segunda-feira, 12 de maio de 2025

O Mulato- São João

Fez-se noite,
Com as primeiras estrelas
A fogueira foi acesa,
Tão alta no escuro do céu,
Quanto se poderia ver
O fogo tremeluzente
Azul e amarelo tocar-lhes a face,
Ganhar um sorriso da lua.
O quentão foi feito ao lado,
Taças serviam seu líquido quente
Na noite gelada
Como se não embriagassem,
Todos bebiam...
Lá por algum tempo
Passou o caixeiro de seu Manuel,
O negrinho Manuelzinho,
Limpo e de sorriso no rosto,
Indiferente a sua idade infante,
Bebendo quentão,
E comendo um enorme puxa puxa.
“Veja aquele menino,
Vale quanto pesa”.
Disse sem travas na língua,
A referir-se que o garoto
Não poupava os dentes,
Deixava o doce,
Apegava-se a bebida,
Depois nutria-se de ambos
De uma vez,
Um doce na boca
E vinho quente a derreter-lhe
As veredas.
Raimundo juntou-se
A Ana Rosa,
Mais Manuel, Dias,
Dona Bárbara e Dona Maria.
Todos ergueram suas taças
De quentão
Em um brinde pela lua,
Pelo sucesso da noite,
Pelos sonhos de inverno
Que seguiriam nos
Dias que viriam.
Dona Maria derrubou vinho
Sobre as vestes,
Queimou-se toda e gritou incontida,
Em busca de auxílio
Raimundo correu,
Acudiu-se na farinha
Que encontrou,
Juntou um grande punhado
E jogou sobre a velha,
Duas, não sobrepujou
Juntou dois punhados
Um jogou na taca de Raimundo
E o mais na velha senhora,
Ambos batendo suas vestes
E ajudando-a a não queimar-se
Ou estragar sua noite
Por ter de trocar a roupa.
“Que a farinha lhe ampare,”
Disse Raimundo,
A limpar o rosto da senhora,
Seu vestido,
E suas mãos.
“Ora, você?”
Disse ela.
“Se acolha num espelho”.
Respondeu ela resignada.
“Preferia um lenço
Para poder te ajudar melhor”.
Respondeu caloroso.
Passado o infortúnio,
Continuou a festa,
Raimundo pegou a mão de Ana Rosa,
Passeou com ela
Pelo redor da fogueira,
Juntou madeira,
Jogou no fogo
Para mantê-la acesa.
Depois cruzaram a capela
Que foi feita de improviso,
Toda enfeitada
Em madeira bruta e bandeirolas,
Entraram para acender
Uma vela a São João,
E fingiram o casamento caipira,
Fazendo os votos de amor
Um pelo outro,
Beijando-se no altar.
Raimundo fez as vezes do padre,
Pois este bebia
E não recordava de palavra,
“Senhora Ana Rosa
É de boa vontade
Que aceita este doutor
Para esposo?”
Ele indagou
Se posicionando atrás da mesa
Do altar,
Jogando água benta
Sobre as tranças de Ana Rosa
Que caíam-lhe pelo peito,
“ É de vontade e
É de amor,
Seu padre,
Há tanto que espero um homem,
Que não aceito por menos”.
Ele sorriu,
Suas lágrimas correram sobre
A toalha branca,
Ele juntou uma flor do buquê
Que estava sobre ela
E repousou no cabelo
De Ana Rosa,
No início de sua trança.
“Eu a amo Ana Rosa”.
Lhe falou se colocando
Sobre a mesa
E beijando seus cabelos,
Suas lindas franjas loiras
De cabelo de boneca de milho.
Ela curvou os olhos,
Baixou a cabeça
E se colocou em seu peito,
Como se a boneca buscasse
O sereno da noite
Para saciar a cede e revigorar.
Ele tocou sua cabeça,
Ela levantou o olhar,
Ele saiu de trás da mesa
E beijou-a no altar.
Entre as testemunhas
De bonecas e bonecos
Feito com milho verde,
O padre que era ele mesmo,
E o altar para santificar
Em Deus o que sentiam.

