domingo, 19 de outubro de 2025

Lembranças

As lembranças que guardo
Nestas fotografias
Voltam a minha memória
Nítidas e saudosas.
Lembro que neste instante,
Em que estou na janela
De mãos unidas
Eu rezava para o vento
Não ser tão prepotente
E deixar nosso terreno
Em paz.
Eu pedi a ele
Para não açoitar o telhado,
Não bater tanto as portas,
E que levasse a chuva forte
Com ele para longe.
Mas, ele me ouviu pouco,
Logo um raio caiu do céu
Com a rapidez de uma lâmpada
Que é ligada e acertou nosso
Pé de pitanga em cheio.
Ele era velho,
Já datava existência
Do tempo de meu avô,
Contudo, partiu-se ao meio,
Seu tronco rachado
Caiu no chão de terra molhada.
Ficou apenas a parte
Próxima a terra intacta,
Logo ele se regenerou
E produz frutos doces
Até hoje, cinquenta anos após.
Bem, me lembro que
Ao passar a chuva
Nós corríamos até
O porto para olhar o nível
Da água se subiu muito,
Para impedir
Que as vacas ao desconhecer
Os perigos
Chegassem muito perto
E caíssem no atoleiro.
Aqui nesta segunda fotografia,
Há a vaca atolada,
E na outra,
Veja, veja só,
Estamos eu e meu pai
De barco puxando a vaca
Para retirar ela dali,
Logo ela morreria,
Ou por estar atolada
Ou porque o rio
Iria encher-se mais,
O que me lembro bem
É que precisávamos ser rápidos.
As vacas nadam, sabe?
Mesmo as que nunca
Precisaram nadar,
Do nada,
Elas mexem suas patas,
Empinam o nariz
Para fora da água
E nadam.

Saudades

Para aplacar
Com os boatos
Na vizinhança,
A garota colocou
Um vestido colado
E posou para fotos,
Agora, seu rosto
E corpo estão estampados
Em poses a efeito
“Cala a boca”.
Não parece aquela menina
Que em casa dia que acorda
Se olha no espelho
Em busca de respostas,
Enquanto procura sua bolsa
Para ir para o trabalho,
Olha para trás
E repensa em tudo que houve
E como poderia ter sido diferente.
Neste pensar
Percorre o caminho
Que encurta distâncias,
Uma hora cruza o ponteiro
Do velocímetro do carro
E leva quilômetros consigo.
Vem na memória
Seu pai e uns dez anos lá atrás,
O vigor e sonhos
De uma adolescente
Que acreditou que poderia
Realizar-se,
Sonhou e buscou
E agora apenas percorre.
O pai a abraçar a mãe,
Num casamento exitoso,
Que agora teima em desmoronar,
Sim, a menina tem 25 anos
E mora sozinha,
Talvez, nem saiba
De tudo que acontece
Com a própria família.
Ela baixa o retrovisor
Do carro e busca pela fotografia
Dela com sua cachorrinha,
A doce Lara,
Que a espera ansiosa
Por sua volta,
Isto foi tudo que trouxe
De dez anos passados,
E as lembranças.
Lá atrás,
Dentro de uma igreja,
Ficou a garota que abraçou
As amigas,
Em nome da fé
Jurou amor por toda a vida,
Em respeito as crenças
Que carregava consigo
Jurou não esquecer,
Porém, a fotografia já está
Envelhecida
E outra desta mesma garota
Com outras duas amigas
Surge por descuido.
Abraçadas e sentadas
Na escadaria do colégio
Elas prometem amizades,
E o conhecimento
Que obtém todas juntas
Se encarregará de mantê-las unidas,
E no seu íntimo,
Desejam que os garotos cobiçados
Gostem delas e se importem
Em mantê-las amigas,
Porquê o mundo é feito
De verdades e fuxicos
E um cara idiota é capaz de tudo
Até mesmo separa-las,
Está foto caiu no assoalho do carro,
Sujou de café amanhecido
De uma garota que dirige sozinha
E se julga auto suficiente
E capaz de dirigir a própria vida,
E isto inclui esquecer a todas
E talvez, nunca mais
Voltar a reve-las.

