sábado, 25 de abril de 2026

Assassino Insaciável

Agenor passou
A reclamar em casa
De sentir uma dor insuportável
Que tanto lhe doía
Que causava perda
Do movimento dos membros.
Sua esposa,
Gentil e amável
Corria lhe fazer um chá,
Porém, a dor apenas aumentou
E passou a causar mudez.
De vez em quando,
Agenor acordava cedo
Da manhã para ir ao trabalho
E não tinha movimento
Dos membros superiores,
Com dificuldade para se levantar,
Tomava o café
Sem cumprimentar ninguém
E corria para a porta
Com medo de perder
Mais movimentos,
Ou então, que a perda
Com sensação de formigamento
Durasse para sempre.
Com dificuldade,
Ele sentava em frente
Ao volante do carro
E demorava cada movimento,
Mas, conseguia prosseguir,
Precisava ser forte
Para ajudar a família,
Manter a identidade financeira
Do casamento.
Seus filhos tornaram-se
Arredios,
Jander foi andar de bicicleta
Reclamou de formigamento
Nas pernas e antes de
Ter forças para parar a bicicleta
Caiu no asfalto ferindo
Profundamente o rosto.
Raise correu para ajudar,
Porém, sentiu formigamento
No quadril direito e
Não tinha mais forças
Para se mexer.
Ficou parada sobre
O garoto agachada
Segurando ele pela cintura
Sem poder fazer nada.
Sua mãe correu
Porta a fora
E vendo a cena desacreditou
E bateu na moça de quinze
Anos com o chinelo.
Raise chorou envergonhada,
Estava em plena calçada,
Em frente aos vizinhos,
Mas, mesmo apanhando
Não conseguia mover-se.
O pai voltou
E nesta noite foi pior.
Perdeu os movimentos
Dos membros inferiores,
E com um esforço tremendo
Tentou levantar a mão
Para pedir a ajuda da esposa
E não conseguiu mover-se,
Então, tentou falar
E sua voz não saiu.
Preso num escuro profundo
Acreditou estar morto
E num esforço sobrehumano
Tentou arranhar o caixão,
Implorar ajuda,
Abrir os olhos e ver algo,
Mas, nada acontecia.
Até que a lua despontou
No céu
E a luz chegou a janela,
Chorando de felicidade
Ele percebeu que estava
Apenas na sua cama,
Em seu quarto,
Ele sorriu,
Mas, suas palavras
Ficaram presas
Em algum lugar muito
Distante,
Como se um verme
As tivesse devorado
E levado junto cada um
De seus músculos.
Nesta noite,
Ele teve um pesadelo terrível,
Sonhou que algo rastejava
Dentro dele,
Formando calangos
Para fora do corpo,
E este percorrer daquele
Bicho causava uma dor
Lancinante.
Por onde andava
O bicho mordia
E levava algo,
Um pouco de sua pele,
Um pouco do seu sangue,
Um de seus músculos...
O bicho insaciável
Comeu os músculos de
Um de seus braços
E agora com o braço curto
Ele perdeu os movimentos,
O braço atrofiou,
E não esticava mais,
A dor era terrível demais
Para ser enfrentada
Então, ele foi encurtando
Até chegar ao peito
E ali ficou.
De repente,
O bicho virou para trás
E num ímpeto
Pulou até seu coração
E o devorou.
Agenor acordou assustado,
Suando frio e tremendo,
Olhou para o lado e
Sua esposa estava ali
Abraçada a ele,
Tranquila o protegendo.
Ele sentiu que precisava
Fazer algo,
Aos 40 anos ele era jovem demais
Para morrer de dor
