quarta-feira, 23 de julho de 2025

Antes Do Adeus

Quando você ama um irmão
Tanto quanto eu amei o meu,
O último lugar onde você espera
Encontra-lo é num leito de hospital,
Principalmente, quando ele sai
De casa sadio e forte
Pilotando sua moto
Rumo ao trabalho.
Meu irmão, sempre tão forte
Escolheu a profissão de higienizar ambientes,
Dirigir aquela máquina de água,
Exige muito esforço,
Geralmente, ele limpa
Aviários e chiqueiros para a Sadia.
Trabalha direto com o suinocultor e avicultor,
A pessoa o contrata
E ele vai lavar,
Entrega limpo e recebe
O valor acordado.
Este trabalho dura no geral
Três dias cada barracão,
Aí o dinheiro já entra na conta.
Ele está despreocupado financeiramente,
Vai até o local de Fusca,
É um carro pequeno,
Mal cabe a máquina grande
No banco de trás,
Ele leva nosso pai para ajudar.
Os porcos são retirados
E enviados para a Sadia,
Então, ele chega limpar
Para recolocar novos porcos,
É assim com os frangos também.
Outro dia, embarcamos na moto
E fomos até o eucaliptal
Dar voltas,
Ele queria me ensinar a pilotar,
Eu senti medo de ir sozinha,
Mas recebi as diretrizes,
Aprendi onde era o acelerador,
Onde ligava,
Que a marcha era trocada no pedal,
Através do pé para cima,
Para aumentar e vice-versa,
E o acelerador era no punho,
Através de rolagem
E o freio através daquele
Daquela maçaneta onde
Se coloca a mão.
Ele fez zeros fechados,
Fez zigue e zague,
Aprendeu a estacionar,
Fazer ultrapassagem,
A aumentar a velocidade
E a diminuir de maneira rápida.
Com seu primeiro salário,
Que recebeu em cheque
Do trabalho feito num aviário
Ele nos comprou carne
Para o churrasco
E chocolate em barra.
Me deu uma toda para eu.
Ele mesmo fez o fogo
Embaixo da laranjeira
E espremeu o limão
Sobre a carne depois a pôs
No espeto, então, assou.
Nosso pai ficou feliz,
Se sentia orgulhoso,
Ele estava sendo independente.
Contudo, logo ele caiu da moto,
Sofreu um acidente sozinho,
Derrapou no chão,
E deslizou com a cara
E o corpo sobre a terra.
Quando nós soubemos
Ele já estava hospitalizado,
Nossos pais correram buscá-lo,
Eu faltei a faculdade só para vê-lo.
Ele disse para a namorada dele
Que não queria me ver,
Eu era um mal exemplo para ele,
Pois eu gostava de relacionamentos
Em que eu traísse o esposo,
E meu nariz era feio,
Então, por inveja,
Eu desejei o dele do mesmo jeito
E agora ele fraturou o nariz.
Eu o ouvi falar,
Aí me sentei triste
Ao lado da porta,
Eu queria vê-lo,
Meu coração se aprisionou.
Eu não sei quem era ela,
Nunca soube,
O relacionamento logo teve fim.
Mais tarde,
Nós fomos no rio,
Ele desceu até lá de moto,
Eu fui caminhando,
Sou mais medrosa,
Há lá um pequeno moro,
Só isso,
Não é mesmo um caminho difícil,
Mas, veja, nem piloto.
Lá tiramos fotos,
Eu fiquei assustada
Em vê-lo,
Ele teve grandes cicatrizes
No nariz e ombro.
Chamou de deformação,
Eu mostrei a ele
Que jamais seria
Ele era perfeito,
Inacreditavelmente, perfeito.
Nosso pai trocou mamãe
Por uma garota mais jovem,
Disse que precisava beber
Do vigor da juventude,
Nossa mãe voltou a estudar,
Disse que estava com pouco cérebro.
Eu guardo nossas fotos,
Eu sonho em estar sempre
Com meu irmão,
É meu sonho ver ele pilotar
Para mim,
Eu não preciso ser melhor
Que ele,
Nem independente,
Ele pilota e eu vou na carona.
Eu gosto que ele seja
Auto determinado e
Que me veja como alguém frágil
Que sempre irá precisar dele.
Certa vez, tomei remédio
Para morrer,
Apenas dormi,
E quando acordei odiei isto,
Estar viva não teria sentido
Nem nossa mãe,
Sempre forte nos fazendo
A melhor comida,
Mantendo nosso chão limpo,
Nossas roupas bem organizadas,
Nosso papai trabalhando
Para nos vestir, dar casa e comida,
E meu irmão,
O garoto forte
Em que me baseio
E busco amparo.
A roupa dele grudou no corpo
Devido a quantidade de sangue
Que escorreu do ferimento,
Teve que ser cortada,
Mamãe cortou com a tesoura,
Eu sofri,
Era a linda camisa branca
Que escolhemos juntos.
Agora iremos juntos a loja
Escolher outra tão linda
Para ele sair e se sentir bem.
A loja que escolhemos
Pertence a um amigo da família,
Ele não chegou nos cumprimentar,
Eu me sento estranha,
Compramos uma legal
Verde esmeralda,
Então, fomos tomar sorvete juntos.
Em frente a loja,
Escolhemos sorvete
Com refrigerante,
Ficamos muitas horas lá.
Ele também não foi convidado
Para o sorvete,
Era verão quente,
Não nos importamos
Em deixá-lo trabalhando
Naquela sala fechada
De loja de vestuário,
Sozinho, contando vendas.
Eu me preocupo com ele,
Tenho medo de perde-lo,
Eu tento dizer isto a ele,
Mas, as garotas que ele conquista
Sentem ciúmes da nossa ligação,
Não compreendem nosso
Sentimento de união e carinho.
Ele sempre foi meu braço forte,
Meu punho fechado,
A voz grossa e estridente,
Meu amparo para dias ruins,
Meu sorriso de sempre,
Logo depois, outra vez ele caiu.
Queria descobrir de que ele foge
Que precisa correr tanto,
De que ele precisa
Que busca sempre estar em movimento,
O que o aprisiona
Pra ele almejar tanta liberdade,
Por quê parece buscar algo
Tão distante,
Se estamos tão próximos...
O que ele ouve?
Será que há alguém o perseguindo?
Os amigos não falam
Coisas tão boas quanto os pais,
O que o aflige,
Queria saber por que
Ele não divide estas coisas comigo.

