Devo então, confessar
Que ansiava com torturosa
Espera e amargor
A morte de meu esposo.
Sim, odiei cada dia,
Depois cada hora,
E então, cada segundo
Ao seu lado,
Eu o olhava
E só deseja mata-lo.
Cada beijo era feito
Uma facada em meu peito,
Doía e causava nojo,
Cada abraço
Tinha efeito de algemas
Prendia e feria
Por me manter amarrada
A ele.
O dormir estendia as horas
Feito um tapete
Que quanto mais se limpa
Mais gruda sujeira,
Pêlos, poeira e desafetos.
Olhar para aquele tapete
Onde seus pés repousavam
Me causava ódio,
Quando percebi
Me vi colocando fogo nele.
Foi simples e irresistível,
Acendi o fogo na lareira,
O trouxe perto
E num deslize derrubei
O tronco com fogo nele.
Sentada ao seu lado
Tardei ver o fogo consumir
Seus desenhos e sinais
Daqueles malditos pés
Que mesmo não estando ali
Pareciam desenhados
Naquele objeto de escárnio.
Bem, presenteei meu esposo
Com um cavalo arredio,
Coloquei a cela
E sobre a cela uma parte
Que restou do maldito tapete.
E o disse:
Amor, suba e cavalgue
É seu presente!
Grudei um sorriso falso
Em meu rosto
Que tão logo ele subiu
Tornou-se gargalhada.
O indivíduo caiu.
Assim que ele sentou
Na cela o cavalo correu,
Pinoteou e ergueu-se
Para o céu.
O odiei,
Parecia querer contar
Ao meu esposo
Os meus planos,
Maldito,
Sobreviveu pouco,
Mas, não valeu tanto tempo.
Correu para diante
De um obstáculo,
Pulou sobre ele
E caiu sobre seu próprio pescoço,
Com o corpo a esmagar
Meu marido.
Eu esperei,
Fui a passos lentos até ambos,
E lá os vi
A tremer seus últimos suspiros,
A gemer suas angústias,
A implorar por mais
Um pouquinho de ar.
Beijei sua testa ensanguentada,
Eu precisava ouvi-lo
Implorar por um pouco
Mais de vida,
"Querida, estou morrendo
E apesar de tudo,
Nunca fui mais feliz
Que nos dias que vivemos juntos."
Ele disse,
Em palavras pausadas
E lentas,
Num esforço desmedido,
Eu suspirei de ansiedade,
Não o queria perto
E ele esforçava-se muito
Para manter-se.
"Andisa!"
Ele dizia,
E não parava de chamar
Meu nome,
Parecia não me ver ali
A olha-lo com desdém,
Sem poder disfarçar
Meu desprezo.
Ele insistiu
Diversas vezes
Chamando meu nome.
Maldito!
"Repito!
Estou morrendo,
E a amo!"
Eu suspirei de ódio,
Arfei pesadamente
Sobre seu rosto
Comprimido no chão
De areia e terra,
Vendo sua face sangrar
E a dor percorrer seu rosto
Extraindo os resquícios
De beleza que ele possuía.
"Andisa,
Como a amo,
Temo deixá-la!"
Maldito,
Disse isso tantas vezes,
Com esforço profundo,
Até diminuir o tom
E não ser mais que sussurros,
De repente, então, calou-se
E foi.
Eu levantei dali,
Cansei de olha-lo,
Pedi ajuda sobre o acidente.
Mesmo morto o bicho
Me trouxe um cavalo.
O bicho cresce no estábulo
Feito erva daninha
No gramado,
Eu perco algumas horas
A contempla-lo.
Ele pasta e me olha arredio,
Sabe sobre o que fiz,
E não esconde,
Por vezes, o amo,
Em outras planejo seu fim.
Quando chego perto
Ele foge,
Quando levo água
No balde ele bebe
Cada gole sem retirar
O olhar dos meus olhos,
Estremece de medo,
Tem espasmos de terror,
Então, ele fica no gramado,
E eu me permito olha-lo.
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