sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Saudade

Lembro-me o abraço,
O riso e suas cores,
Suspira minha saudade,
Respira os amores,
Oh, meu lindo irmão 
Que no sepulcro descansa,
Recebe as lindas flores
E na tez a esperança,
De queridos amores
Que se foram,
E agora por você recebidos 
Sobrevivem de luz e rezas,
Profundos anseios,
Sonhos de outro mundo,
Amado Gilvan
Que se alimenta
De tudo que a terra inventa,
Não pulsa um coração 
Em seu peito 
Como lhe vai paixão 
E amigos antigos 
Que tal você 
Não resistiram 
Aos ares e trejeitos
Da vida daqui de cima.
Suspiro outra vez
Seu amado abraço 
Da saudade em que
Me desfaço 
Te entrego 
E te sustento,
Sem aborrecimentos,
Querido amigo:
Se chega já agora
A tua hora,
Por favor,
Apieda-se desta
Que aqui chora
Lembra meu abraço,
Meu sentimento 
E meu querer para outro
Que neste chão dorme
E não há de acordar,
Mas o qual logo
Você irá ve-lo!
Fala do último abraço 
Que não pude dar,
Da saudade que não acalma
E do quanto eu o amo!

Saudade

Sei que não voltarei a ve-lo,
Mas, ontem vi meu rosto
Refletido nos olhos
Mais límpidos e puros do mundo
Que quase me vi gravitar 
E alcançar você,
Isso se o céu pertencesse
Aos anjos toda vez
E se por serem azuis e castos 
Aqueles olhos trouxessem 
O céu para perto,
Feito um rosto feito de nuvens,
No tom rosado do crepúsculo. 

Se formatos perfeitos
Lhe trouxessem
Eu o teria visto,
Mas, alguns me veem
E são capazes de refletir
Meu rosto com semblante 
De saudade 
Como só o seu fez,
Porém, no seu era felicidade,
Mas, agora nestes puros
E gentis olhos
Tento te buscar
Lá no fundo...

O tempo passa,
Eu enlouqueço,
Te buscar não adianta
No lugar onde você está 
Eu tardarei poder visitar,
Mas, encontrei um rosto perfeito
De lábios carnudos
Num corpo forte e vigoroso,
Meu coração ficou em sobressalto,
Até quando permanecerei sozinha?
Sem você 
E sem este outro,
Até quando?

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A vida em ruína

Bem,
Mais um dia de buscas
Com a esperança 
A enxer os olhos
E afastar as lágrimas,
Mas nunca a dor.

O terremoto passou
E as construções ruiram,
Levaram sonhos 
E tiraram vidas,
Não sei bem o motivo
Mas eu suportei
E minha pequena casa
Aguenta bem.

Com piedade no coração 
Pedi ajuda ao meu cão Bello
E fomos para fora 
Ver os estragos
E ouvir os gritos
E algum choro.
Será que era ilusão?
Não sei,
Mas me agarrei a esperança 
E corri em meio aos escombros
Em busca de algo:
Vida!

Bello farejava bem,
Meu lindo Rotweiller 
Brilhava em meio ao sol,
Um sol desalentador
Que convidava a praia
Como num dia comum:
Mas, o terremoto havia silenciado 
Há tão pouco
E ele não parecia entender.

A vida se agarra assim
Nas veias,
Ela esquece de morrer,
Então, ha esperanças,
Abracei meu cão 
Em pleno asfalto rasgado
Ao meio,
E o beijei.

Um cão logo latiu,
Havia uma parede sobre ele,
Nós corremos para ele
E com esforço removemos
A grande parede branca,
Ela estava sobre entulhos
Então, apenas feriu sua perna
Traseira.

Com ajuda do nosso novo amigo
Seguimos adiante,
Havia uma casa
Totalmente destruída,
Barulho de rádio,
Alguma música esparsa,
Chegamos perto dela
E lá havia um homem em pé 
Buscando vidas:
- você está bem?
Eu disse.

- sim.
Eu estava no banheiro 
Quando tudo aconteceu 
Busco meu filho bebê,
Ele precisa estar bem.
Por Deus.

Ele falou e juntou 
As mãos para o céu 
Depois se ajoelhou
Sobre os escombros.
-iremos te ajudar.
Eu disse.
E fomos.
Movemos entulhos:
- tem alguém vivo?
Eu pedi.

Bello e o cãozinho cheiravam
Em busca de vida.
- filho?
Daniela?
O homem gritava
E juntava os destroços 
Jogando-os para trás. 

