Oh, aquela linda potria,
Nascida no instante da morte
Da égua estimada,
Digo estimada porque
Levou com ela meu esposo
Para o túmulo.
Porém, cresce linda e arredia,
E sempre que estou
No aras,
Assim que ergo meu pé
Sobre a tábua
Que rodeia aquele aras
Ela tende a se aproximar
Sorrateira,
E bem próxima de mim,
Muito próxima
Suspira quente
Contra meu rosto.
Eu arfo de medo,
Olho para ela
E seus olhos
Estão arregalados de pavor
De encontro as meus
Sem piscar.
A danada parece falar,
Tem instantes que conta,
Ela inicia seu trote
Como se fosse mansa,
Olha para eu a distância
E empina as patas dianteiras
Ao seu e relincha,
Então, chacoalha suas patas
Como se cavalgadas rumo
Ao horizonte e parece apontar
Aos céus.
-O que busca?
Eu lhe indago,
Pulo a cerca de tábuas escuras,
E pego meu chicote
Corto chão de areia
Com chicotadas estalantes,
Então, ela se vira e me encara.
Seria,
Com seus longos cílios,
Outro dia me trouxe um cinto,
De alguma forma
Encontrou o cinto do falecido
E ousou carrega-lo
Até eu.
Me surpreendi demais,
Cai para trás de espanto,
Juntei o laço
Que estava ao lado
Da minha cintura
E estalei em seu lombo:
-maldita.
Gritei.
- criatura do demônio.
Falei.
E ela correu veloz.
Mais tarde depois disso,
Escapou,
Ousou meter-se por entre
As tábuas e fugiu
Por seus espaços,
Não tardei a encontrá-la,
Estava deitada por entre
As flores.
De súbito pedi a ela:
- o que você busca?
Ela juntou entre os dentes
Um maço de flores
E foi até a frente do galpão,
Com aquilo na boca
Então, o soltou em frente
Ao nome do Aras.
Que sabe-se
Possui o nome do falecido,
De imediato entrei
Num rompante de loucura,
Juntei um canivete
E levei um corte
Até seu pescoço.
A maldita correu
Escorrendo sangue:
- você em pacto com o diabo!
Eu gritei atrás dela,
Mas, ela foi mais rápida,
Muito mais.
Nisso, bastante mais tarde,
Dois vizinhos me ligaram
Contando aonde ela estava,
Pois saiba,
Estava no cemitério,
E lá pastava como se fosse
Sua casa.
Os pais do meu esposo
A encontraram e a levaram
Com eles,
Vieram apenas para me dizer,
Os recebi sem saber,
Com o chicote em punho,
O chapéu a esconder meu olhar
E o canivete reluzindo
Entre os dedos.
Os malditos a quiseram
Para ambos,
Disseram que acreditam
Ver o falecido nos olhos dela.
- ora, é isso o que
Eu odeio nela!
Respondi.
Eles enfaixaram o bicho
E a levaram com ele,
Salvou-se,
Porém, meu sono
Não prevalece,
A cada instante
Pareço vê-la
Relinchando embaixo
Da minha janela
Colhendo flores.
Então, eu a xingo
E ela cavalga arredia
Até o cemitério,
Maldita,
Parece falar,
Contar o que fiz.
Então, uma sombra
Chega no aras
E um vento quente
Faz levantar a areia,
De imediato,
Preciso fechar a janela,
É como se fosse um recado
De que o espírito do falecido
Perambula por estas terras
E me quer.
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