domingo, 19 de outubro de 2025

Meu amor

Meu amor
Foi para o trabalho
Ele tinha coisas importantes
Para fazer
Então, meu amor me deixou
Sozinha com nosso filho
A esperar por sua volta.
Porém, na calada da noite,
No silêncio cúmplice
De todo crime,
Um indivíduo me viu
Pelo vidro da porta,
Juntou pedras
E as atirou contra mim.
A porta se estilhaçou
E pedaços de vidro
Voaram contra meu rosto,
Eu fiquei cega,
Agora, não sei quando
Meu amor retorna,
Se demora,
Ou se já volta,
Eu não posso mais vê-lo,
Talvez, ele me abandone.
Nunca verei nosso filho crescer,
Jamais poderei lhe dar banho,
Fazer sua comida,
Cuidar de sua roupa,
Eu estou cega,
Meu destino é noite escura.
Nosso filho,
Nosso bebê,
Dele só saberei a voz,
Mas guardarei seu traços,
Seu rostinho
Tão parecido com o do
Meu amor.
Do meu amor
Já não verei quando
O branco de seus cabelos
Lhe ganhar a barba,
Lhe tomar o tom dos pelos,
Lhe cobrir toda a cabeça,
Não verei traços algum
De sua idade chegar,
A luz e suas cores
Já não me são mais possíveis.

Perdi Meu Amor

Meu amor veio
Me visitar está noite,
Então, era madrugada
Ele saiu,
Eu fiquei em meu quarto,
Olhando o teto,
Pensando em nós.
Foi quando um estrondo
Me tirou dos sonhos,
Senti como se meu peito
Fosse aperto
E eu estivesse sangrando.
Com um pulo
Me livrei do cobertor,
Levantei-me e fui até
A saída
Quis ver meu amor.
A porta estava trancada,
Ele já estava do lado
De fora,
Eu não tardei para abri-la,
Foi aí que vi
Meu amor caído
Em frente a porta.
Ele sangrava,
Havia uma poça de sangue
Na sua frente,
Ele estava imóvel,
Não falava nada.
Alguém lhe deu um tiro,
Alguém matou meu amor
Na porta da minha casa,
Eu não gritei,
Mas me vi cair até ele,
Ergui seu rosto,
O repousei em meu peito.
Beijei meu amor
Em sua face,
Senti já boca o gosto,
Nosso último beijo
Veio de súbito
A lembrança,
Eu olhei para seus lábios imóveis,
Não beijaria mais meu amor.
Eu mexi em seus braços
Fortes com ossos salientes,
Ele não me abraçou,
Eu não voltaria a abraçar
Meu amor.
Então, olhei para a frente,
Para os lados,
Por toda parte,
Quis saber quem feriu
Meu amor de morte,
Eu não vi ninguém,
Só havia meu amor caído,
E sangue.
Eu abri três botões
De sua camisa amarela,
Levei meus dedos
Em seu peito,
Busquei seu coração,
Chorei sobre seu rosto
Enquanto pedia aos céus
Por favor,
Deixe meu amor.
Mas, seu coração já não batia,
Nunca mais eu o veria,
Perdi meu amor
Depois de algumas horas
De sua companhia,
De sua paixão,
Das promessas,
E os sonhos
Que nunca estiveram
Tão distantes
Quanto ficaram agora
Sem meu amor.