Logo um bebê chorou,
E foi difícil remover a porta
Que estava sobre ele,
Ao remove-la a porta
Se soltou da parede
Que por sua vez não se movia.
Chamamos os bombeiros,
Eles estavam entre os destroços 
Em busca de sobreviventes.

Mas conseguimos levantar
Lá havia uma mulher
Em posição de oração,
Ajoelhada de mãos juntas
E cabeça no chão,
A removemos e estava
Sem vida,
Embaixo dela em seu peito
Encolhido estava o filho. 
- e o seu filho?
Eu disse.
- sim.
Disse o homem chorando 
Pegando o bebê 
No colo.

Bello sentou-se
Com o olhar triste:
- a maezinha morreu. 
Eu disse.
Não havia outros moradores
Na casa,
Então, segui adiante 
Nas buscas.

Removendo entulhos
Buscando vida no lixo,
No que foi esquecido,
Esmagado e estilhaçado,
Belo deitou-se no chão 
De mãos estendidas
Estava cansado e triste,
O outro caozinho deitou
Ao seu lado. 

Eu me ajoelhei
E fiz carinho nos dois,
- um bebê está vivo 
Por nossa causa,
Nós estamos ajudando,
Precisamos salvar vidas!
Eu falei no ouvido de Bello
Para estimula-lo.

-Lembra garoto
De quantas crianças 
Brincavam na rua felizes?
Logo a vida irá se restabelecer
E a beleza tomará as ruas,
Estas ruínas ficaram para trás,
Eu juro!
Mas Deus não concordou,
Outro tremor ocorreu
E mais destroços vieram
Para o chão. 

Bruna foi obrigada
A correr para lugar nenhum,
Sem outra coisa em mente
Que não fosse esperança,
Pos a mão sobre o boné 
E correu com o cachorrinho
No colo e chamando por Bello.

Algumas casas de cima
Ruiram o que sobrou delas
E os entulhos desceram feito avalanche,
Rápidos e imunes a vida
Que iriam levar consigo,
Agora, provavelmente não restou nada.

A dor tomou conta de Bruna
Que corria e chorava,
Bello voava na frente
Correndo e latindo,
Ninguém disse nada,
Apenas algumas músicas
Agora mais distantes tocavam
Tristes e soterradas
Lá no fundo onde um dia
Existia algo.

Foi doloroso ver tudo cair,
Foi difícil fugir,
Cansada e dolorida Bruna 
Parou e esperou ver tudo vir,
Até que o desmoronamento cessou.

A morte não permite
Que ninguém fique bem,
Mesmo os que salvam-se,
A tristeza ganha vida,
E o sorrido de quem sobrevive
Perde a cor.
Eu queria voltar para minha casa
Mas estava longe dela
E um monte enorme de entulhos
E pessoas sem vida
Me separavam dela.

- talvez aquele homem morreu.
Eu disse acariciando 
A orelha de Bello.
- talvez o filho dele também morreu.
Bello ficou triste,
Ele compreendia a morte
E se familiriaziva com a dor.

Santo Antônio, Chile.
11 de fevereiro de 2028.

Histórias de Enxente

As vezes o dia acorda nublado
E eu penso que farei hoje
Devo pôr mais esforço
No trabalho e exerce-lo 
Na neblina
Porque as horas passam,
Os dias terminam
E as contas chegam.

Ah, as contas que me movem
E meu poder de comprar
Que não se esgota
Em tudo que preciso
E imagino que quero,
Sim, parcelo em quantias
Pequenas e não posso,
Nem devo aproveitar
Os dias de sereno
Para descansar.

Minha saúde me auxilia 
E se ela se fragiliza,
Eu compro remédios 
E dou a partida. 
Lembro de um conselho
Que recebi tarde ou cedo,
Será que o sigo
Ou isto pertence a um passado
Que abandonei ao acaso.

Em certo dia de enxente
Um rapaz que fugia da água 
Suja que carregava coisas
E não carregou ele,
Bem, ele prendeu o pé 
E não podia sair
Mas, era obrigado a permanecer.

Tudo passava por ele,
Um cão que o olhou assustado,
Nadou e fugiu,
Uma mulher que se segurava
Numa tábua,
O olhou estupefata
Se esforçou,
Perdeu o medo que a mantinha
Aprisionada na ideia
De impossibilidade,
Soltou a madeira 
Pos os pés no chão 
E saiu.

Assustado ouvi um grito
Um pouco próximo 
Que disse:
Corte o que te prende,
Corte o que te prende.
Eu respondi assustado
Vendo minha chance de êxito 
Logo ali tão perto:
- de-me um machado!
Gritei em retorno.

O recebendo imediatamente 
Fiquei feliz 
Pois a água estava turva,
Rápida e sedenta por mim,
Eu vi.
Cortei logo meu pé,
Manquei e fugiiii!

