domingo, 24 de agosto de 2025

Sistema de Vozes 3

Jhonatan completou dezenove anos
E levava na bagagem
Um boletim de primeiro ano
Da faculdade de direito
Com notas excelentes,
E menções honrosas,
Isto era o bastante
Para sustentar a vontade
De sua mãe em manter
Seus gastos.
Cansado da vida
Em que na sala era professor
Decidiu assumir um emprego,
Lá acostumou-se com o nome
De Tomé,
No primeiro dia já ganhou
Abono e aumento salarial.
No segundo passou
Mais tempo tomando café
E conversando com o chefe
Do que teve em horário
De trabalho.
Suas noites passaram
A ser regadas a bebidas alcoólicas,
Em certo dia, acordou
Deitado na grama
Tomando sereno
Com sua boca aberta para
O céu da manhã
Da praça municipal,
Não fez ideia como foi parar lá,
Mas, em cada momento de
Sua vida a cadeira de rodas
Era fator fundamental.
Nem um de seus amigos
Desconfiou de gastos,
Excesso de trabalho,
Ou notas baixas
Sempre que fora do sistema
De vozes,
Jhonatan era um doente de poliomielite,
Um rapaz de saúde debilitada
E movimentos quase nulos.
No que se referia ao sistema
De vozes,
Jhonatan esforçou-se na biblioteca
Para ler o máximo possível,
E adquirir o máximo de informações
Que pudesse,
Se considerou desde os oito anos
Como excelente ator,
E as ideias dos livros
Apenas lhe contribuíam.
Com o tempo de curso
De direito adaptou-se a um bar,
Lá havia um rapaz interessante,
De dono do local,
Em pouco tempo Jhonatan
O definiu por Richard,
Um primo distante dele.
No sistema de vozes,
O adaptou a está história
E mais: criou uma irmã morta
Para o rapaz,
E lhe acrescentou que ele era
Cantor e violeiro,
Tão depressa o rapaz se adaptou
Mais ainda Jhonatan se felicitou.
De outra partida,
O agora primo Richard
Compôs uma música
Para a irmã perdida:
“ saudade da irmã
Que um dia foi para longe,
Deixou saudades,
Levou minha felicidade,
Tão cedo casou-se,
Tão logo construiu sua vida
Escolheu para ela
Outra cidade,
Não me disse adeus
Na despedida,
Eu não toleraria a distância,
Mas, tão mais forte
Que eu foi está garota,
Me deu um abraço
Enquanto eu ainda dormia,
E foi-se para longe
A linda menina,
De seus cabelos dourados
Sinto o cheiro e a sedosidade,
Acordo e digo
Volte minha irmã,
Retorne,
Me prometa
Não vá mais para tão distante.”
Jhonatan aplaudiu
A música,
Levou para outro bar
E gravou imediatamente
Através do sistema,
Logo, ao retornar com a fita cassete
Em mãos para o bar do primo
Não pode disfarçar a felicidade:
- veja primo,
Ouça a música que faz sucesso,
Me sinto tão feliz
Ao escutar
Que parece até que te ouço.
O rapaz desceu do palco,
Foi até o cadeirante,
Pegou a fita,
Reconheceu a letra
E soube que, realmente,
Não era sua composição,
Era de sua irmã
Que o buscava.
De início sua mente recusou
