Cai o verbo na cidade,
Hoje as luzes
Não dormem,
As frases saem
E lágrimas caem
Ou cairiam se assim o fosse.
Contudo, a água doce
Da farda daquele
Que trabalha
Não é vista,
Nem comentada,
Exceto nestes casos.
Há de se imaginar,
Talvez, ganhei nota
Nos jornais,
Uma oração silenciosa
Sobe
Mas é incapaz de buscar
Aquele que foi antes.
Um agradecimento
Feito por poucos
Ou muitos,
Tardio,
Que não será ouvido,
Mas é feito
E lançado aos céus.
Duas garotas
Foram nadar no rio,
Ambas não sabiam nadar,
A embarcação que usavam
Virou,
Nenhuma sabia remar,
Ambas, abraçadas
Sucumbiram nestas águas
E não tiveram forças
Para retornar.
Um gole de água doce
Sacia até a alma,
Mais que isso,
Contudo,
Afunda e segura,
Até que não reste,
Até que não haja
A ... Vida!
A polícia foi acionada,
Tarde,
Já passou do horário
De retorno
E as meninas não voltaram
Conforme combinado.
Mas, a mãe ansiosa
E assustada soube retratar
O local aproximado
Aonde teriam ido,
E vizinhos próximos
Informaram que estariam ali.
Iniciaram as buscas,
Homens nadaram,
Foram ao fundo,
Voltaram,
Estava difícil encontrar,
Achar a embarcação
Não foi útil,
Contudo, não muito
Mais tarde,
Acharam-se as garotas.
Abraçadas
Lá no fundo,
Pareciam beijar-se,
Implorar por socorro,
Comunicar-se
Numa linguagem
Que apenas os
Que estão a beira
Da morte saberiam
Interpretar,
A linguagem
Dos que estão partindo
E não sabem escapar.
Os corpos foram retirados,
Colocados na própria
Embarcação e puxados
Para fora da água,
Um helicóptero prestou
Auxílio,
Uma corda foi amarrada
A embarcação
E um homem se certificou
De que a embarcação
Partisse segura.
Estes corpos
Sem vida,
Sem fala
Chegariam
Até suas famílias,
Seus rostos seriam identificados,
Duas famílias
Chorariam sabendo
Aonde suas filhas amadas
Estariam,
Mortas.
No instante em que
Ele subiu na corda,
Com a embarcação
Amarrada no final,
Ele pode reconhecer
Os rostos,
Identifica-los,
Sim,
Tratava-se da mulher
Que amava,
A autora de seus sonhos
De amor,
A garota com quem sonhava.
Num lapso de dor,
Ele soltou-se,
Lá do céu,
Deixou-se cair,
Esmorecido caiu
Inerte no chão
De sua dor,
O maldito chão
Que a levou,
O doentio chão
Que o impediu
De ama-la,
Cuidar dela.
Sua função de policial
Não foi suficiente
Para que ele pudesse
Guarda-la,
Resguarda-la de sofrer,
Impedi-la de morrer.
Ele não seria encontrado,
Este guerreiro trabalhador
Partiu no tormento de sua dor,
Seu treinamento não o salvou,
Uma terceira família
Choraria,
Se sabendo de sua dor,
Por ver em sua chegada
O pranto sofrido
Escondido em seu olhar,
Um galho não tivesse
Esmorecido,
Chacoalhando por amor.
A dor pela morte
É sentida mesmo antes
De saber-se reconhecer
O rosto desfalecido,
Antes ainda de ver
As lágrimas de um velório,
Antes ainda disso tudo,
Aquele guerreiro
Marchou morto.
Mas Deus soube
Salva-lo,
E um galho o manteve,
Inerte,
A chorar a dor
Destes que sofrem
Na primeira ligação,
No primeiro instante de trabalho
Eles sofrem,
Marcham com sofrimento
Estampado,
Numa dor que precisam guardar,
Uma dor que não lhe
É permitida falar,
Mas, os pais sabedores
Do que se passa
No coração de seus filhos
Se ajoelham antes,
Antes de a ligação chegar
E a ocorrência for designada
Os pais estão de mais dadas,
E este filho retorna.
Dutra foi encontrado
Com vida,
Embora desorientado,
Ele foi identificado
Em razão de ter este nome
Escrito na farda,
Foi localizado por cães
Que latiam sem parar
Naquela direção.
A polícia já estava
Em sua busca,
No cair da noite,
No instante
Em que o sereno chora,
E molha um rosto,
Faz sangrar três famílias,
Ele foi encontrado
E levado para atendimento
Emergencial de saúde.
Vivo,
Respirando com dificuldade,
Os pais já esperavam
Na porta do hospital,
Mãos dadas,
Com seus cabelos brancos
Denunciando a dor
Triste de quem quase perde
Mas recupera.
Seu primeiro ímpeto,
Foi apertar as mãos
De sua mãe,
Ele tentou falar,
Foi em vão,
Disse “Paloma?”
Ela não respondeu,
Paloma partiu antes
E não poderia voltar,
Estavam ali
Apenas seus pais,
Foi o que lhe restou.
Contudo,
Quando dois caixões
Desceram naquele chão de terra,
Dutra não havia
Se recuperado,
Nem pode participar,
As luzes piscaram
Na cidade inteira,
O equipamento de respiração
Do hospital parou de funcionar,
E Dutra foi...
Por alguns segundos
Ver sua amada,
Entregar um último olhar,
Beijar uma flor
Em que repousaria
Em sua face,
Dois pais se postaram
De joelhos em prantos,
Abraçados
Segurando a mão do filho,
Dutra voltou,
Sua respiração repousou lenta
Sobre seu corpo,
Algo grande feito de amor
O salvou,
Um casal de joelhos
E mãos unidas
São capazes
De elevar uma oração
Ao céu,
E impedir de carregar,
Por uma vez,
Ao menos,
Impedir que os céus
Levem o filho querido,
Que foi incapaz
De lutar contra
A própria dor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário