Outra vez
O dia amanhece nublado,
O ar pesado
Afunda em meu peito
E me deixa em seu lodo,
De estar presa,
Segura e condenada
Dentro de mim.
Me empurro,
Forço os pés no chão
E busco socorro,
Preciso respirar,
Chorar a dor
Que me deprime,
Sentir meus pulmões
Renovarem-se,
Estou pesada e afundando.
Outra vez,
Há óleo na água
Que abastece a cidade,
Abro a torneira
Não há um pingo sequer,
Preciso fazer comida,
Tomar meu banho,
Fazer a faxina,
Me indago
Por que não cuidei
De mim,
Por que não olhei
Para a minha cidade
Não vi este maldito
Óleo escorrer
E tentar me levar
Com ele.
São dois dias
De sufoco
De estar preso
Entre economizar
E sentir falta,
Por que permiti
Que fizessem
Meu rio de lixo,
Óleo cadavérico
Lá de seu desencanto
Me sorri
E acena:
“Oi, estou aqui”
Como se eu não soubesse
Deste ar
Que me condena,
Da água suja
Na torneira,
“Óleo estúpido
Pensa que só sei dele
Quando sua água
Me faz falta.”
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