sexta-feira, 25 de julho de 2025

Areias do Tempo

Ninguém é dono
Das areias do tempo,
Sabe-se que são finas
E correm sem parar,
Mas, ficaria mais simples
Se pudéssemos saber
Quando seria o último:
Último pegar de mãos,
Último abraço,
Último pulsar do coração,
Último beijo,
Último olhar,
Último adeus.
Seria mais simples
Saber quando seria
A última vez
Em que abraçaríamos
Nosso melhor amigo,
E que a partir daquele instante
Ele se tornaria um inimigo,
Ou um estranho,
Ou fosse ali mesmo
O seu último dia.
De repente,
Teríamos mais carinho,
Ou mais cuidado
Ao confidenciarmos algo,
Ou profunda entrega
Daquele que nunca mais
Tornará a ser visto.
Talvez, simplificasse
Saber se o beijo que damos
É de amizade,
Ou é de amor,
E quando este se tornar
O último a ser entregue,
Não nos paire a dúvida,
Muito menos arrependimento.
Seria simples
Se pudéssemos descobrir
Quando seria a última vez
Que nos despediríamos
De alguém,
Depois disso,
Viveríamos pra sempre juntos,
Ou nunca mais tornaríamos
A vê-lo,
O adeus seria diferente,
Porquê o gosto da unicidade
Dá mais intensidade,
E a certeza nos faz bem.

Saudades

Espero.
Espero até nossa mãe
Fazer o jantar,
Espero,
Espero até poder
Me alimentar,
Espero,
Espero até ver
Nossos pais se alimentarem,
Espero.
Decido mudar
O rumo das coisas,
Talvez, fosse pra esses lados
Que meus bois
Estivessem levando a carroça,
E eu simplesmente,
Deixei seguir o rumo,
Talvez, fosse pelo lado oposto,
E eu tenha puxado a corda
Na hora certa,
E eles tenham se encaminhado
Comigo a guia-los.
Mas, deixo ela lavar a louça,
Falo pra ele levar a louça
Até a pia,
Ambos retiram a toalha,
Limpam a mesa,
E eu espero.
Espero até passar
Outro capítulo da novela,
Outra notícia
No telejornal,
Outra conversa paralela,
Outro assunto sobre a família,
Espero.
Então, me dirijo ao seu quarto,
Abro a cortina
Com um susto:
Você não está lá.
Sinto seu cheiro
Invadir minhas narinas,
Está tudo tão vivo,
E tão no lugar,
Parece inalterado.
Espero até sua imagem
Se personificar,
Busco seu sorriso,
Seu jeito,
Sua voz,
Quase não respiro,
Quase não resisto ao choro,
Quase não resisto ao torpor
Que talvez me faça
Não sentir as lágrimas.
Depois disso, dou outro passo,
Estou dentro,
Próximo ao seu cantinho,
O lugar onde você dormia,
Dou dois passos
E estou na sua cama,
Com seus cobertores estendidos,
Seu travesseiro organizado
E limpo.
Espero até me ver respirar,
Busco suas histórias,
Sua rotina,
Busco onde você está?
Sinto saudades suas,
Deito em seu lugar,
Sinto vontade de morrer
Um pouco,
Não muito,
Só o bastante para ir
Até onde você esteja,
Não me contento
Com a lápide com seu nome
Sobre um chão de cemitério,
Não,
Você não está lá,
E eu desejo vê-lo,
Desejo buscá-lo,
Gostaria de abraça -lo,
Na casa,
Nossos pais sentem dor,
Eu noto na voz arrastada
E dolorida de cada palavra,
Nas ausências,
Nas conversas que o buscam,
Eu sinto vontade de morrer,
Apenas até te achar,
Nossos pais sofrem,
Onde você poderá estar?

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Amar é Compreender

O amor é carinho
E felicidades,
Amar alguém é cuidar
E dar liberdade,
Permitir que o outro
Possa ter sonhos,
E se nestes sonhos
Você estiver incluído,
Aí sim,
É amor.
Amor é ser forte,
Mas isto não requer
Ser sozinho,
Amar é confiar,
Entregar seus medos,
Compartilhar os sonhos
E ter no outro
Um abraço para os dias bons,
Um ombro para qualquer dia
Onde você tenha consolo,
Tenha repouso,
Tenha um amigo.
O amor é bondoso,
As vezes, ele se exalta
Diz coisas sem pensar,
Pois amar também é isto,
Pedir compreensão
Pelas raivas que se passa,
Não ser julgado
E não ser obrigado a chorar
Sozinho.
Amar é ceder,
Dar afeto e estima,
Compartilhar as coisas boas,
Abandonar o espírito competitivo,
Amar é estar completo
Ao lado do outro,
Não precisar buscar refúgio
Em outros abrigos,
Nem ser falso ou raivoso,
Ferir não é cuidar,
Contudo, gritar, as vezes,
É preciso, seja calmo com isso,
Porque amar é compreender.

