segunda-feira, 2 de março de 2026

Atos de Amor

Certo homem apaixonou-se,
E desejando desposar
Tal mulher,
Encontrou no Alcorão
As palavras que a fizeram
Ver em seus olhos
O amor.

Casaram-se,
E dez anos ao lado
Desta que tanto amou,
Soou para ele
Com efeito de dez dias.

Ele arava a terra,
Ela vinha atrás jogando
O adubo,
Ele retornava cobrindo
O adubo jogado,
Ela vinha atrás
Retirando as pedras
Que podia do caminho.

Nesta terra abençoada
Nasceu milho,
E nasceu soja,
Também brotou dali
Dois lindos filhos.

Porém, na segunda gestação,
A mulher sentiu imensa dor,
E indo o homem arar a terra,
Ela também foi,
No entanto, deitou sobre
Uma rocha
E fez sua primeira prece
Para Deus.

Gemendo e chorando sua dor
Pediu que a rocha
Fosse sua morada
E que a antiga
Que dividia com seu amor,
Caísse em ruínas
E fosse destruída
Por chuva fina
Como se fosse mentira,
Mas, que antecedesse
Tal chuva pedras de gelo.

Tais pedras duras
E poderosas
Que levassem tudo,
A plantação,
A casa e os sonhos.

O homem viu o céu
Riscar-se de nuvens densas,
E seu coração se afligiu,
Levou a mão no peito,
E ali mesmo,
Em plena verga de terra
Ajoelhou-se e pediu
Clemência a Deus.

Deus apiedou-se
E riscou o céu de trovões,
Sem barulho algum
Pareceu-lhe mentira,
O dia caiu na noite
E a terra era vista ainda
Por densos fios de prata
Que riscavam-se e formavam
Uma espécie de chicote,
Cada risco um susto,
Cada susto uma visão
De tudo que ficou oculto.

Emudecido e amedrontado,
Ele chacoalhou a corda
Dos camelos,
Retirou ambos do arado
E os conduziu para o galpão.

Dentre tantos trovões
Que rompiam do céu
E desceu na terra enxuta
Ele lembrou da esposa
E filho
E correu para casa
Chamando o nome de ambos
“Minha amada,
Vem chuva,
Feche a casa!”.

Tarde,
Muito tarde viria a resposta,
Sua amada não estava
Em casa,
Ela o perseguiu até a roça,
Lá chegando
Escondeu-se dele,
Lhe negou afeto
E se apegou a rocha segura,
Pedindo a Deus
Que nada mais sobrevivesse
Naquela terra
Que não fosse ela.

Ela odiou a maternidade,
Nunca leu o Alcorão
Que ganhou de presente
De núpcias
Também odiou o modesto
Presente,
Não sabia ela
Que palavras de conforto,
Fé, esperança e sabedoria
Encontravam-se nele.

E tudo que ouviu
Do esposo,
(Que lia atentamente 
Um pouco cada dia 
O Alcorão),
Nunca lhe chegou
Aos olhos,
Apenas encantou,
Temporariamente,
Os ouvidos,
Não lhe virou palavra,
Não tornou-se atitude,
Foi simplório.

Vendo o céu enegrecer-se
Em plena manhã
Como se fosse tarde
Da noite,
Ela cobriu-se de terra
Desejando não ser encontrada,
Até que passando a chuva,
Sobrasse ela,
E mais nada.

Nem o filho pequeno,
Nem esposo,
Nem o filho de seu ventre.

As nuvens ficaram densas,
Pareciam descer sobre
A terra,
Ela rejeitou o convite,
Ficou onde estava.

O marido chegando em casa,
Correu e fechou as janelas,
Recolheu a roupa do varal,
Abraçou o filho amedrontado,
E a chuva iniciou.

Ele correu assustado
Com o filho no colo,
Chamando a esposa,
Rezando em voz alta.

Mas, tudo escureceu por completo,
E ele não desistia,
E a chuva caiu fria,
E o vento soprou,
Bateu contra suas janelas
E as abriu.

Ele obrigou-se a retornar
Para casa fechar as janelas
E proteger seus móveis simples.

A chuva veio torrencial,
Não ouviu a mulher,
E retirou de sobre seu corpo
Toda a terra,
E depois despiu-lhe
As roupas,
Ela ficou nua sobre a rocha,
E desfaleceu
Com o primeiro romper
De nuvens no céu.

O marido não tardou
E a encontrou,
Havia entre suas pernas
Sangue, e no sangue
Seu filho,
Um forte menino,
E vida nenhuma
No rosto de sua amada.

Ele caiu em pranto sofrido,
Fez sua prece a Deus
Ajoelhado sobre rocha firme,
Pegou a esposa 
Em seus braços 
E clamou a Deus por sua vida.
Deus, desta vez,
Não lhe respondeu.

Da terra cada semente
Fez brotar sete espigas,
Delas mais de cem grãos,
Ele comprou móveis novos,
Fez quatro meses de viuvez,
Em respeito a antiga esposa,
Que foi enterrada
No cemitério local.

Deus não ama o pecador
E ingrato,
Não importa o quanto
Este que a ama reze,
Se ajoelhe
Ou faça preces.

Deus observa o que fazeis,
E ama de você até aqueles
Por quem você faz suas preces,
Deus é imenso e sabedor.

Se sua fé é sincera,
Se você soubesse
O quanto Deus te releva
Entenderia o tanto
Que Ele protege
Quem você ama.
Em Deus ninguém é lesado.

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