domingo, 28 de dezembro de 2025

Meu Esposo Bondoso

Meu esposo,
Eu faço um novelo
De linha
E desfaço
Para lhe fazer
Uma blusa,
De tempo a tempo ,
Do início ao final,
Eu não poderia
Resumir sua bondade,
A beleza de cada ato,
A forma como nos ama
E nos privilegia.
A mesa é farta,
O prato de comida
É repetido até saciar
E nunca falta.
A casa é limpa,
Ele me ajuda a organizar
E nunca brigamos,
Ele faz todas
As minhas vontades,
Me mima
Com mais que sonho,
Me abraça forte,
E sempre está ao meu lado.
Eu só sei ser grata,
Nesta caminho
Onde seguimos juntos
Fazemos muitas amizades,
Ele sabe valoriza-las,
Sabe demonstrar
Nossa união e afeto,
Eu amo seus atos,
Sua beleza magnífica,
E ele cuida dos meus sentimentos,
Para que eu não me fira,
Retira minha ilusão,
Me torna madura,
Ele me ama
E eu o amo de coração.
Ele respeita
Quando eu pego
Nosso carro
E vou até o marcado
Apenas para ver
Nossos amigos,
Ele gosta disso,
E eu o amo mais por isso.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Se virar

Acho que eu tinha
12 anos,
Não mais que isso,
Naquela época
Bastava se alfabetizar,
Me recomendou
Minha mãe:
“Leia uma frase,
Sabendo ler
A frase inteira
Você está alfabetizada”.
E pronto,
Era isto,
Abrir um livro simples
E ler a frase,
Não mais que isso.
Contudo,
A enxada na terra,
De limpar o chão,
Fazer saltar faísca,
Me fez repensar
E acreditar em meus pais
Que a vida
Poderia ser melhor
E insisti nisso.
Busquei minha avó
E disse:
“Vó, eu quero aprender mais”.
Minha avó
Soltou a cuia de Chimarrão
De lado
Me olhou e disse:
“Faça poesia e prosa”.
E eu insisti nisso,
Prosear uma história,
Rimar numa poesia,
E quando voltei
Até a roça
Para ajudar meus pais
E meu irmão a limpar
A terra
Vi meu vizinho
Retirar o único casaco
Que possuía,
Enrolar numa pedra
E erguer a pedra
Em seus braços
Até o barranco
Para limpar a terra,
Eu vi que isto
Era útil
E iria ajudar
Se fosse feito
Também não nossa propriedade.
Porém, pedras são pesadas,
Exigem muito
De uma pessoa,
Isto requeria usar máquinas
Que não época,
Não sei se existiam,
Se existissem
Eu não saberia
Aonde conseguir,
Ou se o trabalho
Poderia ser feito
Na nossa roça íngreme.
Contudo, a poesia
Me permitiu insistir
Nos estudos,
Me formar e conseguir
Máquinas e pessoas
Aptas ao que eu precisar,
Porque lá atrás,
Quando meus pais
Não sabiam nem ler
Ou escrever
Eu insisti numa ideia,
E corri atrás dela,
E hoje me sinto
Incrível diante disto:
Sou alfabetizada,
Faço poemas,
Vivo do que escrevo,
Eu falo pouco,
Mas me expresso bem,
Minha avó estaria orgulhosa,
Escrever mudou
Minha vida,
Se eu tivesse parado
Ao saber ler minha
Primeira frase,
Eu jamais estaria aqui,
Com dinheiro no bolso,
E tudo que preciso
Ao alcance.
Eu tenho tantas pessoas
Para agradecer,
Professores,
Meus pais,
Meus irmãos,
Só tenho a agradecer.
A menina da roça,
Saiu de lá,
Aprendeu a ler,
Sabe escrever,
“Já pode se virar”.

Te Deixei

Essa noite
Eu tô cansada,
Nada me agrada,
As paredes de casa
Parecem aprisionar,
As ideias
Dentro de mim
Saem a explodir.
Queria ter calma,
Queria morno
Um chá de calma,
De preferência,
De sono.
As lembranças
Me dizem pra lembrar,
O novo manda esquecer,
De tudo que houve,
Em nada bons amigos?
Meu coração
Se apequena,
Não controlo
O que digo,
Pego o carro
Dirijo,
Busco,
Procuro,
Eu preciso de calma,
Eu queria poder mudar,
Modificar o que houve,
Mas, todos estes crimes
Perfeitos deixaram criminosos
Espalhados por toda parte,
Eu olhei no rosto
De cada passante
E não soube distinguir,
Te deixei partir.

