domingo, 12 de abril de 2026

Deixada

Ele se afastou,
Quando me aproximei
Ele virou as costas silencioso
E saiu rápido de perto,
Eu fiquei.

Fechei os olhos
E fiquei.

Sentia que ele partia,
Eu o perdia,
Mas, seu cheiro ficou,
Sem nada para retirá-lo
De mim,
Seu cheiro permaneceu.

Então, estiquei a mão
E percebi que ela descia
Numa superfície úmida e rígida.

Era como se ele estivesse comigo,
Eu quase tocava seu suor,
Sentia o frescor da sua pele
E quase o tinha.

Por um momento
Me esforcei para recordar
Aonde estava e o que fazia,
Eu só recordava de vê-lo,
E seu cheiro estar tão perto,
Mais nada.

Meu medo era abrir
Os olhos e não ter
Mais que objetos comigo,
Perde-lo para sempre,
Contemplar outra vez
Ele saindo.

Permaneci imersa
Em trevas densas
Onde o tinha comigo
E seu cheiro me embriagava.

A intensidade da escuridão
Me sufocava e reavivava,
Eu só queria ficar nela,
Imersa e consumida.

Mas, as lembranças vieram
E trouxeram ele partindo,
Sem um abraço
Ou uma palavra de conforto,
Apenas o viram ir.

Por um instante me vi morta,
Deixá-lo parecia ficção,
Onde eu estava
E por que ele me deixava?

Me vi devolvida a masmorra,
Uma fria cela de condenados,
Com piso de pedra,
Escurecida e vazia,
Onde a unidade percorria
As paredes como lágrimas
E mais nada além do silêncio
E ele indo,
Sempre indo,
Fugindo de nós.

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