Advogada

Nove anos passaram voando,
Advogada já a tanto tempo,
Escolho um domingo
Para descanso,
Folheio o álbum de formatura
Não há muito o que lembrar.
Cansada de cinco anos
E seis meses de estudos,
Eu não fiz festa,
Não gastei o dinheiro
Que não possuía
Nem fiz meus pais
Preocuparem-se com isso.
A dama de negro e vermelho,
Desfilou em seu primeiro
Mini vestido por baixo da beca jurídica,
Formada em leis,
Conhecedora de seus direitos,
Apta a defender seus objetivos,
Ponto de vista,
Buscar efetivar seus cinco anos
E seis meses de estudos.
O sorriso
Não saiu dos lábios
Nenhum minuto,
Contudo, eu esperei alguém
Ou mais que isso,
Sem meus óculos
Por entre a luz fraca
Eu não vi tantos
Que hoje,
Nove anos após isso
Queria ter visto.
Em pé a posar
Para minhas fotos,
Num ambiente iluminado,
Entre orquídeas
E chão acarpetado,
Eu imaginei meu escritório
E logo consegui isso.
A dama sorria
Com o diploma entre os dedos,
A fantasiar um mundo
De trabalho simples e honesto,
A acariciar o rosto
Com o título tão buscado,
O certificado jurídico de fornada.
Profissional da área,
A advogada de salto
E batom vermelho nos lábios,
Sonhos nos olhos castanhos
Bem abertos,
Com o peso da formatura
A exigir passos limpos
E iluminados.
Até aquele dia
Houveram momentos
De crises nervosas,
Choros capciosos,
Noites insones em busca
De respostas,
Conhecimento que conduzisse
Para ser a estrela iluminada
Por entre tantas advogadas,
Porque a estrada é aberta
Para que todos possam passar,
Contudo, é necessário brilhar,
Se destacar para conseguir
O sonhado sucesso
Que cada aluno que encerra
Seus estudos,
E cada um daqueles
Que iniciam seus passos
Sonham e buscam.
O número de uma matrícula escolar
É importante
É de lá que sai seu diploma,
Como se dissesse assim
“Parabéns, você formou-se”
Mas o sucesso requer mais que isso.
É maior que conhecer a lei,
É necessário ter habilidade
No conteúdo,
Saber identificar,
Buscar as soluções.
Lá, naquele rosto pequeno
E maquiado,
Pela primeira vez,
Havia uma busca,
Uma espera
E tristeza.
É difícil você esperar alguém
Que não pode vir
Nem lhe deu satisfação,
E você as cegas por ali,
Sem saber o que fazer,
No dia de sua formatura
Você não sabe de absolutamente nada.
Um choro sempre guardado
No peito,
A expectativa de um emprego,
A garantia do conhecimento,
A insegurança de haver tantos
E tantos neste ramo.
Penso que a gente
Busca um ombro amigo,
Um braço no qual se escorar,
Um cheiro de consolo,
E ter seus pais ali é bom nisso.
Mas a gente tem tantas certezas
Que parece que ao optar
Por uma faculdade
Os pais são postos de lado
E nós fazemos, finalmente,
Valer nossa vontade,
A sonhada liberdade.
Contudo, é impresso
E assinado aquele papel
E as pernas tremem,
O coração fica aos saltos
E os pais são buscados
Como se fossem faróis
De um único carro de socorro
Em uma noite escura.
Os irmãos
Que traçaram outros caminhos
Surgem para a pose
De família completa
E você pensa
“Então é assim que seria?”
É lindo olhar o rosto de seus pais
Tão jovial e realizados,
O susto pela ideia de que a filhinha
Finalmente vai traçar seu
Próprio caminho,
Libertar-se de suas ideias
E o conforto de seus atos,
E o confronto de ideias
Bate na sua cara
E você quase olha para eles e diz
“ ué, mas eu já não era liberta?”
A colega do seu lado
Escolhe você para umas fotos,
Nossos diplomas brindam
O êxito nos estudos,
Enquanto, na próxima
A gente já faz aquele “x”
“era aquela a resposta?
De qual questão?
Ah, estamos formadas!!!”
Não quer significar confronto,
Embora, ali fora,
Cada uma terá seu escritório
Ou faremos junção de ideias?
Vem o frio na barriga,
O medo de iniciar,
De errar ao atender
O primeiro cliente
E que erro haveria?
Não sei,
Nem sabe o frio da barriga.
Formados
E formadas,
Mãos levantadas
Em direção a uma plateia,
“Sim, iniciamos e conseguimos”
Advogados e advogadas,
Um grupo de pessoas preparadas
Para solucionar conflitos,
E o juramento de guiar-se
Pela lei é feito,
Momento solene de provar
Do gosto de seus êxitos.
Formada,
A advogada de salto,
Saia e batom vermelho,
Por entre a discrição e
Conhecimento do delito.
Trabalho, crime, lei e judiciário,
Longas passadas
Em uma escada comprida
Que guia até salas reservadas
Em que audiências
Decidiram todo o tempo de espera
E optaram pelos seus argumentos.