A ideia,
Contudo, logo passou
A esperar pelo retorno desta.
Pegou seu violão,
Subiu ao palco e cantou,
Lágrimas lhe cobriam a face.
Outro amigo, Jean o acompanhou.
Três meses após,
Jhonatan encontrou
Um novo sujeito
E se adaptou ao seu jeito,
O trouxe para o local
Para dono do bar,
Nisto trocou toda a mobília,
Pendurou discos,
Trouxe livros,
E as músicas se abriram
Para o público todas as noites.
Agora eram dois cantores,
O primo Richard e Jean.
Jean tinha uma irmã Melindra,
Ela tinha doze anos,
Em cada noite de bebedeira
Jhonatan abandonava a cadeira
De rodas e invadia
Um quarto diferente,
As vezes de Richard,
Outras vezes de Jean,
E depois de Sandro.
Ele gostava de fazer sexo,
Tinha prazer em mudar
De parceiros
E nunca desejou ser reconhecido,
Chegava as escuras,
Sempre caminhando,
Quase sempre embriagado,
Sempre movido
Por seu sistema de vozes.
Sua postura de ator
Era perfeita,
Sempre que ele era Tomé,
Usava sotaque e palavras diferentes,
Até caminhava perfeitamente
E abandonava muletas
E a amada cadeira de rodas.
Melindra tinha cabelos escuros
Mas, Jhonatan a convenceu
De mudar a cor para loiro
Para acompanhar a irmã
Do primo Richard.
Ela tinha cabelos até a altura
Dos seios,
Era magra,
Recém completou doze anos,
Porém, cometeu o erro
De engravidar.
Jhonatan não sonhava
Em ser pai,
As escuras se nomeou Richard,
Jean ou Sandro,
Nunca foi Jhonatan
E poucas vezes foi Tomé.
Tanto Jean quanto Richard
Disputaram a irmã,
Ambos a reconheciam
De tal maneira,
Os dois cantavam para ela,
Tiraram fotografias juntos,
Bebiam até adormecer
Para felicitarem sua companhia.
Logo, nos primeiros meses
Da gravidez,
Ambos desconfiaram de estarem
Invadindo o quarto dela,
E de fazerem sexo com ela,
Contudo, em poucas noites,
Ambos acordaram nus
Ao lado dela também nua.
Sandro nunca desconfiou,
Noticiada a gravidez
Todos se ocultaram,
Com olhos baixos
E sorrisos tristes nos rostos,
Mas a bebida outra vez prevaleceu.
A menina sentiu medo,
Tentou abortar no jardim
E morreu sangrando.
Jhonatan a viu,
A escondeu atrás das roseiras,
Pegou um de seus bonecos
De tecido,
Fez maquiagem perfeita nele,
E marcou encontro
Com os três no bar
Conforme costume,
Porém, tarde da madrugada.
Escolheu estarem apenas eles,
Num piscar de luz,
O boneco foi solto numa cadeira
Próximo a mesa deles,
Todos aproximaram-se,
Pareciam acreditar em Deus,
Fielmente,
Fizeram o jogo da garrafa
E uma voz que vinha do boneco
Informou que Melindra
Estava morta no jardim.
Estarrecidos,
Continuaram a beber
Como se a luz do dia
Fosse desmistificar
O que quer que fosse,
Porém, Jhonatan cansou
Da mesmice das bebedeiras
E pôs fogo no boneco,
Com todos adormecidos
Sobre a mesa alcoolizados.
A vida de ator de Jhonatan 
Lhe dizia Olá.