No Pré Escolar

Lá na escola
Havia um amiguinho,
Ele era mais velho,
Não sei bem certo matematicamente,
Ele tinha quinze anos,
Eu tenho 1, 2, 3, 4.
4 anos completos
Mês passado.
Foi meu pai quem me ensinou
A contar usando os dedinhos,
Já estou no número quatro,
Mais um e são cinco,
Então, eu passo para a outra mão.
Minha mãe diz
Que eu já posso contar
De cabeça
Sem precisar falar o número
Alto, nem usar os dedos,
Mas, eu acho assim
Mais fácil.
A professora não reclama,
Ela possui 22 anos,
São mais anos que eu
Possa contar,
Eu estou no pré-escolar.
O amiguinho de chama Fernando,
Ele limpa o pátio,
Usa uma foice
E corta os galhos altos,
Com uma inchada
Arranca o mato pequeno.
Eu tinha medo de ir
Até lá,
Então, ele limpou
E me levou sozinha.
Ele subiu no pé
De goiaba e me tirou
Várias goiabas enormes,
Eu não conhecia a fruta,
Aí ele mordeu com sua boca
E pôs dentro da minha.
Depois me levou
Para fazer xixi
Atrás do pé de banana,
Havia bananas maduras
No cacho,
Ele tirou minha roupa,
Eu senti medo,
Disse que não tinha vontade,
Mas, ele disse que me ajudava,
Mexeu na minha vagina.
Depois tirou bananas
Para eu,
Eu senti dor depois
De ele ter mexido em mim,
Aí ele passou a mão
No meu corpo,
Depois me fez voltar nua
Para a aula com a roupa
Na mão
E me mandou contar
Que fiz cocô.
Mas, eu não havia feito.
Eu falei o que ele mandou,
Ela veio até eu e
Me vestiu,
Olhou para ele de maneira
Estranha,
Ele estava colhendo salada
Na horta para o lanche
Da aula.
Depois, ele limpou a salada,
Então, voltou a tirar frutas,
Dois dias depois disso,
Ele quebrou o abacate ao meio
E colocou ele dentro
Da minha vagina,
Nisto, ele disse que
Eu precisava de carinhos,
Tirou a roupa dele
E me pôs sentada em seu colo
Esfregou o pênis dele
No meu corpo nu,
E depois me fez sentar
Com o bumbum nele.
Doeu e ele disfarçou
Meus gritos sorrindo alto,
Depois me falou que
Uma cobra me pegou
No bumbum
E agora ele iria doer muito,
Por muitos dias,
Mas ele tinha remédio.
Todos os dias
Eu fui buscar o remédio,
Senti frio quando
Precisei tirar a roupa,
Dor quando o remédio
Era difícil de entrar em mim,
As vezes, o remédio
Estava na boca dele,
As vezes nos dedos,
E as vezes no pênis,
Ele escolhia onde pôr
O remédio em mim,
E só ele sabia onde estava,
Por isso eu não poderia
Contar para ninguém
Sobre as minhas dores,
Caso eu contasse
Eu poderia morrer,
Só ele tinha o remédio.
Mas, a professora
Estranhou minhas mudanças
De humor e meus choros,
Me seguiu um dia,
E me encontrou sentada
No pênis dele.
Ele tirou uma guanxuma
Do lado de onde estávamos
E bateu nele com ela,
Me tomou dos braços dele,
E correu comigo no colo
Chorando.
Ela sentiu minha dor
E disse que iria encontrar
Remédio para a mordida
Da cobra,
Jurou que eu iria sarar,
E me ensinou a escrever direitinho
Para que eu pudesse contar
A mamãe e papai
Amanhã no dia dos pais na escola
Através desta carta
Que eles irão ler juntos
E decidir um remédio
Para o garoto que fez isto
Em meu corpo,
Porquê a professora jura
Que eu sou sã,
Ele é que é doente.
Ele é sempre cheio
De amiguinhos no seu redor,
Agora cada colega
Está escrevendo sua carta,
Marcelo ficou cego,
Não pode escrever,
Mas ele fala as palavras
E a professora coloca
Na carta,
Os outros todos se esforçam
E sanam poucas dúvidas
Que a professora sempre responde
E ajuda.
Amanhã será um dia diferente
Para nós
E para aquele garoto,
Eu já acredito
Que nunca fui tocada
Por uma cobra
Porquê não vi nenhuma,
Era ele mentindo,
Com isso ele tocou
No meu corpo todo
De todas as formas que pode.
Ele mentiu.
Agora eu odeio mentiras.
Marcos, tem cinco anos,
Ele me disse que não é
Picada de cobra
Lá no banheiro 
Quando nós fizemos sexo,
É assim que se chama 
E ele sabe.
Agora ele quer
Que eu faça sexo
Só com ele,
Ele disse que é ele
Que me ama
E não o garoto 
Que limpa a escola.
Nós fizemos sexo 
Para se divertir no recreio,
É uma brincadeira 
Muito boa,
É igual pique e esconde,
Só que muito melhor.
Eu não sei,
Eu senti dor,
Não sei se gosto,
Mas, ele me espera
Dentro do banheiro,
E aí me abraça.
Ele agora quer me levar
Pra casa,
E brincar comigo
Também lá.
Preciso pedir pra mamãe 
E papai para levá-lo.
Ele quer dormir comigo
E ficar mais tempo brincando,
Eu digo a ele: " dói".
Ele diz " já sara".