O Último Adeus

No porão,
Seu antigo quarto,
Depois de tanto esforço
Para remover nossa mãe
Que não para de chorar
Dopada em remédios
Para poder fechar os olhos
Eu não tento retirar a camiseta
Velha de Ty de suas mãos.
Ela me odiaria
Se os remédios permitissem
Talvez, me esbofeteasse
Se o luto lhe desse está força,
Contudo, ela usou todo
O seu esforço em suas lágrimas.
Trancou-se no quarto dele,
Agora dorme em sua cama,
Vasculha suas coisas
Em busca de lembranças
E de vida,
Vestígios de uma vida
Que um dia brilhou em seu olhar
E que hoje dá esperança
De vida para aquela
Que não aprendeu a perder
Seu próprio filho.
Eu sofro com isso,
Com a ideia de despedir-me,
Padeço ao ver nossa mãe
Se esvair feito lágrimas
Que dão cansaço e aliviam dor,
Mas que borram a visão
Para um futuro bom,
Um futuro em que ela possa superar,
Nos perdoar,
E talvez sorrir.
Quando Ty se foi
Imagino que ele tenha confiado
Em minha força,
Que ao ir embora,
Para sempre sem dizer adeus,
Ele imaginou que eu superaria
E ofereceria alicerce
Para nossa mãe resistir,
Afinal, um irmão não vai antes
Se não imaginar que está
Tudo bem,
Nem deixa para trás
O que não deixaria por ninguém.
O amor por ele próprio
Foi mais forte,
Ele estava com dor,
Não soube dividir
Nem pedir concelho para aliviar,
E foi deixando um bilhete
No espelho da penteadeira
Do quarto que dizia:
“Desculpa, mãe, eu estava
Muito vazio”.
Nosso pai consegue
Sair em casa manhã
Para ir trabalhar
E trazer sustento financeiro
Para a família,
Eu sigo para as aulas,
No retorno troquei as aulas
De vôlei por sessões
Com o psiquiatra e
Ganhei doses extras de remédios.
Minha nota piorou,
A concentração na temática
Não está boa,
A saudade aperta,
E eu, as vezes, gostaria
De ver seu quarto vazio
E poder me encontrar
Com ele,
Reimaginar nossas histórias,
Reviver as lembranças.
Outro dia,
O perfume dele
Perambulou pelo corredor
Da casa forte demais,
Vivo pode-se dizer,
Quando olhei na soleira da porta
O vi em pé parado
De chaves em mãos
Com aquele sorriso
De quem me levaria
Para qualquer lugar.
De início abri meus braços
E fui em sua direção
Para irmos para onde o vento
Bate contra os cabelos,
E a liberdade pega sua mão,
Foi então, que lembrei
Que ele foi capaz de dar
Um tiro contra sua própria cabeça
E que agora ele estava morto,
Então, parei no meio
Do caminho
E joguei meu celular
Contra ele,
Antes de toca-lo
Ele sumiu
Como uma fumaça.
Como um poça de lágrimas
Que lentamente secam
E vão para distante,
As minhas vão para longe,
Elas são diferentes das
De nossa mãe
Que nunca cessou de chorar,
Mesmo com os meses,
E penso que com os anos
Não irão secar.
O psiquiatra me indicou
A escrita para expor a dor,
Para me auxiliar a libertar
Os medos e traumas,
Nós optamos com continuar
Na mesma casa,
As coisas dele estão todas
No mesmo lugar,
Nós não fingimos não espera-lo.
Ele tinha dezenove anos.
Parece tão pouco tempo
Quando se imagina
Que viver é amar, casar e ter filhos,
Fazer de nossos pais avós,
Expor o branco dos nossos
Cabelos ao nos tornar tia.
As vezes, eu sinto tanto medo
Que eu me vejo querendo
Adiantar o tempo,
Fazê-lo correr mais rápido,
Talvez, eu possa ver o Ty
Muito antes,
Eu sinto vontade de vê-lo,
Também, de abraça-lo.
Nestes instantes,
Eu me vejo a olhar
Para um certo rapaz
Lá no colégio e me apaixonar,
Imagino um futuro com ele,
Me vejo falar de amor,
Pegar em sua mão,
Mas, então, busco a aprovação
De Ty e ele não está,
Não está rindo do meu beijo
Desajeitado,
Não ri das roupas engraçadas
Do garoto,
Nem o reprova de longe
Com o olhar para me fazer
Eu me afastar,
Mas, eu me afasto antes,
Antes de tudo isto.
Tentar enganar o tempo
Não faz retroceder,
Lá onde Ty está,
Eu não posso ir,
E ninguém pode.
Foi o adeus.
Um singelo e definitivo adeus.
Eu acaricio o bilhete
De adeus que ele nos deixou,
Contorno cada palavra,
A forma como escreveu
E busco uma motivação,
Busco suas roupas,
Os cheiros,
Os troféus, as coisas de que gostava,
Busco o que houve de errado.
Isto me desespera,
Ontem a noite me vi
Esquecer o horário noturno,
Abrir a porta do porão
E correr para a rua escura,
Saí em disparada rumo
A lugar nenhum,
Eu queria o abraço
Do meu irmão,
Eu corri muito
Aí lembrei da praça
Onde ele gostava de ir comigo,
E fui até lá.
Lá nós andamos de moto,
Fizemos zerinho na calçada,
Queimamos pneu
Para escrever no chão,
Pulamos os quebra molas,
Nos sentamos recostados
No tronco da árvore
Onde tiramos fotografias
E tomamos chimarrão
De hortelã com cidreira.
Sentei no mesmo tronco,
Disfarcei a dor
Abraçando-o e imaginando
Ele quente e com vida pulsante,
Beijei seus face
E peguei uma pedra na terra
E risquei Ty sinto sua falta
Meu irmão,
No escuro,
Havia uma meia luz
De lamparina próxima a
Onde eu estava,
Mas meu coração soube
Eu risquei bem certinho
Só eu sabia da saudade,
Só eu sei da falta que ele faz,
Depois, forcei um sorriso
No rosto e voltei caminhando
A passos lentos para casa,
Contei as inúmeras vezes
Que andei de carona
Em sua moto ali
Naquele chão,
Cheguei em casa
E vi que deixei a porta aberta,
Mas, tudo estava no lugar,
Ao menos me pareceu,
Até o capacete negro dele
Estava ao lado do meu vermelho.
Quando fechei a porta
E imaginei que alguém
Poderia ter mexido
Em qualquer coisa sequer
E retirado do lugar,
Ou levado embora,
Eu apertei meus braços
Contra meu peito,
E o vi caído,
Na data em que ele sofreu
Um acidente de moto
E ficou seriamente ferido
Eu senti a dor da morte,
Contudo, agora ela irá permanecer.
Eu tenho a foto do acidente,
Ele todo cortado,
Vermelho em sangue,
Uma irmã não deseja a dor
De seu próprio irmão,
Ele caiu duas vezes,
Foi parar no hospital,
Nós corremos buscá-lo,
Ninguém queria ficar longe dele,
Contudo, hoje está fora
Do alcance,
Distante do querer,
Ele descansa no cemitério,
Dorme numa lápide,
Se perde no tempo,
Não podemos remover
Ele de lá,
Está frio
O calor que nos uniu,
A pulsação cedeu ao buraco
Do tiro,
Se perdeu neste tão vazio,
Apenas deste vazio
Eu entendi,
A força,
Eu entendi,
Do outro que o levou
A fazer isto eu não entendi
Nem um pouco,
De que buraco falou?
Se era tão importante
Por quê não conversou?
Nós juramos fidelidade
Na família,
Confiança um no outro,
Agora tudo de que confiamos
É a identificação do psiquiatra
E o remédio de que fazemos uso
E seus efeitos.
O buraco que Ty sentiu
Nos afundou,
Levou a ele,
E aquele que o levou
Nos consumiu...
Bom, eu odeio armas,
Dispenso tiros,
Só espero que mamãe 
E papai não se afundem.