sábado, 23 de agosto de 2025

No Acorde da Voz

Nos corredores escolares
Jhonatan gostou de Richard,
Embora de salas diversas,
Não tardou,
Gean soltou um peido
Dentro da sala,
E Jhonatan forçou um arroto
Fingindo ter saído dele
O barulho.
Todos riram,
Ele fez rosto triste
E pediu para trocar de sala.
Na outra sala,
Jhonatan fez amizade
Com Richard,
Próximo ao banheiro
Sentiu dificuldade
Para tomar água,
Vez que a cadeira de rodas
Não alcançava o bebedouro,
Richard tirou o copo
E lhe serviu água,
Foi gentil e amigável.
No dia seguinte,
Richard o ajudou no banheiro
A defecar e urinar,
Ele foi gentil ao segurar
Seu pênis
E limpar sua bunda.
Após o uso das vozes,
Richard tinha aula de educação física,
Contudo, Jhonatan o fechou
Dentro do banheiro,
Deixou a cadeira de rodas,
No escuro fez sexo com ele.
Encerrado o ato,
Voltou a cadeira de rodas
E o encontrou em prantos,
Sentado nas escadarias
Da escola,
Lá Jhonatan foi seu amigo
E confidente.
Não tardou,
Jhonatan soube tudo
Sobre a vida particular de Richard,
Viu fotografias
E conheceu histórias antigas,
Em seu quarto Jhonatan
Fez mais que o uso das vozes,
Treinou teatro,
Construiu bonecos
Usando tecido e papel escolar,
Bonecos idênticos a fotos,
Com direito a vozes originais.
Richard se viu fechado
Em ambiente escuro
Diversas vezes,
Jhonatan se tornou amigo íntimo.
Meses após isso,
Jhonatan se tornou seu primo
Com uma facilidade inacreditável,
Rumo a casa de Richard,
Jhonatan contou histórias
Sobre o avô de Richard
Falecido a anos.
Com o uso das vozes,
Ele assustou os pais de Richard,
Que apoiou-se num violão,
Na beira mar,
Jhonatan invadiu o quarto
Da mãe de Richard,
Fez seu pai acreditar
Que era o garoto.
Depois disso,
Conheceu a empregada
Da casa,
E também a forçou sexualmente
Nas madrugadas
Que dividia entre uma mulher
E outra.
Sempre usando sua cadeira
De rodas ele acabava sendo
Eximido de qualquer denúncia
Ou desconfiança.
Usava preservativos
Que ele espalhava pela casa
Nas proximidades do quarto
De Richard
Para que o pai encontrasse.
Certa vez, ele encheu os bonecos
Que costurou e os soltou
Na varanda,
Lá o pai de Richard
Acreditou que conversava
Com seus falecidos pais,
E Richard mais tarde, também.
A pedido dos avós
Richard escolheu dormir abraçado
A ambos na beira do mar,
Jhonatan pôs neles querosene,
E enquanto o garoto dormia,
Ele chegou e ateou fogo,
De dentro das chamas
Richard gritava,
Implorava por socorro,
Mas, foi incapaz de sair
Pois Jhonatan forçou o braço
Contra o fogo
Encontrou o peito do garoto
E arrancou seu coração
Depois o jogou no mar.
Sua irmã,
Juçara desconfiou da morte
Do irmão,
O pai de Richard se irritou
Com o garoto que não quis
Mais que cantar e tocar violão
Trancado dentro do galpão.
Envergonhado por suas atitudes
Seu pai o mandou embora,
Escondido na moita,
Jhonatan sorriu,
O boneco de Richard era escorraçado da própria casa,
Agora a propriedade
Poderia ser dele,
O sobrinho afastado da família Dervint.
Não tardou,
Jhonatan encontrou Juçara
No banho,
Nua, de cabelos loiros
Caídos até o ombro.
Ela desistiu resistir,
Mesmo quando ouviu
O irmão Richard tocando
Violão do lado de fora
Da janela de seu quarto,
Cantando para ela
Lhe convidando a ir nadar no mar.
Deitada nua na areia,
Juçara desejou resistir
A Jhonatan,
Contudo, ele aproveitou-se
De ela estar de costas
Para o mar,
De barriga para a areia,
Chegou por trás dela,
A imobilizou e fez sexo
Com ela,
Depois disso,
Ninguém teve notícias dela
Outra vez.
Mas, quem aproxima-se
Daquele mar jura ouvir
Richard cantar
E chamar de algum lugar
Próximo a areia:
Saudade
Que não sei expressar,
Saudade
Que não sei falar
Queria dizer te amo
Queria agradecer sua voz,
Queria estar de volta,
Queria abraçar minha família,
Mas, me perdi,
Por entre as ondas,
Me perdi,
Tão próximo ao mar,
Eu caí,
Errei em te deixar,
Errei ao levantar a voz,
Errei quando não podia confiar,
Estou longe agora,
Vou custar a voltar,
Talvez, nunca você possa me escutar,
Mas, senti saudades,
Saudade de vocês.
Restaram na propriedade
O casarão de frente ao mar,
Os preservativos contendo porra,
De um garoto bem aventurado,
Uma mãe e um pai,
Pelos filhos abandonados.
Jhonatan correu até ambos,
De cadeira de rodas,
Rosto baixo,
Olhar entristecido,
Encontrou cada um
Dos preservativos
Os deu de comida aos peixes,
Convidou seus amados tios
Recém conhecidos para nadar,
Usou o canto do filho,
O acorde seu violão,
A voz da filha a chamar,
As batidas de seu coração:
O casal de mãos dadas
Entrou na água
E andaram cada vez mais
Para o fundo,
Seus filhos os chamavam,
Enquanto a longa distância
Nas profundezas do mar
Um boneco feito de papel
Acenava feito um marinheiro
Que não sabe afundar.