sábado, 10 de maio de 2025

O Mulato- Ciumeiro

Junho chegou sereno
E frio,
Com seus ventos
A brincar com os cabelos,
Quebrar os galhos
E arrancar algumas flores.
Trouxe as festas de São João,
O comércio todo foi organizado,
As ruas foram enfeitadas
Com bandeirolas de papel,
E guarda chuvas espalhados.
Abriu-se a feira,
Todo o comércio se instalou
Para apresentar seus produtos
Frescos e descem colhidos,
Seus bolos, pães, queijos e pudins.
Tudo foi organizado com carinho,
Desde os doces tradicionais
Como o pé de muleque,
O cricri, a paçoca e o quentão...
Ao fundo da feira
Uma banda local tocava.
Raimundo, Ana Rosa e Manuel
Deixaram seus produtos
Por conta dos escravos
Para serem vendidos
E expostos,
Então, passearam por toda a festa,
Comeram e beberam
Do que era servido,
Conheceram as tradições.
Duas, no entanto,
Ficou para trás,
Adentrou no quarto de Raimundo,
Mexeu em suas coisas,
Bisbilhotou em seus documentos,
De lá, cansado e irritado,
Adentrou no quarto de dona Barbara,
Foi até sua palmatória de orar,
Acendeu uma vela,
E pegou a imagem do santo
São Raimundo
E queimou seu rosto na chama
Até enegrece-lo,
Rindo de despeito e dor.
Não tardou,
E a ideia de ter Dias
Invadindo cada quarto
E tomando as medidas que lhe
Coubessem
Invadiu a mente de todos,
E teria gerado medo,
Caso tivessem visto
E ouvido
Seus rompantes de risos abertos,
E altos ao enegrecer o santo.
Ter Dias liberto
A forçar portas,
Fazer chaves de mentiras
E usar de meios fraudulento
Para entrar em quartos
Era de todo o modo temerosa.
Sabe-se que Ana Rosa
Antes de beijar Raimundo
Sonhava com ele,
Chegava a senti-lo próximo,
Teve sonhos de todo realista...
Sabe-se ainda
Que Raimundo não a reconheceu
De imediato
Por ser a invasora de suas noites,
Preceptora de todo prazer
E desejos que despertaram
Um no outro.
De outra sorte,
Manuel adoeceu sem causa,
Acamou-se esmorecido,
Fraco de suas forças,
Abatido em suas dores,
Isto, lhe parecia injustificável.
Noutra medida,
As febres de Ana Rosa,
Suas tosses arrastadas,
Tudo isso,
Era digno de monta
Diante de descobrir-se
O que Dias fez
Na primeira oportunidade,
E sabe-se lá,
Se foi privilégio ou hábito,
Mas o fez.
Depois de queimar
O rosto do Santos Raimundo,
Dias tomou caminho diverso
Da festa junina,
Foi ver suas mulatinhas,
Ainda as escondidas,
Porquê a ninguém
Informou de suas saídas.
Não tendencia-se
Considerar Dias
Como uma pessoa perigosa,
Mas, suas ações pendem
Para o que poderia ser considerado
Ameaçador.
Rir dos modos religiosos
De dona Barbara,
Achar graça em colorir
O rosto do santo,
Bisbilhotar na vida privada
De Raimundo,
Tentar invadir o quarto de Ana Rosa,
Entrar às escondidas
Em locais privados...
Isto realmente,
Levava suas maneiras
Para um teor ilícito,
Até mesmo,
Perturbador.
Suas peraltices
Não beiravam a atitudes
De um adulto escrupuloso,
Sua comedida educação
Parecia estar sendo negligenciada,
Rir de um rosto por ser negro?
Ora a cor da pele não é motivo
Para zombarias.