terça-feira, 22 de julho de 2025

Não Foi Adeus.

Bem, você não está preparado
Para perder seu irmão
Tão jovem,
E
“Ele tinha dezenove anos”
Eu comento no velório
Como se isso tornasse injustificável perde-lo.
Na época, eu estava com 21 anos.
O tempo passou,
Os dias me acordam
De alguma forma,
Como se o sol pudesse
Amenizar o buraco de dor
Que se abriu em meu peito
E guardou meu irmão ali,
Na esperança de que ele emerja
Lá de dentro,
Eu abro os olhos,
Finjo que descansei,
Busque um sorriso forçado
E encontre forças
Para sair da cama.
A parte do se alimentar
É difícil,
Eu vou até o quarto
Que tenho ao lado do meu
Para espera-lo,
Sento sobre a cama
Que arrumo todos os dias
Com um lindo cobertor antigo
Que o espera para mantê-lo
Aquecido.
Eu deito de bruços,
Imagino que se aquele cobertor
Possa aquecer meu coração,
Sanar a dor,
E trazê-lo de volta,
Depois me sento,
Pegou seus cadernos antigos,
Os abro mil vezes,
Folheio suas páginas
Buscou as histórias dele.
Eu busco traços de marcas
Sobre as páginas,
Vou do escrito
Para o não escrito
Em busca de cada momento
Em que ele viveu,
Eu sonho estar lá,
Ter acompanhado ele,
Protegido,
Eu sonho muito tê-lo amparado
Daquele maldito tiro,
Destrutiva bala que o levou,
Fez um dilacerado de dor,
Que se cravou em casa um
De nós:
Nosso pai,
Nossa mãe,
Eu.
Eu abraço cada página
Sonho que ele saiba
O quanto o amei,
E o amarei por toda a vida,
Aperto contra o peito
Tentando evitar mancha-la
Com minhas lágrimas,
Eu busco cada cheiro,
Cada perfume que esteve
Ao seu lado ou próximo,
E tentou buscar os de mais
Distante,
E depois desenho em minha mente
Cada rosto,
Cada corpo,
O que disse a ele,
Cada nome,
O que o fez.
Então, fecho o caderno
E o guardo de volta,
Acaricio o antigo cobertor
Com o qual já dormimos juntos,
Já vimos televisão abraçados,
E envolvidos nele,
Fizemos nossa gemada,
Servimos nosso café,
Comemos nosso delicioso creme
Da tarde.
Arrumo o cobertor
Da mesma maneira anterior,
Por vezes, poucas vezes,
Eu desenho ele sobre o cobertor
E tentou imaginar
Como ele estaria,
Como seria seu sorriso,
Que roupa vestiria,
Se tem saudades de nós.
Eu o desenhei tanto
Naquele cobertor
Apenas com abraços e chorou
Que já sinto o cheiro
Encravado em cada linha
De costura de suas cores
Branca, marrom e vermelha
Axadrezadas.
Buscá-lo me dá forças,
Então, eu saio para fora de casa,
Vou ao trabalho,
No meu trabalho eu ligo
Para a casa das pessoas
E ofereço planos de telefonia,
Todo o dia eu ligo
Para pessoas diferentes
E cidades diferentes da região.
Eu me esforcei
E agora posso oferecer
Planos de televisão e celular,
Eu ligo para suas casas,
Seus trabalhos,
As vezes, sou inconveniente,
Mas, eu insisto,
As vezes, sonho com a voz dele.
“Será que ele me atende?”
Eu penso,
Levou uma mão ao coração,
E a outra ao telefone
E digito um número a esmo,
Eu o busco.
Na primeira vez,
Uma voz masculina atendeu,
Eu insisti.
“voce é o Gilvan?”
 Indaguei,
“não”.
Foi a resposta tardia
Que recebi.
Eu busquei o cheiro dele,
Busquei muito.
Insisti e liguei de volta,
Outra vez masculina
E outro não.
Recebi muitos nãos,
As pessoas não gostam
De mudar planos em seus
Celulares e televisores,
E... Infelizmente,
Não consegui contato
Com meu irmão,
Não para eu.
Sim, para a verdade.
Eu fiquei rouca,
Perdi a voz,
Nunca faltei,
Cada mês lhe comprei flores,
Cada final de semana
Eu o visitei no cemitério,
Lhe abracei de perto,
Mas, o buraco em meu peito
Dava voltas,
Não se adequava.
Assim, foram dez anos.
Meu trabalho durou pouco,
Eu fui xingada por ter ligado
Para a cidade inteira
Em muito pouco tempo,
E já estar sendo reconhecida
Nas ruas,
E sendo alvo de comentários
Em cidades vizinhas.
Fui para a área jurídica,
Busquei ele nos cemitérios,
Hospitais, delegacias e afins,
Não havia processos contra ele,
Não teria sido possível,
Ele estava morto,
Havia um atestado de morte,
E um corpo num caixão
Que concordavam com isso,
Não havia está certeza
Em meu coração.
Eu quis abrir o túmulo,
Buscar no caixão os seus restos,
Ver de que forma
Eu me identificaria com a perda,
E aceitaria os fatos,
Encerraria minhas buscas.
As pessoas me indicavam
Tratamento psiquiátrico,
Alegavam insanidade,
Eu disse: “ meu bem, é saudade”.
Alguns elogiavam minha força
Por não fazer uso de remédio,
Até para esquecer e aplacar a dor,
Eu respondi:
“ não quero esquecer,
Preciso lembrar,
Buscar cada detalhe,
Estar lá...”
Então, baixei os olhos
Carregados de lágrimas
E terminei a frase:
“com ele”.
Eu tive poucos amigos,
Eles foram viver suas vidas,
Disseram que sentiam medo
Do meu luto
Porque se tornava contagioso,
E ninguém desejava
Acordar mortos.
“ não está morto”.
Eu consegui dizer
Com tanta dor
Que arrastei a frase
Até eu chegar a porta,
Abri-la e dizer adeus eterno
Para a pessoa
Que não queria lembrar dele.
Eu mataria a que me fizesse
Esquecer,
Não é possível aplacar a dor
De perder um irmão,
Eu via isto em nosso pai,
Em nossa mãe,
Via no reflexo do olhar
De cada um que chegava perto.
Eu guardei o celular
Que ele usava,
A roupa que ele gostava,
Eu liguei para ele
Muitas vezes,
Ele não atendeu,
Eu não tive está certeza,
Por isso, nunca parei.
Eu fui em festas
Onde tinham pessoas
Para buscá-lo,
Eu quis vê-lo nos olhos
De cada um que passava.
O cheiro dele
Não parecia distante.
Eu me esforcei na cozinha,
Busquei os temperos antigos,
Lembrei da culinária da família
E o busquei,
Temperei do mesmo jeito,
Com o mesmo carinho,
Abri a janela
Para que ele sentisse o cheiro,
Desejei que isto o trouxesse.
Eu sempre guardei
Um prato para ele,
Sempre mantive seu lugar a mesa.
Eu busquei o reflexo dele
Na imagem de outros garotos,
Tentando identificar
Como ele estaria
Se não tivesse existido
O maldito dia 23 de julho de 2011.

