sábado, 20 de junho de 2026

Livre Para Sempre

- alô, Coronel?
Minha filha está
Em poder de bandidos
Me ajude!
Gritou Dinore desesperado
Do telefone,
Depois disso
Amedrontado, baixou
O telefone até seu peito
Que pulsava palavras
Incompreensivas.

Dinore decidiu vender
Parte da prioridade a estranhos,
E se apropriando dela,
O novo morador
Passou a fazer sua filha
De refém,
E desta vez a exigência
Era insuportável,
Seu amor.

Ele exigiu o amor de Alice.
Alice se desesperou,
Correu para dentro de casa
Evitou o jardim,
Abandonou seu pomar
E trancou-se.

O vizinho aterrador,
Vinha nos horários noturnos
E dava muros
Ao redor da parede
De madeira
Para que ela abrisse
A janela.

Ela encolhia-se entre
Os travesseiros,
E chorava descompassada.
Quem a protegeria?

A esposa dele
O chamava pelo nome
E alguns de seus filhos
Choravam alto.
-não mãe,
Não quero transar,
Não mãe.
Uma criança dizia
Em prantos
E o barulho em sua casa
passava.

Ela abraçava o cobertor
Como quem abraça o céu
E pede para ser transportada,
Ou qualquer coisa
Que a retire dali,
Sorrateira e salva.

Incompreensiva,
Odiou seu pai,
Odiou a venda da terra,
Odiou a si mesma,
Pegou uma faca
E passou a cortar
O próprio rosto
Até que filetes de sangue
Escorressem na frente
Do espelho se misturando
Ao pranto.

De dia,
Quando ele saia trabalhar
Ela passou a sair de casa,
Limpar a propriedade
Com a enxada
E podando as flores
Pondo seus galhos
Em vasos com terra
Para fazer novas mudas.

Ela precisava resistir,
Ser forte,
Enfrentar está dor íntima
Que lhe dava tanto medo
E desconforto interno.

Sua família desmoronava,
Sua terra fugia-lhe
Por entre os dedos
Feito areia fina
Que vai com o vento
E com a água
Que incontrolável invadia
E se aproximava cada vez
Mais de sua casa,
Suja e sedenta,
Sedenta por carregar
Tudo que pudesse,
Flores, árvores, bancos,
Talvez, sua casa...

Ela se deitava
Se cobria e aguardava
O dia em que algo
Lhe mudaria o destino.

O vizinho fazia festas
Regadas a bebidas
E drogas,
Entre as crianças e
Os adultos e logo
As investidas lhe chegavam
Inegáveis entre frases
E tiros ao alto.

Os olhares furtivos
Ficavam tão óbvios,
E filhos do vizinho nasciam
Outros morriam e eram
Jogados nas águas do rio.

Alice permanecia
Lutando por sua terra,
Trabalhando incontrolável,
Até que um dia a discussão
Acalorada chegou,
Com nervos a flor da pele,
Ela gritou de sua casa
Para diminuírem o som,
Pararem com as drogas,
E se definiu anti-estupro.

Este foi seu fim,
O vizinho embrenhou
Contra a sua casa,
Lhe pegou pelo pescoço
E carregou para fora,
Erguendo-a na área
Para expor sua fragilidade
Feminina.

Então, puxou seu vestido
E a deixou nua,
Erguida.
Ela resistiu.

E foi solta espasmodica,
E soluçante no chão frio
E sujo de poeira de sua casa.

Então, veio um vendaval
Intenso e arrasador
Que se chocou contra
As árvores e levou galhos,
Arrancou folhas,
E destelhou a casa vizinha.

Então, balançou do chão
Três enormes árvores
As fazendo pender
Contra a sua casa,
Girar e cair para o lado
Oposto.

Caindo sobre a estrada
E impedindo a passagem
Do vizinho que irritou-se
E denunciou a polícia.

Alegou que ela havia derrubado
As árvores de mau intuito
Para impedir sua passagem
E tentar lhe matar
Pondo em risco a integridade
De sua família.

A polícia veio
E lhe calou com a arma
Em punho,
Contra seu rosto,
Entre seus lábios
E pediu que se calasse,
O soldado disse que
Logo a medida de prisão
Seria decretada
E este seria o seu fim.