O Mulato- Prosas, Versos e Pele Ardente

Audaciosa em seus sentimentos,
Pretensiosa de sentidos,
Valorosa em seus desejos,
Ana Rosa amou Raimundo
Por uma noite inteira,
Chegou sorrateira,
Retirou sua calcinha rendada,
Pôs lhe sobre os olhos,
E aperfeiçoou suas carícias,
Provou do amor mais puro,
Do néctar de todos os seus beijos.
Entregou-se como em seus sonhos,
Sonhou com o sol do dia
A acorda-los,
Percorreu cada centímetro
De sua pele negra
Com seus dedos alvos,
Embebeu a ponta do dedos
Em sua volúpia,
Percorreu-o a linhas de desenhos.
Mergulhou neste amor,
Sentiu como se tivesse as estrelas,
E tê-las não lhe significasse nada,
Diante da imensidão
Que foi amar aquele negro,
Sentir seus pelos eriçados,
Seu desejo crescer
E consumir a ambos,
Ele não buscou esquivar-se
Apenas a teve,
E entregou-se.
As horas correram no relógio,
Como se fossem areias
Numa ampulheta aberta,
O ponteiro deslizou
Como se percorresse minutos.
A chegada da manhã,
Ela escondeu-se por detrás
Da cortina vermelha e pesada,
Viu-o dali sem ser vista,
Pode ver o sol bater em sua cor
E resplandecer aquele negro
Ardente e prazeroso.
Ele sorriu,
Retirou a calcinha de sobre
Os olhos
Com indisfarçada estranheza,
Cismou ao ver o objeto
Entre seus dedos,
Soltou a calcinha na beirada da cama,
Sentou-se com ela entre os dedos,
Sentiu profundamente o cheiro,
E pôs ambas as mãos
Sobre o rosto.
Ana Rosa suspirou
Por ver aquela pele negra arfar,
Seus seios sobressaltaram,
Um perdeu-se do sutiã,
Sua camisa de dormir
Ficou molhada e pediu
Colando-se entre as pernas.
Ele olhou em direção ao banheiro,
Foi tomar o banho,
Ela aproveitou sua saída
Do banheiro
Com a toalha a secar o rosto,
Percorrendo seus cabelos,
Nuca e ombros,
E o esperou prostrada.
Ele retirou a toalha,
Fez cara de espanto,
E virou as costas para ela,
Ela sentiu-se tomada de pânico,
Viu-se a perde-lo,
E a ideia a destruiu por completo,
Então, jogou-se em suas pernas,
Pôs-se a lamber aquela cor negra,
A cedência de seus pêlos,
O calor efervescente de sua pele,
Ansiosa por tê-lo.
Depois ajoelhou-se
E pôs a chorar em parar,
Colada com a bunda no chão,
Com lágrimas a hora feito
Uma torrente desenfreada.
Ele não a reconheceu,
Juntou-a através de seu braço
Esquerdo,
Colocou ela de pé
Em sua frente,
Olhou seu rosto,
Não soube expressar
O que sentiu,
Nunca a imaginou de tal maneira.
- prima?
Eu não a esperava.
Ele disse.
- me perdoe os modos grosseiros,
Eu estava no banho...
Contudo,
Ela cansou de fingir,
Rejeitou a mentira,
O quis,
Neste intuito
Jogou-se para beija-lo,
Puxou seu rosto
Com ambas as mãos
E sorveu aqueles lábios negros
Sobre os seus,
Como se fosse um pêssego
Que se abre,
Se rejeita o caroço
Com a ponta da língua,
E suga toda a sua doçura
E pureza,
Movendo sua boca sobre ele
Com prazer imensurável
De quem está a submergir de fome
E tem ao seu alcance
Único pêssego,
Grande, carnudo e doce.
- precisamos nos casar.
Ele disse.
- saia, querida.
Precisamos nos recompor
Para eu pedir permissão
Para Manuel, seu pai.
Ela jogou-se para sobre
Suas pernas,
Até sentir seus prazeres
Se misturar
E escorrer sobre a pele
De ambos.
Então, se foi.
Como nem tudo é perfeito,
Manuel neste mesmo dia
Foi acamado
De temerosa doença,
Nada pode dizer
Ou fazer de importante,
Apenas medicar-se.
Raimundo aproveitou
A oportunidade
E pôs-se a escrever seus poemas
E prosas para o jornal local.
O povo reprovou sua rebeldia
De palavras e pensamentos,
Sua liberalidade para tratar
De assuntos íntimos,
E querer romantizar
Assuntos rotineiros,
Mudas conceitos,
Tratar de valores já estabelecidos,
E por isto,
Considerados imutáveis.
Ficou mal afamado
E irritou-se.
Todavia,
O pior lhe reservava
O mês de junho.

