Certo homem dedicou
Sua vida para fazer sapatos,
Aprendeu na infância
O ofício,
Perdeu seu pai para um raio
Enquanto cortava lenha
Numa ventania de verão,
E perdeu sua mãe
Para uma gripe de inverno
Dois anos após.
Ele manteve-se no ofício,
Até ganhar novo ânimo
Ao ver uma linda moça
Que toda a manhã
Passava em frente a sua casa
Para trabalhar numa vizinha
Fazer os serviços domésticos.
Encantado por sua beleza
E simplicidade passou
A redesenhar seus modelos
E fez de um a um
Com o intuito de conquistar
Seu afeto.
Logo, a vendo de botas
De chuva,
Percebeu o número
De seu pé
E fez de modelo a modelo
Pensando nela:
-Ola, Tiago?
Como está,
Gostaria de comprar
Um sapato novo!
Disse seu vizinho,
Certa vez,
Pondo o rosto em sua porta.
- hoje não tenho amigo!
Ele respondeu sorrindo.
Tiago fez modelos costurados,
Modelos com babados,
Com tranças,
E fitilhos e também de couro
Com todos os saltos,
E até bordados.
Prendeu tábuas em sua
Parede e colocou de par
A par um ao lado do outro
Até encher toda a sala.
Sua vitrine ficou enfeitada
Com os mais diversos modelos.
Ao receber seu primeiro salário,
A moça passou ali
E sorridente adquiriu
Seu primeiro calçado comprado,
Até então, sempre ganhou
De parentes os pares
Que tinha.
Sorriu, abraçou Tiago
E lhe beijou o rosto
Encantada a rodopiar
Em meio a sala onde
Cada par e cada desenho
Era o número dela.
Sem desconfiar do afeto
De Tiago ela saiu,
Feliz balançando a sacola
Que tinha seu par dentro,
Já no outro dia o usou.
E Tiago ganhou novo impulso,
Fez prateleiras que decaiam em cascatas
E redesenhou os modelos.
Trabalhava bem cedo
Do dia e as vezes,
Dormia batendo o calçado,
Desenhando o salto,
Organizando o couro
E queimando desenhos
Para enfeitar.
As vezes,
Chegava o dia
E ela passava por sua vitrine
Sempre a sorrir
Com o rosto colado
Ao vidro sonhando
Com seu novo modelo
De tantos que tinha.
Ela abanava um aceno
E saia furtiva para o trabalho,
Então, sem falar de seu amor,
Nem compreender ao certo
Que sentimento
Tão bom o unia tanto
Aquela moça.
Ele deixou o lampião aceso,
Próximo demais da janela,
E a cortina pegou fogo
Com ele deitado sobre
A mesa de lapidar com
As ferramentas de ferro
O couro do calçado.
A fumaça cresceu alto
E chamou a atenção,
Os vizinhos correram
Com baldes de água
E puxaram a mangueira
De molhar o jardim
E iniciaram o apagamento
Do fogo.
Conseguiram salvar
A maioria dos modelos,
Pois, o fogo se localizou
Onde ele estava,
Contudo, Tiago desfaleceu
E nunca pode provar o beijo
Da moça que tanto amou,
Viveu por ela
E nunca se declarou.
Após sua morte,
Foi verificado
Que todos os calçados
Só serviam para o pé dela
E nenhuma outra pessoa,
Então, ela ganhou cada modelo,
Inclusive a casa,
Pois ele não tinha nenhum
Parente vivo.
Triste os vizinhos
Sempre ouvem seus
Soluços noturnos,
E veem suas lágrimas
Pelos cantos,
Pois, a moça nunca desfiou
Que era amada
Ou considerada por ele,
Tão pobre ela nunca
Pediu sobre todos
Os modelos,
Seu dinheiro era simples,
Mal sustentava os pais
E o irmão pequeno.
Mas, agora tinham onde
Morar e estavam felizes
Por não pagarem aluguel,
Porém, Tiago se foi
E nenhum outro sapateiro
Soube ser tão bom
E tão rico em detalhes.
Ela decidiu por espera-lo,
Enquanto durasse seus sapatos,
Não seria de ninguém,
E haviam ali mil e tantos sapatos.
Ela nunca os contou,
Só viu que se perdiam
De vista,
As inúmeras cores,
Diversos formatos,
O esperou,
Desenhando sapatos,
Copiando seus modelos,
E abraçando cada um
Antes de vender.