Uma multa exuberante
Lhe viria e cobraria
Tudo que possuía,
Iria para a rua,
Presa e encarcerada
Por ameaça e tentativa de
Assassinato além
De crime de dano contra
O meio ambiente
E outros afins.

Inconsolável,
Ela escorreu pela parede
Dá janela,
Levou as mãos ao rosto
E arranhou-se de cima
Abaixo,
Não queria sua beleza,
Rejeitava sua fragilidade,
Odiou cada pessoa,
Cada arma,
Cada perigo.
O soldado afastou-se
Irritado e truculento.

Alice
Esperou o vizinho chegar
E foi até o muro,
Então gritou,
Ergueu o punho para o alto,
Chorou e xingou das formas
Que pôde.

O vizinho pegou uma corda,
Jogou por sua nuca,
E a virou num movimento
Enlaçando seu pescoço,
Depois a ergueu contra
O muro.

Suas lágrimas escorriam,
Ela batia os pés,
Perdia o ar,
Esvaia-se sua vida.

Nisto o Coronel chegou,
De farda marrom,
Coturno marrom,
E aquele boné característico...

Levantou a arma
E mirou contra o rosto
Do vizinho e atirou.

O vizinho caiu do alto
Do muro para trás sangrando,
E ela caiu fraca no chão,
Entre a terra e grama,
Abriu seus olhos
Quando ele chegou
E lhe estendeu a mão.

De alguma forma,
Que não se sabe explicar,
Ela conseguiu erguer
A mão,
E apertou com toda
A força que tinha,
A mão quente 
E macia do Coronel,
Ele a pegou no colo
E a conduziu para dentro
A salvo.

Saiu para fora,
Foi até a estrada
E deu voz de prisão
Para o vizinho
E ordem de despejo
Sobre sua família.

Um ano após,
Alice vestida de branco,
Pegou seu buquê
De girassol e se aproximou
Daquela gente toda
Que estava sentada
No seu jardim.

A passos lentos
No seu scarpin branco
Liso de seda,
E seguiu até o altar
Feito até dentro do rio.

Os convidados se ergueram
Aplaudindo,
Uma banda iniciou
A música de entrada
Ao lado do altar,
O padre se virou sério.

Já no meio do altar,
Os convidados começaram
A reclamar que o noivo
Ainda não havia chegado.

E entreolhavam-se envergonhados.
Os pais se abraçavam
E olhavam ao redor,
Então, um helicóptero da
Polícia Militar surgiu no
Alto dos céus,
E lá estava o Coronel.

Depois sobrevoou até próximo
Ao altar e ele pulou
Dá janela aberta
Até o altar,
Chegou em Alice
Se ajoelhou com uma
Perna encostada no chão
De madeira
E A outra levantada.

A beijou na testa,
Retirou o buquê de girassol
De seus dedos,
O beijou e soltou sobre
A perna,
Então, buscou no casaco
Militar marrom uma chave
Que retirou do bolso.

Alice levantou
Os punhos para o alto,
Estava algemada,
O Coronel abriu suas algemas
E disse:
-“livre pra sempre!”
Ela sorriu,
Se agachou até ele,
E buscou seus lábios
Num beijo cálido,
E rápido.

Então, se virou para
As testemunhas e mostrou
As algemas soltas nos pulsos
E sorriu.

Um Ah, espasmodico
Surgiu de todos.

Ela puxou os pulsos
E jogou as algemas
No chão ao seu lado,
Depois virou-se para ele,
Retirou seu boné de Coronel
E soltou no chão
Ao seu lado,
Pegou na sua mão
E andaram os passos
Que faltava até chegar
No altar
Onde encontraram o padre
Sério e tomando água
De sua taça benzida.

O Coronel a beijou
No rosto,
Depois, puxou seu maxilar
Para ele e o beijo demorado
E apaixonado pegou
Todos desprevenidos.

Ambos choravam,
Os convidados bateram
Palmas e sorriram,
Abraçaram-se entre eles.

Alice e o Coronel
Levantaram suas mãos
Unidas e juntas para o alto,
Depois sorriram,
Se abraçaram demoradamente 
E olharam para o padre.

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