terça-feira, 14 de abril de 2026

Tarde Demais...

Ao despertar,
Marquei encontro
Com meu amado amante,
Desta vez,
Em minha própria casa.
Fui doce e meiga,
Enquanto acariciava
Minha barriga
E sentia meu filho
Se mover,
O filho que ele renegou,
O filho a quem ele
Comprou veneno na farmácia
E me pediu para beber
E fazer o aborto.
Eu recordo isso,
Ele comprou um chocolate,
E entregou da janela
De fora do carro,
Com um sorriso gentil,
Ao lado da barra de chocolate
Haviam comprimidos
Recém adquiridos,
Ele disse: tome-os.
Eu sorri feliz,
Foi seu primeiro presente,
Era especial,
Estávamos no centro da cidade,
Os dois,
Feito um casal apaixonado,
Ele se movia lindo
Feito um gato,
As garotas olhavam
E eu sorria de dentro do carro
Dele,
Como se dissesse a elas:
Ele é meu.
Oh, doce terror,
Entrou no carro
E me guiou ao motel barato
De sempre,
Não,
Ele era mesmo apenas
O amante,
Sua esposa
Era a que ligava para ele
E o fazia correr
Para se esconder e atender.
Enquanto ele foi
Eu li a embalagem
Se referia a comprimidos
Abortivos,
Eu não acreditei no que li,
Nem no que vi,
Sua falsidade não teve limites,
Nem o amor que sentia,
Não entendi por quê?!
Agora, tarde e grávida,
Tais comprimidos não tomei,
Mas, tragicamente,
Meu filho me exigiu atitude,
Minha honra precisava
Ser restituída,
Junto ao meu amor próprio,
Minha segurança,
A dê minha família,
Eu precisava fazer algo.
Eu fiz,
Temperei o bolo
Pela primeira vez
Com tudo que ele já
Me deu e eu me recusei
A tomar,
Tratam-se de cinco anos,
Não sei por quê durou tanto,
Mas, dediquei a este homem
Casado cinco anos
Da minha juventude.
Acabou.
Encerrou o prazo,
Chegou ao fim,
Eu jurei não deixá-lo,
Ele nunca esteve
Perto de mim
Quando precisei,
Quando chamei...
Tantas vezes desligou
O telefone por estar
Perto da esposa,
Tantas outras nunca leu
Minhas mensagens,
Não me viu chorar,
Eu grávida e ele
Nem notou,
Só renegou
Outra vez,
Não devia ter feito isso.
É o fruto do nosso amor,
A criança não é culpada,
Exausta demais para refletir,
Bati os ovos, juntei o açúcar,
Coloquei os remédios,
Juntei o leite,
O fermento e deixei bater.
Eu desejei sair da masmorra
Em que me enfiei por ele,
Cansei das oportunidades
Que me neguei,
Dos beijos que não dei,
E amores que nunca vivi,
Me cansei de esperar,
De agradar um homem
Que pertencia a outra,
Que nunca soube
Me respeitar.
O esforço foi pequeno,
Juntei farinha ao bolo
Me recordei chorando
De tantas vezes que tentei
Ligar para ele
E ele tinha que fugir
Para o quintal
Por medo de ser descoberto.
Não,
Eu não mereço amor escondido,
Preciso dançar uma música apaixonada,
Ter onde recostar minha cabeça,
Preciso de um pai
Para meu filho...
Contei os segundos
Pela última vez,
Chorei e liguei
Só para ver ele desligar,
Liguei de volta
Só para ver o botão
Descrever que a ligação
Foi recusada.
Por fim, ele chegou.
Eu servi o bolo,
Abracei-o e disse:
Seja forte,
É nossa última vez!
Ele riu e respondeu:
Você sempre diz isso.
Depois disso ele foi,
Mais tarde eu soube
Que ele deitou na cama
Ao lado da esposa
E não acordou,
Eu não fui vê-lo,
Não desejei me despedir,
Meu filho pareceu se mexer
Em minha barriga,
Era como se me abraçasse,
O adeus tardio chegou.
Sobrou fotografias dele
Retiradas em locais privados,
(Motéis a beira de esquina),
Ao meu lado,
Meu filho conhecerá
Seu rosto,
Isto é o bastante.
Temos fotos juntos,
São tão poucas,
Sempre tive que me esforçar
Para consegui-las,
Ele sentia medo
Que eu fosse chantageá-lo,
Ameaçar contar a esposa,
Cobrar dinheiro pelo silêncio,
Eu não mereço isso,
Por que mantive-me nisto?
Foi tão difícil cada fotografia,
Cada beijo,
Cada jura de eu te amo,
Cada vez que me impedi
De ter outro
Acreditando num amor
Que nunca houve...
Por quê?
Não sei o motivo.
O adeus foi tardio,
Nosso amor me rendeu
Um filho
E para ele um erro,
Uma prova contra seu casamento,
Por quê?

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