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Coisas que Fiz na Sua Ausência

Eu jurei contar tudo
Para meu irmão,
Nunca ter segredos
Ou não confiar nele,
Porém, quando ele morreu
Haviam coisas que eu não disse.
Eu me coloquei sobre
Seu corpo dentro do caixão,
O abracei forte,
Beijei seu rosto,
Beijei suas mãos
E quis falar,
No entanto, quando o décimo
Parente me pediu para
Ter forças o bastante
Para me desvencilhar
Do abraço e permitir
Que os outros o vissem
E se despedissem eu tive
Que me afastar.
Senti um momento
Profundo de choque
Ante a ideia de despedida,
Olhei para fora da igreja
E vi que não havia a sua moto
Estacionada a espera-lo.
O busquei e ele estava
Neste caixão,
E agora se dirigia para o cemitério:
“ não, não quero me despedir.”
Eu falei alto.
“mas os outros querem “.
Alguem respondeu.
Eu nunca esqueceria está resposta,
Havia alguém
Com coragem o bastante
Para despedir-se dele,
Dizer adeus,
Distanciar-se,
Muitos se aproximaram
E lhe disseram coisas
E estes muitos estavam
Lhe dizendo adeus
Para sempre,
Com que coragem?
Com a coragem
Que eu jamais tive.
Em casa, o busquei
Nos corredores,
Seu cheiro estava pelas paredes,
Suas fotos na moldura
Pareciam falar alto,
Me levar para aquele dia
Em que estávamos juntos,
Todos nós:
Eu, ele, mamãe e papai.
Me escorrei naquela
Parede marrom
E comecei a dizer:
“Antes de você ir embora...
Eu beijei,
Sem te contar,
Ele era casado,
Exigiu sigilo,
Me pagou por isso,
Cinquenta reais,
Eu gastei em picolé
Na cantina do ginásio escolar.”
Bem, não ouve rumores,
Nenhuma fala,
Nenhuma censura,
Insisti: “ o homem disse
Que era pai de família,
Mas, sonhava em tirar
Uma virgindade
Ver qual era o sabor
Do primeiro orgasmo,
Eu vendi a ele um único...”
Olhei para o retrato
E ainda estava emudecido:
“depois vendi outro,
Então, outros”.
Basicamente, foi isto
O que escondi de meu irmão
Até aquela data,
Como sua fotografia
Estava muito alta,
Me desviei um pouco,
Peguei uma cadeira
E vi que estava vazia.
Alguém esvaziou a moldura.
Sorri.
Contar contei,
Agora, realmente,
Não restou segredos.
Guardei a cadeira no lugar,
E lá no final do corredor
Me representou de maneira
Muito forte que eu o via,
Sorri feliz,
Agora não tínhamos segredos
Algum.

