sábado, 26 de julho de 2025

Copo Vazio

É plena segunda-feira,
Já não importam os dias,
Eu bebi mais este copo,
Talvez, apenas mais outra garrafa.
É cerveja,
Bebe-se até que caiba,
Depois, enquanto for capaz.
Iniciei com um trago,
Implacável trago,
Fui no bar do Zé,
Pedi um trago de pinga,
Depois disso,
Ele organizou um lugar
Para eu ficar,
E uma ficha
Para eu marcar
Para pagar depois
Minha bebida.
A verdade é que
Eu nunca parei,
Eu preciso de álcool,
Gosto de sentir o gosto
Em meus lábios,
A sensação de euforia,
A forma como tudo simplifica.
As vezes, eu caio sobre a mesa,
Estendi meus braços
E me debruço sobre o copo,
Acordou e retorno a beber,
Contudo, ultimamente
Ando sentindo uma sensação
De estar caindo,
Afundando para um ponto,
E este ponto traga tudo
Com ele,
E não se alcança o fim,
Não importa o quanto
Ele leve com ele.
Eu já encontrei o escuro,
Acordei assustado
E disse: “dormi”,
Olhei pro Zé
E pedi mais cerveja,
Faltava cerveja,
Era isto, apenas.
Este abismo,
Para o qual o trago leva,
Não é profundo,
Na verdade,
Não tem fundo,
Se cai nele e pronto.
Ele é algo
Dentro de um espaço ilimitado,
Que me aprisiona,
Me faz latejar a cabeça,
É sério,
Por vezes, me preocupo.
Um único trago,
Com gosto de outros,
Depois o torpor,
Uma sensação de vertigem
Que retira o chão,
Um rodar de tudo
Que está seguro:
Casamento, filhos, trabalho...
Momentaneamente,
Me sinto sem fôlego,
Porém, é meio da tarde,
Acordo e o trago
Está no copo preso
Em minha mão
Quente e intocável,
Eu digo: é sonho.
Bebo de novo.
O Zé já sabe
Qual a marca que prefiro,
A temperatura do suor
Que percorre o copo,
E até mesmo o copo favorito,
Eu sou um enjoado
No que se refere a bebida
Que bebo,
Quem me vê no bar
Não nota,
Eu me esforço para ser discreto,
Mas, a verdade
É que tenho minhas preferências,
Ah, se tenho!
Mas, quanto a dormir
Sobre a mesa?
Será mesmo?
Imagino que a pilha
Do relógio é que está fraca,
Vazio que traga...
Só se for o vazio do copo,
Trago que engole
E sufoca...
Só se for bebida fraca.

O Que Houve Com o Amor?

São oito horas da noite,
São dez horas,
Então, meia noite,
E agora... Madrugada.
Calculo, no escuro
Que se aproximem das três horas,
“Ela não está aqui”
Digo para mim mesmo
No escuro do quarto.
Jogo meu braço
Para o lado,
Encosto em seu corpo,
Mas, não a sinto,
É como se não estivesse comigo,
Em algum momento
Do percurso do nosso casamento
Nos perdemos.
Tenho planejado
O amanhã,
Como desenvolverei meu trabalho,
Quais resultados desejo,
Com quais me satisfaço,
E diante de quais me replanejo...
“Em quê ela pensa?”
Não tenho vício
Por trabalho,
Ou outro qualquer,
Gostaria de recuperar
O que houve de bom
Entre nós,
Queria buscar um assunto
Com o mesmo empenho
Que me dedico aos afazeres
E os mesmos êxitos.
Sou professor há cinco anos,
Tenho dez anos de casado,
Deveria estar mais apto
Ao assunto sucesso conjugal,
Contudo, não está explícito.
Imagino que não se trate
De traição,
Eu não gostaria
De sair feito um pouco
Atrás dela
Por onde quer que vá
Em busca de pistas,
Ou de um novo rosto.
Lágrimas inundam
Meus olhos,
Pensar que tenha um
Novo homem
Não me satisfaz
Como ser humano,
Ao contrário,
Me amedronta,
“tenho medo de perde-la”.
Gostaria de dizer.
A matéria de aula
É bem desenvolvida,
Eu uso livros, slides,
Filmes e o assunto
Acontece de maneira simples,
Todos entendem,
Mas, falar de amor
Parece diferente,
“ Por qual assunto início?”
Parte de mim
Também não está
Mais aqui,
Nem com outra mulher,
Gostaria de saber,
Se confiasse em orações,
Só pediria esclarecimentos
Sobre o que houve
Com nós?
O que desgastou
Nossos anos juntos
Que nos tornou
Dois estranhos
Um para o outro,
De maneira sórdida
Que não percebemos,
Estamos entardecidos?
O dia se aproxima,
Eu vejo pelo clarão
Da janela
Que reflete sobre
Nossa cama.
Queria saber
Como iniciar está conversa,
Como organizar
Tudo entre nós,
Mas devo discutir
Sobre qual assunto,
Se de fato,
Não brigamos.