Sistema de Vozes

De bengala em mãos,
Jonathan subiu a colina,
Lá do alto,
Muito acima das rochas,
Naquele local plaino
Cheio de grama e flores,
Ele gostava de ficar lá.
Dia após dia
Fazia o caminho
A passos lentos,
Seus doze anos
Lhe davam a liberdade
Que precisava para isso.
Porém, um senhor de setenta anos
Teimava em fazer este caminho,
Pelo hábito da atitude,
Não tardou encontraram-se,
E pior,
Logo os horários de ambos
Passaram a coincidir.
Certo.
Jonathan odiou o avô.
Em meados de seus oito anos,
Tomou gosto por fazer sexo,
Sua vizinha,
Uma menina de dez anos
O auxiliou na atitude,
Certa vez veio a sua casa
A passeio,
Logo entrou no seu quarto
Para brincar de trenzinho,
Depois disso,
Pegou alguns livros do colégio
E os leu para ele,
Sem aviso Jonathan
Baixou o livro que Bianca
Lia de suas mãos
Até seu colo
E lhe depositou um beijo,
Depois, deitaram no tapete
E passaram a reconhecer
O corpo um do outro.
Ele desgostou disso,
Precisava de dinheiro
Para manter seus chicletes
E a coleção de gibs,
Com isto,
Aproveitar o sono de seu avô,
Em seu quarto,
Na cadeira de balanço
Enquanto Jonathan lia
Para ele foi mais prático.
O velho idoso dormiu,
Ele retirou o pênis
Do velho de dentro da calça,
Beijou e sentou nele,
Depois acordou o velho
Aos prantos e gritos:
- avô, avô, avô.
Este grito lhes deu vantagens
E muitos valores.
Contudo, aquele senhor idoso
Lhe lembrava o avô,
E agora cismava de ser
Mais rápido em subir,
Mais prático em descer
E não tinha bengalas:
- que ironia da vida,
Hein filho.
Logo você deixa a bengala?
Jhonatan irritou-se
Com o comentário.
Acreditou que o velho
Não tinha direitos
Sobre a atitude dele,
Muito menos o de julgar
Seu estado de saúde,
Num impulso subiu a frente
Do velho,
Resvalou numa rocha
E jogou a bengala para trás.
Certeiro.
Ao olhar para trás,
Com um grito de espanto
O velho sumiu de vista,
Jhonatan concluiu
Que cair de altura tão grande
Deveria ser uma morte horrível.
Mas não conseguiu
Conter o riso ao concluir:
Outra vez o velho
Foi mais rápido que ele.
Desta vez, Jonathan subiu
E tardou a descer,
No retorno não encontrou
O velho,
E nunca mais o viu.
Jhonatan comprou um sistema
De comunicação com o dinheiro
Que ganhou do avô,
Neste sistema
Ele podia ouvir tudo
O que estivesse ligado a ele,
E falar através daquilo
Sem estar numa ligação
Ou ser reconhecido,
Nem seria descoberto.
Aproveitou-se disso,
E virou cadeirante,
Agora Jhonatan tinha dificuldade
De locomoção,
Ganhou uma cadeira de rodas,
E com elas todas as regalias
Provenientes a um deficiente.
Podia falar o que quisesse,
Chorar poucas lágrimas
E ganhar tudo que quisesse.
Era melhor que transar
Com o avô,
Afinal, ao tomar está atitude
Com a mãe ele irritou-se,
Sofreu um ataque de nervos
E desmaiou sobre a cama.
Foi inconclusivo,
Mas, ele ganhou carro
E motorista para conduzi-lo
Até o colégio.
Ele marcou o encontro
Com a própria mãe
No quarto dela,
Sem saber quem era,
Ela o esperou nua
Sobre a própria cama,
Ele chegou de cadeira
De rodas,
Abriu a porta,
Entrou, saiu de cadeira
E subiu sobre o corpo dela.
Ela iria gritar,
Mas, ele pôs a mão sobre
Sua boca,
Talvez, ela fosse reclamar
Mas ele foi até seu quarto
Usou o sistema de vozes,
E disse que foi sonho,
Então, se posicionou
Atrás da cortina da janela,
Caído da cadeira de rodas,