36 Anos

Chegado os 36 anos,
Você já se sente velho,
Deixa de esconder
Os cabelos brancos,
Decide o corte
Bem curtinho estilo masculino
Ou talvez maior,
Já se permite.
Em pé em frente ao espelho
Inspira e expira
Algumas vezes,
E sente forças
Para olhar para trás
E rever os passos feitos.
O caminho inseguro,
O caminho mais seguro,
Os motivos dos sorrisos,
O terror de seus medos,
E sente piedade
Ou sentimento de fracasso
Ao perceber
Quantas das pessoas
Para quem
Você entregou
Seus beijos
E que não foram tão fortes,
Não resistiram como você,
Morreram.
A dor que acomete
O peito é grande,
Vem até mesmo
Um sentimento de fracasso,
Pois afinal,
Quem errou?
Você com suas escolhas
Ou aquele que partiu,
Seguiu outro caminho,
Não resistiu.
É como perder um membro seu?
Será que se assemelha
A acordar logo no início
Da manhã
E não ter o movimento
De alguns de seus dedos,
Sentir o pânico lhe tomar
Por ter medo
De nunca mais
Poder mexer-se
Como aos seus 15 anos.
Naquela época
Era tudo tão simples,
São 21 anos,
Não é tanto,
O que houve
Neste caminho escolhido?
Drogas escondidas
Por entre seus remédios,
Brigas enfrentadas
No calor da raiva,
Amores perdidos,
Beijos não esquecidos?
Bem-vindo a minha vida,
36 anos vividos,
Dores nos ossos,
Dedos frios,
Amores não correspondidos,
O que eu fiz de mim,
Que houve com nós?
E aqueles que já caíram
Na estrada da vida,
Perderam-se para sempre,
Fui realmente melhor que eles
Ou apenas tive escolhas
Positivas?
Onde foi nosso erro?
A bebida,
A comida
Ou um pouco de casa escolha?
Dói lembrar os nomes,
Confesso,
Quase esqueci os erros,
Dói lembrar os medos,
E os segredos confiados
Para onde foram?

sábado, 18 de outubro de 2025

Laços de Afeto

Depois de tantos anos
Doando sangue,
Chega o dia em que
Encontrou um rapaz recebendo,
Ver com seus olhos
Que você realmente
Está ajudando alguém
É gratificante.
Você imagina que o salva
E isto é tão simples,
Demora poucos instantes,
Não fere,
Só faz bem.
Ele estava de olhos fechados,
Não se movia,
Então, deitei na maca
Bem ao seu lado,
Vi sua mão imóvel
E quase sem vida,
Branca, pálida, frágil.
Senti como se ele
Falasse comigo
E eu pudesse ouvi-lo,
Isto realmente
Foi um milagre,
Ele não falava,
Parecia morto,
Estava há muito tempo
Naquele estado
De dependência
De outro alguém...
Eu estendi minha mão
Que doava sangue
E toquei a sua,
A mão dele continuou quieta,
Estava fria,
Meus olhos se encheram
De lágrimas,
E eu desejei salva-lo,
Desejei muito.
Então, num impulso
Que eu não entendi
A mão dele que recebia
Meu sangue moveu-se,
Ele abriu os olhos
E moveu a cabeça
Para a minha direção,
Eu permaneci quieta e sorri.
O coração dele
Pulsou intenso,
O meu também,
Depois disso
Ele procurou meus lábios
E me beijou,
Ali deitada a entregar
Meu sangue para ele,
Fui beijada por muito tempo.
Ele me chamou de esposa,
Eu disse Sim Sou,
A mão dele apertou
Ainda mais forte a minha mão
E eu desejei estar ao seu lado
Para sempre.
Ele esperou por anos
O que fui capaz de fazer
Por ele num único momento
De um único dia,
Meu sangue
E minha crença de poder
Salvar sua vida,
Nossas vidas,
Que agora e para sempre
São uma.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Segurança Pública