Depois da Sua Perda

Perder meu irmão
Deixou tudo mais estranho,
Fui morar em outra cidade,
E quando retornei a casa
Dos nossos pais,
Não reconheci mais ninguém
E se eu me olhar no espelho,
Também rejeito este rosto
Inchado de tanto chorar,
Estes olhos vermelhos
De tanto buscar
E meu coração que pulsa
Cada vez que passa em frente
Ao cemitério onde agora ele vive.
Chegando a cidade,
Deixamos o carro
Em frente a praça pública,
Meu pai foi até o supermercado
Fazer compras
E eu fiquei próximo a ali,
Sentada num banco
Vendo o chafariz jorrar água
E as flores abrirem
Seus botões.
Nosso pai saiu
E esqueceu de travar o carro,
Nisto um homem correu até
A porta para abrir,
Vendo através do vidro
Que não havia ninguém
Ele foi depressa até o outro
Lado para levar o carro.
Eu achei ridículo,
Fiquei boquiaberta,
Estarrecida com a falta
De vergonha,
Na pequena cidade de cinco
Mil habitantes onde todos
Conhecem todos,
Onde meu pai nasceu,
E vive a sessenta anos,
Um sujeito achar que poderia
Roubar seu único carro
E deixar, ele, um idoso a pé?!
Soou tão ridículo,
Que não respondi por mim,
Simplesmente, cedi a estímulos,
Corri até o carro,
Abri a porta do carona
Onde eu estava,
Tirei de baixo do banco
Um taco de madeira grossa
E bati na cabeça do homem.
Ele cambaleou para trás
Já com a porta do carro aberta,
Buscando algo
Com o que ligar o carro
E fugir,
Ou talvez, apenas estragar
E causar prejuízo.
Me joguei sobre o capô,
Desferindo golpes naquele
Homem,
Ele sangrou,
E gritou por socorro.
“ Vagabundo, ladrão,
Acha que vai se safar?”
Gritei e bati nele.
O homem pôs o braço
Em frente ao rosto
E avançou contra mim,
Eu não senti medo
De golpeá-lo com mais força,
Ele ria,
“olha como ela se defende?”
Ele gritou rindo da minha cara.
Eu só olhei para cima,
Depois da rua,
No moro onde estava
O cemitério e imaginei
Meu irmão lá,
Na lápide dele,
Vendo eu sofrer tamanha repressão
E investida,
Então vi que o homem tinha uma arma,
Foi como se meu irmão
Me avisasse sobre isso.
Eu não medi esforços,
Não deixei nem um minuto
Meu irmão se preocupar
Com meu bem-estar,
Bati contra ele,
Até a mão dele ficar mole
E ele não poder
Retirar a arma da cintura
Que ele apenas mostrou
Que tinha.
Continuei a bater nele,
Senti medo de que matasse
Nosso pai,
Assim tão próximo
Do meu irmão
O fazendo parecer desajeitado,
Desvirtuado da família.
“jamais meu irmão
Irá se sentir mal
Por sua causa, jamais.”
Eu gritei.
E tornei a bater.
Ele correu.
De arma na cintura,
Correu até perder o sorriso.
Eu corri atrás
Com aquele taco de madeira
Em mãos,
Bati nas suas costas,
 Contra o seu rosto,
A sua cabeça,
Eu senti ódio daquele homem
Que fez meu irmão parecer
Ter nos abandonado.
Não importe quantos anos
Passem de sua morte,
Eu sei que ele nunca nos deixou
E isto nos mantém seguros.
Depois disso,
Me agachei com a madeira
Em mãos logo atrás do carro,
Que estava com a porta aberta
Eu sorri em meio ao suor
Que escorria por meu rosto
E chorei de pena do meu irmão,
Ele não merecia ser acusado
Desta maneira tão traiçoeira
De ter nos abandonado.
Nisto, duas garotas
Se aproximaram e me convidaram
Para uma noite de garotas solteiras,
Eu levantei o rosto
Com o sorriso aberto
E o choro cruzando os dentes,
A pele inteira,
E escorrendo sobre o queixo
E recusei.
Não sei,
Tão perto do cemitério desta
Maneira,
Eu receber um convite
Tão inesperado
Me pareceu um erro,
Um erro gigante,
Um erro grotesco o meu aceite.
Recusei,
Esperei dentro do carro
E fui embora com meu pai.

