Era tarde da noite
Me decidi por comer
Bifes acebolados,
Retirei a carne
Da geladeira
Cortei em fatias,
Coloquei num recipiente
De vidro
E no lado eu cortei
Cebolas, alho, pimentão ,
Tomates e salsinha,
Coloquei tudo num prato.
Depois disso,
Eu retirei o pão,
Cortei a salada,
Temperei com vinagre
E sal
E por fim
Peguei a frigideira
E coloquei cordura,
Então, a coloquei
Sobre o fogão.
Deixei tudo na cozinha
Aquecendo,
Liguei a televisão
E o tempo passou,
O filme estava bom
Eu quis acompanhar
O roteiro.
Então, uma fumaça
Adentrou na sala
E eu pensei
Devo estar dormindo
É sonho.
Nisto comecei
A me sentir afogada,
Toda a casa estava
Em neblina,
Tudo começou a ficar
Borrado
Como se fosse envolto
Por uma nuvem
Que tragava tudo,
Inclusive meu ar,
Eu pensei que sonho
É este?
Então, uma motocicleta
Entrou na sala
Com pneus sujos
De lama recém molhada
Pela chuva,
Eu pensei que estranho
Não está chovendo...
E sobre a motocicleta
Meu irmão buzinou,
Retirou o capacete
E pude ver seu lindo
Rosto me sorrindo,
Seus braços abrindo
Para um abraço,
Meu coração pulsou forte
Como uma bola
Correndo até ele.
Eu me levantei
Quase sem fôlego
Fui até ele e o abracei
Sem ele descer da motocicleta.
Abracei forte
E pude sentir meu último
Suspiro se derreter
De saudade
E minha respiração
Ficou lenta,
Depois se dificultou mais.
E ele estava quente,
Seu coração batia
Contra meu peito,
Meu coração bateu
Tão forte de saudade...
Não queria soltar
O abraço
Mas minhas pernas ficaram
Fracas e o pulmão falhava,
Eu pensei Deus o que há?
Ele disse, Mirtes vá até
A cozinha e apague o fogo,
Vai queimar sua casa.
Eu pensei o quê?
Queimar minha casa?
Mas eu não teria onde morar
E precisava que meu
Irmão soubesse
Do meu paradeiro
Caso me buscasse
E precisava ter um lugar
Para ficar.
A passos fracos
Me joguei naquela fumaça
Escura e fedorenta,
Chegando lá
O fogo crescia sobre a frigideira
E tocava o teto
Queimando as ripas
Do foro.
Eu senti medo,
O fogo tocava meu corpo,
Ele pulava da frigideira
E consumia a sua volta,
A respiração foi ficando
Mais fraca,
O coração parecia
Nem pulsar,
Senti como se ele estivesse
Na sala com meu irmão.
As chamas chamuscavam
Meu corpo,
Então, eu peguei
Uma vasilha com água
E joguei sobre a frigideira
E ela não apagou,
Pelo contrário,
O fogo cresceu
E ganhou proporções,
Não pode jogar água
Sobre a frigideira em chamas,
A água faz com que o óleo
Fique sobre ela e continue
A queimar,
Então, entre o desespero,
Eu peguei a frigideira
Corri para a sala
E a joguei lá na rua
Por sobre a grade
Da área,
Depois voltei,
Peguei toalhas
E as molhei,
Depois bati contra as chamas
Do foro até apagar.
A dor era lancinante,
Me senti consumir
Por aquelas labaredas
Que subiram por meus braços
E queimaram meus pelos,
Fazendo emergir bolhas
Sobre a minha pele.
Nisto,
Corri até às janelas
E abriu elas para permitir
A entrada de ar
Para sair aquele cheiro
Insuportável de óleo queimado,
Misturado a pelos,
Pele e dor.
Depois corri
Para a área aberta de casa,
Vi meu irmão seguir
Seu destino
Sobre sua motocicleta,
Passando pelo portão
Sem precisar levanta-lo,
Feito um fantasma
Rumo a algum lugar,
Distante de mim
Conforme a morte desejou
Assim que retirou ele
De nós.
O vi seguir de capacete
Na cabeça,
Vestido todo de couro
Escuro acelerando
Levemente a motocicleta
Sem pressa.
Me joguei contra
O portão
Para tentar alcançar...
E fiquei lá escorada
Aos prantos,
Ele se foi,
Eu estava a salvo.
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