógio que corre
Os ponteiros,
Fração,
Só isso.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Irremediavelmente Sua

Chega a madrugada
Alguém bateu palmas,
Eu me mantenho calada,
Cansei de ligar,
Desisti de chamar,
Desta vez,
Terá que se esforçar,
Do contrário
Desistirei de ser sua.
Mas, este homem
É daqueles que
Não desiste fácil,
Ele insiste,
Pula o portão,
Chega até a porta
E bate,
Três vezes,
E me chama.
Eu me mantenho calada,
Busquei demais,
É sua vez agora,
Ele empurra um pouco,
Força a porta,
Ela abre ele entra,
Então, chama meu nome.
Eu viro o rosto
Para o outro lado,
Estou no quarto,
Deitada e imóvel,
Me enrolei em partes
No acolchoado,
Pra garantir a palavra
Usei uma meia em casa pulso,
Estou amarrada,
Nada me fará ligar,
Ou possibilitará.
Até quando?
Até enquanto ele estiver fora,
Um dia
Ou alguma hora
Irá voltará
E aqui mesmo,
Nua e sedenta
Estarei a sua espera.
Ele cansa,
Deixa a sala,
Entra no quarto,
De súbito
Leva a mão a boca,
Nos seus doces lábios rosados,
“esta amarrada?”
Ele pensa e indaga:
-alguem invadiu a casa?
Eu me viro,
Então, o vejo,
De camisa colada e negra,
A marcar o corpo forte,
Os cabelos esvoaçados,
A calça cáqui apertada,
Quase colada,
Um convite irresistível.
-Não , não foi invadida.
Eu respondo
Olhando diretamente
Para seu zíper,
E desejando ardentemente
Que seja aberto.
Abro as pernas,
O espero
Algemada e arfante,
Ele chega,
Aproxima-se
Joga os dois braços
Ao lado do meu corpo
Apoiado nos seus antebraços,
Depois sobe até chegar
Aos meus lábios,
 Cola o corpo sobre o meu
Terrivelmente vestido,
Incapaz de reconhecer
O efeito de seus olhos azuis límpidos
Tão perto dos meus.
Eu mergulho
Minha boca sob a sua
Como se ganhasse o infinito,
Absorvo seu beijo,
Colo minha barriga nua
Em seu corpo,
E tendo me esfregar
Até que ele remova a roupa.
- por quê você está algemada?
Ele indaga sobre minha boca.
- você disse pra não ligar.
Ele ri,
Retira a camisa,
Depois a calça,
Então abaixa a sua cueca
Branca encardida,
E expõe tudo que quero.
A noite corre,
Perto do amanhecer
Terminamos o contato
De amor,
-preciso ir,
Sou casado.
Ele diz.
- ok, me mantenha assim,
A espera-lo,
Não ligarei.
Eu digo.
Ele ri muito,
E sai pra fora feliz.