domingo, 20 de julho de 2025

Querida Mamãe

Amada mamãe,
Te agradeço hoje,
Pelos meus primeiros dias
De vida,
Aqueles em que eu era
Tão pequena criança,
E você me abraçava,
Tão faminta criança,
E você me alimentava
Do leite do seu próprio peito,
Tão delicada criança,
E você me banhava e
Trocava minha roupa.
Hoje, crescida criança,
Eu rememoro e entendo
O quanto foi importante
Desde o aleitamento
Até meus primeiros anos
De vida,
Onde obtive o melhor alimento,
Que me sustenta
Até os dias atuais
E irá guiar meu paladar.
Pois não são os sanduíches
Comidos rápidos
Antes de sair correndo
Para o trabalho
Que reforçam a estrutura
E o meu cérebro,
Não, mamãe,
Foi o seu leite
Que formou meus ossos,
E o alimento que você
Escolheu desde o início
Que me faz forte
Para seguir os próximos anos.
Desde a geração
Até a concepção
Você sempre escolheu
A melhor comida
Para me fazer criança forte
E me manter equilibrada,
Me deu o melhor alimento
E hoje sou agradecida
Por entender tão boa
Você é em minha vida.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Depois do Fim

Marta piscou algumas vezes,
Tentou entender
O que houve,
Se viu dentro do carro
Esmagada contra o chão.
Estava imprensada
Contra o volante,
O carro estava tombado.
- um acidente, filho?
Meu filho!
Foi tudo que conseguiu dizer,
Depois veio a dor,
Uma dor terrível e inexplicável,
Algo próximo a morte.
Com custo,
Ela conseguiu remover
O rosto que estava colado
Ao vidro para-brisa do carro,
Empurrou o banco
Que a comprimia e buscou
Com o olhar pelo filho.
O viu imóvel e emudecido,
Sangue escorria do vidro
Onde ele estava colado.
- filho.
Ela interveio.
- filho, o que há?
Ele parecia não respirar,
Isto lhe deu uma força sobre-humana,
Conseguiu se empurrar,
Abrir a porta e caminhar
Recostada na lataria do carro,
Tocando os pneus
Que estavam para o ar,
E chegou na porta ao lado,
Onde estava o filho.
A porta estava imprensada
Contra a terra,
Amassada pelo peso do carro,
Ela notou,
Um tanto arredia
Que sofreu um acidente,
Seu carro foi jogado
Para fora da estrada.
- filho, tenha força
Por mim, eu te amo.
Ela tentou outra vez.
Com o coração aos saltos,
Nem sentiu a dor no rosto
Que sangrava cortado
Pelo vidro.
Nisto olhou para a cocha
E encontrou um pedaço
Enorme de vidro
Penetrando sua pele,
O removeu rápida,
E empreitou contra a porta.
- filho!
Gritou de novo.
Puxou a porta para fora,
E a abriu.
Depois se ajoelhou
E beijou o rosto do filho,
Limpou com as costas da mão
O sangue que escorria.
Depois disso,
Empurrou com toda a força
O banco para trás,
E removeu o filho do carro,
Ele continuou imóvel,
Como se estivesse morto.
Ela o pegou no colo
Foi até a margem da rodovia,
Esperou até alguém ajudá-la
E foram conduzidos ao hospital.
Ela sangrava muito,
O rosto se desprendeu
Em um lado dos ossos,
E os estilhaços do para-brisa
Lhe cortaram, também,
Na região do peito.
O filho não falou
Uma única palavra
Ou se moveu.
Ela o abraçou,
Sentou com ele
No banco de trás do carro
Que lhes deu carona,
O pegou no colo
E clamou por misericórdia,
Implorou a Deus
Que não o levasse,
Rogou para Deus salva-lo,
Usou todas as palavras
E orações que já ouviu
Implorando que Deus poupasse
A vida de seu único filho.
- ele tem dezenove anos.
Ela disse para o estranho
Que conduzia ela até o hospital
Da cidade mais próxima.
-Deus não pode levá-lo.
Ela tornou a dizer,
Tocando no ombro do estranho,
Que dirigindo,
Olhou pelo retrovisor,
Depois se virou para ela
Vendo sua dor
Se transformar em choro
E escorrer por seu rosto,
E roupa.
O estranho fez sinal
Com a cabeça de que não,
Balançando rápido
De um lado para o outro.
Ele trocou a marcha,
Então, viu que já estava
Dirigindo na última,
Mas, tornou a acelerar,
Precisava salvar estes dois,
A mãe parecia que iria morrer
De dor,
Medo e sofrimento.
- seus ferimentos doem?
Ele lembrou de pedir,
Para mudar o assunto
E trocar o pensamento dela.
- eu não posso perder
Meu filho.
Ela disse, simplesmente,
Parou de olhar para o rosto
Do motorista,
Através do reflexo do espelho
Retrovisor e olhou para fora,
Para a paisagem cheia de casas
Que mudava a toda hora,
- Deus, poupe meu filho.
Ela disse.
Como se Deus ao não ouvi-la,
Pudesse ouvir uma das orações
De alguém de dentro daquelas
Casas e confundisse as orações
E apenas desta vez,
A atendesse
E mantivesse seu filho.
Lembrou de avisar o esposo
Sobre o acidente,
Buscou o celular pelo corpo
E não encontrou,
Buscou no bolso do filho
E estava o dele lá.
Encontrou o número do esposo,
Escreveu uma mensagem turva,
Entre lágrimas e dor lancinante,
Como se as palavras rasgassem
Seu peito,
Invadissem por seus ferimentos
E se cravassem nela,
Ela olhou o filho outra vez,
Ele não se movia,
Parecia não respirar.
“sofremos um acidente,
Querido, o carro ficou no caminho
Nos busque no hospital...”
Ela olhou o filho,
Beijou seu rosto,
Tentou secar suas lágrimas
De sua face,
Seu sangue que por ventura
O tocou,
Ele continuou imóvel.
Ela clamou para Deus,
Parar seu peito,
E dar a ele a vida
Que arfava em seu peito,
Rezou que houvesse uma forma
De fazê-lo resistir.
“querido, reze.”