E imobilizado feito um imóvel.
Na manhã seguinte,
Conseguiu se mover,
Abraçou a esposa,
Beijou sua face
E foi ao hospital.
Chegando lá,
O médico o analisou,
Ouviu o relato
E fez um exame de vista
E toque.
Na primeira oportunidade
Descobriu tratar-se de berne.
Faltava apenas abrir um
Pequeno local por onde
Retirar o bicho
E fazer a pequena cirurgia.
A cirurgia logo foi marcada,
Saindo do hospital,
Agenor foi até o cemitério
E sentou chorar
Perto do túmulo de
Seus pais a avós,
 Tão tarde descobriu a doença
Degenerativa da família
Definida como catalepsia,
Era berne,
Um simples bicho
Que era transmitido de um
Ser humano para o outro
Através do toque,
De estar perto
E por meio de um mosquito.
Berne,
Uma questão tão simples,
Lhe tomou a família inteira
Em tão pouco tempo.
Depois de chorar no cemitério,
Ele foi até sua casa
E lá cortou as bananeiras
Onde seus filhos
Faziam as necessidades fisiológicas atrás,
Lavou o tronco das árvores
De frutos mais grossas,
Onde haviam restos
De merda e mijo
E então, lavou toda a casa.
Depois disso,
Contratou um pedreiro
E fez um banheiro
Para cada quarto da residência,
Instalando água
Em cada qual
E transmitindo a notícia
De que urinar e defecar
Ao redor de casa
Estava proibido.
Então, explicou sua doença
Aos filhos e descobriu
Que os filhos sofriam
Do mesmo mal.
Irritado ele pegou
Os penicos debaixo da cama
De cada um e fez
Uma labareda de fogo
No pátio de casa e
Os queimou.
A falta de higiene
Matou seus patriarcas
E agora levava sua família
Sob seus olhos,
E a dor tirava inclusive
A vontade de viver.
Chegando o dia agendado,
Agenor foi até o hospital,
Passou pela cirurgia,
E isto lhe ocasionou
A perda irrecuperável da perna.
Os bichos formaram
Um aglomerado de bichos
Naquele local,
Se multiplicando em milhões,
E o membro não pode
Ser recuperado.
Anestesiado e sonolento
Pela cirurgia,
Uma enfermeira aproveitou-se
De seu estado,
E provocou nele ereção,
E então fez sexo com ele
No escuro do quarto
Do hospital
Engravidando de Agenor.
A enfermeira Noêmia
Retardou o máximo possível
A saída de Agenor
Do hospital e o manteve
Fazendo sexo por
Todo o tempo que desejou.
Sob o efeito do remédio
Ele não notou que isso ocorria.
Na sua família,
Todos tiveram bernes,
E seu filho
Perdeu alguns músculos
Do braço,
Por isso, teve seus movimentos
Encurtados significativamente.
Já sua esposa perdeu
Um seio,
O berne comeu o seio dela
Que ficou flácido e caiu,
Ela acreditou que isso
Se devesse a idade avançada,
Mas, não,
Foi causado pelo berne.
Já sua filha perdeu
O movimento permanente
Dos dois últimos dedos
Da mão direita,
Seus músculos foram picotados
Por mordidas do bicho
Que arrancou aos poucos
Os pedaços dos músculos
Até que ela não pudesse
Mais se mover.
Ao final de sete dias,
Todos retornaram para casa,
Animados e felizes,
Mas, a sombra daquele
Bicho faminto e feroz
Permaneceu,
E o medo sempre ronda
A casa dos Albbuquerques.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Otramentiron - Retorno da Múmia

