segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Futuro Amor

Airton trabalhava
Para a empresa
Galinha, pintos e outros,
Iniciava cedo da manhã,
No entardecer fechava
O expediente.
O salário que ganhava
Era pouco,
Usava para pagar o aluguel
E vestir roupas bonitas
Para ser bem aceito
Entre os colegas de trabalho
E buscar um bom amor.
Não chegava a sexta-feira
E ele corria para o mercado
Comprar bebida alcoólica
E carne para fazer churrasco
Em algum lugar escondido
Com os amigos.
Da sexta ao domingo
A bebida corria solta
E a carne chiava na grelha,
Mas, viu nisto
A necessidade de comprar
Um carro,
Por está ideia largou tudo:
Aluguel, roupas e o amor.
Menos a bebida
E os amigos,
Isto jamais poderia
Abandonar,
Os risos soltos,
As piadas bobas,
As horas a voar...
Comprado o carro
Se viu nas nuvens,
Agora ele deixou
De ser o caroneiro,
Ia aonde queria,
Dirigia como podia,
Marcava o chão a pneus,
Deixava suas marcas
Naquele asfalto travesso
Que tanto o viu caminhar,
Gastar a sola dos sapatos,
Agora sentia na pele
A face de seus pneus,
Com o motor a roncar
Suas gargalhadas,
Partiu sem deixar pistas,
Fez as curvas parecerem
Linhas retas,
Rompeu sinais de pare,
Quebrou a placa
Do ‘va devagar’
Atropelou algumas crianças
Que saiam correndo da escola
Com suas mochilinhas infantis.
Ao levar a primeira reprimenda
Da criança e ser escoiceado
Por outra, fugiu,
Fazendo fumaça atrás de si.
No caminho,
Rápido feito uma águia,
Vendo um carro
Não diminuiu,
Nem fez sinal de alerta,
Porém, não decolou voo,
Bateu de frente
No danado do outro veículo.
Com o carro destruído,
Mais as parcelas a pagar,
O emprego abandonado,
O aluguel já em atraso,
Encontrou a casa de um amigo,
Um antigo professor da língua portuguesa.
Lá foi se achegar com ele,
Bem recebido,
Soube da idade avançada
Do velho,
E a debilidade de seus movimentos,
Ele possuía uma única filha.
Gentilmente,
Pediu a Airton que ficasse,
Lhe fizesse companhia,
E ouvisse suas histórias,
Como maneira de preparar
Priscila para o fim inevitável:
Sua morte.
Triste,
Mas ciente de sua amabilidade
Como amigo do professor Cacildo,
Airton ficou.
Ao seu aproximar de Priscila,
Ouviu falar de uma máquina
Do tempo que o professor
Construiu em sua biblioteca,
Através dela,
Podia-se adiantar o tempo
E chegando lá
Enxergar como seria o futuro.
Contudo, estar lá dentro
Consumia as forças
E levava com aquela visita
Aos anos futuros,
Algum tempo de vida
De quem lá estivesse,
Mas valia a pena.
E isto foi feito,
De mãos dadas
Foram para trinta anos
A frente,
Viram a cidade avançar,
Os carros a passar,
Tudo corria dentro
Daquela máquina
E passava diante
De seus olhares,
Sair de lá,
Consumiu dois anos
De suas vidas.
Contudo,
Na atualidade nenhum dia
Se passou,
Foi inacreditável,
Mas, as marcas iam ficando
Visíveis.
Nisto, o professor Cacildo morreu.
Jovem, talvez,
Consumido pela máquina,
Com certeza,
Mas, até seu último suspiro
Ele jurou que valeu a pena,
E jamais se arrependeria.
Sozinha, Priscila
Fica enternecida entre
O amor de Airton,
E a máquina,
Afinal, quanto de dinheiro
O uso da máquina lhe traria,
E amar Airton
Não lhe apresentava nada.
Ele era um homem comum,
Bonito e educado,
Mas pobre.
Ela poderia abrir
As viagens ao público,
Vender olhares futurescos...
Airton se preocupou
Com ela,
Pediu que fechasse
A maquina e não usasse-a
Mais pelo bem de sua saúde,
Porém, Priscila
Sempre foi dona de si mesma
E não queria desistir
De seus hobbies
Por Airton,
Ele era simples demais,
Pobre e pouco inteligente.
Mandou-o embora,
Pediu que voltasse visita-la,
Mas que fosse,
Pois chegou sua hora.
Dois anos se passaram,
Airton quitou suas dívidas,
Voltou a trabalhar,
Mas, nunca esqueceu
Sua amizade com o já falecido
Professor Cacildo.
Ao voltar lá,
Ninguém veio atende-lo,
Se preocupando ele
Entrou na casa,
Não vendo ninguém
Invadiu a biblioteca
E encontrou Priscila
Dentro da máquina.
Com seu rosto enrugado,
Cabelo branco,
Debilitada pela ação do tempo,
Em dois anos se tornou idosa
Para quem a olha.
Não tinha forças
Para se mover,
Estava ajoelhada,
Vendo o futuro,
Feito uma boneca
Quase sem vida,
Foi-se seus vinte anos
E ela não viveu um
Único deles.
Nada dela
Se distinguia de uma velha.
Sonhador e apaixonado,
Ele beijou-a sôfrego
E enternecido.
Aceitou o destino
Que ela escolheu,
E amou-a do mesmo jeito,
Com um vagar de cílios
Típicos de uma velhinha,
Ela abriu os olhos
E piscou serena,
Sua visão estava turva,
Já não via como antes,
Mas soube reconhecer Airton,
O único homem que teve.
Embevecido pelo amor
De Priscila,
Airton deixou-se consumir
Pelo desejo,
E a abraçou como jamais faria,
Não se importou 
Com sua aparência,
Com os anos que lhe roubaram
Apenas desejou 
Aproveitar o máximo 
E se agora, aos vinte 
Sua aparência era de velhinha,
Ele a protegeria das doenças 
Relacionadas a idade,
Lhe daria amor
Que nunca teve,
E viveria casa segundo 
Ao seu lado
Como se estes segundos
Lhe trouxessem a vida
Que a máquina consumiu.
E ele só soube abraça-la.
Saíram de lá,
E puseram chaves
Na entrada da biblioteca.
Foi uma oportunidade única
Destas que só o amor alcança.

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