Ela conseguiu escrever
Depois de segurar o delete
Apertado e apagar a frase anterior.
O esposo, neste instante,
Devia estar com suas cervejas
Frescas bebendo sobre o sofá.
Inocente quanto a realidade,
Nem imaginaria a trajetória
Doentia que estava vivenciando.
Ela preferiu ir buscar
O garoto no colégio
Ao invés de Robson ir,
Ele bebia muito,
Ela não bebia nunca,
Mas, agora, ela bateu o carro.
Tentou buscar em sua mente
O que houve,
E tudo que encontrou
Foi um caminhão invadindo
Sua pista e se colocando
Contra o carro dela.
No entanto, tentou lembrar
Se onde acordou havia
Algo, contudo, não encontrou
Nada.
Parecia haver sinais de pneus
Derrapando sobre a pista,
Pneu queimado no chão,
Sinais negros e contínuos
Sobre o asfalto,
No entanto, só havia isso.
- você sabe o que houve?
Indagou ao motorista,
Ele estremeceu
E olhou para ela,
Depois se voltou para
A rodovia sobre a qual dirigia.
- não vi nada,
Apenas você e seu filho,
Você chorava muito
E sangrava por toda a roupa,
Porém, ele parecia estar
Abraçado a você...
Ele respondeu seriamente.
- mais... Nada?
Ela indagou,
Buscando sua imagem
Através do espelho.
- nada!
Ele disse.
- eu dirigia...
Ela falou.
Buscando o rosto do filho,
Acariciando seu ombro.
O homem chegou no hospital,
Buscou ajuda na recepção,
E levou a mulher sobre uma maca,
E o rapaz na outra,
Ela chorava muito,
Ele estava desacordado.
Ela insistiu em pegar sua mão,
Entraram juntos,
Com ela agarrada a ele,
Porém, o médico lhes indicou
Quartos separados,
Ela sofreu fraturas abertas,
A pele caia sobre a face,
Chorava desesperadamente,
No entanto, ele ignorava a vida,
Se está lhe percorria os pulmões
Parecia estar distante de seu coração.
Ele não parecia respirar.
Seu rosto estava com resquícios
De cortes,
Simples escoriações,
Mas, o pulmão estava imóvel,
O peito parecia estagnado.
Cinco horas depois,
Ela abriu os olhos
Dentro daquele quarto branco,
Que parecia um aprisionamento,
- Julho, filho, Deus.
Gritou.
Ele não respondeu.
Ela saiu desesperada para fora.
Ao abrir a porta do quarto,
Se deparou com o esposo,
Cheirando a cerveja,
A esperando.
- Julho morreu.
Ele disse, secamente.
Então, a segurou,
Ela perdeu as forças,
Cambaleou,
E seu rosto virou choro.
- Deus, traga meu filho.
Ela falou,
Se amparando no braço
Do esposo.
O velório iniciou no mesmo dia.
Seguiu até o seguinte,
Quando o filho foi enterrado.
Marta recolheu o carro,
Em homenagem ao filho,
O mandou para a oficina
E o refez na mesma forma,
Cor, placa e demais características,
Esperaria o filho para sempre.
O carro foi guardado na garagem,
E esquecido para manter sua originalidade,
Eventualmente, ela o pegava
E saia pelas ruas a buscá-lo,
Olhando de rosto em rosto,
Chamando seu nome
Em cada casa,
Cada janela por onde passava.
Robson insistiu
Em suas cervejas,
E optou pelo divórcio,
Não foi capaz de perdoa-la.
Na cidade vizinho,
Antônio brigou pela décima vez
Em menos de vinte e quatro horas
Com Marcos e Hugo,
Seus filhos.
- eu quero cerveja,
Me tragam meu uísque.
Marcos lhe trouxe vodca,
Indignado Antônio cuspiu
Contra seu rosto.
- você não presta pra nada,
Maldita a sua mãe
Que te abandonou comigo.
Então, bebeu quase todo
O conteúdo de uma só vez,
E retornou a olhar para o filho
Que o aguardava estagnado
E olhos assustados.
- você trouxe o uísque e a cerveja?
Ela perguntou.
- mas, você não gosta
Que a bebida esquente,
E se for ambas,
Mais a vodca vai esquentar.
O rapaz respondeu.
- maldito!
Ele gritou.
Jogando a garrafa contra
O rapaz,
Ela bateu em seu braço,
Depois na parede.
- eu nunca tive dois filhos,
Pensando bem, nunca!
Antônio gritou.
Hugo, se dirigiu para o quarto,
Pegou o celular e entrou
Em sua rede social,
Lá encontrou uma página
Com a fotografia de um carro,
Modelo antigo,
Cor escura e seu coração
Pareceu se apertar
Contra o peito.
Ele teve certeza
Que conhecia aquele veículo,
Anotou o telefone para contato
E decidiu marcar encontro,
Iria ver,
Quem era tal pessoa
Respectiva ao anúncio.
- Hugo, eu não entendo papai.
Ele bebe e briga,
As vezes, bate em nós,
Mas...
Marcos falou da entrada
Do quarto,
Então, fechou a porta
Atrás de si,
E abraçou o irmão
Sentado na cadeira da escrivaninha.
- digo isso, agora
Que ele está dormindo
E não irá ser violento,
Eu peguei a moto e saí
Da garagem,
Tinha dezesseis anos,
Então, cai e quebrei o braço,
A moto foi apreendida
E eu fui parar no hospital,
Meu pai foi me buscar bêbado,
Mamãe estava no trabalho,
Então, ele o trouxe por engano
E eu voltei de carona
Com um enfermeiro
Que ficou entristecido
Por eu ter sido abandonado.
O rapaz falou.
Hugo se moveu da cadeira,
Se voltou para o irmão
Estarrecido.
- como?
Ele indagou.
- verdade.
Marcos continuou.
-mas, eu não lembro,
Eu não entendo.
Hugo disse.
- eu o amo como a um irmão,
Eu só tenho você e papai,
Mamãe nos abandonou
E não se importa com nós.
Hugo ficou apavorado,
Num vislumbre de lembrança
Lhe pareceu ver o carro capotar,
Rolar pela rodovia,
Então, tudo ficou escuro.
Depois disso,
Ele parecia ouvir a mãe
Lhe chamar,
Também o pai.
Então, baixou os olhos
Para o celular
E o anúncio ficou ali parado
Em sua tela.