Navegando nas margens
Do rio Nilo,
O doutor Roultin decidiu
Com sua esposa,
Apoitar o barco a velas
E mergulhar.
No terceiro mergulho,
Já cansado,
Por pouco não perde
Todo o fôlego
E sucumbe nas águas límpidas
Do rio,
Vez que colidiu com algo negro
E longo e duro embaixo
Da água.
O encontro teria sido fatal
Se ele não fosse rápido
E pusesse sua mão
Em frente a cabeça,
Isso atenuou o impacto.
Vendo o objeto,
O achou de renomado interesse,
Chamou uma equipe de buscas
E o retirou debaixo da água
Usando uma corrente amarrada
Ao objeto e um trator.
O trator patinou,
Resvalou para trás
E quase caiu na água,
Mas, teve forças suficientes
E puxou o objeto.
Retirado nas margens,
Viram que o objeto
Parecia uma caixa,
Ou uma espécie de caixão
Pontiagudo.
Todos se alarmaram,
Será que se tratava de
Um extraterrestre?
Com muito cuidado,
Uma equipe de médicos
Começou analisar
Com estetoscópio o redor
Do objeto para ver
Se se tratava de uma máquina
De viajar no espaço
Ou no tempo.
Parecia de ferro,
Porém, na primeira limpeza
Viu-se que era feita
Do mais puro ouro,
Foram necessários muitos
Baldes de água
Puxados do rio
E muito sabão e esponja
Para ver que realmente
Era ouro puro.
Aberto o champanhe
Para comemorar,
E acendido uma fogueira
Para fazer um churrasco,
A turma composta
Por 4 médicos e a esposa de um
E também uma secretária,
Reiniciou o processo.
Vendo que havia uma espécie
De abertura,
Foi usado um pé de cabra
E aberto o objeto,
Dentro havia outro objeto
Do mesmo molde,
Contudo de pedra preciosa,
E dentro da pedra havia um homem.
Quem se preocuparia
Em lapidar uma pedra
Para por um homem dentro?
Seria este homem uma maldição?
Ou seria um terrível criminoso
Que recebeu está pena pública?
Bem, depois de comer o churrasco,
Foi decidido deixar o objeto
Em exposição na praça pública,
Pois viu-se óbvio se tratar
De um ladrão,
Afinal ele estava trajado
No mais puro ouro
E adornado por estranhos
Objetos de pedras preciosas.
Na luz do sol,
Aquele diamante brilhava tanto
Que doía os olhares
Dos passantes,
Logo, a curiosidade da cidade
Despertou e eles passaram
A chegar perto da espécie de sepulcro.
No primeiro instante,
Um grupo ateou fogo
No sepulcro,
E a pedra suou como se chorasse,
No segundo picharam
O rosto do indivíduo
Que tinha uma coroa na cabeça
E eles desenharam cabelos
No lugar,
E um sorriso aberto
Cheio de dentes amarelos.
Tomara pela tristeza,
A esposa do doutor Roultin
Decidiu abrir o sepulcro,
E o objeto foi posto no
Chão da praça
E então aberto com
Um facão e um pé de cabra.
De repente,
Ficou mais nítida
A criatura lá de dentro
E o homem parecia estranhamente vivo.
A moça insegura por sua atitude,
Debruçou-se sobre o caixão,
E apertando seu peito,
Fez respiração boca a boca,
E assim que olhou
Para o rosto da múmia,
Ela abriu os braços
E suas ataduras foram se rasgando
E o homem estava vivo!
A data do sepulcro dizia
Se tratar de 4 mil anos,
Isto era impossível,
Havia a data de nascimento
E de morte,
Ele contava com setecentos
Anos de idade ao desfalecer,
Otramentiron,
Era rei naquelas terras do Nilo.
Irredutível, a esposa
Do doutor Roultin
O levou para casa
E também sua sepultura,
Que valia muito dinheiro.
A família deste rei,
Havia há muito falecido,
E o rio,
Numa cheia encheu tanto
Que suas margens carregaram
Desde o castelo
Até os sepulcros do cemitério,
Restando ele,
Solitário e abandonado
Naquele local.
Foram feitas buscas
E nenhum registro de
Sua família foi encontrado,
Era como se ele fosse
Uma mentira,
Ou uma miragem,
De tão lindo,
Parecia que se fechasse
Os olhos ele desapareceria,
Porém, ele era real,
Falava e vivia normalmente.
Só lhe faltou
Há 4 mil anos o ar,
E agora, aberto seu jazigo,
Também recebeu ar,
Reviveu,
Tem nova chance
De viver tudo que perdeu.
Não é mais rei
Nestas terras desconhecidas,
Ele foi levado ao Paraguai
Pelo doutor que o encontrou,
Seu reino foi levado
Pela água
E o destino o guiou
Para ainda mais distante.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Por entre ruas