Conforme a chuva cai
Toca o chão e escorre
Pela terra molhada
Eu repenso meu passado.
Penso em coisas
Que poderia ter feito diferente,
Em maneiras de amenizar
Meus tombos,
Ou feito um sonho
Nunca tivesse caído.
Mas, quando a prova chegou
Também me despreparou,
Eu esqueci conteúdo,
Dia dos testes
E estudei pouco,
Fui aos trancos e alcancei barrancos....
Bem, eu andava a pé,
Então, a colisão foi simples
Eu toquei o muro
Feito de terra e gramado,
Encostei as mãos contra a parede,
Esperei ser revistada,
Aguardei o resultado,
O fato é que eu não sabia
O que buscavam,
Com isso, não sabia
Se eu teria ou não.
Me virei,
Dei de cara com o policial
Que cansado de passar
A mão por meu corpo,
Buscou meu nome
E através dele conteúdo
Em seu próprio sistema
De anotações sobre pessoas.
Então, fui liberada,
Segui caminho,
Uma viatura veio na via
Do meu lado,
Eu olhei de soslaio,
Lá estava o Coronel,
Ele era velho,
Contudo, enxergava bem,
Dirigia seu próprio carro
E eu acenei.
Ele olhou e sorriu,
Nisto tudo,
Eu quis ser aquela
Que passou pela periferia
Armada desde criança
E não sentiu medo nenhum.
Eu não desejei conhecer
Cada pessoa que estava
Escondida por entre
Aquelas paredes de casas
Mal feitas com telhados
Despencando sobre suas cabeças.
Eu não quis
Nenhum pouco
Saber de suas necessidades
Ou repensar meu trabalho
Para entender como poderia
Suprimi-las,
Não.
Eu só quis não sentir medo
Daqueles olhos sujos
Escondidos por entre os escombros,
Com suas mãozinhas sujas
E dedos magros e compridos
Agarradinhos na sujeira
Mantendo apenas suas cabeças
De fora,
Com aquele cabelinho curtinho,
Rosto redondo e pequeno,
E uma arma ao seu lado
E medo nenhum
Naquele ser que não sabia
Onde estava seu pai
Ou sua mãe
E nem qual a responsabilidade
De se atirar para matar
E ferir alguém.
Ao invés disso,
Eu quis ser aquela
Que fez o Coronel
Parar seu carro
Um pouco antes da favela,
Abrir a janela,
Retirar a película escura,
E gritar:
“Venha eu te levo,
Conheço o caminho,
Posso mantê-la segura”.
Quis ser a moça
Que ultrapassou ambas
As ruas sem ter faixa
De pedestre onde pisar,
Sem medo de carros
Que viriam ou iriam
Porque o Coronel Edivar
Estava lá.
Eu nunca desejei ver
Aquela mãe debruçada
Sobre uma tábua de madeira,
Agarrada a um córrego
De água suja
Lavando suas roupas brancas
Em água marrom.
Não desejei nenhum pouco
Saber da dona Denilce
Que pulou a janela do segundo
Andar de sua casinha compridinha
Para o céu e bastante torta,
Para buscar suas roupas
Que o vento forte carregou
Para longe,
Quase próximo ao carro
Do Coronel Edivar
Que cruzou olhou
Juntou as peças e a entregou:
“Vento forte,
Heim, senhora”.
Ele disse ao entregá-la.
Eu não desejei ver
Aquela garota de saia curta
Que ao avistar o carro dele
Levantou a camiseta
Para lhe mostrar os seios
Que ainda se formavam nus.
Até que dois meninos
Desceram mais rápidos
Que o carro do Coronel
Edivar aquele moro feito
De terra desmoronando
E grama em seus carrinhos
De rolimã
E cruzaram a frente de sua viatura
O fazendo frear forte e rápido,
E os garotos se foram
Muito perto de sua frente
Para o outro lado do moro
E seguiram com seus sorrisos sujos.
Menos quis ver o Coronel Edivar
Não ter uma bomba de encher
Pneus para ajudar
A menininha que chorava
Sobre a roda da bicicleta
Com pneu murcho,
E que morava longe demais
De um posto de gasolina
Que pudesse ajudá-la,
Mas o Coronel Osvaldir veio
Logo atrás e ele tinha.
Foi simples,
Não demorou nada,
Ver ambas as viaturas paradas
A espera da criança que limpou
O sorriso branco,
Sujo de terra e com poucos
Dentes e sorriu.
O difícil foi vê-los
Saírem rápidos porque
Os garotinhos do lugar
Juntaram pitocos de cigarro
E começaram a jogar neles,
Amarrados a pedras,
Acho que quiseram pôr fogo
Em ambos.
Eu passei,
Olhei a garota dentro da viatura,
Lhe sorri,
Abri a porta com um olhar
Cúmplice e disse:
“Vou também”.
Ela desgostou ou não,
Eles se olharam sérios
Como se pensassem:
“algo mudou”.
Mas, coisas fixas
Não mudam por muito tempo,
Eu os vi parar mais para a frente
E saí do carro
Para pedir emprego
Na empresa próxima a tudo aquilo,
Onde minha prima trabalha.
Eu quis ser aquela garota
Que já tinha um emprego garantido,
Que não teria imprevistos,
Que estava segura,
Então, eu ouvi barulho
De tiros mais para cima,
Mas, ambas as viaturas
Já haviam passado,
Eu estava a caminhar de novo.