Poema da primeira página:

Acordou a negra,
Assustada e paciêncosa,
Percorreu as escadas
Da senhora branca,
Cuja filha desfalecia,
Nasceu fraca,
Mas branca se fez,
Precisou de leite,
Há quem recorrer?

As tetas da negra escrava,
Derramaram-se em carinhos,
Fez-se o ninho,
Entregaram-lhe a criança 
Aos seus cuidados,
E sabor de negra forte,
De pouco a pouco
Sorveu o leite,
Da manta que lhe cobria,
A negra fez-lhe a veste.

Aniversário de três anos
Da menina,
Branca, grande e forte,
A negra escrava,
Conhecedora das linhas,
Costurou-lhe perfeito vestido,
Presenteou a menina
Com tecido velho.

Imperdoável,
Disse o senhor branco,
Vai ao açoite 
Para recuperar os sentidos,
A criança correu as escadas,
Viu sua ama amarrada,
Ferida,
Do seio que lhe deu comida,
Sobrou a ferida
Do ferro quente 
Que o derreteu até a carne.

A alforria,
A alforria,
Disse o senhor branco,
Diante do seu domínio,
De medo por estar diante 
Da menina tão criança,
A negra jogou-se e jogou-se,
Estava com uma algema
De ferro a prender suas mãos,
Dilacerou seus músculos,
Perdeu seus movimentos,
Agora vive na casa de negros,
A senzala é seu lugar,
Cuida de seus iguais,
Não serve para as paredes
Tão quentes e grandes demais,
Não é vista ou sai lá fora.