Flor de Papel

Quatro anos
Depois da perda
De um irmão
Não é suficiente
Para fazer esquecer,
Quanto mais o tempo passa,
Menos esquecer parece provável.
O busco,
Nas janelas de vidros,
Nos rostos rápidos,
Nos rostos que vejo,
Nas vozes que ouço,
Só o que faz meu coração acelerar
São estes vestígios dele
Que mantenho comigo.
E o mais é terror,
Terror por perde-lo tão cedo,
Pânico por ter sido fraca,
Insuficiente para protegê-lo,
Mesmo sabendo onde ele está,
No cemitério da cidade,
Eu o busco em outras lápides,
Outros cemitérios
E outras cidades.
Nem eu ou nossos pais
Aceitam a perda,
Vivemos de buscá-lo.
Encontrei uma carta
Junto as coisas dele,
Juntei coragem
Para me separar de algo dele,
Sabendo que a pessoa
Para a qual estas palavras
Estão endereçadas
Jamais as mereceram tanto
Quanto eu , ou nossos pais.
Mas, é de sua vontade,
E apenas hoje junto coragem,
Suas namoradinhas,
Todas elas estão vivendo,
Vão a festas, sorriem,
Beijam e tem filhos,
Não sei como puderam
Superar tão facilmente a perda,
Suprir a ausência dele
Com estes,
Que jamais deram como ele,
Meu irmão é insubstituível.
Bem, chego a faculdade
E me deparo com flores
Na cor branca e vermelha
Espalhadas por toda parte,
Não parece ser organização
Da universidade,
Penso que algum espertinho
Está se declarando a alguma
Desatenta.
Paro, junto uma de sobre o banco,
Me recosto no tronco
De um ipê cheio de flores,
Sinto o cheiro bom
Que vem dela,
Tem o caule verde,
E o colorido da flor
Mas é feita de papel,
Feito um livro de segredos,
De uma história desconhecida.
Olho a pizzaria a frente
Da universidade,
Quase vejo meu irmão
Escolhendo mil pizzas no rodízio,
E rindo para eu.
Depois dele ter partido,
Nunca mais pude
Comer pizza da mesma forma,
O vejo,
E ele não está,
O busco,
E sinto muita falta.
Não gosto de provar
Coisas novas
Então nem me atrevo,
É como se eu fosse falsa com ele,
Estivesse emprestando em algo
As escondidas,
Sem o conhecimento dele
Ou a presença,
Não consigo,
Há sempre uma ausência.
Bem, lembro de um garoto
Que um dia me deu um buquê
De rosas vermelhas,
Eu lhes disse:
“ Agora irão morrer,
Você as retirou da terra”.
Eu aceitei as flores,
Mas, não quis planta-las,
Não sei porquê
Não vi futuro naquele afeto.
Ele me disse:
“Faz parte da beleza
A instantaneidade da vida”.
Eu simplesmente respondi:
“Prefiro de plástico,
Que são as que permanecem comigo”.
Claro que eu as preferia,
Meu passatempo preferido
Se tornou limpar a lápide
Do meu irmão
E florir tudo ao redor dele,
Assim, flores de plástico nunca
Foram mais encantadoras,
Há um mundo de flores
Lá com ele,
Elas saltam para fora do jazigo.
Tem inúmeras cores
E variadas formas,
Encantam o lugar,
Certa vez, meu irmão
Colheu uma rosa
E a pôs no meu cabelo.
“ Ficou lindo.”
Eu disse a ele.
Então, juntei aquela flor
E amarrei uma trança rápida
Depois a pus ali no cabelo,
Olhei para o céu,
E chorei feliz,
Algo do meu irmão estava comigo
E o trazia para perto,
Muito perto,
E isto me abria para a vida
Feito uma flor que se abre
Na terra.
Em cada parte do chão
E escada tinha uma flor,
Haviam muitas flores,
Haviam versos a lápis
Escrito em suas pétalas,
Não resisti e olhei
De uma a uma,
Depois as soltei,
Algumas pendurei
Ao redor do cabelo,
Devo ter retido umas
Seis delas.
Não havia assinatura,
Nem remetente.
Quem seria o último romântico
Da faculdade de adultos?
Afinal, já estávamos todos
Nos nossos vinte e cinco anos
Quem teria estas ideias,
E quem as apoiaria?
Meu irmão, talvez,
Ele sempre gostou de flor.
Ao menos todas que via
Sempre colhia e me dava,
Adorava ver meus cabelos
Adornados em cores.
Lá no final da escadaria
Encontrei a dona da carta,
Beijando um rapaz,
Usando minissaia,
Não sei,
Mas, me pareceu mais
Que um beijo
Em pleno corredor,
Fiquei constrangida
E retive a carta.
Ela não merecia recebe-la,
Passaram quatro anos
E ela abandonou neste tempo
Toda a vergonha
E compromisso com a alma humana,
Seminua aos beijos no corredor
Era desmedido exagero
Para que eu a pudesse perdoar.
Meu irmão
Não conheceu este lado
Promíscuo dela,
Eu sim,
E a tempo de evitar maiores
Constrangimentos e dores.
Bem, nisto Nicholas me alcança
Com um pequeno buquê
De flores de plástico
E papel em mãos.
De primeira vista
Já vejo meu nome
Mil frases e ele:
“ Eu te amo”.
Me disse, de ímpeto.

Destino à ROCAM