Agente Caracterizada em Busca de Apoio

Acordei em espasmos,
Minha boca doía,
Meus lábios estavam feridos,
Meu esposo,
Tentou me matar
Usando nosso travesseiro.
Eu sobrevivi,
Me levantei cambaleante,
E o encontrei tomando
Uma cerveja
Em nossa cozinha,
A comemorar.
- eu estou viva.
Eu disse
Pondo o rosto para fora
Da porta,
Ele se virou,
Puxou a cortina contra
Meu rosto e desferiu um soco,
Pleno e soberano
Sobre os ossos do meu rosto.
Meu nariz sangrou,
Eu tentei me afastar
E percebi que ele segurava-me
Através da cortina
Me apertando com seus dedos,
Dei um soco com força
Contra seu braço
E ele me soltou,
Então, me afastei e deitei
Sobre a cama de cobertor amarelo.
Nosso presente de casamento,
Meu pai nos deu,
Quando me confiou a ele
Para cuidados, amor
E família.
A coberta guardava
Poucas marcas,
Acho que ele a enrolou
E tentou enfiar no meu ânus.
Meu bumbum ardia,
Minha boca tremia,
Eu sangrava.
Ele pegou quatro garrafas
De cerveja da geladeira
E saiu trabalhar.
Depois da madrugada,
No amanhecer eu lavei o rosto,
Em água corrente,
Chorei para passar o susto,
Me vesti e fui para o trabalho.
No caminho liguei
Para a polícia,
No retorno do trabalho,
Eu fiz sinal de socorro
Para a base militar,
Pedi ajuda sem sair
Do ônibus.
Corri para casa,
Na noite,
Um Tenente invadiu a casa,
Acordei e ele estava
Sobre meu corpo desnudo.
Eu disse:
-Senhor o que é isso?
Ele sorriu e se afastou.
Um capitão entrou no quarto
Depois que ele saiu,
Balançou a cama
Chacoalhando para frente
E para trás
Batendo contra a parede
E saiu.
Eu fiquei em silêncio,
Estarrecida e nua.
Não levantei fechar a porta,
Não entendi como entraram.
Mais tarde,
Acordei com dores no pescoço,
Dias após o anterior,
Olhei para a janela
E a cortina branca continha sangue.
Eu olhei para a minha bunda
Imediatamente e disse:
-Ai, sangrei.
Então, escorreu sangue
Por meu rosto.
-outro soco?
Eu me indaguei.
-de meu esposo
Ou de algum policial armado?
Eu não soube.
Eu não tive com quem
Contar.
Na sala um capitão
Dava aulas de direito ambiental,
Era o mesmo que invadiu
Meu quarto,
Aquele que fez barulho
Insinuando sexo.
Passou poucos dias
E ele entrou outra vez
Em minha casa
Com uma mulher
E um Tenente Coronel,
Eu acordei com as vozes,
Eu não soube sobre o que era,
Ele me viu nua,
Outra vez,
Deitou na minha cama,
Depois disso,
Pulou nos braços daquele
Tenente Coronel, o Venâncio.
E foi horrível ver,
Um homem diante de outro homem,
De maneira tão sórdida,
Eu não disse nada outra vez,
O pânico cala minha garganta.
Mais tarde,
Poucos dias,
Acordei e meu olho direito
Ardia,
Meu esposo Tiago
Estava segurando minha língua
Com três dedos
Tentando arranca-la.
Ele me cortou,
Se cansou e saiu.
De outra vez,
Um Coronel entrou,
O Bedin,
Ele deitou sobre minha cama,
Me olhou,
Haviam pessoas com ele,
Eu acho que tentei contar,
Ele me olhou assustado.
Meu esposo,
Desejou tomar minha casa,
E o terreno que meu pai
Nos deu para viver,
Ele conversou com um pessoal
E eles invadiam por meio
De vozes a minha privacidade
E davam ordens a ele,
Ordens de morte.
Então, clonaram meu número
E fizeram milhões
De ligações falsas,
E aceitavam as ligações
