domingo, 17 de agosto de 2025

Casamento de Mariquinha

“Ora, por quê responde-me
Tão irritadiço,
Deixa de braveza
Que desmanchou estas suas
Rugas de expressão de raiva
Da testa aos mil beijos,
Meu amor”.
Assim, Mariquinha respondeu
Ao primeiro ímpeto de raiva
De Silvio.
Ele, contudo, acostumou-se
A raiva e desistiu de seus carinhos
Com a mesma facilidade.
Porém, está raiva ganhou
Mais expressão com o casamento.
“Desmanchar minhas rugas?
Sou velho para você agora?!”
Ele indagou,
Retirou os chinelos
Que calçava
E bateu com eles
No rosto dela,
Até deixar a marca,
Até fazer sangrar,
Até quebrar seu nariz,
Até quebrar seus dentes
E sucessivamente.
O tempo de casados
Fez aumentar o amor,
Tanto quanto lhe aumentou
O ódio.
Masariquinha foi a primeira
A se cansar,
Arranhou novo amor,
O chamou de homem,
E contou a ele suas dores,
Ramiro, assustou-se
Com as primeiras marcas.
No dia em que Mariquinha
Foi jogada para fora de casa,
E empurrada de cima
Da escada para a calçada,
Aos gritos e solavancos de Silvio,
Ramiro se irritou,
Muniu-se de uma arma,
Estacionou em frente a casa dele e gritou
Ao sair do carro
Rumo a porta:
“Permita a Mariquinha
Que entre para a casa
Que também é dela,
E não a fora!”
 Lá de fora
Ouviu o riso alto
E sonoro de Silvio.
Irritou-se disso,
Abriu a porta
Que não estava trancada
E atirou uma única vez
Contra Silvio que estava
Sentado no sofá
Assistindo a televisão.
O tiro acertou em sua cabeça,
Perfurou até a televisão,
Apagou-a depois de a tela
Ficar primeiro escurecida,
Depois, ter algumas listras
Coloridas, então, veio o escuro.
Nisto, Silvio apenas
Pendeu a cabeça para a frente,
E ficou estagnado
Sem respirar
Nova vez.

Dinheiro e Trocados

O ouro estonteia
Mais que fumaça de cigarro,
Faz da feia,
Uma linda garota,
Joga um véu
Que não se nota
Feito uma miragem
Que conquista.
A fumaça que vislumbra
Proveniente do ouro,
É invisível a alguns,
Contudo, transforma
Do redor até maquia os defeitos,
No ouro não há desalento,
E mesmo o odor nojento
Proveniente da fumaça,
É apagado pelo ouro,
Vez que seu cheiro é perfeito!
Se eu uso,
Um pouco de ouro,
Veja, deste pó
Nem preciso muito,
E destas joias,
Nem uso todas,
Todos os rapazes se aproximam,
Todos me querem perto,
É a atração do ouro,
Aquela a qual não se resiste,
Não precisa estudar tanto,
Esforça-se pouco,
Pois dormir dinheiro que tenho,
Estou disposta a ceder
Um pouco,
Por alguns poucos trocados,
Tenho mais amigos
Que eu possa contar nos dedos,
Por migalhas do meu ouro,
Tenho mais cuidados
Que eu possa precisar no mundo.
A atração que provoco
É irresistível,
Dona do meu ouro,
Comando tudo de que preciso.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