O Mulato- Desejo de Pele

Ana Rosa
Mais se comunicava a Raimundo,
Certo dia,
De tanto pensar
Perdeu o sono,
No nascer da manhã,
Recusou-se a acordar,
Fez cisma de pensar
Em seu rosto,
Desenhou com o dedo
Traços imaginários no teto,
Lá em seus rabiscos,
Imaginou seu rosto,
Ousou beija-lo,
No teor de oito anos,
Foi a primeira boca
Que desejou em ardência,
Sentiu o corpo febril,
Cruzou os dedos sobre
A camisa de dormir,
Acariciou-se.
De seu quarto pode ouvir
A voz dele
Proveniente da cozinha,
Ele tomava o café,
Ela abraçou o travesseiro,
Chorou de afeto,
Desejou-o perto.
Pediu perdão a Deus,
Mas não o via sob o véu
De parentesco,
Preso em seus mistérios,
O queria para mais perto,
Desejava-o para esposo.
Entristecida tardou,
Mas levantou,
Chegou a cozinha,
Sem fome,
Pôs-se a chorar
Com o rosto recostado
Sobre a janela.
Da varanda,
Raimundo a viu triste,
Achou-a linda,
Pegou papel e lápis,
Desenhou-a.
Ao término,
Ela moveu-se
A custo por parar de olha-lo.
Caminhou até ele,
Soube de seu passatempo
Com desenhos realísticos,
Folheou seu álbum,
Chegou a uma foto de mulher,
Uma parasiense pintada por ele,
Não controlou o ânimo,
Separou a foto no próprio colo,
Em cerimônia riscou
O rosto da moça com a unha,
Não preocupou-se com o que fazia.
Cuidou os passeios de Raimundo,
Entrou em seu quarto,
Vasculhou suas coisas,
Deixou marcas de sua estada,
O quis para si,
Desde o instante em que
Encontrou seu retrato,
E o pousou sobre o busto,
Sobre o rosto,
Sobre os lábios,
E correu a foto por seu corpo,
Sem medo
De imagina-lo dentro de sua vagina,
Teve a audácia
De levá-lo a toca-la.
Deixou suas secreções
Sobre a cama dele,
Juntou sua cueca,
Sentiu seu cheiro
Profundo dentro de seu peito,
Então, separou dois de seus dedos,
Penetrou suas partes íntimas,
Acariciou-se com ela,
Sentindo o tecido,
O cheiro percorre-la,
Trêmula,
Ansiosa por deseja-lo.
Noite feita,
Sem poder dormir,
Luzes apagadas
Foi até ele
Sem fingir,
Abriu a porta com uma pena,
Destravou a tramela,
Entrou,
Acariciou-se ao seu lado,
Deslizou seus dedos
Por seu corpo,
Tocou seu pênis viril,
Bebeu de seu orgasmo cada gota,
Tocou-o em seu primeiro desenlace,
Subiu a cama,
Deitou sobre ele,
Fez sexo sedenta e vigorosa,
Amou-o em febril vontade.
Na manhã seguinte acordou
Mais vigorosa.
Soube que a casa dos pretos
Foi aberta durante a noite,
Cinco pretos fugiram,
Agora Manuel os buscava
Com chicotes em mãos,
Cachorros na estrada.
Ele juntou as mãos na varanda
Em prece,
Rezou pelas vidas dos negros,
Se apiedou em tamanha misericórdia,
“ São pessoas, meu Deus,
Pessoas”.
Ana Rosa,
Vendo-o triste,
Aproximou-se deslizando
O corpo por sua pele,
Então, pegou na mão dele,
E se juntou em sua prece.
Raimundo,
Assustou-se de sua ousadia,
Não pode crer,
Prima sua?
Esperou Manuel retornar,
Ele voltou
Com os cinco pretos amarrados,
Pouco sangue sobre suas vestes,
Jogou-os para sua casa.
Lá fora,
Sentado sobre a terra,
Irritado com tudo que passou,