Mijado e defecado.
Ao sair do quarto
Ela o encontrou assim,
Imóvel aos prantos,
Sem poder tomar banho,
Ou sair do lugar:
-Filho, que houve?
Ela indagou.
Indo ao seu amparo.
- cai da cadeira,
Eu achei ter ouvido gritos,
Então, sai do meu quarto
E vim até a janela
Para ver se vinham da rua,
Nisto resvalei no meu suor
Da cadeira de rodas,
E cai de cara no chão.
Ele respondeu chorando.
- minha vida,
Você caiu aí?
Há muito tempo?
Ela Indagou.
Estendendo os braços
Para ele,
Seu cabelo escuro cacheado
Cobriu seu rosto
E o tocou.
Ele tinha um cheiro bom,
Ela era refrescante.
-sim,
Até me mijei de medo,
E fiz cocô nas calças.
Ele respondeu,
Estendendo a mão
Para o seu rosto,
Tocou em seus lábios,
Ela teve um sobressalto,
Tentou se afastar
Segurando o filho
Nos braços.
Então, o soltou,
Ele caiu feito um fardo
Pesado contra o assoalho.
-ai.
Faz tempo que estou aqui,
Eu sou um fraco,
Não posso tomar banho,
Não posso beber água,
Não posso ir ao banheiro...
Ele falou chorando.
Levantou a mão
E passou sobre o vestido
Da mãe,
Tocando levemente seus seios.
Ela sobressaltou-se,
Abaixou-se e o pegou:
- sim, filho.
Você ficou assim,
Com poliomielite.
Eva o ergueu no colo,
Depois o soltou sobre
A cadeira com dificuldade:
- eu tive um pesadelo horrível.
Ela disse,
Acariciando o rosto do filho.
Jhonatan sorriu,
Tocou em seus dedos
E os apertou:
-preciso que você seja forte,
Eu estou inválido,
Preciso de você.
Ele disse.
Eva o conduziu até o banheiro,
Tirou sua roupa
E lhe deu banho.
Aos doze ele não precisava
Tomar banho sozinho,
Nem secar o corpo
Ou vestir a roupa,
Tinha a mãe inteira ao seu dispor.
No colégio ele era
O centro das atenções,
Considerado algum tipo de anjo,
Sempre com as piadas engraçadas
E o sorriso gentil.
Por vezes, marcava encontros
No banheiro,
Chegava sorrateiro,
Saia da cadeira de rodas,
E fazia sexo com meninos,
Principalmente,
Ele gostava de sexo anal.
Depois, ele usava o sistema
De vozes e falava sobre suas dificuldades
Em ser cadeirante,
E os dissabores que a doença
Lhe acarretou.
Era dono da piedade de cada olhar,
Todavia, não gostou
Do olhar de um padre
Certa vez,
Usou o sistema de vozes
Com ele,
O convenceu a ser professor dele:
- o olho não se satisfaz
Em ver,
Nem o ouvido
Em escutar.
O padre falou em sala
De aula,
Referindo-se sobre a existência
De Deus e sua bondade.
- tire os olhos do visível,
E se volte ao invisível.
O padre encerrou.
O invisível era ele e sua voz,
Ninguém suspeitava disso,
Deus estava humano
E muito próximo.
Até aí às aulas
Corriam perfeitamente,
O problema foi o dia
Em que o padre decidiu
Dizer que era de Florença,
Alegar que falava italiano
E dizer a Jhonatan:
- pássaros voam para muito longe,
Algum dia você pode fazer isso,
E chegar até a Itália.
Jhonatan irritou-se
E não soube disfarçar,
Como ele poderia dizer
Que seu vôo distante
Seria para a Itália,
O lugar de onde o padre viera?
Foi exagero do padre
Acreditar que Jhonatan
Pudesse sonhar
Com qualquer coisa
Que proviesse dele.
Através do sistema de vozes
Jhonatan marcou um encontro
Com ele para a frente da sala,
Próximo as escadas,
Ao terminar a aula,
Jhonatan saiu
E o viu em pé,
Isto lhe custou ter de levantar
Da cadeira de rodas
E empurra-lo escada abaixo.
Aqui as vozes da memória
Se apagam para sempre.
O Franciscano se fora.

