domingo, 19 de abril de 2026

Assassinato no Aras

Devo então, confessar
Que ansiava com torturosa
Espera e amargor
A morte de meu esposo.

Sim, odiei cada dia,
Depois cada hora,
E então, cada segundo
Ao seu lado,
Eu o olhava
E só deseja mata-lo.

Cada beijo era feito
Uma facada em meu peito,
Doía e causava nojo,
Cada abraço
Tinha efeito de algemas
Prendia e feria
Por me manter amarrada
A ele.

O dormir estendia as horas
Feito um tapete
Que quanto mais se limpa
Mais gruda sujeira,
Pêlos, poeira e desafetos.

Olhar para aquele tapete
Onde seus pés repousavam
Me causava ódio,
Quando percebi
Me vi colocando fogo nele.

Foi simples e irresistível,
Acendi o fogo na lareira,
O trouxe perto
E num deslize derrubei
O tronco com fogo nele.

Sentada ao seu lado
Tardei ver o fogo consumir
Seus desenhos e sinais
Daqueles malditos pés
Que mesmo não estando ali
Pareciam desenhados
Naquele objeto de escárnio.

Bem, presenteei meu esposo
Com um cavalo arredio,
Coloquei a cela
E sobre a cela uma parte
Que restou do maldito tapete.

E o disse:
Amor, suba e cavalgue
É seu presente!

Grudei um sorriso falso
Em meu rosto
Que tão logo ele subiu
Tornou-se gargalhada.

O indivíduo caiu.

Assim que ele sentou
Na cela o cavalo correu,
Pinoteou e ergueu-se
Para o céu.

O odiei,
Parecia querer contar
Ao meu esposo
Os meus planos,
Maldito,
Sobreviveu pouco,
Mas, não valeu tanto tempo.

Correu para diante
De um obstáculo,
Pulou sobre ele
E caiu sobre seu próprio pescoço,
Com o corpo a esmagar
Meu marido.

Eu esperei,
Fui a passos lentos até ambos,
E lá os vi
A tremer seus últimos suspiros,
A gemer suas angústias,
A implorar por mais
Um pouquinho de ar.

Beijei sua testa ensanguentada,
Eu precisava ouvi-lo
Implorar por um pouco
Mais de vida,
"Querida, estou morrendo
E apesar de tudo,
Nunca fui mais feliz
Que nos dias que vivemos juntos."

Ele disse,
Em palavras pausadas
E lentas,
Num esforço desmedido,
Eu suspirei de ansiedade,
Não o queria perto
E ele esforçava-se muito
Para manter-se.

"Andisa!"
Ele dizia,
E não parava de chamar
Meu nome,
Parecia não me ver ali
A olha-lo com desdém,
Sem poder disfarçar
Meu desprezo.

Ele insistiu
Diversas vezes
Chamando meu nome.
Maldito!

"Repito!
Estou morrendo,
E a amo!"
Eu suspirei de ódio,
Arfei pesadamente
Sobre seu rosto
Comprimido no chão
De areia e terra,
Vendo sua face sangrar
E a dor percorrer seu rosto
Extraindo os resquícios
De beleza que ele possuía.

"Andisa,
Como a amo,
Temo deixá-la!"

Maldito,
Disse isso tantas vezes,
Com esforço profundo,
Até diminuir o tom
E não ser mais que sussurros,
De repente, então, calou-se
E foi.

Eu levantei dali,
Cansei de olha-lo,
Pedi ajuda sobre o acidente.

Mesmo morto o bicho
Me trouxe um cavalo.

O bicho cresce no estábulo
Feito erva daninha
No gramado,
Eu perco algumas horas
A contempla-lo.

Ele pasta e me olha arredio,
Sabe sobre o que fiz,
E não esconde,
Por vezes, o amo,
Em outras planejo seu fim.

Quando chego perto
Ele foge,
Quando levo água
No balde ele bebe
Cada gole sem retirar
O olhar dos meus olhos,
Estremece de medo,
Tem espasmos de terror,
Então, ele fica no gramado,
E eu me permito olha-lo.

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