Casinha modesta

Não troco 
Minha casinha modesta
Nem por um chapéu de couro
Com botas e fivelas combinando.
Eu coloco os bois na corda,
Escolho um para a engorda
E de lá tiro meu sustento 
E também o meu couro.

Eu trato bem os cabritos,
Cuido das ovelhas
E tiro minha lã delas,
Posso fazer botas de couro
E uns aperos para a cela
Dos cavalos.

Pra que carro caro
Se eu tenho meu cavalo?
Pra que roupa nova
Se onde eu moro
Meus pássaros 
E vizinhos me visitam 
Por minha modéstia?

Não preciso de nada 
Para imprecionar
Onde passo sou reconhecido 
Pela simplicidade
E o sorriso bonito
Eu aceno alto,
Conheço a todos
E tenho o cantar dos galos
E todas as cores de pássaros 
Sou feliz com isso. 

Na Roça

Faz tempo
Que penso
Se deixo a roça 
E compro uma casa
Modesta na cidade,
Mas, logo entra
Minha esposa
Com ovos 
E leite da fazenda
E eu penso
Cadê o café 
Que coloquei na chaleira?

Pensando bem
Não me importo tanto
Com as galinhas
Que invadem a área 
Fazem cocô 
E fazem ninho
No meu chapéu 
Da roça.

Nem com os patos
Que voam para o milho 
E comem tudo
Como se fossem passarinhos,
Eu corro e calço 
Minha bota de couro
Com cheiro de gado,
Coloco o chapéu 
E agradeço ao sol
Que faz tudo brotar
De novo.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Saudades

Meu irmão se foi
E eu tenho que conviver com isso,
A ideia causa dor,
Ansiedade e vontade
De voltar no tempo.

Eu nunca fui
Mais forte que ele,
Nem melhor preparada
Para viver a vida,
Eu desejo a todo custo
Não esquece-lo,
Reacender memórias,
Livra-lo da dor
E não te-lo feito de alvo.

Meu alvo
Que eu apontei meu ódio 
E me direcionei com todo o ardor,
Eu era fraca,
Via nele um alicerce
Que não cairia,
Uma espécie de pedra bruta
Em que me escorar,
Me jogar
E me bater com toda a força. 

Mas ele caiu
E seu peito quebrou,
Eu estava exatamente direcionada 
Com toda a raiva,
Numa explosão incontrolável 
Em sua direção 
E ele cedeu e se foi. 

Eu jamais desejaria 
Que ele não tivesse existido,
Eu não seria capaz de apaga-lo,
Eu só não posso reencontra-lo,
Não há um novo horário,
Novo abraço,
Ou último diálogo,
Só há o passado
E nele sua morte.

A dor sangra em minhas veias,
Eu sou dor e saudade,
Remorso e amor,
Eu queria te-lo poupado,
Livrado do triste fim,
Eu não fui a causa,
Mas não me isento de culpa,
Briguei, xinguei, exigi e me afastei....

A velocidade para onde 
Ele se dirigiu 
Foi inconsequente 
E maldita,
Ela tirou ele de mim. 
Não importa o quanto
Eu seja sombria,
O quanto eu queira
O gosto da morte,
Mortos não beijam
Ou abraçam. 

Mortos morrem.
Não ficam no escuro
Ou vão para a luz,
Eles sucumbem,
Caem no vazio
E suas lembranças partem-se
E escassam-se no pensamento. 

Eu não esqueço seu nome,
Não confundo seu nascimento,
Mas a data final 
Eu complico,
A sua voz vai aos poucos,
O cheiro, o jeito
E o amor,
E o sorriso.
Eu luto,
Luto muito para te-lo comigo.

Os anos são como gotas
De sangue que escorrem
Nas veias incontroláveis,
Vão-se.
Fazem chorar e sofrer,
Tentam fazer esquecer
Como se houvesse um descontrole 
Em quantas gotas correm
E quantos anos sucumbem
A saudade e a sua ausência. 

Eu choro. 
Nossos pais sofrem,
Nos tentamos busca-lo,
Você já não sabe,
E inocente a tanto amor
Que desperta.
Eu não treinei ser forte,
Pra quê?
Queria ter feito,
Será que saberia o que fazer?

Eu gritei e fui austera,
Tive medo e me refugiei,
Você não se viu fraco,
Buscou o destino
E não me ouviu te chamar,
Eu chamei tarde,
Não ve minha dor
Que te busca em toda a face
E me joga a sua lápide,
A cuidar uma fotografia apagada,
E ossos que tenham sobrevivido
Ao tempo

Deus Te Ama