Soube que Raimundo
Queria mudar-se,
Contestou a ideia,
O queria perto,
Ao menos até ver a fazenda,
Vende-la
E ter onde deixa-lo seguro.
No entanto,
Veio as ameaças da filha
De quere-lo,
Em frente a sobra Dona Bárbara,
Que se retesou em sua ira,
O preferiu no tronco,
Por ser o negro que não deixaria de ser,
Pobre e com ideias revolucionárias,
Negro de sorte,
Imundo como a combinar-lhe o nome.
Manuel engoliu
O entrave,
Chamou o Dias,
Marcou o casamento
Para o próximo mês,
Ana Rosa resignou-se,
Alegou preferir a morte.
Esmoreceu de dor,
Fugiu para seu quarto,
As escondidas,
Em busca de ser amor,
Entre choros e compassos
De prazer retirados em segredo.
Quem é indagou ele.
Aquela que o ama.
Disse apenas.
Não falou seu nome.
Não foi forte o bastante
Para lhes negar amor.
O quis ardentemente
E não apenas por uma noite,
O quis a percorrer sua pele,
Sentir seus dedos sensíveis
E frágeis tocarem-na
Com seu calor,
Feito um fogo a incendiá-la.
Quis ver todo o seu desejo
Ser consumido até restar
Só o pó
De todo o suor
Que se dispunha a perder,
Quis ver os lençóis molhados
Derretida em prazer,
Quis sentir seu cheiro,
Abrasar-se sobre sua pele,
Até o amanhecer.
Quis tocar-lhe o rosto,
Privar de seu prazer
Até ter dele um filho,
O quis em matrimônio,
E não aceitaria outro,
Fosse em um mês,
Ou em cruel dezembro.

O Mulato- doutor preto

Viúva do tenente espigão,
Dona Maria odiava a vadiagem,
Dizia ela que os negros estavam
Descarados devido ao pouco
Serviço que o progresso proporcionava,
Já não haviam tantos cativeiros,
É por isso que agora
Clamava-se pelo chicote,
Só o chicote iria pô-los
Em seus lugares devidos,
Chicote é tudo de que precisam,
Tivesse ela muitos,
Pelas bençãos de Deus,
De um a um os usaria
Até arrancar sangue de seus lombos.
Dona Maria, tia de duas moças
Foi a Manuel visitar Ana Rosa,
Quando deparou-se com a figura
De Raimundo:
- pra, veja como se porta,
Parece esquecer suas origens,
Eu mesma vi inúmeras vezes
Domingas, a sua mãe, sendo
Chicoteada.
Disse a tia as sobrinhas.
- não cheguem perto.
Proibiu-as.
Nisto Manuelzinho entra na sala,
E vai até Raimundo,
Nos fundos quando se refere
Ao povo:
-malditas negras,
Escondem-se atrás das brancas
Das casas para lhes passar piolhos
E quais pestes possam.
Afianço, caro doutor,
Se conservo negros a meu serviço,
É por não dispor de outro remédio.
Foi Ana Rosa quem menos
Aprovou o jeito comedido
E distanciado de Raimundo,
Ela era acostumada
A ser o centro das atenções,
Receber elogios de toda a espécie,
Sentiu-se retraída com relação a ele.
Ao final da visita,
Noite a vista,
Raimundo graciosamente
Indagou se a tia Maria
E suas duas sobrinhas
Precisavam de algum criado
Para lhes acompanhar pelo caminho,
Elas aceitaram,
Ele próprio foi.
Ao retornar,
Retirou-se para o quarto,
Abriu um livro
E caiu no sono
Com um charuto aceso
Ao seu lado,
O livro sobre o peito,
Mas não distante,
Alguém velava por ele.

