Faz o leite vir quentinho
Na vasilha,
Mamãe acordou cedo
E foi logo tirar o leite
Da vaquinha.
Meu pai deu milho
As galinhas,
Colheu ovos
E eu coloquei a gordura
De porco na frigideira
Para aquecer,
Esquentei o feijão cozido,
Acrescentei torresmo
E mexi,
Depois coloquei farinha
De milho até ficar fofo.
Os ovos chegaram
Os fritei,
Aqueci o leite,
Coloquei a toalha
Na mesa.
Com o cheiro da comida fresca,
Soldados chegaram
E bateram palmas.
- saiam para fora.
Este terreno não lhes pertencem,
Vocês invadiram
E precisam ir embora,
Deixar o local.
Meu pai foi até a porta
De madeira de correr,
A abriu e um soldado
Lhe jogou uma arma
Contra o peito e atirou,
Depois chegou em minha mãe
E a esbofeteou no rosto
Sem se importar
Com a xícara de café
Que tinha entre os dedos.
O café caiu no soalho
E derramou-se
Ela caiu logo após,
Do seu rosto saiu sangue.
O soldado arrancou sua saia
E fodeu seu corpo.
Eu enchi minha boca
De pão
E fiquei estagnada
Sentada atrás da mesa
Olhando assustada.
Ele colocou a arma
Na boca da minha mãe,
Nas suas mãos,
Esfregou no seu corpo:
- vocês não são donos
Precisam sair!
Ele disse.
Se levantou
E mirou na parede
E atirou.
Deixou um buraco
Na parede e marchou alegre
Para longe,
Para onde eu não queria estar,
Num destino
Que eu desejei evitar.
A roça,
Os animais,
A terra limpa
Nada nos pertencia
E eles vieram nos expulsar.
Não podíamos esperar,
Teríamos que fugir
Ou estaríamos
Para sempre a mercê
De suas vontades.
-malditos soldados estupradores!
Eu disse
Cuspindo o pão.
Minha mãe chorou,
Meu pai sangrava o peito
De olhos fechados,
Morto.
Mas uma filha embalada
No pão
Não tem o mesmo amor
Que uma esposa,
Que honrada e honesta
Viveu para a família
E não queria perder
Nenhuma parte dela.
- filha, cate o facão
Eu preciso de ajuda!
A mãe falou aos prontos.
A moça correu e encontrou
O facão no porão
De madeira alto
Que havia na casa.
- pronto mãe,
Está aqui.
Ela disse entrando
Correndo pela porta da sala.
- ótimo filha.
Disse a mãe
Que correu com o facão
Cortar algumas folhas
De bananeira e foi colocando
Uma sobre a outra no chão.
- perfeito filha.
Vamos pôr seu pai aqui
E leva-lo ao médico,
Eu tenho esperança
Eu vou salva-lo.
Disse a mãe.
- me ajude!
Ela gritou e entrou
Porta adentro
Pegando os braços do homem
Que sangrava silencioso
E o erguendo com a filha.
Ambas puseram ele
Sobre as folhas.
- a senhora pega numa ponta
E eu não outra.
Disse a moça.
- espere vou pegar
As nossas pedras preciosas
Que seu pai achou
Sob a terra enquanto lavrava
A terra para o plantio
Com os bois.
A mãe disse
E correu até o quarto
Onde ergueu o colchão
E juntou algumas pedras
Coloridas numa camiseta
E enrolou-as:
- veja filha,
Isso é o que os soldados
Querem da nossa terra,
Por isso estão tentando
Nos remover delas.
A mãe disse da porta
Erguendo a camiseta
Nas mãos.
E correu até as folhas
De bananeira
Onde ergueu o esposo
Com a ajuda da filha.
Caminharam três quilômetros
Até chegar no médico:
- doutor nos atenda?
Gritaram da porta
Batendo palmas
Para chamar a atenção.
- não posso e noite.
Ele respondeu.
- por favor,
Meu esposo está morrendo
Preciso de ajuda.
Ela continuou.
A moça se ajoelhou
Com as mãos cobrindo
O rosto e chorou em soluços.
- ajude-nos eu tenho pedras
Preciosas.
- tá bom, já atendo.
Ele respondeu,
Pegou uma vela acendeu
E saiu porta a fora.
- meu Deus, está escuro demais
Como vocês chegaram
Até aqui?
Ele indagou.
- Fomos guiados
Pelo amor e pela dor.
O doutor fez um curativo
No esposo de Melany
E notou que ele estava vivo
Mas que precisava descansar,
Um total de 18 pedras coloridas
Foram suficientes para pagar
Pelo atendimento.
- precisamos voltar
E trabalhar filha;
Vamos seguir com a plantação
Da roça.
A polícia irá demorar
Para voltar.
Nós precisamos da nossa terrinha.
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