O Fim de Adam

Marlise se virou para Adam,
O abraçou com força,
Mesmo imprensada contra
O volante do carro esportivo,
Teve um último ímpeto de força,
Para virar o corpo
E buscar pelo filho
Sentado no banco ao lado,
E abraça -lo.
Seu coração chorou,
Antes de seus olhos confirmarem,
O filho não resistiu,
Sofreu uma pancada na testa
Contra o para-brisa do carro
E não resistiu.
Logo, seu corpo esfriou,
Seu pulmão não se mexeu mais,
Nem seus olhos tiveram tempo
Para buscá-la,
Seus lábios sequer
Pediram ajuda
Ou informaram sobre dor,
Simplesmente, silenciaram-se,
De uma maneira
Que nunca mais se abririam
Ou voltariam a dizer
Qualquer coisa.
Ao ser retirada do carro,
Que ficou de talvez forma
Imprensado contra o caminhão
Que vinha no sentido inverso,
A primeira coisa que fez
Foi buscar o filho
Do outro lado.
Marlise, guiada pelos
Sentidos de mãe,
Rastejou até lá,
Incapaz de colocar-se
Em pé,
Ela sangrava,
Suas costelas perfuraram
O pulmão,
E ela sangrava no joelho,
E peito.
- Senhora, você está sangrando...
Um homem lhe falou,
Aos gritos no seu ouvido
Ao ser seus esforços
Para buscar o filho,
Ela não conseguiu responder,
Mas, continuou a puxar o corpo
Com os antebraços
Até por trás do carro.
Um outro jovem, então,
A juntou do chão e
A carregou até o filho,
Ela chegou a tempo
De vê-lo ser retirado imóvel
Do carro,
Olhos fechados,
Mãos paradas,
Braços moles caídos.
- filho.
Ela conseguiu usar
De todo seu esforço
E amor de mãe
Para chama-lo.
- fi...lho.
Ela disse,
Outra vez.
- Ele se foi.
Respondeu um dos socorristas,
Que observava seus sinais vitais.
Era uma rotatória apenas,
O caminhão seguia o sentido
Oposto ao dela,
Não representaria para quem
Apenas observasse
Que um acidente naquele local
Poderia causar resultados
Tão graves quanto este,
Mas, tomou.
Marlise, se dirigia
Para casa com o filho,
Próximo ao meio dia
Para levá-lo almoçar
Após as aulas colegiais,
O caminhão entrou na rotatória
No mesmo instante,
E se chocaram,
Ele vinha de sua esquerda.
Rotatória é uma espécie
De canteiro de flores
Que separa quatro saídas duplas,
De ruas diferentes,
Sem sinal eletrônico.
No cemitério da cidade,
Marlise preferiu escolher
O local em que sepultar Adam,
Escolheu o lado direito,
Bem ao final,
Próximo de onde haviam
Muitas árvores frondosas
Para que ele descansasse
Na sombra de suas folhas.
O filho amava árvores
De caules grossos,
Escolheu a mais linda,
Lá foi feito um buraco no chão,
Posto uma lápide
Do lado de cima,
E agora desciam seu caixão
Fechado,
Nunca mais seria aberto,
Nem ele seria visto.
Quatorze anos
Foi o tempo que ele viveu,
A dor no corpo de Marlise
Era intensa,
Contudo, a perda foi irreparável,
Era o único filho dela e
Jorge.
- Este é o fim do casamento.
Jorge disse,
Ao colocar a mão
Sobre o ombro de Marlise,
Se aproximando por trás dela.
- depois do acidente,
Eu não o vi.
Ela teve tempo de responder.
Ele já não a ouvia,
Simplesmente se certificou
De providenciar o mortuário,
E não chegou perto dela
Única vez,
- ele tem problema
De alcoolismo.
Ela tentou falar
Para sua cunhada
Que estava em pé ao seu lado,
Mas não teve força
A dor de perder um filho
Cala uma boca,
Emudece um coração,
Fecha os olhos para todo o resto.
Se conteve em apertar
O braço dela,
Como se lhe transmitisse conforto,
Ou buscasse.
Ela não pensava,
Mas, teve certeza
Que era melhor deixa-lo ali
Entre as árvores
Que sob o sol escaldante
Dos outros locais
Ao lado ou mais adiante.
Jorge abriu seu casaco,
Retirou de lá dois vidros
De uísque,
Abriu e bebeu um pouco,
Parado ao lado do buraco
Profundo onde era colocado
O caixão, lentamente.
Depois, abriu outro vidro,
Bebeu também um pouco deste,
Então, ele soltou sobre o caixão,
Derramou o líquido todo.
- ele não conheceu bebida,
Não provou nada da vida,
Foi tão cedo,
Não saberá o que é viver,
Eu preciso mostrar isto a ele,
Faz parte de ser pai.
Então, caiu de joelhos
Fazendo desmoronar terra
Sobre o caixão.
Bebia de um vidro,
Derramava de outro,
Seu pai que ajudava a descer
O caixão segurando uma
Das três cordas,
Virou o rosto para o lado,
Com um grunhido de dor
Que o fez cuspir para frente
E para o lado,
Junto com o choro
Que escorreu em seu rosto.
Marlise tentou pôr a mão
Sobre o ombro de Jorge
Mas ele empurrou:
- vagabunda. Você o matou.
Ele balbuciou entre lágrimas,
Tentando se levantar
Usando uma mão
E a garrafa.
Derrubou mais terra
Sobre o caixão.
- filho.
Ele gritou.
Se jogando para frente.
E resvalou mais,
Teria caído,
Mas, Miguel, seu irmão
O conteve a tempo.
- ela o matou.
Ela o matou.
Jorge disse
Indo parar recostado
No ombro do irmão,
Dando empurrões nele
Com a mão fechada,
E vidro de uísque nela.
Algum tempo se passou,
O caixão repousou no fundo
Da terra úmida,
Algumas palavras de adeus
Foram pronunciadas,
- filho, perdoa a sua mãe, filho.
Filho, como eu posso dizer adeus?
Marlise falou,
Abraçando a si própria,
Com o rosto encharcado de dor,
A roupa escorria lágrimas
E respingava sobre o caixão
Lá no fundo,
Como pingos de chuva
E dor,
Que nunca silenciaria.
Jorge jogou o vidro lá dentro.
- filho, vamos beber?
Vamos nos divertir juntos,
Precisamos viver.
Ele disse.
Seu casaco se encharcou
De lágrimas e dor
Em pouco tempo.
As pas de terra foram erguidas,
Carregadas de terra
E de uma a uma jogadas
Sobre o caixão.
Algumas flores foram deixadas
Organizadas ao redor
Da sepultura,
Junto com velas acesas.
Não tardou,
E a última pa de terra
Selou o enterro,
Mais flores foram soltas
Sobre o local.
Um coelho branco
Surgiu do lado de cima
Daquele cemitério
De grama fresca,
Pulou diversas vezes,
E fugiu dos presentes,
Haviam muitos parentes.
Jorge tomou as chaves do carro
De dentro do bolso de Marlise,
E saiu para fora inconsolável
Bebendo de seu uísque,
O portão do cemitério se fechou
Com Marlise parada do lado
De fora sem poder reagir a dor.
Jorge cruzou por ela
Dirigindo o carro,
Jogou o vidro de uísque
No chão próximo a ela,
E saiu fazendo voar poeira
E brita sobre ela.
Ela o olhou,
Ergueu o rosto para vê-lo
Subindo o moro,
Até esconder-se por entre as árvores,
Ela continuou olhando,
Mesmo quando o tempo
Passou,
Ela se manteve olhando.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Casada por Acaso