Lembranças

As lembranças que guardo
Nestas fotografias
Voltam a minha memória
Nítidas e saudosas.
Lembro que neste instante,
Em que estou na janela
De mãos unidas
Eu rezava para o vento
Não ser tão prepotente
E deixar nosso terreno
Em paz.
Eu pedi a ele
Para não açoitar o telhado,
Não bater tanto as portas,
E que levasse a chuva forte
Com ele para longe.
Mas, ele me ouviu pouco,
Logo um raio caiu do céu
Com a rapidez de uma lâmpada
Que é ligada e acertou nosso
Pé de pitanga em cheio.
Ele era velho,
Já datava existência
Do tempo de meu avô,
Contudo, partiu-se ao meio,
Seu tronco rachado
Caiu no chão de terra molhada.
Ficou apenas a parte
Próxima a terra intacta,
Logo ele se regenerou
E produz frutos doces
Até hoje, cinquenta anos após.
Bem, me lembro que
Ao passar a chuva
Nós corríamos até
O porto para olhar o nível
Da água se subiu muito,
Para impedir
Que as vacas ao desconhecer
Os perigos
Chegassem muito perto
E caíssem no atoleiro.
Aqui nesta segunda fotografia,
Há a vaca atolada,
E na outra,
Veja, veja só,
Estamos eu e meu pai
De barco puxando a vaca
Para retirar ela dali,
Logo ela morreria,
Ou por estar atolada
Ou porque o rio
Iria encher-se mais,
O que me lembro bem
É que precisávamos ser rápidos.
As vacas nadam, sabe?
Mesmo as que nunca
Precisaram nadar,
Do nada,
Elas mexem suas patas,
Empinam o nariz
Para fora da água
E nadam.

Saudades

Para aplacar
Com os boatos
Na vizinhança,
A garota colocou
Um vestido colado
E posou para fotos,
Agora, seu rosto
E corpo estão estampados
Em poses a efeito
“Cala a boca”.
Não parece aquela menina
Que em casa dia que acorda
Se olha no espelho
Em busca de respostas,
Enquanto procura sua bolsa
Para ir para o trabalho,
Olha para trás
E repensa em tudo que houve
E como poderia ter sido diferente.
Neste pensar
Percorre o caminho
Que encurta distâncias,
Uma hora cruza o ponteiro
Do velocímetro do carro
E leva quilômetros consigo.
Vem na memória
Seu pai e uns dez anos lá atrás,
O vigor e sonhos
De uma adolescente
Que acreditou que poderia
Realizar-se,
Sonhou e buscou
E agora apenas percorre.
O pai a abraçar a mãe,
Num casamento exitoso,
Que agora teima em desmoronar,
Sim, a menina tem 25 anos
E mora sozinha,
Talvez, nem saiba
De tudo que acontece
Com a própria família.
Ela baixa o retrovisor
Do carro e busca pela fotografia
Dela com sua cachorrinha,
A doce Lara,
Que a espera ansiosa
Por sua volta,
Isto foi tudo que trouxe
De dez anos passados,
E as lembranças.
Lá atrás,
Dentro de uma igreja,
Ficou a garota que abraçou
As amigas,
Em nome da fé
Jurou amor por toda a vida,
Em respeito as crenças
Que carregava consigo
Jurou não esquecer,
Porém, a fotografia já está
Envelhecida
E outra desta mesma garota
Com outras duas amigas
Surge por descuido.
Abraçadas e sentadas
Na escadaria do colégio
Elas prometem amizades,
E o conhecimento
Que obtém todas juntas
Se encarregará de mantê-las unidas,
E no seu íntimo,
Desejam que os garotos cobiçados
Gostem delas e se importem
Em mantê-las amigas,
Porquê o mundo é feito
De verdades e fuxicos
E um cara idiota é capaz de tudo
Até mesmo separa-las,
Está foto caiu no assoalho do carro,
Sujou de café amanhecido
De uma garota que dirige sozinha
E se julga auto suficiente
E capaz de dirigir a própria vida,
E isto inclui esquecer a todas
E talvez, nunca mais
Voltar a reve-las.

