quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A vida em ruína

Bem,
Mais um dia de buscas
Com a esperança 
A enxer os olhos
E afastar as lágrimas,
Mas nunca a dor.

O terremoto passou
E as construções ruiram,
Levaram sonhos 
E tiraram vidas,
Não sei bem o motivo
Mas eu suportei
E minha pequena casa
Aguenta bem.

Com piedade no coração 
Pedi ajuda ao meu cão Bello
E fomos para fora 
Ver os estragos
E ouvir os gritos
E algum choro.
Será que era ilusão?
Não sei,
Mas me agarrei a esperança 
E corri em meio aos escombros
Em busca de algo:
Vida!

Bello farejava bem,
Meu lindo Rotweiller 
Brilhava em meio ao sol,
Um sol desalentador
Que convidava a praia
Como num dia comum:
Mas, o terremoto havia silenciado 
Há tão pouco
E ele não parecia entender.

A vida se agarra assim
Nas veias,
Ela esquece de morrer,
Então, ha esperanças,
Abracei meu cão 
Em pleno asfalto rasgado
Ao meio,
E o beijei.

Um cão logo latiu,
Havia uma parede sobre ele,
Nós corremos para ele
E com esforço removemos
A grande parede branca,
Ela estava sobre entulhos
Então, apenas feriu sua perna
Traseira.

Com ajuda do nosso novo amigo
Seguimos adiante,
Havia uma casa
Totalmente destruída,
Barulho de rádio,
Alguma música esparsa,
Chegamos perto dela
E lá havia um homem em pé 
Buscando vidas:
- você está bem?
Eu disse.

- sim.
Eu estava no banheiro 
Quando tudo aconteceu 
Busco meu filho bebê,
Ele precisa estar bem.
Por Deus.

Ele falou e juntou 
As mãos para o céu 
Depois se ajoelhou
Sobre os escombros.
-iremos te ajudar.
Eu disse.
E fomos.
Movemos entulhos:
- tem alguém vivo?
Eu pedi.

Bello e o cãozinho cheiravam
Em busca de vida.
- filho?
Daniela?
O homem gritava
E juntava os destroços 
Jogando-os para trás. 

Logo um bebê chorou,
E foi difícil remover a porta
Que estava sobre ele,
Ao remove-la a porta
Se soltou da parede
Que por sua vez não se movia.
Chamamos os bombeiros,
Eles estavam entre os destroços 
Em busca de sobreviventes.

Mas conseguimos levantar
Lá havia uma mulher
Em posição de oração,
Ajoelhada de mãos juntas
E cabeça no chão,
A removemos e estava
Sem vida,
Embaixo dela em seu peito
Encolhido estava o filho. 
- e o seu filho?
Eu disse.
- sim.
Disse o homem chorando 
Pegando o bebê 
No colo.

Bello sentou-se
Com o olhar triste:
- a maezinha morreu. 
Eu disse.
Não havia outros moradores
Na casa,
Então, segui adiante 
Nas buscas.

Removendo entulhos
Buscando vida no lixo,
No que foi esquecido,
Esmagado e estilhaçado,
Belo deitou-se no chão 
De mãos estendidas
Estava cansado e triste,
O outro caozinho deitou
Ao seu lado. 

Eu me ajoelhei
E fiz carinho nos dois,
- um bebê está vivo 
Por nossa causa,
Nós estamos ajudando,
Precisamos salvar vidas!
Eu falei no ouvido de Bello
Para estimula-lo.

-Lembra garoto
De quantas crianças 
Brincavam na rua felizes?
Logo a vida irá se restabelecer
E a beleza tomará as ruas,
Estas ruínas ficaram para trás,
Eu juro!
Mas Deus não concordou,
Outro tremor ocorreu
E mais destroços vieram
Para o chão. 

Bruna foi obrigada
A correr para lugar nenhum,
Sem outra coisa em mente
Que não fosse esperança,
Pos a mão sobre o boné 
E correu com o cachorrinho
No colo e chamando por Bello.

Algumas casas de cima
Ruiram o que sobrou delas
E os entulhos desceram feito avalanche,
Rápidos e imunes a vida
Que iriam levar consigo,
Agora, provavelmente não restou nada.

A dor tomou conta de Bruna
Que corria e chorava,
Bello voava na frente
Correndo e latindo,
Ninguém disse nada,
Apenas algumas músicas
Agora mais distantes tocavam
Tristes e soterradas
Lá no fundo onde um dia
Existia algo.

Foi doloroso ver tudo cair,
Foi difícil fugir,
Cansada e dolorida Bruna 
Parou e esperou ver tudo vir,
Até que o desmoronamento cessou.

A morte não permite
Que ninguém fique bem,
Mesmo os que salvam-se,
A tristeza ganha vida,
E o sorrido de quem sobrevive
Perde a cor.
Eu queria voltar para minha casa
Mas estava longe dela
E um monte enorme de entulhos
E pessoas sem vida
Me separavam dela.

- talvez aquele homem morreu.
Eu disse acariciando 
A orelha de Bello.
- talvez o filho dele também morreu.
Bello ficou triste,
Ele compreendia a morte
E se familiriaziva com a dor.

Santo Antônio, Chile.
11 de fevereiro de 2028.

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