sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Invasão

A manhã de neblina
Faz o leite vir quentinho
Na vasilha,
Mamãe acordou cedo
E foi logo tirar o leite
Da vaquinha.

Meu pai deu milho 
As galinhas,
Colheu ovos 
E eu coloquei a gordura
De porco na frigideira 
Para aquecer,
Esquentei o feijão cozido,
Acrescentei torresmo
E mexi,
Depois coloquei farinha
De milho até ficar fofo. 

Os ovos chegaram
Os fritei,
Aqueci o leite,
Coloquei a toalha 
Na mesa. 
Com o cheiro da comida fresca,
Soldados chegaram
E bateram palmas.

- saiam para fora.
Este terreno não lhes pertencem,
Vocês invadiram
E precisam ir embora,
Deixar o local.

Meu pai foi até a porta
De madeira de correr,
A abriu e um soldado
Lhe jogou uma arma
Contra o peito e atirou,
Depois chegou em minha mãe 
E a esbofeteou no rosto
Sem se importar 
Com a xícara de café 
Que tinha entre os dedos.

O café caiu no soalho
E derramou-se 
Ela caiu logo após,
Do seu rosto saiu sangue.
O soldado arrancou sua saia
E fodeu seu corpo.
Eu enchi minha boca
De pão 
E fiquei estagnada
Sentada atrás da mesa
Olhando assustada.

Ele colocou a arma
Na boca da minha mãe,
Nas suas mãos,
Esfregou no seu corpo:
- vocês não são donos
Precisam sair!
Ele disse.
Se levantou 
E mirou na parede 
E atirou.

Deixou um buraco 
Na parede e marchou alegre
Para longe,
Para onde eu não queria estar,
Num destino 
Que eu desejei evitar. 

A roça,
Os animais,
A terra limpa
Nada nos pertencia
E eles vieram nos expulsar.
Não podíamos esperar,
Teríamos que fugir
Ou estaríamos
Para sempre a mercê
De suas vontades.
-malditos soldados estupradores!
Eu disse
Cuspindo o pão. 

Minha mãe chorou,
Meu pai sangrava o peito
De olhos fechados,
Morto.

Mas uma filha embalada
No pão 
Não tem o mesmo amor
Que uma esposa,
Que honrada e honesta
Viveu para a família 
E não queria perder 
Nenhuma parte dela.

- filha, cate o facão 
Eu preciso de ajuda!
A mãe falou aos prontos.
A moça correu e encontrou
O facão no porão 
De madeira alto
Que havia na casa.
- pronto mãe, 
Está aqui.
Ela disse entrando
Correndo pela porta da sala. 
- ótimo filha. 

Disse a mãe 
Que correu com o facão 
Cortar algumas folhas
De bananeira e foi colocando
Uma sobre a outra no chão. 
- perfeito filha.
Vamos pôr seu pai aqui
E leva-lo ao médico,
Eu tenho esperança 
Eu vou salva-lo.

Disse a mãe. 
- me ajude!
Ela gritou e entrou
Porta adentro
Pegando os braços do homem
Que sangrava silencioso 
E o erguendo com a filha. 

Ambas puseram ele
Sobre as folhas.
- a senhora pega numa ponta
E eu não outra.
Disse a moça. 
- espere vou pegar
As nossas pedras preciosas
Que seu pai achou 
Sob a terra enquanto lavrava 
A terra para o plantio
Com os bois.

 A mãe disse
E correu até o quarto
Onde ergueu o colchão 
E juntou algumas pedras
Coloridas numa camiseta
E enrolou-as:
- veja filha,
Isso é o que os soldados 
Querem da nossa terra,
Por isso estão tentando
Nos remover delas.

A mãe disse da porta
Erguendo a camiseta 
Nas mãos. 
E correu até as folhas 
De bananeira
Onde ergueu o esposo
Com a ajuda da filha. 

Caminharam três quilômetros 
Até chegar no médico:
- doutor nos atenda?
Gritaram da porta
Batendo palmas 
Para chamar a atenção. 
- não posso e noite.
Ele respondeu. 
- por favor,
Meu esposo está morrendo 
Preciso de ajuda.
Ela continuou. 
A moça se ajoelhou
Com as mãos cobrindo 
O rosto e chorou em soluços. 

- ajude-nos eu tenho pedras
Preciosas.
- tá bom, já atendo.
Ele respondeu,
Pegou uma vela acendeu 
E saiu porta a fora.
- meu Deus, está escuro demais 
Como vocês chegaram
Até aqui?
Ele indagou.
- Fomos guiados
Pelo amor e pela dor.

O doutor fez um curativo
No esposo de Melany 
E notou que ele estava vivo
Mas que precisava descansar,
Um total de 18 pedras coloridas
Foram suficientes para pagar
Pelo atendimento. 

- precisamos voltar 
E trabalhar filha;
Vamos seguir com a plantação 
Da roça.
A polícia irá demorar 
Para voltar.
Nós precisamos da nossa terrinha.

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