Advogada

Nove anos passaram voando,
Advogada já a tanto tempo,
Escolho um domingo
Para descanso,
Folheio o álbum de formatura
Não há muito o que lembrar.
Cansada de cinco anos
E seis meses de estudos,
Eu não fiz festa,
Não gastei o dinheiro
Que não possuía
Nem fiz meus pais
Preocuparem-se com isso.
A dama de negro e vermelho,
Desfilou em seu primeiro
Mini vestido por baixo da beca jurídica,
Formada em leis,
Conhecedora de seus direitos,
Apta a defender seus objetivos,
Ponto de vista,
Buscar efetivar seus cinco anos
E seis meses de estudos.
O sorriso
Não saiu dos lábios
Nenhum minuto,
Contudo, eu esperei alguém
Ou mais que isso,
Sem meus óculos
Por entre a luz fraca
Eu não vi tantos
Que hoje,
Nove anos após isso
Queria ter visto.
Em pé a posar
Para minhas fotos,
Num ambiente iluminado,
Entre orquídeas
E chão acarpetado,
Eu imaginei meu escritório
E logo consegui isso.
A dama sorria
Com o diploma entre os dedos,
A fantasiar um mundo
De trabalho simples e honesto,
A acariciar o rosto
Com o título tão buscado,
O certificado jurídico de fornada.
Profissional da área,
A advogada de salto
E batom vermelho nos lábios,
Sonhos nos olhos castanhos
Bem abertos,
Com o peso da formatura
A exigir passos limpos
E iluminados.
Até aquele dia
Houveram momentos
De crises nervosas,
Choros capciosos,
Noites insones em busca
De respostas,
Conhecimento que conduzisse
Para ser a estrela iluminada
Por entre tantas advogadas,
Porque a estrada é aberta
Para que todos possam passar,
Contudo, é necessário brilhar,
Se destacar para conseguir
O sonhado sucesso
Que cada aluno que encerra
Seus estudos,
E cada um daqueles
Que iniciam seus passos
Sonham e buscam.
O número de uma matrícula escolar
É importante
É de lá que sai seu diploma,
Como se dissesse assim
“Parabéns, você formou-se”
Mas o sucesso requer mais que isso.
É maior que conhecer a lei,
É necessário ter habilidade
No conteúdo,
Saber identificar,
Buscar as soluções.
Lá, naquele rosto pequeno
E maquiado,
Pela primeira vez,
Havia uma busca,
Uma espera
E tristeza.
É difícil você esperar alguém
Que não pode vir
Nem lhe deu satisfação,
E você as cegas por ali,
Sem saber o que fazer,
No dia de sua formatura
Você não sabe de absolutamente nada.
Um choro sempre guardado
No peito,
A expectativa de um emprego,
A garantia do conhecimento,
A insegurança de haver tantos
E tantos neste ramo.
Penso que a gente
Busca um ombro amigo,
Um braço no qual se escorar,
Um cheiro de consolo,
E ter seus pais ali é bom nisso.
Mas a gente tem tantas certezas
Que parece que ao optar
Por uma faculdade
Os pais são postos de lado
E nós fazemos, finalmente,
Valer nossa vontade,
A sonhada liberdade.
Contudo, é impresso
E assinado aquele papel
E as pernas tremem,
O coração fica aos saltos
E os pais são buscados
Como se fossem faróis
De um único carro de socorro
Em uma noite escura.
Os irmãos
Que traçaram outros caminhos
Surgem para a pose
De família completa
E você pensa
“Então é assim que seria?”
É lindo olhar o rosto de seus pais
Tão jovial e realizados,
O susto pela ideia de que a filhinha
Finalmente vai traçar seu
Próprio caminho,
Libertar-se de suas ideias
E o conforto de seus atos,
E o confronto de ideias
Bate na sua cara
E você quase olha para eles e diz
“ ué, mas eu já não era liberta?”
A colega do seu lado
Escolhe você para umas fotos,
Nossos diplomas brindam
O êxito nos estudos,
Enquanto, na próxima
A gente já faz aquele “x”
“era aquela a resposta?
De qual questão?
Ah, estamos formadas!!!”
Não quer significar confronto,
Embora, ali fora,
Cada uma terá seu escritório
Ou faremos junção de ideias?
Vem o frio na barriga,
O medo de iniciar,
De errar ao atender
O primeiro cliente
E que erro haveria?
Não sei,
Nem sabe o frio da barriga.
Formados
E formadas,
Mãos levantadas
Em direção a uma plateia,
“Sim, iniciamos e conseguimos”
Advogados e advogadas,
Um grupo de pessoas preparadas
Para solucionar conflitos,
E o juramento de guiar-se
Pela lei é feito,
Momento solene de provar
Do gosto de seus êxitos.
Formada,
A advogada de salto,
Saia e batom vermelho,
Por entre a discrição e
Conhecimento do delito.
Trabalho, crime, lei e judiciário,
Longas passadas
Em uma escada comprida
Que guia até salas reservadas
Em que audiências
Decidiram todo o tempo de espera
E optaram pelos seus argumentos.