Diálogo

O dia acorda nublado,
Eu preciso escolher
Entre dormir até tarde
Ou me forçar a levantar.
Eu já não sei
Se gosto de levantar tão cedo,
Tomar o café
Nas horas certas,
Almoçar pontualmente.
Penso em meu corpo,
Imagino que roupa gostaria
De usar,
Me imagino levantando
Até o roupeiro,
Pegar a roupa e vestir,
E depois disso?
Já não sei o que fazer.
Parece estar tudo determinado,
Metodicamente descrito,
Dia a dia e hora a hora,
Feito um filme prescrito.
Me cansei disso.
Lembro de conversas
Com amigos,
Recordo eles me falarem
Sobre sessão psiquiatra,
Remédios e descansar...
Pois bem,
O descansar me leva
Ao quarto,
Nele já estou,
Já posso economizar
Determinismo com médicos.
Me sento,
Coloco as duas mãos
Em minha cabeça,
Aperto um pouco,
Sinto a vida me ganhar,
Vou até o telefone,
Digito seu nome:
-“ pra quê, se eu tenho você?”
Eu indago,
Imediatamente assim
Que me atendem.
- “sim, vamos conversar.”
Ouço em resposta.

Pensando o Inferno

A mente é território amplo,
Nela podemos cultivar
O que for,
Cabe tudo lá dentro,
Desde os mais lindos anjos,
Até o mais consagrado demônio.
Escolhemos alimentar
O que quisermos,
No território fértil
Do pensamento,
Contudo, alimentado
O demônio ganha asas
E voa,
Percorre o sono,
Percorre territórios desconhecidos,
E a depender de como
Alimentar seu próprio anjo,
Ele pode não ser tão forte
O bastante
Para recuperar
O que o demônio
Tenha espalhado.
A mente é aberta,
Nela tudo entra,
Se não houver um crivo,
Haverá também o pensamento
Destrutivo,
Que se enraíza lá dentro,
E destrói por fora.
Há pensamentos
Dos quais não se possa fugir,
Eles estão instalados,
Contudo, há atitudes
Que se possa evitar,
Elas dependem
De serem postas em concretude.

Demonizando

A solidão me abraça,
Eu estremeço em dor,
Há um inferno
Que queima,
Ele soluça para fora
As minhas lágrimas,
E elas escorrem
Por meu rosto,
E está dor me fere.
Sinto que se eu permitir
Pensamentos ruim
Irão se apossar de mim,
E estas lágrimas
Precisam escorrer,
Me percorrer
E chegar a algum lugar.
Um fosso,
Não quero ser um abismo
Para a dor,
Onde tudo de ruim
Ganha espaço,
E toda ira ganha forma.
Este fosso
De ideias erradas
Escaldante por dentro
E saltam pra fora,
Me vejo a gritar,
Formar frases terríveis,
Estou insensível
E desejo ferir.
Minhas palavras
Saem deste fosso
De dor e desespero
Feito lava,
Cada palavra queima,
Cada frase chega
E corrói,
Cada ato destrói.
Não quero me banir,
Viver num casulo
Onde só eu própria exista
E me veja como a mais importante,
Há um céu fora da dor,
Preciso me puxar deste desespero,
Abandonar o fosso,
Abrir a dor,
Expor estes medos,
Deixar o que for
Que me faça mal.
Vagar sozinho
Por uma estrada deserta,
Nem sempre é possível,
Há um mundo
No meu redor,
Preciso estar atenta a isso,
Receber o que vier de bom,
Guardar em mim
Só o que seja positivo,
Me vejo a ruir,
Fazer de mim um inferno,
Preciso sair disto.
Em troca,
Entender a minha individualidade,
Me permitir vagar,
Encontrar um lugar,
Ser auto suficiente,
Todo o mundo lhe pertence,
Contanto que o que você queira
Não tenha dono anterior,
Neste caso,
Pode estar a venda ou não,
Há um limite
Em mim mesma
Que esbarra no limite
Do outro,
O cair em abismo
Só serve,
Quando se trata
Para dentro de si próprio,
Os outros abismos
Também já pertencem
A alguém.
E não se faz morada
No que não lhe pertence.