A Perda

Falar sobre a dor
De ficar viúva
Nunca seria simples,
Se contentar em dirigir
Todos os dias até o cemitério
Para levar flores,
E contar da dor que sente,
Deixar uma carta,
Com um beijo sobre a lápide,
Nunca seria o suficiente.
Rebeca atingiu seu limite
No que se refere a sofrer,
Contudo, Marcelo retirou
O carro da garagem
Buzinou para avisar
Que estava pronto pra levá-la,
E Rebeca decidiu se apressar.
Abrindo a porta de vestido longo,
Viu uma nova flor no jardim
Que balançou mais intensa
E liberou um aroma delicado
Que seu esposo merecia sentir,
Reconhecer,
E ela sentiu que precisava dividir
Este sentimento de alívio
E esperança que teve,
Então, fechou a porta rápida,
Não percebeu que prendeu
O vestido nela,
E se apressou para o lado
Da flor segurando
O buquê de rosas costumeiro.
O vestido preso a reteve
Ainda sobre a escada,
Ela perdeu o equilíbrio,
Caiu sobre a barriga,
Sangrou até seu bebê
Sair pelo líquido,
Sozinha e insegura.
Marcelo correu para ajudar,
Ela pediu para ir levar
O buquê,
Ignorou a outra flor,
Sentou ao lado da lápide,
Contou de sua dor
Enquanto sangrava
Sem parar.
Marcelo, o motorista,
Ficou no carro,
Do lado de fora do cemitério,
Rebeca não resistiu,
Chorou intensa e triste,
Pôs suas mãos contra a lápide
E a abriu.
Ali encontrou o esposo,
Se perdendo entre a madeira
Do caixão escuro de veludo.
Seus lábios selados e pálidos,
Olhos fechados,
Rosto sem expressão,
Ele não viu sua dor,
Não se compadeceu
De seu sofrimento.
Indignada,
Pegou a haste da roseira,
E o agrediu,
Arranhou seu rosto
Até tirar a pele,
Rasgou seus lábios
Para que se comparecesse.
Um mês,
Um mês sem ele,
E o filho o chamava,
Não resistiu ao pranto,
Não se contentou
Com a oportunidade de viver,
Foi atrás do pai,
Galgou o sonho de todo inocente,
Conhecer o colo fraterno.
Indignada,
Chorou até não ver
Mais nada a sua frente,
Então, o caixão descolou,
Ela arrancou sua parede,
E retirou de dentro
Da lápide de mármore.
Soltou a sua frente,
O veludo azul ficou molhado
No mesmo instante
Com sua dor,
Em um mês em que Tiago
Estava ali,
Nenhuma gota de sangue,
Suor ou secreção
Saiu dele que molhasse
O pano,
Contudo, num único
Minuto de pranto de Rebeca,
Tudo escorreu por lágrimas
Abaixo.
Ela retirou o tecido,
Riscou com os espinhos
Da roseira,
Duas horas de choro
Depois,
Viu que desenhou o rosto
De Tiago ali.
O abandonador,
O amor que partiu
Para deixá-la sozinha
E grávida,
Olhou entre suas pernas abertas,
E havia uma poça de sangue
Entre elas,
E ali: algo.
O filho escorreu.
Usando sangue, dor e pranto,
Ela pegou a pele do esposo,
E colocou sobre o desenho,
Pegou grama, terra,
E algo do mármore,
Que não foi difícil quebrar,
Ao bater a parte da madeira
Do caixão contra ele.
A madeira se partiu
Em partes menores,
E o mármore se soltou.
Juntou suas roupas,
Rasgou até a cueca.
Maldito.
A deixou.
Preferiu a morte.
Desenhado o rosto
Do esposo morto,
Desenhou o filho,
Fez um pequeno bebê
Na altura do seu peito,
Como se ele o segurasse,
Então, ergueu o vestido,
Encontrou o grosso
Do seu sangue,
A espessura de algo nele,
A formatura de um bebê,
O bebê que o pai voltou
Para buscar,
O entregou.
Esmagou o que restou daquilo,
E colocou na peça de madeira,
Cravejada de dor,
Espinhos, pranto, sangue e pele.
Colocou um brilho amarelo
No olhar de cada um,
Desenhado pelo mármore
Do mesmo tom.
Pôs no sol para secar,
Trabalhou com o tecido
Cada detalhe,
Juntou alguns ossos
Para relevo da obra,
No fundo da tela
Coloriu com o próprio sangue.
Depois disso,
Secou o choro,
Que por si próprio
Desistiu de fazer luto.
Fechou o caixão,
Soltou a lápide sobre
O mármore de volta,
Nada pareceu ter sido mexido,
Nem a fotografia de Tiago
Que lhe sorria do lado de fora,
Nem sua pele
Sentiu qualquer coisa,
Ou os ossos.
Abriu a caixa da lápide,
Onde se colocava as flores,
E soltou lá dentro sua tela,
A cor do esposo
Ganhou tonalidade e vigor,
O filho ganhou forma,
Ambos sorriam felizes,
Estavam distantes agora,
E juntos.
Chaveou a caixinha,
Fez uma oração pra ambos,
Calou sua dor.