O Mulato- negro

Raimundo, chegou ao Brasil
Nos seus vinte e seus anos,
Tinha cabelos negros enrolados,
Olhos azuis, tez morena e amulatada,
Negros bigodes,
Estatura alta,
Olhos escuros,
Nariz reto e fronte espaçosa.
José da Silva, seu pai,
Iniciou no Brasil
Como contrabandeador de negros da África,
O povo mulato da terra brasileira
Não o viu com bons olhos,
Até que certo dia,
Levantou-se contra ele a escravatura,
Que teriam levado ele a morte,
Não fosse uma das escravas mais moças,
Denominada Domingas,
Preveni-lo a tempo.
O contrabandista arranjou-se
Com a escrava que lhe restou
Para terras mais distantes,
Apossou -se de uma fazenda
Passou a cultivar café, arroz,
Tabaco e algodão,
Vender e buscar escravos
Deixou de ser profissão.
Depois de muitos abortos,
Domingas lhe trouxe um negrinho,
Filho,
No ato de batismo,
Ela recebeu sua carta de alforria.
Chamaram ao filho, Raimundo.
O escravo fazendeiro.
José, contudo, encontrou esposa branca,
Quitéria, de boa origem,
Bons costumes,
Bem educada,
A escrava alforriada não lhe bastou,
Casou-se com Quitéria.
Mulher rica,
Para a qual o fato de ser negro
Lhe destituía de ser considerado
Pessoa,
Um escravo nunca lhe seria homem,
Sua origem sanguínea lhe era um crime.
Por suas mãos,
De sua ordem,
Escravos sucumbiram ao relho,
Açoitados até sangrar,
Levados ao tronco,
Sob sol e escuro,
Passaram fome e sede
E foram submetidos a ferro em brasa.
Devota a Deus,
Por meio de seus negrinhos,
Construiu tudo que tinha,
A casa grande de pedras,
A capela onde rezava todas as noites,
Entregava seus pecados,
Com as mãos inchadas
Pelo cansaço e as costas talhadas
Pelo chicote,
Ela punha seus negros
De joelhos a entoar orações
Aos seus santos.
Ao lado da capela
Fez um cemitério com suas vítimas:
- seu negreiro!
Você pensa que irei aturar
Seus filhos negros?
O despache desta terra
Ou eu o farei e será para junto da capela!
Gritou a José, seu esposo.
José, destroçado,
Conhecedor dos atos de Quitéria,
Correu a vila buscar socorro ao filho,
Ao retornar deparou-se
Com o seguinte:
Estendida por terra,
Com os pés no tronco,
Cabeça raspada,
Mãos amarradas para trás,
Estava Domingas,
Nua,
Com suas partes genitais
Queimadas por ferro em brasa.
Ao lado, estava Raimundo,
Aos seus três anos chorando,
Aos gritos,
Ele tentava abraçar a mãe
E era repelido por dois negros
Através de seu chicote,
Quitéria, descontrolada
Pelo ódio bradava toda sua cólera
Contra a negra e o negrinho.
José, jogou-se contra Quitéria,
A fez cair,
Quanto a Domingas e a Raimundo
Ordenou que lhes levassem
A casa dos brancos
E lhe dessem cuidados.
Quitéria, ordenada pelo padre Marcelo,
Correu para as graças de sua família,
José, atordoado pelo medo
Entregou o filho aos cuidados
De Manuel, seu irmão.
Retornando para casa
Na mesma noite,
Encontrou Quitéria,
Já em casa,
Fazendo sexo no quarto
Com o padre Marcelo,
Num ímpeto de loucura,
José abriu a porta,
Os viu sobre a cama,
Jogou-se contra Quitéria
Pegando muito forte contra
Seu pescoço,
Soltando-a morta.
- matou-a, você é um assassino!
Gritou o padre.
- maldito, e você é menos
Assassino que eu?
Revidou José.
- perante as leis, sou.
Eu sou padre,
Tenho a batina para socorro.
E mostrou as marcas das mãos
De José sobre o pescoço
Do cadáver.
- vamos, lá. Sepulte-a,
Conforme as leis de Deus,
Faça silêncio e eu faço o meu.
Disse o padre,
Batendo no ombro de José.
José pasmo e aturdido
Não soube responder,
Obedeceu
Deu a Quitéria um lugar
Na terra onde enterrou
Seus negros,
Ao lado da capela.
Contudo, o chicote
Separou para sempre
Domingas de seu filho.
Aos três anos deste,
Ana Rosa veio ao mundo,
Fraca,
Parecia morrer a todo instante,
As atenções e promessas
Se aglomeravam em torno dela.
Ao lado dela,
Estava Raimundo
Que já não lembrava da mãe,
 Negra que lhe trouxe nas entranhas.
José passou a ser acometido
Por visões e vozes
No seu redor,
Dentro de sua cabeça,
Nos espaços de seu entorno,
Amedrontado e febril
Fugiu para a casa do irmão,
Deixou a fazenda aos cuidados de
Domingas e três negros.
José não dormiu mais,
Falava sozinho,
Perambulava pelos cômodos,
Restou a ele por intermédio de Manuel,
As orações do padre Marcelo,
Que devido as suas orações,
Salvou Ana Rosa,
E foi escolhido para seu padrinho.
Mas o coração do padre
Ansiava pela morte de José,
O qual em sua primeira melhora,
Retornou a fazenda
Em seus aturdimentos
De falar sozinho,
Se imaginar perseguido,
Viver as escondidas,
Vendo vultos
E ouvindo vozes,
No caminho,
Levou um tiro e morreu.
Seu cavalo chegou a fazenda,
Domingas delirante o encontrou
Coberto de sangue,
Foi atrás de José,
O achou e enterrou ao lado
Da esposa Quitéria.
A fazenda foi abandonada
Por todos,
Exceto os negros,
Domingas enlouqueceu,
Deixou tudo ao abandono,
Dormindo no relento,
Conforme antes,
Não entrou na capela,
Nem cuidou,
Apenas perambulava sem hora certa
As terras do cemitério
Entre um morto e outro
Enrolada num pano.
Na morte de José,
O testamento foi aberto,
Tudo dividiu-se em três,
Manuel, sua esposa e Raimundo.
Raimundo foi para Lisboa
Onde dedicou-se aos estudos.
Raimundo, a princípio,
Escondera-se do mundo,
Chamado de macaquinho
Tinha medo do escuro,
Dormia abraçado ao travesseiro,
Colado na parede,
Sentia medo de tudo.
Raimundo chorou e gritou
Para ser enviado para sua terra.
Recordava-se em noites insones
De dona Bárbara,
Que ao despedir-se de Ana Rosa
Beijava-lhe a mão,
Quando Raimundo lhe oferecia
A mão para o carinho,
Bárbara lhe devolvia
Um tapa sobre a boca.
Tanto foi,
Que na noite de nascimento
De Ana Rosa,
Ela foi descrita
Como proveniente da França.
Ele nunca esqueceu.
Mesmo sendo negro para estar
Em Lisboa.
Ele recordava, um pouco,
De sua negação no Brasil,
Ele nunca compreendeu,
Mas em sua mocidade
Aceitou piamente.
Formou-se, advogado.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