Mortos Vivos

Olho o horizonte
E vejo o pássaro a voar,
A borboleta a brincar
Na flor que oscila
Ao vento,
A árvore que perde o fruto,
O sol que deixa tudo visível.
Há nisto,
Neste momento pessoas
Que estão partindo,
Para estas o pássaro
Irá cessar o vôo,
A borboleta se cansará,
E o fruto irá perecer
Sobre a grama fresca,
Também o sol,
Este nunca mais mostrará nada,
Nem nascerá.
Para estas pessoas
Que partem,
Nada mais existirá,
Apenas o escuro
Do fechar os olhos
Numa noite fria,
E não abrir mais.
Chega o fim,
A morte,
Resultado inesperado,
Mas, que sabe-se
Um dia chegará,
E cada passo para o futuro,
É um mais próximo.
Nisto, tudo parece
Tão breve,
Tão leve e frágil,
Tão... Quase inútil.
E assim que acaba:
Viver e depois disso,
Morrer.
Nesta perspectiva
Tudo parece resultar em nada,
Neste aspecto,
Como seria dormir
Um sono eterno?
Crescer e chegar
Em certa idade
Então, deitar na cama
E apenas dormir,
Sereno e tranquilo,
Dormir.
Ter comida pronta
Sempre que quiser,
Banheiro no quarto
Para satisfazer as necessidades,
E neste lapso de tempo
Dormir e mais nada.
Há nisto algo de invejar
Os mortos,
Eles estão além da vida,
São só a morte.
Não buscar,
Não conquistar,
Não se preocupar
Nem sonhar,
Apenas permitir
O tempo passar
E dormir.
Os mortos fizeram
As pazes com a morte,
Eles não se preocupam
Com este destino,
Não pensam neste fim,
Não caracterizam como seria,
Não premeditam nada.
Eles não possuem medo
De sentir dor,
Não tem medo dos erros,
Só que onde estão
Estas coisas não possuem
Importância
Porquê lá eles não fazem
Mais nada.
Só há o escuro,
E por mais que se queira,
Não há como abrir os olhos,
Abandonar o quarto escuro,
Ver o sol nascer,
E buscar as conquistas
Sem temer o erro,
Ou sentir dor.
Porquê mortos estão mortos.

Meu Amor Me Amou Por Um Ano

Meu amor
Me amou por um ano,
Um ano inteiro
Do mais puro amor,
Depois disso,
Meu amor
Me amou mais que isso.
Ele fez coisas
Que foram necessárias
Por nós dois,
Então, nós nos multiplicamos
E tivemos nossos filhos,
Ele protegeu nossos sentimentos,
Por isso,
Nos dividimos
E cuidamos de nossas famílias.
Meu amor
Me amou por um ano,
E depois me amou
Por outros tantos
Que não posso contar quantos,
Contudo, sempre foi muito amor,
E eu retribuo,
Porquê o amor por tudo isso,
E amo por mais um pouco.
Os anos somam-se,
Se repetem e sempre
Meu amor me ama
Muito mais que antes,
E se olhamos o passado,
Falamos dos anos
E percebemos juntos
Que um ano sempre
Superou o outro,
Nosso amor
Sempre tão intenso,
Sempre tão forte,
Nos mantém unidos
Em progresso.

Destino à ROCAM