O sol baixava sereno
Sob uma neblina
Que pouco a pouco
Escondia a cidade,
Pessoas se postavam
Nas ruas a reparar vitrines,
Montar em seus cavalos
Ou subir em suas charretes.
A cidade seguia rumo
Ao alto,
Cada vez mais para cima
Dos céus,
Quase indiferente a tantas pessoas
Que viviam escoradas
Nas calçadas feitas de pedra
E gramado.
Alguns se encostavam
Próximos a mercados,
Ou padarias e ali permaneciam
Com suas mãos estendidas
Pedindo comida e água .
Não tinham roupas,
Casa ou comida,
Viviam a esmo
A espera de um alguém
Que os conduzisse para fora
Dos olhos dos cidadãos,
Até bem distantes
Onde não fossem vistos.
Os cães policiais
Logo que os viam
Seguiram completas ordens
De latirem contra eles
E os retirarem dali
A mordidas se fosse necessário,
Enquanto os policiais
Retiravam uma madeira
De entre seus jaleco
E desferiam pauladas nestas pessoas
Que seguiam para o mais
Distante que fosse possível
Pingando sangue,
Refugiados na densa neblina
Que cobria a cidade.
Os prédios de madeira
Pareciam escorar-se
Uns nos outros,
Erguidos aos montes
Rumo ao céu
Guardando sempre
Mais pessoas.
Com sua argamassa
Se desprendendo sobre
A cabeça das pessoas,
Despencando do alto
Para as ruas
Junto ao xixi dos penicos
E cocô.
Quem habitava aqueles
Prédios se sentia dono,
E quem era dono gostava disso.
Algumas roupas eram jogadas
Daquelas altas janelas
E rapidamente eram recolhidas
Pelos moradores dos próprios prédios.
Que, vendo-as cair do alto,
Corriam ao alvoroço em busca
De velhos trapos
A brigarem com os mendigos,
Puxando das mãos deles
Para apropriar-se.
Por fim, estapeavam o rosto
Dos mendigos e chamavam
A polícia para renová-los
Do local.
Os degraus disformes dos prédios
Tinham grandes histórias
Sobre isso.
Do alto da janela,
Um senhor retirou o rosto
Que tinha encostado
No vidro depressa,
Ele viu mais do que podia
E agora sentia medo,
Por algum tempo
Teria que evitar sair de dentro
De casa,
Seja para comprar comida
Ou qualquer outra necessidade.
De longe,
Um jovem gritou
Quando teve sua corrente
Removida com ódio
De seu pescoço,
Por outro jovem.
Logo a frente um policial
Sorriu quando,
Removeu a corrente do bolso
Deste jovem
E a colocou no próprio pescoço,
Depois, usou seu cacetete
De madeira e bateu
Muito neste jovem
Gritando as palavras:
Ladrão, ladrãozinho, ladrão.
Então, depois de deixá-lo
Desacordado e escorrendo
Muito sangue,
O policial o puxou pelo casaco
E o jogou numa vala
Onde se jogava vidros quebrados
E outros objetos
Que estavam velhos demais
Para o uso.
A vala era feita de terra
E era muito funda,
E lá foi jogado o jovem aos prantos,
O outro, ao ver o policial correu,
O policial, depois de jogar
O jovem na vala,
Correu atrás dele
Mas não pode alcança-lo.
Certamente, aquele rapaz
Escondeu-se e também,
Passaria muito tempo
Sem regressar a cidade,
Ou vendo a jóia com o policial
Teria de calar-se.
No terceiro dia
De cortinas caídas
Em frente a janela,
E elas devidamente fechadas,
O jovem reapareceu,
O policial sorriu ao longe
E apitou alto,
Erguendo a mão em direção a ele.
Ele, no entanto, retirou seu casaco,
O cinto e o sapato
E entregou ao policial
De bom grado,
Depois pediu perdão
E se retirou para algum lugar
Onde ele resida
Que não parece ser num
Dos andares dos prédios.
Que, de instante a instante,
Parecem sorrir de perder
Os dentes conforme
Uma argamassa se desprenda
E caia sobre quem passa.
Então, a multidão inicia seu dia,
Sai de suas casas
E caminha pela cidade
Até comfundirem-se,
E ninguém nunca está sozinho,
E estando sempre com alguém 
Ninguém nunca tem
Alguém em que confie,
Assim são as ruas
Aonde o maquinário chegou,
Trouxe grandes estradas
E prédios que sobem
Para o céu,
Trouxe emprego,
E fez o dinheiro custar
Muito caro.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Juntos até o fim...

