Pepita traçava
Com o dedo
Sobre o bordado
De alto relevo
Que havia terminado,
Ali desenhou uma casa,
Um jardim
E até mesmo um bando
De pássaros.
Sonhadora,
Olhou para o lado
Da almofada bordada
E encontrou uma carta.
Costuma-se dizer
Que toda cruz
Carrega seu diabo,
Mas, neste caso
Ele antecedeu-se.
Logo de início
Em alto relevo
De tinta amarelo brilhante
Continha o nome,
Aquele o qual
Ela desejou tanto esquecer,
E logo do lado,
Desenhado na própria almofada
Estava a cruz que carregava.
Nitidamente desenhada
A casa em que sonhou
Dividir com quem tanto amou,
O jardim que sonhou
Plantar ao seu lado...
Tudo expresso,
A cruz do sofrimento
De quem sonhou
Um grande sonho
Mas terminou em lamento.
Do lado,
O diabo traçava seu nome
Como se se autodominasse
O grande responsável
Por determinado sonho,
Tão lindo e encantador
Que não a entregou,
De fato,
Mais que umas agulhadas
Em seus dedos
Enquanto ela bordada
O tecido,
Sobre o qual o diabo
Não seria conhecedor,
Mas, tórrido desalento,
Se mostrou tão rápido,
Que talvez,
Até mesmo,
Já imaginasse o lindo bordado.
Bem,
Pego a carta do diabo
Em suas mãos feridas,
Desejou ler o conteúdo,
Saber de qual outra maneira
Iria feri-la.
Aberta a carta,
Soube que não continha pouco,
Ele disse,
Em poucas linhas
Que voltaria,
Marcou dia e hora,
Em que simplesmente
Desejava vê-la,
Assinou com a palavra saudade.
Pepita soltou a carta
Na sua frente embevecida,
“ o quê?”
Depois de todo este tempo
Separados
Ele desejava revê-la?
De onde ele tirou tal ideia,
O que desejava realmente?
Por toda a casa
Haviam sonhos bordados,
Em casa parte
Estava a marca do diabo
Registrada em bordados,
“Por Deus,
Haveriam, ali, eu te amos?”
Ela indagou-se
Embasbacada,
Como um grande amor
Constrói sonhos
E vai embora,
Passado tanto tempo
Decide simplesmente voltar?
Não,
Sobre isso ela não tinha resposta.
Seus dedos feridos
Marcavam tantas promessas
Quadros desenhados
A pincel de cada ideia,
Até mesmo as promessas
Foram marcadas em suas artes,
É a cruz estampada
Por cada parede,
Retratando cada beijo,
Cada visita,
Cada momento de esperança,
Como se não bastasse
Tantas lágrimas
E as lembranças que persistem,
O diabo decide mostrar assinatura,
Apresentar a face.
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