Que desejavam
Na tentativa de me internar
Em hospital psiquiátrico
Para ele auferir todo o lucro.
Ficar com casa, carro
E bens da minha família,
Todos para si próprio,
Eu não sei o que estas pessoas
Lucravam,
Mas, fui ferida e muito.
Convidada a ir
Apresentar sobre minha monografia
No batalhão de polícia local,
Oportunamente
Relatei a história,
Ninguém acreditava em mim,
Tudo parecia contrário
Ao que eu dizia.
Nesta altura
Eu já era considerada
Uma criminosa.
Havia cometido delitos
De menor potencial ofensivo
Como ameaça, rixa, calúnia
E importunação.
Não parou por aí,
Eu contei tudo,
Arriscando sair daquele chão
Numa camisa de forças,
Para tratamento interno.
Então, uma caminhonete
Grande e duplada e caracterizada
Invadiu o local com quatro
Homens armados a fuzis.
Eram os tais que haviam
Invadido a minha casa:
O tenente Felipe,
O capitão Sadiomar,
O Tenente Coronel Valdez,
O coronel Edivar...
Todos os quatro passaram
Dentro do quartel,
Com fuzis nas mãos,
Enquanto os demais policiais
Estavam sobre o palco
A minha frente.
Passando lá,
Eles descarregaram
As armas sobre o palco,
Seguiram viagem
Para a frente e saíram.
No entanto, os quatro
Respectivos estavam sobre
O palco, Felipe e Sadiomar
Morreram imediatamente,
Os outros dois ficaram feridos.
Quatro oficiais de polícia
Atentaram contra estes mesmos e outros,
Eu fiquei do outro lado
De livro em mãos
E lábios calados,
Fiz meu trabalho de conclusão
De curso superior
Relacionado a área policial,
Por isso, estava lá.
Mediante a troca de tiros,
Eu sobrevivi,
Contudo, quem explica
Os rostos reconhecidos?
Os verdadeiros policiais
Eram os de sobre o palco
Ou os armados?
Todos vestiam-se de fardamento,
Uns pareciam ter o controle
Sobre este sistema
E os outros,
Eram apenas alvos?
Quem atentou contra
A minha vida,
Enterram-se os mortos
Pelos nomes antigos
Ou saem pelo anonimato?
De um número de fardamento
Para o buraco de um indigente,
Quem são estes?
-Eu busco apoio.
Eu busco apoio.
Gritou um soldado
De dentro de uma viatura
Passando em frente ao quartel,
Então, ele parou,
Olhou para aqueles caídos,
Viu os feridos
E lá longe avistou a viatura
Contendo os mesmos agentes.
Ao passar a viatura,
Eu, Aline, juntei minha bolsa,
Retirei dela uma pedra
Que levei comigo,
Então, a joguei contra o motorista 
Que desfaleceu
Sem demonstrar nada,
Continuou caminho
E colidiu contra a companhia 
De polícia ambiental e explodiu,
Levando para os ares
O pequeno prédio,
No subsolo do prédio 
Havia materiais de sistema 
De vozes e interceptação,
Ainda haviam 15 indivíduos,
A explosão os matou,
Estragou os materiais,
Danificou provas,
Mas, estão lá a vista pública.
E a outra viatura 
Que seguiu adiante 
De que se tratava?
Outros policiais duplos?
Ou seja, triplos?
Ou mera coincidência de características 
Como modelo, numeração e cor?
Lá longe ela virou a esquina,
Feito uma miragem 
Que some aos poucos da vista,
Com suas armas expostas
E seus agentes armados lá dentro,
Mas, meu esposo,
Ele nunca foi policial
Ou usou armas,
Sequer aprendeu a dar um tiro,
Mas, me faz seu alvo
E eu preciso fugir disso,
Peço o divórcio 
Ou o número do necrotério?

Destino à ROCAM