Oh, aquela linda potria,
Nascida no instante da morte
Da égua estimada,
Digo estimada porque
Levou com ela meu esposo
Para o túmulo.
Porém, cresce linda e arredia,
E sempre que estou
No aras,
Assim que ergo meu pé
Sobre a tábua
Que rodeia aquele aras
Ela tende a se aproximar
Sorrateira,
E bem próxima de mim,
Muito próxima
Suspira quente
Contra meu rosto.
Eu arfo de medo,
Olho para ela
E seus olhos
Estão arregalados de pavor
De encontro as meus
Sem piscar.
A danada parece falar,
Tem instantes que conta,
Ela inicia seu trote
Como se fosse mansa,
Olha para eu a distância
E empina as patas dianteiras
Ao seu e relincha,
Então, chacoalha suas patas
Como se cavalgadas rumo
Ao horizonte e parece apontar
Aos céus.
-O que busca?
Eu lhe indago,
Pulo a cerca de tábuas escuras,
E pego meu chicote
Corto chão de areia
Com chicotadas estalantes,
Então, ela se vira e me encara.
Seria,
Com seus longos cílios,
Outro dia me trouxe um cinto,
De alguma forma
Encontrou o cinto do falecido
E ousou carrega-lo
Até eu.
Me surpreendi demais,
Cai para trás de espanto,
Juntei o laço
Que estava ao lado
Da minha cintura
E estalei em seu lombo:
-maldita.
Gritei.
- criatura do demônio.
Falei.
E ela correu veloz.
Mais tarde depois disso,
Escapou,
Ousou meter-se por entre
As tábuas e fugiu
Por seus espaços,
Não tardei a encontrá-la,
Estava deitada por entre
As flores.
De súbito pedi a ela:
- o que você busca?
Ela juntou entre os dentes
Um maço de flores
E foi até a frente do galpão,
Com aquilo na boca
Então, o soltou em frente
Ao nome do Aras.
Que sabe-se
Possui o nome do falecido,
De imediato entrei
Num rompante de loucura,
Juntei um canivete
E levei um corte
Até seu pescoço.
A maldita correu
Escorrendo sangue:
- você em pacto com o diabo!
Eu gritei atrás dela,
Mas, ela foi mais rápida,
Muito mais.
Nisso, bastante mais tarde,
Dois vizinhos me ligaram
Contando aonde ela estava,
Pois saiba,
Estava no cemitério,
E lá pastava como se fosse
Sua casa.
Os pais do meu esposo
A encontraram e a levaram
Com eles,
Vieram apenas para me dizer,
Os recebi sem saber,
Com o chicote em punho,
O chapéu a esconder meu olhar
E o canivete reluzindo
Entre os dedos.
Os malditos a quiseram
Para ambos,
Disseram que acreditam
Ver o falecido nos olhos dela.
- ora, é isso o que
Eu odeio nela!
Respondi.
Eles enfaixaram o bicho
E a levaram com ele,
Salvou-se,
Porém, meu sono
Não prevalece,
A cada instante
Pareço vê-la
Relinchando embaixo
Da minha janela
Colhendo flores.
Então, eu a xingo
E ela cavalga arredia
Até o cemitério,
Maldita,
Parece falar,
Contar o que fiz.
Então, uma sombra
Chega no aras
E um vento quente
Faz levantar a areia,
De imediato,
Preciso fechar a janela,
É como se fosse um recado
De que o espírito do falecido
Perambula por estas terras
E me quer.

