Agenor passou
A reclamar em casa
De sentir uma dor insuportável
Que tanto lhe doía
Que causava perda
Do movimento dos membros.
Sua esposa,
Gentil e amável
Corria lhe fazer um chá,
Porém, a dor apenas aumentou
E passou a causar mudez.
De vez em quando,
Agenor acordava cedo
Da manhã para ir ao trabalho
E não tinha movimento
Dos membros superiores,
Com dificuldade para se levantar,
Tomava o café
Sem cumprimentar ninguém
E corria para a porta
Com medo de perder
Mais movimentos,
Ou então, que a perda
Com sensação de formigamento
Durasse para sempre.
Com dificuldade,
Ele sentava em frente
Ao volante do carro
E demorava cada movimento,
Mas, conseguia prosseguir,
Precisava ser forte
Para ajudar a família,
Manter a identidade financeira
Do casamento.
Seus filhos tornaram-se
Arredios,
Jander foi andar de bicicleta
Reclamou de formigamento
Nas pernas e antes de
Ter forças para parar a bicicleta
Caiu no asfalto ferindo
Profundamente o rosto.
Raise correu para ajudar,
Porém, sentiu formigamento
No quadril direito e
Não tinha mais forças
Para se mexer.
Ficou parada sobre
O garoto agachada
Segurando ele pela cintura
Sem poder fazer nada.
Sua mãe correu
Porta a fora
E vendo a cena desacreditou
E bateu na moça de quinze
Anos com o chinelo.
Raise chorou envergonhada,
Estava em plena calçada,
Em frente aos vizinhos,
Mas, mesmo apanhando
Não conseguia mover-se.
O pai voltou
E nesta noite foi pior.
Perdeu os movimentos
Dos membros inferiores,
E com um esforço tremendo
Tentou levantar a mão
Para pedir a ajuda da esposa
E não conseguiu mover-se,
Então, tentou falar
E sua voz não saiu.
Preso num escuro profundo
Acreditou estar morto
E num esforço sobrehumano
Tentou arranhar o caixão,
Implorar ajuda,
Abrir os olhos e ver algo,
Mas, nada acontecia.
Até que a lua despontou
No céu
E a luz chegou a janela,
Chorando de felicidade
Ele percebeu que estava
Apenas na sua cama,
Em seu quarto,
Ele sorriu,
Mas, suas palavras
Ficaram presas
Em algum lugar muito
Distante,
Como se um verme
As tivesse devorado
E levado junto cada um
De seus músculos.
Nesta noite,
Ele teve um pesadelo terrível,
Sonhou que algo rastejava
Dentro dele,
Formando calangos
Para fora do corpo,
E este percorrer daquele
Bicho causava uma dor
Lancinante.
Por onde andava
O bicho mordia
E levava algo,
Um pouco de sua pele,
Um pouco do seu sangue,
Um de seus músculos...
O bicho insaciável
Comeu os músculos de
Um de seus braços
E agora com o braço curto
Ele perdeu os movimentos,
O braço atrofiou,
E não esticava mais,
A dor era terrível demais
Para ser enfrentada
Então, ele foi encurtando
Até chegar ao peito
E ali ficou.
De repente,
O bicho virou para trás
E num ímpeto
Pulou até seu coração
E o devorou.
Agenor acordou assustado,
Suando frio e tremendo,
Olhou para o lado e
Sua esposa estava ali
Abraçada a ele,
Tranquila o protegendo.
Ele sentiu que precisava
Fazer algo,
Aos 40 anos ele era jovem demais
Para morrer de dor
E imobilizado feito um imóvel.
Na manhã seguinte,
Conseguiu se mover,
Abraçou a esposa,
Beijou sua face
E foi ao hospital.
Chegando lá,
O médico o analisou,
Ouviu o relato
E fez um exame de vista
E toque.
Na primeira oportunidade
Descobriu tratar-se de berne.
Faltava apenas abrir um
Pequeno local por onde
Retirar o bicho
E fazer a pequena cirurgia.
A cirurgia logo foi marcada,
Saindo do hospital,
Agenor foi até o cemitério
E sentou chorar
Perto do túmulo de
Seus pais a avós,
Tão tarde descobriu a doença
Degenerativa da família
Definida como catalepsia,
Era berne,
Um simples bicho
Que era transmitido de um
Ser humano para o outro
Através do toque,
De estar perto
E por meio de um mosquito.
Berne,
Uma questão tão simples,
Lhe tomou a família inteira
Em tão pouco tempo.
Depois de chorar no cemitério,
Ele foi até sua casa
E lá cortou as bananeiras
Onde seus filhos
Faziam as necessidades fisiológicas atrás,
Lavou o tronco das árvores
De frutos mais grossas,
Onde haviam restos
De merda e mijo
E então, lavou toda a casa.
Depois disso,
Contratou um pedreiro
E fez um banheiro
Para cada quarto da residência,
Instalando água
Em cada qual
E transmitindo a notícia
De que urinar e defecar
Ao redor de casa
Estava proibido.
Então, explicou sua doença
Aos filhos e descobriu
Que os filhos sofriam
Do mesmo mal.
Irritado ele pegou
Os penicos debaixo da cama
De cada um e fez
Uma labareda de fogo
No pátio de casa e
Os queimou.
A falta de higiene
Matou seus patriarcas
E agora levava sua família
Sob seus olhos,
E a dor tirava inclusive
A vontade de viver.
Chegando o dia agendado,
Agenor foi até o hospital,
Passou pela cirurgia,
E isto lhe ocasionou
A perda irrecuperável da perna.
Os bichos formaram
Um aglomerado de bichos
Naquele local,
Se multiplicando em milhões,
E o membro não pode
Ser recuperado.
Anestesiado e sonolento
Pela cirurgia,
Uma enfermeira aproveitou-se
De seu estado,
E provocou nele ereção,
E então fez sexo com ele
No escuro do quarto
Do hospital
Engravidando de Agenor.
A enfermeira Noêmia
Retardou o máximo possível
A saída de Agenor
Do hospital e o manteve
Fazendo sexo por
Todo o tempo que desejou.
Sob o efeito do remédio
Ele não notou que isso ocorria.
Na sua família,
Todos tiveram bernes,
E seu filho
Perdeu alguns músculos
Do braço,
Por isso, teve seus movimentos
Encurtados significativamente.
Já sua esposa perdeu
Um seio,
O berne comeu o seio dela
Que ficou flácido e caiu,
Ela acreditou que isso
Se devesse a idade avançada,
Mas, não,
Foi causado pelo berne.
Já sua filha perdeu
O movimento permanente
Dos dois últimos dedos
Da mão direita,
Seus músculos foram picotados
Por mordidas do bicho
Que arrancou aos poucos
Os pedaços dos músculos
Até que ela não pudesse
Mais se mover.
Ao final de sete dias,
Todos retornaram para casa,
Animados e felizes,
Mas, a sombra daquele
Bicho faminto e feroz
Permaneceu,
E o medo sempre ronda
A casa dos Albbuquerques.
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