O término do namoro
Levou Ana ao dezenove
Pote de dez litros de sorvete,
Já conhecia todos os sabores,
Brincava com as cores,
E salgava o final de cada pote
Com suas centenas de lágrimas.
Exatamente, isso.
Roberto a deixou,
Nas vésperas do casamento,
Claro que não havia
Data marcada,
Contudo, ela estava convicta
De que ocorreria,
De que se amavam,
Logo, comprou o vestido
Mais caro,
A sua escolha e perfeição
De detalhes,
Ela até, já fazia suas viagens
Ao redor do país
Com Roberto ao seu lado,
Buscando uma igreja
Na qual ela se adaptasse,
Para realizar a celebração.
Quando chegava
Neste instante da lembrança,
Chorava muito,
Costumava guardar o álbum
De fotos,
E esquecer que acreditou
Que ocorreria na catedral
De Florianópolis.
Decidiu, diante disso,
Fazer outra viajem,
Desta vez,
Levaria o vestido
E jogaria no mar de lá,
Ou faria uma doação
A alguém que cruzasse
Pela linda Praia dos Ingleses.
Talvez, algum casal,
Ou um sorteio,
Juntaria todos os nomes
Dos que desejassem o
Encantador vestido Dior,
E o nome que saísse de
Dentro do chapéu de praia
Ganharia.
No caminho, o pneu furou,
Não podendo parar
Na rodovia,
Seguiu adiante e a roda entortou,
Foi obrigada a parar
Numa loja para adquirir
Uma nova.
Chegando ao local,
Uma moça foi logo
Levando o carro até o lugar
Onde efetuaram a troca.
Trocando algumas palavras,
Soube que ela era mãe,
Adiante na conversa
Duas meninas surgiram
Sentadas na escada de madeira
Com um gatinho cada.
Sabendo da viagem,
As meninas iniciaram a chorar
Para ir junto,
Se abraçaram as pernas mãe
E a fizeram parar o trabalho.
Ela se irritou,
Pegou as crianças pelos ombros
E soltou para o lado,
Próximo a uma corda amarrada
A casa.
O coração de Ana deu um salto
Ante a ideia de ver duas meninas
Amarradas a parede
De uma casa,
Afastou-se de lá,
Com a pretensão de afastar
O pensamento.
As meninas correram até ela
E a abraçaram na altura
Das cochas,
Casa uma pendurada em uma
Delas,
Uma menina de três anos,
Outra de seis.
Choraram com tanto sentimentalismo,
Que chegou a molhar sua calça jeans,
Até escorrer para o chão.
Comovida ela chorou junto,
Abraçou as meninas,
E se agachou até elas.
Neste instante,
Uma senhora gorda
De cabelos brancos saiu
Para fora da loja
Que tinha inúmeras rodas
Penduradas na parede
E disse:
- leve-as,
Você é uma boa garota,
Confio em você.
Ela se voltou para aquela senhora,
Enxugando as lágrimas,
As meninas secaram os olhos
E correram até ela
Com os braços erguidos
Gritando obrigada.
Ana se contentou em sorrir.
A mãe de Claudia e Claudira,
Terminou o trabalho
Ao final da tarde.
- leve as meninas,
Eu pago toda a viagem,
Apenas não posso
Ir com vocês,
Eu trabalho muito.
Ela deixou o pneu concertado
Na roda do carro
E se levantou limpando
Com um pano a sujeira
Das mãos:
- não me afasto de casa,
Eu sou assim.
Lá em Florianópolis mora
O pai delas, chamado Augusto,
Nós nos separamos.
Eu aviso que elas irão para lá
E ele decide ir até vocês
Para vê-las.
Foi tudo tão rápido
Desta forma,
Efetuado o pagamento,
Mãe e filha recusaram o dinheiro,
Ao se encaminhar até a saída,
As meninas correram
Com sua mala de viagem pronta
E dois sorvetes em cada mão,
Para entregar um a ela.
- me desculpa Ana,
Eu não arrumei a mala,
As meninas se organizaram assim.
Interveio a mãe.
- Não tem problema.
Ana respondeu se abaixando
Para pegar o sorvete.
- eu jamais a obrigaria
Desta maneira,
Entendo você querer viajar
Sozinha.
Ana olhou para a mãe
Das meninas,
Uma mulher magra,
De uniforme sujou,
Mãos engraxadas
Que estendeu a mão para ela,
E a segurou com carinho.
- nós vamos juntos Ana,
Por favor.
Claudia pediu,
Com os olhos cheios de lágrimas,
Pegando a mão de Ana
E segurando junto com
As da própria mãe,
Claudira fez igual,
Mesmo com dificuldade de alcançar.
Ana se abaixou
Até às crianças,
Abraçou as duas,
Olhou em seus olhos
E não pode resistir.
- tá bom, lindas.
Respondeu.
Selmira, pegou as filhas
No colo e levou até o carro,
Sua mãe, avó das meninas,
Catiera levou as pequenas malas Dior.
Colocado no porta malas
As malas, Catiera veio até às crianças
E abraçou ambas.
Depois fechou a porta do carro,
Junto com Selmira,
Uma mão sobre a da outra,
Com carinho
E se despediram.
A viagem ocorreu normal,
Um dia de estrada,
E avistaram a ponte de Florianópolis,
Algumas horas de viagem,
