terça-feira, 2 de junho de 2026

Saudade

Declaro-me louca,
Ouço vozes,
Dou espaço para a mente,
E fico a vagar,
Criando histórias doidas
Que são minhas
E das vozes,
Histórias doentes,
Vorazes
E que me dão saudades.
Você foi tão cedo,
Jamais será suficiente
O tempo que vivemos
Para me fazer esquecer,
Não importa o que houve,
Eu sinto saudades.
Saudade de estar
Na garupa da sua moto
E você desesperado
A aumentar a velocidade
Sobre aquela BR
Que só me dá saudade.
Saudade da sua voz,
De você me xingar,
Dos seus elogios,
De você estar vivo.
A morte te levou
E eu nunca estarei
Preparada para encarar isso.
Eu estou louca,
Eu vivo louca
Perambulando entre as vozes,
Insana e a sua procura,
Não sou capaz
De esquecer você.

O Devedor

Houve um sujeito
Que de tanto fazer dívida
Nunca conseguiu
Ser consumidor positivo.
Ao escrever um livro,
Ele deixou para trás
Uma linha em branco,
Deixando sua assinatura:
O devedor.
Deve nas palavras,
Sempre que conversa
Esquece uma palavra
Ou outra,
Gosta de deixar a sua marca.
O devedor.
Deve nas loja,
No mercado e por onde anda,
E quando combina
Um café
Ele falta,
Apenas para constatar
Que era ele próprio
Quem combinou o lanche.
A mãe dele 
Também não gosta 
De pagar as dívidas,
Ela disse
Que as mercadorias
Não possuem qualidade
E o preço ultrapassa
O benefício da compra,
Ele não respondeu.

Gastos desmedidos

Penso se há
Ato mais desonroso
Que dever e não pagar.
O sujeito que contrai
Dívida sem ter a intenção
De pagar
Não tem valor nenhum
Como ser humano.
Uma pessoa
Que abusa da confiança
Do outro,
Faz uma promessa,
Se esforça para fingir
Um perfil de decência
E depois foge
Como se nunca tivesse
Se comprometido
É um sujeito fracassado,
Um ridicularizado cidadão.
Eu concluo
Que a pessoa deveria
Ter vergonha na cara
E a decência
De pagar onde deve,
Se esforçar,
Não gastar acima
Do que ganha,
Não por fora o que tem,
Quem deve e não paga
Não tem moral
Ou decência.

Consumidor fracassado

Meu pai disse:
Filho não gaste tanto,
Eu sorri,
Peguei o cartão de crédito
E dobrei no meio
Naquela máquina
Da loja da esquina.
Minha mãe disse:
Filho você está pagando
Onde você compra?
Eu sorri,
Pedi dinheiro emprestado
E voltei sem uma nota
De volta,
E depois disso,
Abusei do meu bom nome,
Comprei onde pude,
Gastei no máximo
E agora me chamo
Consumidor fracassado.
Sim,
A dívida ultrapassou
Meu ganho
E eu não consegui pagar.
Minha honra está posta
Em questão,
Eu comprei tudo que quis
Sem ter nenhum tostão,
Eu afirmei que pagaria
E agora desvio daquele lugar
Como se lá estivesse
Um inimigo meu.
A questão principal chegou:
Contar aos meus pais,
Admitir meus fracassos,
Confirmar minhas mentiras
E ouvir todos aqueles conselhos
De quem a vida inteira
Nunca soube o que era
Dever e não pagar.
Sim, eu devo,
Mas vou pagar logo,
Logo.

Garota inadimplente...

Não precisei analisar
Meus feitos
Para ver
Que investi errado,
Estou inadimplente,
Em dívidas
E meu rosto fica vermelho
Cada vez que saio de casa
Ou vou ao mercado.
Sim,
Errei e gastei em demasia,
Não bastou
Eu me emprenhei no banco
E agora estou aos solavancos,
Bem, me resta
Avaliar os ganhos,
Rever cada valor que devo
E parcelar,
É isso,
Não nasci pra inadimplência,
Isso é vergonhoso,
Me sinto desmotivada,
Fracassada,
É agora que preciso
Me fortalecer e buscar,
Eu vou quitar minhas dívidas,
Não sou está caloteira
Que chegou ao conhecimento
Público,
Isso é temporário,
Eu tenho vergonha na cara.
Estar negativada
Não me dá status
De boa moça,
Estar em dívida
É ser infiel a minha palavra,
Eu desonrei minha conduta
Quando comprei
E não paguei,
Mas vou sanar
É questão de parcelar,
Trabalhar e pagar.
Vou repetir roupa,
Diminuir gastos,
Fechar a torneira,
Diminuir a conta de energia elétrica
Eu não nasci
Para ser reconhecida
Fracassada.
Vou pagar,
É questão de honra!

Guardei na providência

Eu rezo para a providência
Me dar algumas coisas,
Eu já busquei tanto,
Me esforcei em demasia,
O que há de errado
Com o plantando tem que colher?
Há alguém envenenando
Meu jardim,
Cortando minhas flores,
Retirando a água
Dá minha terra,
Está tudo murcho,
Sem vida,
E nenhuma borboleta
Me vem.
Que droga,
Cadê a providência
Pela qual rezo
Toda a noite?
Por que tudo
Tem que custar tão caro?
O preço é igual
Para todos?
Minhas mãos estão em calos,
Meus pés no flagelo,
Não, meu terreno
Não está árido,
Tem alguém me sabotando,
Só pode!
Que Deus veja
E resolva,
Eu me cansei,
Aonde eu errei?

Esposa exaltada

Meu sonho
É ser esposa dócil
Que ganha carinho
Por sua fragilidade,
Mantém o esposo
Pelo sorriso,
Bons doces,
E aquele carisma juvenil.
Mas, não
Eu sou exaltada,
Grito, esperneio,
Discuto sobre o assunto
Que nem foi chamado
A pauta,
E se precisar reclamo
Do olhar feroz.
Eu não sei ser calma,
Invejo os seres dóceis,
Que tem sempre as palavras
Certas,
Eu disparo todas as palavras
Que me vem a boca
E sempre penso
Que optei pelas piores,
Eu não queria ser educada,
Queria ofender mesmo,
Brigar sem motivo,
Sair na porrada...
Sei lá,
Há algo de super errado
Em como sou
E como ajo com meu esposo,
Só rezo que ele me suporte,
Caso contrário eu choro,
Se não remediar incomoda.

Ao Primeiro Olhar