Eu Bebo Um Rio

Outra vez
O dia amanhece nublado,
O ar pesado
Afunda em meu peito
E me deixa em seu lodo,
De estar presa,
Segura e condenada
Dentro de mim.
Me empurro,
Forço os pés no chão
E busco socorro,
Preciso respirar,
Chorar a dor
Que me deprime,
Sentir meus pulmões
Renovarem-se,
Estou pesada e afundando.
Outra vez,
Há óleo na água
Que abastece a cidade,
Abro a torneira
Não há um pingo sequer,
Preciso fazer comida,
Tomar meu banho,
Fazer a faxina,
Me indago
Por que não cuidei
De mim,
Por que não olhei
Para a minha cidade
Não vi este maldito
Óleo escorrer
E tentar me levar
Com ele.
São dois dias
De sufoco
De estar preso
Entre economizar
E sentir falta,
Por que permiti
Que fizessem
Meu rio de lixo,
Óleo cadavérico
Lá de seu desencanto
Me sorri
E acena:
“Oi, estou aqui”
Como se eu não soubesse
Deste ar
Que me condena,
Da água suja
Na torneira,
“Óleo estúpido
Pensa que só sei dele
Quando sua água
Me faz falta.”

Óleo na Água

Amanhece o dia,
Mas, me recuso a entender
Que vai chover,
Vai fazer sol
E outra vez
Estarei aqui
A contar os ponteiros
Que passam
Seguindo um ao outro,
Ver os números mexerem-se,
Pois, tudo segue
A rotina do mesmo.
Queria entender
A tristeza
Que me invade,
Assombra meu peito,
Me deixa triste,
Tudo conspira
Para as minhas lágrimas
E chorar me deprime,
Ficar na cama
Me faz preferência,
Mas a rotina se manifesta
E eu preciso levantar
Escolher uma roupa,
Fazer a faxina,
Fazer o almoço,
E de novo limpar,
Faxinar, comer,
Tudo rodando, rodando,
Rodando e repetindo.
Caio dentro de mim,
Me afundo,
Estou em dificuldades,
Frágil e desesperançada,
Nadando no lodo
De óleo e sujeira,
Vendo a vida perder-se,
Esvair-se,
Falo,
Como se palavras
Fossem capazes
De trazer tudo a superfície
E eu parar de despencar,
Agachar-me,
Apenas,
E retirar tudo com a mão.
Maldito o óleo
Que faz mal
Para a minha respiração,
Estupido o óleo
Que condena meu dia,
Terrível óleo
Que lá de cima despenca,
Inunda tudo,
Se espalha
Feito correntes pesadas,
Retira a minha vida,
Enfraquece meu corpo,
Recolhe meu espírito
E não parece perceber
O tanto que me faz mal,
Cai por descuido,
Fica por metido,
Me puxa
Para seu lado
E segura,
Óleo vagabundo
Deixe de me manter
Aí onde você está
Enraigado nestas raízes profundas,
Como se sorrisse
Este sorriso cadavérico,
Que contamina meu ar,
Destrói minha vida,
Me vejo desgrenhar.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Rock Gaúcho

Vamos andar
De mãos dadas
No término da chuva,
Ligar no rádio
Um rock gaúcho,
Andar até o gramado,
Buscar goiaba na árvore,
Olhar as flores
A desabrochar,
Os copos de leite
Formando moita
De muitas e muitas hastes,
Com mil flores
A abrirem-se
Ao mesmo tempo,
Melhor que isso,
Podemos, juntos,
Retirar alguns da moita
E construirmos uma frase
Deles plantados no chão,
Você junta a enxada,
Eu pego a cavadeira,
Cavamos juntos,
Escolhemos a frase juntos,
Por exemplo,
Eu te amo?
Escrito no chão,
Prometido num beijo
Sobre a terra fresca,
Enquanto a chuva decide
Se parte
Ou se chove um pouco
Mais sobre o nosso gramado?!
Ou devo pagar
Os meus pecados
Por ter acreditado
Que o amor
Deve ser demonstrado?

Garoto da Polícia

Sobre nós
Não sei falar,
Nosso beijo,
Se foi amor
Ou tesão puro,
Foi bom,
Nunca lhe disse isso.
Você foi o garoto
Mais lindo
Que meus olhos viram,
E as garotas te cobiçavam,
Então, eu fugi disso,
Não me senti apta
A competir por um cara,
Um grande cara,
Um lindo cara,
Aí caí fora –
Do seu carro,
Da sua casa,
Da sua vida.
Eu quis repetir,
Eu desejei você
Pra mim,
Eu fui feliz,
Eu senti orgulho
De ter estado
Algum dia,
Algum tempo
Com você.
Eu não soube
Ter maturidade,
A idade me oprimiu,
As ideias me alucinaram,
E eu troquei de número,
Fugi de nós,
E continuei fugindo,
Fugindo muito,
E só me vendo
Te buscar
Em pensamento
E com meu olhar
Sempre e em cada parte,
Sempre com uma
Maldita história
A gritar na minha mente,
Repetindo sem parar:
“garota, ele é lindo,
Tem todas e qualquer
Guria que deseje,
Por que escolheria você?”
Mas, hoje,
Apenas após tantos anos
Penso que nunca
Te permiti me escolher:
Lindo garoto da polícia camuflada.
O grande cara do canil,
O desejado Neudir,
Eu o desejei sim.

Destino à ROCAM