domingo, 19 de abril de 2026

Assassinato no Aras

Devo então, confessar
Que ansiava com torturosa
Espera e amargor
A morte de meu esposo.

Sim, odiei cada dia,
Depois cada hora,
E então, cada segundo
Ao seu lado,
Eu o olhava
E só deseja mata-lo.

Cada beijo era feito
Uma facada em meu peito,
Doía e causava nojo,
Cada abraço
Tinha efeito de algemas
Prendia e feria
Por me manter amarrada
A ele.

O dormir estendia as horas
Feito um tapete
Que quanto mais se limpa
Mais gruda sujeira,
Pêlos, poeira e desafetos.

Olhar para aquele tapete
Onde seus pés repousavam
Me causava ódio,
Quando percebi
Me vi colocando fogo nele.

Foi simples e irresistível,
Acendi o fogo na lareira,
O trouxe perto
E num deslize derrubei
O tronco com fogo nele.

Sentada ao seu lado
Tardei ver o fogo consumir
Seus desenhos e sinais
Daqueles malditos pés
Que mesmo não estando ali
Pareciam desenhados
Naquele objeto de escárnio.

Bem, presenteei meu esposo
Com um cavalo arredio,
Coloquei a cela
E sobre a cela uma parte
Que restou do maldito tapete.

E o disse:
Amor, suba e cavalgue
É seu presente!

Grudei um sorriso falso
Em meu rosto
Que tão logo ele subiu
Tornou-se gargalhada.

O indivíduo caiu.

Assim que ele sentou
Na cela o cavalo correu,
Pinoteou e ergueu-se
Para o céu.

O odiei,
Parecia querer contar
Ao meu esposo
Os meus planos,
Maldito,
Sobreviveu pouco,
Mas, não valeu tanto tempo.

Correu para diante
De um obstáculo,
Pulou sobre ele
E caiu sobre seu próprio pescoço,
Com o corpo a esmagar
Meu marido.

Eu esperei,
Fui a passos lentos até ambos,
E lá os vi
A tremer seus últimos suspiros,
A gemer suas angústias,
A implorar por mais
Um pouquinho de ar.

Beijei sua testa ensanguentada,
Eu precisava ouvi-lo
Implorar por um pouco
Mais de vida,
"Querida, estou morrendo
E apesar de tudo,
Nunca fui mais feliz
Que nos dias que vivemos juntos."

Ele disse,
Em palavras pausadas
E lentas,
Num esforço desmedido,
Eu suspirei de ansiedade,
Não o queria perto
E ele esforçava-se muito
Para manter-se.

"Andisa!"
Ele dizia,
E não parava de chamar
Meu nome,
Parecia não me ver ali
A olha-lo com desdém,
Sem poder disfarçar
Meu desprezo.

Ele insistiu
Diversas vezes
Chamando meu nome.
Maldito!

"Repito!
Estou morrendo,
E a amo!"
Eu suspirei de ódio,
Arfei pesadamente
Sobre seu rosto
Comprimido no chão
De areia e terra,
Vendo sua face sangrar
E a dor percorrer seu rosto
Extraindo os resquícios
De beleza que ele possuía.

"Andisa,
Como a amo,
Temo deixá-la!"

Maldito,
Disse isso tantas vezes,
Com esforço profundo,
Até diminuir o tom
E não ser mais que sussurros,
De repente, então, calou-se
E foi.

Eu levantei dali,
Cansei de olha-lo,
Pedi ajuda sobre o acidente.