E estacionaram na praia.
Roberto se aproximou delas
Com um balde de vinte litros
De sorvete em mãos.
- minhas filhas!
Ele gritou.
As meninas correram para ele.
Ana se aproximou a passos lentos,
Estendeu a mão
E cumprimentou:
- prazer, sou Ana.
Roberto, com Claudira
No colo e Claudia abraçada
A sua perna,
Cumprimentou-a.
Foram até o guarda sol dele,
Ficaram lá comendo espetinho
De carne da Sadia,
E sorvete Nestlé.
O dia correu rápido,
Ele tinha um apartamento
Em frente a praia,
Então, convidou Ana para ficar.
Ana gostou da ideia,
Não queria separar-se
Das meninas,
Por isso, desocupou o lugar
Onde ficaria e optou
Por a frente-mar.
A noite,
Pôs um maiô Dior,
E saiu para ver as ondas,
Chegou perto,
Não resistiu ao choro,
Uma onda estava arrastando-a,
Quando Roberto correu até ela
E a segurou:
- Uai, você não conhece o mar?
Ele te arrasta.
Ele disse,
Pegando em sua cintura.
- me desculpa.
Ana respondeu,
Tentou retornar até a areia,
E tropeçou no pé de Roberto,
Caindo na água
Ao seu lado,
Outra vez,
Ele foi obrigado a ajunta-la,
Desta vez,
A manteve colada ao seu peito.
O peito dele arfava,
Parecia respirar o mesmo sentimento
Que Ana,
O beijo aconteceu ali
Sedento e arredio.
De repente,
Seus carinhos
Se intensificaram
E se tornaram ansiosos,
Então, fizeram sexo sobre a areia.
Logo no primeiro dia,
Todavia nada alterou
A felicidade das crianças
No dia seguinte na praia,
Ambas buscavam conchinhas,
E brincavam de fazer brincos
E colares para Ana,
Que ficou recheada de conchas,
Principalmente no cabelo.
Próximo ao meio dia,
Elas brincaram de fazer
Construção na areia,
Depois disso, Roberto chegou
Com churrasco e salada,
E todos pararam almoçar,
Então, as meninas sentaram
Uma em cada perna esticada
Sobre a areia, dele
E dormiram abraçadas
Ao seu peito.
Ana se sentiu emocionada,
Chegou até Roberto
E sem que pudesse controlar,
Seu coração se acelerou
Tomada por uma emoção
Muito intensa,
Tão intensa que não pode
Controlar ou reconhecer.
Ela abraçou o braço de Roberto,
Ele sorriu,
- eu fui noiva.
Ela mentiu.
- que bom.
Ele respondeu.
- é... Ele não me amou tanto.
Ela mentiu ainda mais,
Na verdade Paulo Carlos,
Nunca a pediu nem ao menos
Em namoro,
Então, tecnicamente,
Eles nunca tiveram nada
Além de sexo
E viagens pagas por ela.
- eu tenho o vestido,
Queria me livrar dele...
Ela continuou chorando
Sobre o ombro de Roberto,
Ele virou-se para ela,
E procurou um beijo,
Então acariciou seus cabelos.
A tarde chegou quente,
As meninas cataram milhares
De conchas e se entreterem
Separando por tamanhos
E outras diferenças
Casa qual.
Roberto abraçou Ana,
Em pé,
Na frente de todos,
Por horas,
Neste dia Ana aguentou
Sem tomar sorvete
E na maioria do tempo
Não chorou.
Agora, suas lágrimas
Escorriam por vergonha
Do que houve entre ela
E Paulo Carlos,
Ela sustentou este homem
Por longos cinco anos,
Sem um anel de compromisso,
Ou mesmo uma palavra.
Ambos fizeram viagens
Para muitos países,
Ela nunca poupou
Em suas bajulações,
E apenas agora percebeu
O quanto ele foi um aproveitador.
No entanto, ao lado de Roberto
Ela se sentia segura,
Ele era masculino,
Seguro e firme de si próprio.
Ele era dono do restaurante
Em frente a praia.
O local estava sempre lotado,
Porém, Ana levou as garotas
Até lá para se sentar
Sob as árvores,
Haviam bancos de madeira
Expostos na areia.
Roberto ficou o tempo todo
Com ela,
Tão próximo,
Está proximidade
Lhe transmitiu a certeza
De que Paulo Carlos
Fugia dela e a evitava.
Ele era um rapaz imaturo,
O contrário de Roberto.
A noite foi escolhida
Para doar o vestido,
Logo, escolheu o local
Do restaurante.
O vestido foi aberto
E teve aprovação imediata,
Feito o sorteio,
Roberto anotou casa nome
E pôs dentro do chapéu,
Balançaram os nomes,
E puxaram um de lá,
A escolhida foi uma moça
Do estado do Amazonas.
Ela adorou.
Chorou e escolheu se casar
Ali mesmo, logo no outro dia,
Há cinco anos ela era casada
Com Marlon,
Casaram em função de gravidez,
E após isso tiveram mais
Dois meninos,
Contudo, ela confidenciou
Que sonhava em celebrar
Usando um vestido apropriado.
Assim ocorreu,
Roberto levou Ana
Andar na praia,
Claudia e Claudira ficaram
Brincando nos brinquedos,
Abraçando suas bonecas.
- Ana, fica morando comigo?
Pediu Roberto.
A meia luz dos postes
Da areia,
Ana sorriu e o abraçou.

Destino à ROCAM