O inferno é logo ali,
Naquele ponto
Onde vive-se
Sem motivo para viver,
Se caminha a esmo,
Sem objetivos.
Vez que ocorreu
Na vizinhança
De Romero por a venda
Duas vacas de leite,
Meu pai as comprou,
O preço estava em conta,
As vacas eram boas,
Uma estava grávida.
Não foi a sorte
Que o guiou a isto,
Nem falta de amor
Por nossa família.
Logo a tarde,
Fomos tirar o leite
Das vaquinhas,
Estava perfeitamente bom
A primeira vista.
Foi feito polenta,
E comido com leite,
Foi feito com o que sobrou
O queijo,
E com o tempo
Todos nós adoecemos,
Isto mesmo,
Caímos enfermos
Na cama.
Não tardou
Surgir o boato
De quê as vacas
Eram doentes,
Isto mesmo,
Possuíam doença mortal,
E ao consumir o leite
Assinamos o termo final
De nossas vidas,
Todas as cinco vidas
Da nossa casa.
No primeiro instante,
Nos despedimos
De dois cães de estimação,
Ambos se deitaram lado
A lado logo depois
De tomar o leite
E não amanheceram,
Agora, estávamos nós
Os cinco presos a uma cama
De hospital
Com exames sendo
Providenciados
E a vida por um fio
De sorte que se esvaia
Pelo rosto da minha mãe
Em lágrimas
Que ninguém pode secar.
Ela uniu as cinco camas
Do hospital e nos fez
Dar as mãos,
Nos unimos
E rezamos pedimos por nós.
No transcorrer
De poucos dias
Perdemos peso,
Perdemos a fome
E nossas vidas se esvaiam
De nossas veias
Como uma doação de sangue,
Que vai sem voltar.
Numa manhã
Acordamos com nosso pai
Beijando nossas testas
De uma a uma,
Ele tardou na de nossa mãe,
Então, foi até a janela
Abriu a cortina
Permitiu que o sol entrasse
E depois caiu,
Não acordou.
Adoecidos demais,
Eu minha mãe e
Meus dois irmãos
Não podemos participar
Do velório
Dissemos adeus
De alguma maneira
Sem se despedir,
Ele foi,
Simplesmente foi
Carregado por dois homens,
Ele foi e não voltou.
A noite minha mãe
Passou mal,
Haviam poças de lágrimas
Debaixo de sua cama,
Os travesseiros ensopavam
Eram trocados
E voltavam a ser banhados
Por sua dor.
E medo,
Ela nos abraçou apertado,
Chorando sua dor,
Rezou e implorou por
Nossas vidas.
A noite ela gemeu
A noite inteira
Não parecia dormir,
Aí recebeu a visita
De nosso pai,
Ele voltou,
Nem bem tinha ido,
Retornou.
Ele fez um chá quente
E nós serviu,
Eu senti o gosto,
Meu irmão sentiu,
Minha mãe e o Daguinho
Sentiram.
O chá entrou em nosso pulmão
E fez calor,
A tosse chegou
E logo foi,
O ar preencheu uma dor
Profunda em nós,
O coração acelerou,
Bateu descompassado,
Choramos abraçados,
Depois disso ele acabou
Seu adeus e saiu pela janela.
Acordamos,
Estávamos um abraçado
No outro chorando,
Um choro quente e
Cheio de vida,
Melhoramos,
Saímos do hospital
E fomos pra casa,
As flores estavam murchas
Na lápide de papai,
Ainda tinham cheiro
De dor e lágrimas,
Mamãe levou mais
Algumas para ele,
Nós ficamos no carro
Olhando ela se despedir.
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