segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Condenada

Eu a encontrei no
Início do porão,
A escada estava
Em chamas,
Seu rosto reluzia
Por entre o fogo.
Eu soube dela,
Eu logo soube,
Por algum instinto de amor,
Somos gêmeas,
Algo nisso me guiou
Para ela,
Tarde,
Muito tarde.
Confesso,
Que olhando de fora,
Eu não tinha porque
Estar lá,
Entrar,
Ou saber aonde ir,
Mas sou e fui,
E a encontrei,
Lá embaixo no porão
Em chamas,
A minha irmã.
Suas mãos se ergueram
Para eu e pulavam
Para cima,
As chamas bruxuleavam
Pela parede chamuscada,
Eu me deitei sobre o piso,
Estendi minhas mãos,
De alguma forma,
Eu soube,
Não poderia ajudar.
O fogo consumia tudo,
Menos ela,
Queimava meu corpo,
Ardia minha pele,
E lá embaixo
Estava ela,
Ela chorava sobre aquele
Rosto escuro de carvão,
As Lágrimas limpavam
O rosto para logo depois secarem,
Eu acho que sua dor não
Caia no chão.
O fogo chegava aos seus pés
E subia,
Ela se debatia e pulava,
Eu estava me afogando
Na fumaça,
Eu chorava sobre ela,
Eu desejei apagar o fogo,
Eu desejei trazê-la,
Eu sentia dor extrema,
Eu desejei a dor dela,
Mas, como uma irmã
Protege a outra,
Eu não me vi queimar,
Não me senti arder,
Mas, de repente,
As chamas ganharam
Sua face,
E o rosa dela todo desapareceu
Para o escuro e amarelo,
Chamas grudaram nela
Como se ela fosse
De papel,
Eu disse:
:Danny, Danny, Danny.
Ela abriu os olhos
Dentro do fogo,
Pulou outra vez,
Acometida por uma força
Que eu não sei a quem
Pertencia,
Dentro de seus olhos
Eu pude imaginar
Nossos pais a chorar,
Eu a ter pesadelos
Durante a noite
E não tê-la para me acordar.
Eu vi a dor,
Eu senti o choro,
Eu ouvi... Gritos?
Sim.
Ela gritou,
Berrou e uivou de dor.
Seu cabelo foi sendo
Consumido pelo fogo
E suas pequenas mãos
Batiam contra si própria
Tentando salvar-se,
“Não me deixe, Danny”.
Eu disse em último fôlego.
Eu não tinha como
Alcança-la,
Eu fui obrigada a deixar
Minha irmã queimar,
Minhas lágrimas não
Foram suficientes para apagar,
Minha dor não foi capaz de afugentar
O fogo que só cresceu,
E fez ceder alicerces
Sobre o porão da casa,
E fez ceder parte do telhado,
Algumas telhas caíram
Sobre minhas pernas,
Eu as puxei para meu corpo
E chamei:
“Danny, eu preciso de você”.
Não nos alcançamos,
Minhas mãos começaram
A queimar,
Meus pelos se derretiam,
Ela não queria morrer,
Mas a morte a levou,
E queimou, também,
Parte minha...
Eu baixei meu rosto
Sobre os braços e chorei,
Me sentia queimar e arder,
Então, levantei o rosto
Para o telhado até ruia,
E me joguei para o fogo
Num mergulho em que
Me segurei pelas pernas
No soalho até cedia,
 Lá embaixo alcancei ela,
Ouvi seu choro de criança,
A puxei em chamas
Para o céu,
“Vou com você, Danny”
Eu disse.
E agarrei sua cintura,
Depois me puxei,
E puxei ela para fora,
O fogo nos queimava,
Então, tirei minha camiseta
E esfreguei nela para tirar o fogo,
E o fogo cedeu,
Nós saímos para fora da casa,
Que logo foi consumida inteira
Pelas chamas
Que vieram nos buscar,
Mas, eu fui mais rápida,
E salvei minha irmã gêmea,
Parte de mim,
Minha vida,
Estamos vivas e queimadas
E ardendo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um Princípe