Lá no Alto

Lá no alto do moro,
Tão alto,
Um tanto acima
Da copa das árvores,
Se eu subir lá
Posso tocar uma nuvem,
Se eu puder toca-la
Com muito pouco
Posso subir nela,
Lá do alto do moro
Agarrado aos ramos
Do final da copa da árvore,
Acima de todo o verde
Encontro o azul celeste,
Agarrado a última árvore,
A mais alta de todas,
Eu estendo meu olhar
E posso ver Deus,
Agarrado a árvore
Tão perto das nuvens,
Se subo um pouco mais
Eu estendo a perna
E encosto numa nuvem,
No azul cinzento esbranquiçado
Do céu
Eu posso pisar,
Pisando na nuvem eu toco
Em Deus?

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Rosie, cadê?

Rosie juntou seus livros,
Pegou o caderno
Pôs embaixo do braço
E seguiu para o colégio,
Aos quinze anos de idade,
Não pensou que um policial
Lhe ofereceria carona,
Nem que ele jamais a esqueceria.
Este foi seu erro cruel,
Logo ela irritou-se com a mãe,
Que fazia uso de remédios
Antidepressivo,
A mãe foi até o quarto
E enforcou-se.
Sobrou o pai,
Que logo arranhou outro casamento,
Optou por deixá-la sozinha,
Embora lhe desse alimento
E sanasse as contas,
Dava poucas notícias,
Quis saber pouco dela.
Sozinha,
Ela passou a ouvir vozes,
Sem saber de onde vinham,
As achou irresistível,
E obedeceu a cada uma.
Obcecada pelo que ouvia,
Foi até o pai com uma faca,
E o sangrou até a morte:
- você não vai esquecer de mim.
Ela o disse,
Assim que ele abriu a porta,
O deixou de joelhos:
- me perdoe, filha,
Perdoe.
Não houve regalias,
Ali ele sangrou com a faca
Cravada no peito,
Ela não presenciou o velório,
Se irritou com a morte,
Acusou a madrasta pelo assassinato.
O policial tomou frente
Da operação,
Conhecedor de suas ordenanças,
Alegou que foi roubo
O motivo da morte,
Feito por algum estranho,
Bandido próximo do local,
Se comprometeu de descobrir
Tudo e responsabilizar o criminoso.
Ela temeu,
Escondeu-se em casa
E chorou.
- eu quero um filho.
Ele disse.
- não.
Ela respondeu serena
E amedrontada.
Ele retirou o cinto da calça
De trabalho,
Bateu nela com ele,
Até deixar marcas de sangue
Por seu corpo.
- você é casado.
Ela disse.
- não importa.
Ele respondeu.
Bateu mais forte nela,
Até fazer sangrar,
Até deixá-la desmaiada
No chão da sala.
Depois deixou a porta destrancada
E saiu pra fora.
Os vizinhos não mexiam
Na casa,
Não feriam ela,
Obedeciam ele,
Tinham medo.
Ele tinha uma câmera
Na porta da casa
E escutas por todo o lugar,
Ouvia tudo que fazia,
E dava ordens
E exigia que ela seguisse.
Com medo
Por ele segui-la tanto,
Ela pegou a faca
Com a qual matou o pai
E arrancou a pele do rosto.
Não achou que merecia
Ser vista,
Quis sumir,
Ganhar novo rumo,
Desejou ter uma vida.
O policial irritou-se,
Pegou a viatura de trabalho,
Arremessou contra o portão,
Chegou até ela,
Puxou a arma e empenhou
Contra seu rosto.
Encostada na testa dela,
Na carne viva,
Esfregando contra sua dor,
Causando sangue,
Farejando seu medo.
- você quis me trair.
Ele falou,
Então, invadiu com o cano
A boca dela,
E ficou com o dedo no gatilho
E a arma dentro dela.
Depois retirou,
Ferindo seus lábios,
- você é capaz de me trair.
Ele insistiu.
Ela ficou silenciosa,
Apenas chacoalhava
A cabeça em negativa.
Irritada
Por ser obrigada a vê-lo,
Ela odiou os próprios olhos,
