quinta-feira, 23 de abril de 2026

Por entre ruas

O sol baixava sereno
Sob uma neblina
Que pouco a pouco
Escondia a cidade,
Pessoas se postavam
Nas ruas a reparar vitrines,
Montar em seus cavalos
Ou subir em suas charretes.
A cidade seguia rumo
Ao alto,
Cada vez mais para cima
Dos céus,
Quase indiferente a tantas pessoas
Que viviam escoradas
Nas calçadas feitas de pedra
E gramado.
Alguns se encostavam
Próximos a mercados,
Ou padarias e ali permaneciam
Com suas mãos estendidas
Pedindo comida e água .
Não tinham roupas,
Casa ou comida,
Viviam a esmo
A espera de um alguém
Que os conduzisse para fora
Dos olhos dos cidadãos,
Até bem distantes
Onde não fossem vistos.
Os cães policiais
Logo que os viam
Seguiram completas ordens
De latirem contra eles
E os retirarem dali
A mordidas se fosse necessário,
Enquanto os policiais
Retiravam uma madeira
De entre seus jaleco
E desferiam pauladas nestas pessoas
Que seguiam para o mais
Distante que fosse possível
Pingando sangue,
Refugiados na densa neblina
Que cobria a cidade.
Os prédios de madeira
Pareciam escorar-se
Uns nos outros,
Erguidos aos montes
Rumo ao céu
Guardando sempre
Mais pessoas.
Com sua argamassa
Se desprendendo sobre
A cabeça das pessoas,
Despencando do alto
Para as ruas
Junto ao xixi dos penicos
E cocô.
Quem habitava aqueles
Prédios se sentia dono,
E quem era dono gostava disso.
Algumas roupas eram jogadas
Daquelas altas janelas
E rapidamente eram recolhidas
Pelos moradores dos próprios prédios.
Que, vendo-as cair do alto,
Corriam ao alvoroço em busca
De velhos trapos
A brigarem com os mendigos,
Puxando das mãos deles
Para apropriar-se.
Por fim, estapeavam o rosto
Dos mendigos e chamavam
A polícia para renová-los
Do local.
Os degraus disformes dos prédios
Tinham grandes histórias
Sobre isso.
Do alto da janela,
Um senhor retirou o rosto
Que tinha encostado
No vidro depressa,
Ele viu mais do que podia
E agora sentia medo,
Por algum tempo
Teria que evitar sair de dentro
De casa,
Seja para comprar comida
Ou qualquer outra necessidade.
De longe,
Um jovem gritou
Quando teve sua corrente
Removida com ódio
De seu pescoço,
Por outro jovem.
Logo a frente um policial
Sorriu quando,
Removeu a corrente do bolso
Deste jovem
E a colocou no próprio pescoço,
Depois, usou seu cacetete
De madeira e bateu
Muito neste jovem
Gritando as palavras:
Ladrão, ladrãozinho, ladrão.
Então, depois de deixá-lo
Desacordado e escorrendo
Muito sangue,
O policial o puxou pelo casaco
E o jogou numa vala
Onde se jogava vidros quebrados
E outros objetos
Que estavam velhos demais
Para o uso.
A vala era feita de terra
E era muito funda,
E lá foi jogado o jovem aos prantos,
O outro, ao ver o policial correu,
O policial, depois de jogar
O jovem na vala,
Correu atrás dele
Mas não pode alcança-lo.
Certamente, aquele rapaz
Escondeu-se e também,
Passaria muito tempo
Sem regressar a cidade,
Ou vendo a jóia com o policial
Teria de calar-se.
No terceiro dia
De cortinas caídas
Em frente a janela,
E elas devidamente fechadas,
O jovem reapareceu,
O policial sorriu ao longe
E apitou alto,
Erguendo a mão em direção a ele.
Ele, no entanto, retirou seu casaco,
O cinto e o sapato
E entregou ao policial
De bom grado,
Depois pediu perdão
E se retirou para algum lugar
Onde ele resida
Que não parece ser num
Dos andares dos prédios.
Que, de instante a instante,
Parecem sorrir de perder
Os dentes conforme
Uma argamassa se desprenda
E caia sobre quem passa.
Então, a multidão inicia seu dia,
Sai de suas casas
E caminha pela cidade
Até comfundirem-se,
E ninguém nunca está sozinho,
E estando sempre com alguém 
Ninguém nunca tem
Alguém em que confie,
Assim são as ruas
Aonde o maquinário chegou,
Trouxe grandes estradas
E prédios que sobem
Para o céu,
Trouxe emprego,
E fez o dinheiro custar
Muito caro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um Princípe