36 Anos

Chegado os 36 anos,
Você já se sente velho,
Deixa de esconder
Os cabelos brancos,
Decide o corte
Bem curtinho estilo masculino
Ou talvez maior,
Já se permite.
Em pé em frente ao espelho
Inspira e expira
Algumas vezes,
E sente forças
Para olhar para trás
E rever os passos feitos.
O caminho inseguro,
O caminho mais seguro,
Os motivos dos sorrisos,
O terror de seus medos,
E sente piedade
Ou sentimento de fracasso
Ao perceber
Quantas das pessoas
Para quem
Você entregou
Seus beijos
E que não foram tão fortes,
Não resistiram como você,
Morreram.
A dor que acomete
O peito é grande,
Vem até mesmo
Um sentimento de fracasso,
Pois afinal,
Quem errou?
Você com suas escolhas
Ou aquele que partiu,
Seguiu outro caminho,
Não resistiu.
É como perder um membro seu?
Será que se assemelha
A acordar logo no início
Da manhã
E não ter o movimento
De alguns de seus dedos,
Sentir o pânico lhe tomar
Por ter medo
De nunca mais
Poder mexer-se
Como aos seus 15 anos.
Naquela época
Era tudo tão simples,
São 21 anos,
Não é tanto,
O que houve
Neste caminho escolhido?
Drogas escondidas
Por entre seus remédios,
Brigas enfrentadas
No calor da raiva,
Amores perdidos,
Beijos não esquecidos?
Bem-vindo a minha vida,
36 anos vividos,
Dores nos ossos,
Dedos frios,
Amores não correspondidos,
O que eu fiz de mim,
Que houve com nós?
E aqueles que já caíram
Na estrada da vida,
Perderam-se para sempre,
Fui realmente melhor que eles
Ou apenas tive escolhas
Positivas?
Onde foi nosso erro?
A bebida,
A comida
Ou um pouco de casa escolha?
Dói lembrar os nomes,
Confesso,
Quase esqueci os erros,
Dói lembrar os medos,
E os segredos confiados
Para onde foram?

sábado, 18 de outubro de 2025

Laços de Afeto

Depois de tantos anos
Doando sangue,
Chega o dia em que
Encontrou um rapaz recebendo,
Ver com seus olhos
Que você realmente
Está ajudando alguém
É gratificante.
Você imagina que o salva
E isto é tão simples,
Demora poucos instantes,
Não fere,
Só faz bem.
Ele estava de olhos fechados,
Não se movia,
Então, deitei na maca
Bem ao seu lado,
Vi sua mão imóvel
E quase sem vida,
Branca, pálida, frágil.
Senti como se ele
Falasse comigo
E eu pudesse ouvi-lo,
Isto realmente
Foi um milagre,
Ele não falava,
Parecia morto,
Estava há muito tempo
Naquele estado
De dependência
De outro alguém...
Eu estendi minha mão
Que doava sangue
E toquei a sua,
A mão dele continuou quieta,
Estava fria,
Meus olhos se encheram
De lágrimas,
E eu desejei salva-lo,
Desejei muito.
Então, num impulso
Que eu não entendi
A mão dele que recebia
Meu sangue moveu-se,
Ele abriu os olhos
E moveu a cabeça
Para a minha direção,
Eu permaneci quieta e sorri.
O coração dele
Pulsou intenso,
O meu também,
Depois disso
Ele procurou meus lábios
E me beijou,
Ali deitada a entregar
Meu sangue para ele,
Fui beijada por muito tempo.
Ele me chamou de esposa,
Eu disse Sim Sou,
A mão dele apertou
Ainda mais forte a minha mão
E eu desejei estar ao seu lado
Para sempre.
Ele esperou por anos
O que fui capaz de fazer
Por ele num único momento
De um único dia,
Meu sangue
E minha crença de poder
Salvar sua vida,
Nossas vidas,
Que agora e para sempre
São uma.

Um Princípe