Dor

“De útero para útero,
O sangue doente
Se revela,
E a histeria é transmitida”.
O médico sugeriu para Anne,
Que estava deitada na cama
Hospitalar,
Com o nariz quebrado,
E algumas ataduras pelo rosto.
Ela ficou calada,
Ele queria emitir
Um diagnóstico
Que não fosse o costumeiro
De que, outra vez,
Seu esposo descontou nela
Toda a sua fúria, ódio e força.
“Ele feriu-se?”
Anne olhou para seu rosto,
Como se quisesse indagar,
Mas, não conseguiu dizer nada,
Então, permaneceu olhando
Fixo para aquele homem alto
Vestido de branco
Com uma prancheta
E uma caneta branca
Em mãos.
Contudo, ela imaginou
Que não,
Ele não sofreu único arranhão,
Nem quebrou seus dedos
Contra os ossos
Do seu rosto.
Anne tentou se mover,
Mas viu-se impedida,
Estava usando gesso
Em um dia braços,
E custou lembrar o motivo.
Rolinton estava fazendo
Açúcar de cana,
Quando começou a gritar
Para ela pôr lenha no fogo
Caso contrário o fogo
Se apagaria e isto retardaria
O resultado do açúcar,
Ou então, estragaria.
Ela se aprumou
Com um feixe de lenha
Em mãos,
Então, a dois passos
Da fogueira
Tropeçou sobre palha seca,
Gravetos e outras sujeiras
Que estavam ao redor
Do tacho
No redor e dentro
Do galpão aberto
Onde estavam.
Caiu de rosto na sujeira,
Estendida feito uma boba,
A lenha correu dos seus braços,
Chegou ao fogo
E incendiou feito palha seca,
Faiscando contra sua cara,
Crepidando próximo ao seu rosto.
Rolinton irritou-se,
Levantou de seu tronco
De madeira onde estava sentado
Com a pá de mexer o tacho
Nas mãos,
Soltou a pá naquela labareda
E atirou contra ela.
Jogou brasas acesas,
Madeira incandescente,
Fogo vivo em seus braços,
Então, pisou sobre o braço
Próximo a ele.
Sua mão esquerda
Presa entre o chão
E seu pé,
E o fogo a consumir
Sua pele,
Suas unhas,
Seus dedos,
Seu braço,
Chegando ao seu rosto.
Ela uniu toda a sua força,
Puxou o braço,
E conseguiu fugir,
Caindo sentada contra
O pilar do galpão.
Rolinton não se viu sossego,
Lavou a pá no balde de água
Que estava ao seu lado,
Depois, colocou no açúcar
Que fervia a sua frente,
E jogou três pás
Do doce contra Anne,
Depois disso,
Largou a pá dentro do tacho.
Juntou Anne pelos braços,
E desferiu socos
Contra seu rosto
Até fazer saltar sangue.
Ele disse que ela era lerda,
Histérica e vadia.
Ela pegou uma madeira
E revidou contra seu rosto,
Ele defendeu com o braço
O golpe dela,
Lhe tomou a madeira
Com a mesma mão
E soltou a madeira com força
Contra ela,
Ela acordou ali onde estava.
Não sabia o dia,
Ou hora,
Mas, olhava-se no espelho
A sua frente
Preso na parede
Ansiosa para voltar
Para casa.
O médico falava,
Movia-se ao seu redor,
Lhe indicava remédios
Pedia se sentia dor,
“dor?” ela indagou-se,
Então, chorou copiosamente.