Ela não podia feri-lo,
Era incapaz de defender-se,
Não podia afasta-lo,
Então, perfurou ambos os olhos,
Ficou completamente cega.
Juntou uma máscara de gesso
Da infância,
Um trabalho feito no colégio,
E pôs sobre o rosto,
Uma máscara sem expressão
Ou buracos onde seriam
Os olhos,
Nela havia um risco de batom
Em formato de sorriso,
Mais nada.
Agora ela seria dele,
Completamente dele,
Sem olhar outro,
Sem falar com ninguém,
Sem um único sorriso,
Somente obedeceria sua voz,
Sabendo que em sua mente
Ela nunca o pertenceu,
Tanto quanto deixou de ser
Dona de sua vontade,
Agora, dentro dela,
Ela podia sonhar um amor,
E imaginar que este que a toca
Seria um alguém,
E não aquele monstro estuprador,
Do sistema policial “vigie-me”.
Seus cabelos negros
Soltos no lado do rosto,
Jamais receberiam carinho,
Seu rosto sem afeto,
Agora não tinha nem ao menos
Pele ou sentimento,
Seus lábios nunca beijados,
Não pertenceriam a armamentos,
O cheiro fétido do suor daquele
Monstro estuprador
E daquela farda maldita
Nunca chegariam as suas narinas,
Nem seus olhos veriam
O sorriso de triunfo
Daquele desgraçado municiado,
Protegido e assassino.
Restou dela o corpo,
A vida totalmente controlada
Por uma voz irresistível
Sob pena de morte,
Mais nada.

A Unicidade

A gente quando
Se aproxima dos quarenta
Começa a refletir
Sobre o passado,
Rever os sonhos,
Replanejar os passos.
Olha na parede
Onde está pendurada
As chaves do carro,
Pois as pernas
Já não levam tão longe
Quanto levavam aos quinze anos.
Avistada as chaves,
Suspira-se em alívio,
Já se começa a pensar
Quando se trocará
Por um modelo novo,
Um carro mais bonito,
De ano mais moderado.
Assim nos assemelhamos,
Aos quarenta anos,
Já não somos um carro novo,
Recém adquirido,
Do contrário,
Já se avalia os estragos,
Pensa-se em reparar enganos,
E se adapta ao que estamos.
Com o uso do carro
Vem os raspões, as batidas,
Os reparos.
As vezes, substitui-se a peça inteira,
Outrora é um pneu furado
Ou a gasolina que está
Chegando ao fim.
No entanto, nós também
Sofremos raspões,
Também temos danos
Em nossas peças
Que se evidenciam
Com o transcorrer do tempo,
Porém, não podemos trocar
Nossos membros
Como substituem-se os pneus,
Não trocamos de pele
Como renovamos a tinta
Da lataria,
Com o tempo,
Os cabelos brancos surgem
E nada mais os esconde.
De gasolina usamos a água pura,
Os sucos e chás buscando
Ter energia,
Renovar as esforços,
Alimentamos e nutrimos
Nosso corpo o melhor
Que pudermos,
Mas, aos quarenta se colhe
Todo o alimento ingerido errado,
Todos os descuidos
Que sofremos até então.
As vivências dos quinze
São como os arranhões,
Contudo, aos quarenta
Vê-se o que a maquiagem
Não esconde,
Chegaram as dores,
E não podemos ser trocados
Por novos modelos,
Uma pessoa não é substituível,
Deveríamos pensar
Sobre isto aos quinze,
Talvez, cheguemos aos quarenta
Com menos dores
E danos,
Agora, dos quarenta
Faremos os sessenta,
Vive-se e perde-se
Conforme se queira,
Também pode viver
E ganhar,
Perdeu aquele
Que se abandona
E não se vê
Único como realmente é:
Insubstituível.
Tem quem 
Planeje mais seu tempo
Em busca de melhorar o carro
E esquece de melhorar a si mesmo,
Um carro é tão compravel,
Quanto um ser humano 
É inalterável.