Na limpeza do pátio externo

Quando se tem um sonho
A gente o busca,
Suporta os obstáculos
E persiste até alcançar.
Foi assim com nós,
Adquirimos nossa Chacrinha,
Com alguns metros de terra,
Depois ampliamos o tamanho,
Gostamos da vida na roça,
Limpamos nosso chão,
Deixamos a mostra a terra marrom.
Depois encontramos
Uma graminha bem bonita,
Porém, com pouca quantidade,
Separamos de pé a pé
E o colocamos no chão,
Rendeu muitos metros,
E conforme pegou as alastrou.
Daquela que se alastrou,
Retiramos um pouco
E fomos se espalhando,
No entanto, hoje limpando
O gramado retiramos as folhas secas,
Uma cobra se escondeu embaixo,
E por pouco
Muito pouco,
Ela não picou nossa mão,
Ela era amarela por baixo
E escura por cima.
Fina e grande,
Enrolada como se fosse
Uma corda velha
Perdida e esquecida,
Muito esperta ela,
A cada dia mais me admiro
Com a quantidade que há.
Mas vale a pena,
Para viver a tranquilidade
Dos nossos dias,
Vale a pena superar,
Nós a pegamos e matamos
Para evitar que entre
Dentro de casa
Ou nos peguei de surpresa.
Cobras são fatais,
Mesmo as pequenas,
Finas ou aparentemente inofensivas,
E elas são espertas e rápidas
Em segundos pulam
Contra nós
E não há alternativa.
Eu opto pelo fim delas,
Outro dia,
Uma estava estendida
Sobre o escaibro da casa,
Ela percorriam aquela madeira
Que segura o foro
Acima das nossas cabeças,
Dentro da sala.
Nós estávamos abraçados
Deitados no sofá
Assistindo a televisão,
Então, ela saiu da cocheira
Da casa e percorreu aquela
Madeira fina,
Sobre ela,
Sendo ainda mais fina
Conforme seguia.
Ela se camuflava,
Mas a notamos devido
Ao fato de ela ser da cor
Mais escura que a do escaibro,
Por pouco não cai
De lá sobre nós,
Ou se joga com a intenção
De picar.
Ela veio buscar alimento,
E o alimento éramos nós,
Imaginei se ela estava
A nós preparar uma emboscada,
Está ideia me soou terrível,
No escuro não a teríamos visto,
E tão fina,
Não se distinguia da madeira.
Agora, ao refletir sobre a cor
Daria para apostar
Se tratar da mesma espécie,
É provável que haja
Um ninho próximo.
Ali, próximo a grama
Onde hoje limpávamos,
Encontramos alguns galhos secos
E embaixo dele havia
Um ninho de galinha com ovos,
Eu disse
“Amor, aqui escondido
A galinha poderia ter sido picada,
E alguns dos ovos terem sido comidos,
É muito provável que próximo
Daqui haja cobra”.
Limpamos ali
E deixamos apropriado
Para a galinha se sentir
E estar mais segura,
Próximo ao pé de framboesa,
Logo após,
Sobre as folhas secas
Encontramos a cobra
Foi simples,
Mas, eu quase a toquei
Sem tê-la visto,
E ela estava enrolada,
Imaginei que ela me avistou primeiro,
Mas meu esposo
Foi muito mais rápido.
Retiradas as cobras,
Aqui não há lugar mais lindo
E quanto mais o tempo passa,
Mais perfeito fica.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Oi Zé

Eu não sabia
Que a sua boca mente,
Eu só sabia que a solidão
Que só me fez chamar tu,
Que só me fez ligar tu,
E o seu amor me faz tão mal
De solidão,
Que só me fez buscar tu,
Que só me fez querer tu,
E o seu amor me faz real,
Sem solidão.
Oi Zé,
Pois Zé,
Eu vou amar eternamente,
E a solidão
Só me faz chamar tu,
Só me faz acreditar em tu,
E o seu amor me dá paixão.
Oi Ana,
Eu só sabia
Que a tua boca sente,
Eu só temia
Este amar por um instante.
Oi Zé,
Pois Zé,
De solidão
Eu não vou mais chorar
E tu,
Eu não vou mais gritar
E tu,
Eu não vou mais sofrer.
De solidão
Eu não vou mais viver
E tu,
Eu não vou enfraquecer
E tu?
Acho que também vou
Superar.
Eu não sabia
Que a tua pele ardia,
Eu só sabia
Que sozinha enfraquecia,
Então, se a tua boca mente
Não tire o uniforme
Siga e vá em frente,
Me sinto firme
Estou disposta a ser mais forte
Sem a solidão
De quem não pode estar presente,
O chuveiro está quente,
Decida-se se Zé,
Pois Zé.

Saudades Valdez

Meu querido Valdez,
Se não conseguiu
Dormir noite passada,
A culpa é minha,
Faz três noites
Que não durmo
E o chamo.
Desculpa, eu decorei
Seu nome para as noites insones,
Mas, um dia você desistiu
De dar atenção a este fato,
Me perdoa,
Para as noites de medo
Eu decorei seu telefone,
Mas, sei,
Você já não atende.
Eu recordei seu corte
De cabelo,
Então, para espantar o medo
Eu cortei o meu bem curto,
Se você me ver por aí
Nem saberá que sou eu,
Afinal, você já me esqueceu?
Quando rememoro
Seu rosto
Meu peito sente dor
E medo,
São tantas pessoas
Que se espelham em você
Para os instantes de medo
Que eu sou agora
Só mais uma delas?
Algumas dizem:
“Morreu”,
Eu fujo do meu reflexo
E penso:
“feito eu?”
Foram 365 dias de espera
E escrita,
Talvez menos,
Talvez, mais tempo,
Que importa?
O chamo agora.
Sinto dor,
Sinto medo,
Não queria dormir
Se isto lhe trouxesse,
Você desistiu de mim?
Eu fiquei na saudade,
Ah, por favor,
“Nada de gozadas fortes.”

Destino à ROCAM