Esposa Traída

Mais uma noite
Eu dormi fora,
Fiquei na farra
A noite inteira,
Beijei e até amei outra.
Porém, minha esposa
Decidiu se espertar,
Não aguardou minha volta,
Não esperou a desculpa,
Foi a minha procura,
Chegou em frente a loja
Onde eu estava,
Encontrou um maldito carro,
E bateu nele
Com tanta violência
Que deixou só a carcaça,
Destruiu meu salário,
Arrasou com meu mostruário
De marido traidor.
O dono veio a minha procura,
Me indagou se ele
Tem cara de marido safado,
Eu lhe disse,
Mas é certo que não amigo,
Ele respondeu me desferindo
Um soco no meio da cara,
Me jogou contra o chão,
Tamanha força,
E gritou:
Pague a desgraça
Que sua esposa me fez,
Achando que aquele
Carro era o seu,
Porquê de parecido tem muito,
Mas, jamais seria dirigido
Por um otário feito você,
Seu maldito!
Vou trocar a cor,
Trocar o modelo,
Deus me livre
De ser confundido
Com um idiota feito você!
Virou as costas e saiu,
Quando olhei lá fora,
Do carro não restava nada,
Além de desgraça.
O homem me viu outra vez,
Veio para o meu lado,
Retirou as chaves do meu carro,
E gritou de dentro dele:
Pague, porquê eu volto!

Caminhoneiro por quê?

“O único vício da minha filha
Era o cigarro,
Agora ela pegou o carro,
Retirou dinheiro
Da minha carteira
E foi comprar no mercado.”
“Meu Deus,
Faz doze horas
Que ela saiu,
Isto me preocupa,
Eu li uma notícia
Que dizia
Que um caminhoneiro armado,
Veio na direção oposta
Da pista de tráfego,
E atirou contra um carro,
Por Deus,
Na foto que está disponível
Não mostra o rosto,
Não diz o nome,
Porém, a vítima morreu,
Era uma feminina,
E o carro é parecido
Com o meu,
Será que é minha filha?
Eu não pude ver
O número da placa,
Como eu posso saber
De quem se trata,
Eu ligo,
Ela não me atende,
Cadê minha filha,
Aonde ela pode estar,
Eu a amo,
Preciso dela,
Minha esposa está chorando,
Eu estou sofrendo,
O que houve com minha filha,
Este maldito vício,
Tal simples,
Causou sua morte,
Caminhoneiro, por quê?
Você matou minha filha,
Ela nada me fez,
É uma moça calma,
Caminhoneiro por quê?
O que houve com você,
Por quê você descontou
Sua fúria sobre minha filha,
Ela é moça decente,
Nada lhe fez,
Caminhoneiro por quê?
O está destruído,
Depois de receber o tiro
Ela perdeu a direção,
Caminhoneiro por quê?
Isto que você fez
Não tem explicação,
Minha filha,
Uma inocente vítima
De você,
Caminhoneiro por quê?
O que ela te fez
Que conversando comigo
Nós não poderíamos resolver?
Você foi maldoso e cruel,
Caminhoneiro por quê?

Nossa Família

Hoje eu e meu esposo
Pegamos as crianças
Convidamos meu sogro
E fomos a loja
Comprar os móveis
Para a nossa casa.
Nossa primeira experiência,
Juntamos um dinheiro
No início do mês
E renovamos tudo,
Cama, colchão,
Pia e sofá novo,
Tudo do mais bonito,
Escolhido juntos.
De presente
O sogro nos deu uma televisão,
Nunca estivemos mais felizes,
Agora a casa está
Com cheirinho de novo,
É um orgulho,
As crianças estão felizes,
O hambúrguer já está
Na chapa
E o pão no forno,
Isto é felicidade completa,
Estarmos juntos,
Comprar tudo que precisamos,
De pouco a pouco,
Ver nossos rostos radiantes
Num sorriso de completude,
Isto é amor,
Isto é estarmos unidos.
Agora cada cômodo
Da nossa casa
É um sonho
A ser idealizado
E depois estabelecido,
Olhamos a sala
E pensamos juntos:
O que precisa?
Escolhemos o que há
De mais bonito,
E tudo fica lindo,
Porquê tudo está perfeito,
É mais que um sonho
É nossa família unida.

Destino à ROCAM