Assombro Antigo

O campanário de cores desbotadas
Das casinhas que de longe vejo
Me inspiram medo,
Para não dizer pavor.
Um aglomerado de pequenas
Construções numa civilização
Do medo.
Quando voltei para a minha cidade natal
A avistei aquelas construções,
De longe me pareceu ver
Aquele povo se espalhando
Pelos casebres a espalhar fofocas
E fazer intrigas.
Meu caso não é certamente
O único,
Ainda sinto aquela velha náusea
Só em pensar de passar perto
De pessoas que nada fazem
Ou buscam de suas vidas
Exceto se engrandecer as custas
Dos outros.
Muitos que partiram a pretextos
Nunca mais voltaram a seus lares
Não importando que circunstâncias estivessem,
Preferiram entregar-se ao esquecimento
E tracejar suas vidas da maneira
Como foi possível,
Sendo que em nenhuma hipótese
A ideia de retornar
A este vilarejo lhes fosse acolhida.
Alguns partiram em busca
De educação,
Outros crescimento profissional,
A verdade é que este vilarejo
Nunca proporcionou nada
De positivo a ninguém,
Eu mesmo me indago:
Como alguns sobrevivem?
Meu auge do medo
Foi numa manhã bem cedo
Quando levantei para tomar
Meu banho
E na minha janela já havia
Um grupo de fofoqueiros
Postos para buscar boatos,
E espalhar mentiras por entre
Os preguiçosos
Que nada desejam a não ser isto:
Falar mal da vida alheia.
Meus pensamentos
Com relação a eles
São curtos e rudes:
Vão se embora,
Afastem-se deste que sou.
Mas, para sobreviver aqui
Eu preciso me enturmar,
Fazer parte destes grupos,
Interagir com os vizinhos,
Penso se devo frequentar
Alguns igreja,
Mas, a distância já ouço
Os discursos acalorados
Em busca de dinheiro,
E espalhando os boatos
Sobre os residentes,
É eles falam alto,
Usam microfones,
A igreja é local disto:
“Falar o que eles gostam de ouvir”.
A distância se vê a cruz da igreja
Se distinguir por entre os casebres,
Uma onipotência de oração,
Onde tudo se apregoa,
Menos o que defino por religião:
Fazer bem ao próximo,
Ajudar o vizinho...
Tudo permanece sempre igual,
Não importa quanto tempo passe,
Menos as construções de orações,
Estas crescem e se aperfeiçoam,
Se distinguem das pequenas casinhas
Do seu redor que a tinta escorre,
E pequenas lascas de madeira
Ou cimento caem.
Até mesmo os frequentadores
Da igreja se distinguem,
Nas vestimentas,
Nas palavras,
Parece que só entram os escolhidos,
Não sei se se deve aos discursos,
Ou se é mesmo uma operação financeira 
E pronto.

Destino à ROCAM