Mesmo morto o bicho
Me trouxe um cavalo.

O bicho cresce no estábulo
Feito erva daninha
No gramado,
Eu perco algumas horas
A contempla-lo.

Ele pasta e me olha arredio,
Sabe sobre o que fiz,
E não esconde,
Por vezes, o amo,
Em outras planejo seu fim.

Quando chego perto
Ele foge,
Quando levo água
No balde ele bebe
Cada gole sem retirar
O olhar dos meus olhos,
Estremece de medo,
Tem espasmos de terror,
Então, ele fica no gramado,
E eu me permito olha-lo.

Majed

Logo que vi Majed,
Todo o redor perdeu o foco,
Restou-me nós,
Sentados em uma banco
De madeira
Olhando o rio a nossa frente.

Ele tem algo de inteligente,
Posso assumir que me surpreende,
Porém, não sei mencionar
Qual o teor de nosso diálogo,
Tudo o mais se perdeu
No instante
Em que o olhei nos olhos
E ele pegou minha mão,
Quando meu braço
Que me apoiava no encosto
Do banco resvalou para trás,
E eu caí junto
Ferindo minha coluna
E mais ainda o braço
Que ficou com escoriações.

De imediato,
Ele jogou seu braço
Atrás do meu
E o segurou,
Depois puxou minha mão
Para sobre a sua perna
E a acariciou.

Seus dedos eram longos
E extraordinariamente quentes,
Eu gelei de dor e vergonha,
Porém, quando ele falou algo
Próximo ao meu ouvido
Em sussurros educados
Eu esqueci o significado
Das palavras
E cada frase que ele disse
Me convidou a beija-lo.

Não resisti,
Não foi possível,
Joguei meus braços
Para seu ombro
E mantive seu rosto
Entre minhas mãos
E o beijei.

Esqueci tudo o mais,
Apenas aproveitei seus lábios
Que são ainda mais quentes
Que seus dedos,
E senti sua pulsação
Entre minhas mãos.

A vida pulsava tão intensa
Em nossas mãos,
O futuro se estendia
Naquele beijo,
Era como se minha alma
Tivesse se materializado
Naquele homem
E meu destino
Fosse ele.

Nada importou-me,
Nada poderia me ferir,
Éramos eu e ele.

Para Sempre

Aquele que amo,
Em si mesmo,
Por si mesmo,
Até o infinito
Sempre único,
Sempre indivisível,
Amo é simples.

Tive por aquele desconhecido
Amor irresistível,
De maneira repentina
E inevitável,
Eu demorei declarar afeto,
Ele caía em juras apaixonadas
Debruçado a minha janela
Sempre a esperar
Eu colher as lindas flores
Que renasciam a cada alvorecer.

Desde o primeiro olhar
Minha alma queimou
Em fogo ardente e surpreende,
Derreti-me em sentimentos
Até então desconhecidos
Mas que apenas ao pé do altar
Eu defini amor,
Antes disso,
Chamei desejo,
Glorioso afeto
E até remorso.

Ah, este que amo
Fiz sofrer,
Fiz chorar,
Fiz arder.

O amor não é coisa
A ser declarada de imediato,
Não,
Disse a ele:
Querido,
O amor se conquista!

E ele pôs-se a buscar
Formas de declarar-se,
E eu sempre a esguelha,
Resisti, Deus o sabe!

Não que minha alma
Fosse repleta de amargura,
Mas, anteriormente
Do amor conheci o tormento,
E naquele instante
Apenas pus em dúvida
Tanta certeza
E desvairado sentimento,
Indaguei-me:
Ora, por que derramar-se
Deste jeito?

E coloquei em mim limites.

Quis o destino
Nos levar ao altar,
Sem que eu jamais
Tivesse aceitado
O quanto o amava
Nem pra mim mesma
Ou pra outro.

Foi amor antes de ser,
E sabiam todos os presentes
Seria amor para sempre!

Destino à ROCAM