O Mulato- Cabra

Manuel, o viúvo,
Era grande proletário,
Dono de terras,
Cultivava cana de açúcar,
Sobrevivia da venda do açúcar.
Precisava de muita mão de obra.
Pedro, pai de Ana Rosa,
Trabalhava no armazém,
Vendia e armazenava alimentos.
Era comerciante reconhecido.
Manuel recebeu em visitas
O padre da cidade
Que trazia com ele uma carta,
Tiago, trazia a carta de Marcelo,
Filho do irmão falecido de Manuel,
Com uma brasileira, Domingas.
Ele comemorava a formatura
Em direito,
Desistiu de ser padre.
- ele deveria ter preferido o celibato,
Ora, no fim das contas,
Serão superiores os negros
Que as cozinheiras!
Deveriam proibir aos cabras
Certos misteres.
Reclamava o próprio padre.
- devo proibir a visita?
Indaga a Manuel com palavras
Inchadas de ódio,
Esmurrando a carta
Das mãos do padre
Sobre a mesa de ipê.
Não deveria ser oferecido
A estes o estudo,
Deveriam ser burros,
Burros, estes bastardos!
Berrou Manuel.
- Ora, Manuel.
Não imagino o pior,
Ver a própria filha casada
Ou ter ela confessada por
Um negro.
Imagine dona Anica,
Sua sogra,
Beijando a mão de um filho
De Domingas?!
E quando vierem seus netos,
Ou próximos filhos,
Pode imagina-los
Apanhando de palmatória
De um negro mais preto
Que está batina?
Esbofarou o padre.
- pra, nestes termos
Nem quero recebe-lo.
Disse Manuel.
- deve recebe-lo
Na qualidade de bastardo!
Encerrou o padre.
Na casa de Ana Rosa,
Chegava um funcionário da casa,
O pequeno Manoelzinho,
De dentes amarelos,
Roupas esfarrapadas,
E orelhas sujas.
O compadre de seu pai,
Daniel, se irritou com a posição
Inferior da criança,
Que sofria saudades da mãe,
Deixada em outro país,
Baixava a cabeça
E nada mais fazia que obedecer.
Daniel ergueu Manoelzinho
 Pescoço,
O forçou a sorrir,
E quando este sorriu
Daniel o definiu cuspo.
Ana Rosa se apiedou,
Chamou a criança
E lhe cortou as unhas.
-sente saudades
E sua mãe?
Indagou.
O menino chorou silencioso.
As lágrimas escorrendo
Pelo rosto negro.
Dias, o funcionário
Passava pela porta da sala,
E pode ver Manuelzinho
Tendo suas unhas cortadas
Por Ana Rosa,
Nutriu apenas ódio
Por aquelas faces escuras,
Saiu dali e levou vinho
Até a casa de uma mulata gorda,
Cheia de filhos,
Conquistou sua confiança,
Recebeu dela todos os seus ouros
Objetos de valor.
Tudo pelo que sonhava Dias
Era ascensão pessoal,
Enriquecimento,
E em tudo que fazia só tinha isso
Só objetivo.
A raiva ganhou os sentimentos
De Dias,
Que nunca teve quem lhe
Cuidasse das unhas,
Fechado em si mesmo,
Feito um ovo,
Fedia feito ovo podre,
Definiu Ana Rosa
Que ele nunca teve coragem
De comprar uma escova de dentes,
Tamanha economia que fazia.
Retornando da casa da mulata,
Pediu ao patrão, Marcelo,
Para ficar no quarto.
Marcelo preocupado chamou
Um médico.
- o que tinha o rapaz?
Indagou Marcelo ao médico.
- aquilo é mais porcaria
Que outra coisa.
Disse o médico,
Receitou a ele banhos mornos.
Banhos. Precisava de banhos.
Ana Rosa ao término
De cortar as unhas de Manuelzinho,
Receitou a ele banhos
Na torneira do lado de fora da casa.
No teor de seus vinte anos,
Ana Rosa já se entristecia
Em razão da solidão,
O médico solícito,
Lhe indicou banhos frios
E passeios.
A idade chegou
E lhe tomava pelas mãos,
Chegou a hora de casar-se
Precisava escolher o marido.
Tinha pouco em vista,
Dias – o Mulato sujo.
Manuel – o proletário,
Viúvo e odioso em seus modos.

Destino à ROCAM